Convencer Hillary a falar com a mãe foi um pouco difícil e a falar o que aconteceu foi mais difícil ainda, mas dizer aquelas coisas pra mãe dela foi bem mais fácil do que eu imaginava.

Só estava com receio do que aconteceria agora mas sabia que aquilo era necessário e que eu iria fazer o que estivesse ao meu alcance para salvá-la. Eu não cometeria o mesmo erro outra vez.

***

— Eu estava em casa sozinha e não lembro pra onde vocês estavam. Deitei no sofá e comecei a ver tv e aí eu apaguei.

Hillary está olhando pra um ponto fixo na parede e eu sei que ela está revivendo a cena mais uma vez como já deve ter feito muitas outras.

— E então eu senti alguma coisa tocando a minha perna.

Ela para e respira fundo. Percebo sua mãe estremecer do meu lado.

— Eu pensei que era algum bichinho e estava num sono tão bom... _ ela fecha os olhos. _ Se pudesse nunca teria acordado. _ e engole em seco.

Enquanto ficamos esperando ela criar coragem pra terminar de falar apenas olhamos para o nada. Não sei o que sinto mas parece que o ódio que se apossou de mim lá fora está me invadindo de novo. Então ouvimos sua voz outra vez.

— Quando abri os olhos vi que era ele, o namorado da minha mãe, estava com as mãos nas minhas coxas e sorria pra mim. _ Hillary fala como se estivesse lendo uma bula de remédio, ela parece não estar aqui. _ Eu queria me mexer e gritar mas... não consegui. Meu corpo todo paralisou e eu queria que todo o resto paralisasse também. Mas não. Ele continuou e me tocou. E como eu não pude matar ele, preferi fazer isso comigo mesma.