Sou Mitonos, líder de uma tribo próspera que vive na parte mística do canyon. Nossa aldeia está em um terreno elevado que se ergue ao redor de um estreito rio que nos protege contra a Horda que povoa o outro lado da margem. Essa tribo de selvagens não despendem de misericórdia para com seus inimigos e os mata com grande ferocidade.

Do nosso lado, mantemos a segurança com um exército de guerreiros no qual delego o comando ao meu irmão do meio, Kraus. Sua prioridade é defender a única passagem que existe entre nós e invasores, uma ponte de cipós e madeira que muito provavelmente fora construída por nossos antepassados para explorar os limites de nossas fronteiras ou, quem sabe, fora construída por eles para chegaram até nossa terra atual.

Nossa verdadeira história começa quando Kraus, consumido pelo ciúmes, inveja e ganância decide aliar-se com o líder da horda inimiga, Messi, com a promessa de que ao entregar as defesas de nossa tribo teria a oportunidade de vencê-lo em uma batalha arranjada, na qual ele mostraria misericórdia a vida do oponente invasor e proporia que as tribos vivessem juntas, em harmonia. Assim, Kraus seria visto como herói por sua tribo ao vencer o combate e por isso seria nomeado novo líder em meu lugar e aos poucos Messi governaria ao seu lado.

Para entender a lógica da traição de meu irmão, é preciso entender que em nossos costumes os líderes são de uma linhagem de guerreiros e, para governar, é preciso ser desta linhagem real guerreira. Por termos exímia força e rápida regeneração prolongamos nossa vida por um triplo de vezes que o normal. A sucessão do trono cabe aos descendentes próximos do antigo líder após seu falecimento, seja de causa natural (o que é muito difícil), acidente (ainda mais improvável) ou assassinato pelas mãos de inimigos (possível), ou no caso que Kraus palenjou: ao vencer em combate algum inimigo que o atual líder não venceu. Por isso, para que Kraus pudesse liderar eu deveria morrer pelas mãos da líder da Horda e ele deveria vencê-lo em batalha para ganhar o direito de liderar nosso povo.

Parecia ser o plano perfeito se em minhas veias não corresse o sangue de um guerreiro determinado em proteger avidamente nossa terra e nosso povo.

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Não longe dali, mais ao norte de nossas fronteiras, crianças e jovens estudam e praticam o que chamamos de Jogos de Guerra, muito valorizado por nossa comunidade para formar o caráter de nossos fortes e leais guerreiros. Um desses jovens é nosso irmão mais novo Janos, que se empenha para ganhar as competições e fazer-se merecedor de fazer parte da família real que lidera a tribo, muito embora este guerreiro tenha aptidões melhores com as Artes e a Filosofia do que com instrumentos bélicos precisos.

Eu chego a notar que ele disfarça sua felicidade enquanto eu o observo com orgulho ganhar mais uma batalha dos Jogos de Guerra.

Como de costume, vamos praticando no meio do caminho de volta para casa seus movimentos e pensamentos. Cabe a mim ensinar a este jovem tudo o que ele deve saber para liderar o povo, quando sua hora chegar, diferente dos infortúnios que me levaram a ocupar esta posição tão jovem e inexperiente, mais novo do que ele se encontra agora.

Ele fala da curiosidade de sua mente em explorar novas regiões e culturas, do interesse pela nossa história e de suas estratégias para vencer o próximo combate nos Jogos de Guerra. De certa forma eu o admiro, pois para mim nunca coube almejar além do que era minha obrigação.

Particularmente, este dia tinha algo de especial. Era o dia em que meu filho nascera e parte do ritual de Introdução a Tribo, Janos sendo o descendente mais próximo dele seria seu mentor. Era também de meu interesse que este jovem diante de mim pudesse ser o melhor dos mentores que meu próprio filho pudesse ter. Talvez pelo entusiasmo deste evento é que despercebidamente nossas defesas eram superadas enquanto todos se preparavam para a grande festa de celebração.

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Algo me dizia que tinha algo de errado, pois Janos não veio a meu aposento obrigar-me a ensinar-lhe os macetes de guerra, como era usual a esta hora do dia. Ainda mais na véspera de sua última competição, para que fosse merecedor de título de mentor no ritual de Introdução de meu filho. Imaginei que tivesse se amarrado em uma das armadilhas que os demais aspirantes a guerreiros faziam, como parte do aprendizado de emboscadas. Isso também acontecia mais frequentemente do que o esperado para um príncipe guerreiro...

Percorrendo a densa floresta avistei Janos e me dirigi a ele. Conforme ia me aproximando dele, meus pelos ouriçavam-se pela nuca e eu sentia que estava me dirigindo a uma situação em que não soubesse de todos os fatos realmente.

Embora amarrado e amordaçado, e visivelmente amedrontado, Janos mantinha uma expressão de alerta e sobre aviso, como se quisesse me indicar onde havia algum perigo iminente. De certo, surge um guerreiro da Horda que trava comigo uma batalha de vida e morte, sendo vida para mim e morte para ele.

Enquanto corro de volta para nossa tribo com Jonas logo atrás de mim, os sons de uma batalha ecoam pelas estruturas naturais vindo de nossa aldeia e rebatem em meu coração angustiado.

Um, dois, três Hordeiros caem mortos aos meus pés. Neste momento, avisto Kraus lutando visivelmente contra a Horda, mas não com toda sua fúria e força. Me junto a ele para fortalecer nossas defesas contra os invasores. Eu ainda não sei exatamente como isso aconteceu, mas a rapidez com que brotavam a nosso lado não permitia que minha mente pudesse raciocinar e tão somente o meu corpo reagir e agir!

Golpes de machado e espadas dilaceravam membros inimigos e rebatiam flechas mortais direcionadas aos homens, mulheres e crianças Macalâneas.

Eu sabia que nossa armada era superior ao da Horda, mas não estávamos preparados para um ataque surpresa dessas proporções. Por isso, eu tinha de encontrar o líder deles e enfrentá-lo para um duelo até a morte, onde o vencedor levaria tudo, a vida, a glória e a lealdade dos conquistados. Disparei entre os homens que lutavam entre si, procurando por qualquer sinal que me indicasse a face de seu comandante. Este por sua vez, mantinha-se oculto de meus olhos desesperados e se aproveitava disso para fazer mais vítimas.

Talvez por mero acaso dos Deuses, resgatei um de meus guerreiros de um ataque pelas costas e percebi que este agressor era demasiadamente confiante e pude afirmar que diante de mim estava o líder da Horda, Messi.

Embora não fosse tão forte como a genética de minha família, era extremamente habilidoso com as armas tanto quanto o prazer que sentia ao usá-las.

Nossa batalha atraia os olhares dos combatentes mas ninguém se atrevia a interceptar a favor ou contra de qualquer uma das partes, uma vez que ambas culturas eram guerreiras e mantinham o código de que devíamos lutar sozinhos e até a morte.

Eu sabia que podia acabar com esta sangrenta guerra de um jeito ou de outro. Preferia ganhar e viver. Mas se este não fosse o caso, não poderia deixar que Messi chegasse a liderança de meu povo, escravizando-os ou assassinando-os. Por isso, tratei de levar nossa luta até a ponte de onde mais guerreiros da Horda continuavam a surgir e eram interceptados por nossa batalha, fazendo-os retroceder para seu lado da margem.

Porém, quando eu achava que estava vencendo a luta e, acho que Messi também percebera isso, ele optou por agarrar Jonas que estava ali perto observando apreensivo e colocou sua espada sobre o pescoço do menino, que me olhava com profundo temor. Messi disse: "Sua linhagem real de guerreiros é uma farsa! Veja este aqui como é descuidado e medroso, posso sentir suas pernas tremendo! Você é cego e incapaz de controlar suas emoções... Sem falar no seu querido irmão Kraus que entregou suas defesas para traí-lo e apoderar-se de seu trono!".

Ao falar essas palavras eu me dei conta de que nos últimos dias Kraus manteve-me afastado das obrigações de guerra para que eu ficasse mais próximo do meu filho recém nascido e esposa, mas agora eu via que seus reais interesses eram outros.

Me virei para ele em fúria, somente para encontrar seus olhos perdidos em uma devastação moral e de consciência, mas que rapidamente se converteram em ódio que o fizeram me atacar sobre a ponte.

Enquanto me defendia dos ataques de Kraus, atacava Messi para tentar libertar Jonas, que aproveitando-se da sorte do destino golpeou seu sequestrador, que agora era levado sem vida pelo rio do canyon.

"Kraus, o que você fez?" — Eu questionei desolado ao meu irmão do meio.

"Você sempre teve tudo e nunca me deu nada! E agora vai pagar por isso!"- Ele respondeu fora de seu juízo.

"Eu te daria tudo o que me pedisse se assim o fizesse Kraus. Eu nunca desejei ser líder, uma vez que isso custou a vida de nosso pai. Eu o protegi do dever que teria se fosse líder como eu, dando a você o direito a escolha de ter uma família ou qualquer outra coisa que quisesse ser ou fazer... Eu não tive esta escolha!" — Eu respondi. Mas Kraus estava cego e inundado por mágoas e rancores. Seu único objetivo era me derrotar para me tirar do seu caminho de líder.

"Kraus, você sabe que ao trair seu povo você perdeu o direito de ser líder, e como Jonas matou Messi ele agora será o novo líder, e ele pode te perdoar para que não seja banido".

Os únicos guerreiros próximos que podiam nos ouvir eram da Horda e esses agora eram leais a Jonas, pois derrotou seu antigo líder. Kraus olhou para eles, que estavam em reverência a Jonas, atrás dele, e seus olhos se inflaram em fúria e ele disparou em direção a Jonas para matá-lo. Em reação, a única coisa que pude fazer a tempo foi cortar as cordas que mantinham a ponte suspensa e caímos todos no rio, levados pela correnteza.

- Fim da Parte 1

Notas finais
Não perca o capítulo 2!