Sobre Muspell

1 O licor de Muspell e o nascimento de Ymir


Notas iniciais
O que fez o calor de Muspelheim derreter o gelo de Niflheim? Qual a origem do esquilo fofoqueiro Ratatosk? E por que diabos surgiu uma vaca no início do mundo? Todas essas respostas você encontra neste capítulo.

Ao norte existia uma colossal montanha onde Muspell adormecia. Era ele um vulcão grandioso, porém nunca entrara em erupção. Dentro dele não havia um lago apenas, mas dois. Um de fogo e rocha derretida que apavorava qualquer um, o outro um lago de névoa gélido e espesso, ambos com rios que caiam eternamente num profundo abismo aonde repousavam e jamais eram vistos, abismo esse tão denso que nem a luz atrevia-se escapar dele. Esta viria a ser a passagem para os nove reinos de Ygdrasil.

No pé do vulcão havia um casebre, feito de madeira de olmo, entalhado do rodapé ao teto. Lá vivia um celestial, cujo havia sido incumbido pelo soberano de vigiar Muspell. Fyteftí era seu nome de entre meu povo, e nós o chamávamos de o agricultor.

Dentro do casebre haviam poucos objetos; uma poltrona velha, todavia extremamente macia, tanto que qualquer um que se atrevesse assentar sobre ela e reclinar-se um pouco sem dúvidas confundiria a experiência como estar flutuando n'agua salgada ou com estar pairando levemente numa nuvem de algodão. Sempre achei curioso, mas a raça dos celestiais adoram essas coisas. Havia também uma lareira de pedras rústicas cuidadosamente encaixadas que nem mesmo o ar atravessara suas paredes de pedra, o mais curioso desta lareira é que ela não possuía um piso, sim um túnel que ligava até o coração do velho Muspell, era um túnel bem profundo não muito largo, talvez alguém magro o bastante pudesse se aventurar por ele. E justamente por meio deste túnel ele vigiava o senhor adormecido.

Do lado de fora o celestial cultiva abacaxis, sim, e como todos sabemos bem, o solo de um vulcão produz a melhor qualidade deste fruto ácido e suculento, contudo Muspell não era qualquer vulcão, o que podemos observar pela plantação um tanto singela em território porém, invejável em sua qualidade. Os abacaxis de Muspell cresciam consideravelmente acima da média, chegando a aproximadamente um metro de comprimento. Eles também eram curiosamente doces, feito o mel das abelhas azuis. Sendo utilizado pelo celestial como a matéria bruta de um licor frutado, doce e cítrico, de cor e aroma vigoroso. Que não era só incrivelmente saboroso, mas também um poderosíssimo tonificante físico, que aumentava consideravelmente por um período a força, velocidade e vigor de quem degusta-lo. O seu cultivador não necessitava é claro dessa sua habilidade afinal era ele um celestial antigo. Porém eu como escriba digo-vos que sou louco para experimentar o Licor de Muspell.

Todavia ali não vivia somente um solitário “velhote”, se assim posso o descrever. Ele normalmente tomava essa veste, mas era entre os de sua espécie um senhor da meia idade, jovem o bastante para ter perdido o alvorecer de alguns universos, e velho o bastante para conhecer quase todos os limites do jardim, se é que este tem limites. Ali no sopé da montanha vivia um aprendiz seu, este realmente jovem, deve ter apenas algumas dezenas de milhares de milênios. Ele era livre, ardil e extremamente apaixonado pelas magias do velhote. Desde sempre fora seu aprendiz, fazia de tudo com ele, ajudava-o no cultivo de abacaxis, no preparo dos licores, nas festividades, esta última sendo honesto era de sua própria vontade pois seu mestre não era chegado em festejo, embora gostasse de ver outros seres admirando sua bebida. Desses o maior fã que pudera existir do licor chamava-se Knum, um meio bode, meu povo o chama de sátiro, alguns de fauno, mas ele não era sátiro tão menos fauno, era de fato meio bode. Várias são as histórias dos festejos do meio bode e do jovem aprendiz. Dezenas de espíritos menores vinham para as festividades e quase sempre esgotavam a reserva de licor o que para o celestial era motivo de alegria e prestígio.

Por insondáveis eras foi assim, licores e festas; nada de surreal, apavorante, nada mesmo. O norte era tranquilo e por esse motivo muitos queriam o trabalho de vigiar o vulcão. Na nomeação houvera brigas e discussões, mas essa história não é pra hoje. Hoje é sobre um dia frio, sobre dureza e solidez e também porque não dizer desequilíbrio. A história de hoje sem qualquer sombra de dúvidas é um tanto quanto curiosa, e digamos um pouco engraçada até. Ela começa num dia comum algum tempo após o fim das últimas festividades.

Certo dia o celestial estava regando novos brotos de abacaxis pois notara que só haviam poucas garrafas estocadas. Ao sair de casa tomou seu regador nas mãos e percebeu que o restante de água dentro dele estava congelado, o solo no pé da montanha ficou um pouco frio, então correu rapidamente para dentro do casebre e sentiu um arrepio na coluna, um brisa congelante havia tomado o local. Não nevava no norte do jardim e o clima sempre fora bem ameno. Indagado com o súbito ar frio que instaurara-se o celestial olhou para lareira e cristais de gelo estavam, formando-se por entre as rochas empilhadas. O vulcão estava inativo e o lago de gelo estava tomando conta de tudo. Chamando seu fiel aprendiz juntos conjuraram feitiços de fogo, e nada derretia o gelo que só aumentava.

O celestial então pensou que deveria relatar imediatamente ao soberano. Seu aprendiz dispôs-se a ir pois seu mestre precisava ficar lá contendo o estrago. E tão rápido quanto vocês estão lendo isso ele já havia chegado diante do senhor das fontes de vida. Que curiosamente o aguardava sentado em seu trono reluzente com uma chama instável que dançava sobre o ar.

— O que seria esta magnífica chama oh Grande soberano? — perguntou realmente curioso e um tanto espantado pois pela primeira vez contemplou o salão do trono e seu senhor.

— Isso é aquilo que você iria pedir-me jovem. Leve a chama e ponha para que Fyteftí ponha-a no coração de Muspell e ele viverá para sempre.

Peço desculpas pela linguagem utilizada, mas eu não sei como celestiais conversam, tão menos posso dizer quão jovem o celestial que auxiliava o vigilante de Mulspell pode ser ou era quando desenrolou-se essa história, afinal ele é atemporal, contudo o soberano é mais velho que o nosso firmamento. E de certo que há um pouco de liberdade criativa na hora de narrar. Gostaria também de lhes contar seu nome, contudo seu primeiro nome foi esquecido por mim, mas hão de me entender o nome que ele recebeu depois do fim desta história é muito mais importante do que o que tivera em remotos tempos no jardim.

Na volta para Muspell ele teve de tomar um caminho mais longo pois não dominava a arte de levar algo que não a si mesmo distorcendo o espaço a sua frente como seu mestre, sendo assim viajou por países até o vulcão, no caminho reclamava sem parar, morrendo de medo de sua casa ter se tornado um bloco de gelo e de a plantação de abacaxis ter sido devastada. Ao murmurar sobre estas coisas veio em sua direção Knum seu fiel companheiro de festejos e Dumla uma vaca curiosa dizendo que a própria Zoe sua senhora e Aeon regente de sua classe mandou dois de seus fiéis servos para auxiliá-los nesta difícil missão.

Praguejando sobre o gelo a chama ficava instável, e parecia que o fogo reagia com vivacidade ao saber do gelo colossal se erguendo. E como ele praguejava, murmurava sobre como uma chama tão pequena poderia aquecer o coração do vulcão, sobre como ela seria capaz de derreter o gelo que penetrava qualquer lugar e resistia a magias lançadas.

Ao chegarem lá jovem aprendiz disse a Teftí o que era necessário fazer para salvar o vulcão. Ele relutante aceitou a tarefa de bom grado. Tomou a chama entre os braços, porém temeu seu destino, estava acostumado a vigiar o vulcão de uma distância segura e mesmo a mais simples alteração na temperatura do gigante de fogo causava pavor em Teftí. Além que estava acostumado a plantar abacaxis e não chama pulsantes e vivas dentro de vulcões. Pois são coisas totalmente distintas.

Nisso Knum correu para dentro desesperado tentando salvar o estoque de licores. O agricultor após receber a chama logo em seguida entrou usando seu poder para derreter o gelo. ela parecia que iria tomar forma física e sair golpeando os blocos de gelo restantes, ela odiava o gelo mais que tudo. Tudo agora estava sobre controle dentro de sua cabana e pensaram que a melhor maneira de chegar ao fogo era claro pela lareira, contudo ninguém era pequeno ou magro o bastante para passar. Então Teftí teve a brilhante ideia de transformar-se. Ele não fazia isso com frequência então transformou-se na primeira criatura que viera a sua mente um lobo, ele amava lobos e sempre transformara-se em um. Vendo isso seu fiel escudeiro não teve escolha se não a de transformar-se em esquilo, animal que sempre virava para atirar nozes nos outros de cima da copa das árvores num bosque ali perto. Tomando uma casca de noz metamorfoseou-se. Pós dentro da casca a chama e adentrou o túnel da lareira. Depois que alguns breve minutos se passaram ele chegou no fim.

— Seria um ótimo momento para Knum me ajudar aqui. -murmurou ele olhando para a grandiosidade do coração do vulcão.

— Ele com suas patas saltaria para o meio fácil. — Resmungou mais uma vez.

Porém na primeira chance que teve seu amigo tomou duas garrafas do licor e caiu desacordado na poltrona do agricultor.

Ele então abriu os bracinhos de esquilo e planou sobre o vórtice negro que sugava os rios que vinha dos dois mundos arremessando no mundo lago de fogo já quase todo apagado a casca da noz. Ficou planando ali alguns minutos. Então surgiram gigantescos braços de chama e um estrondoso grito ecoou vindo de dentro de Muspelheim, derretendo o restante do gelo que dominava tudo, porém nem todo foi derretido, pois eis que no meio disso sirgiu um colossal gigante de gelo que flutuava no firmamento. Ele ficou lá plainando observando tudo, sem poder escapar pois nem mesmo podia ver a saída, certo de que não estava mais dentro do vulcão.

Dumla como era incapaz de chegar ao vulcão pela passagem na lareira, correu o mais rápido até o cume do vulcão. Chegando no topo Dumla como boa curiosa que sempre fora esgueirou-se para observar, acabando por cair dentro da cratera. Não se pôde ouvir som nem de rocha firme, nem de rocha derretida ela não atingiu nada. Acredita-se que ela ainda esteja caindo sobre o céu do universo que existe lá.

E foi mais ou menos assim que nasceram os reinos de Ygdrasil, eu mesmo pude ver o aprendiz de Teftí que hoje é chamado de Ratatosk. Que atualmente pode sair quando lhe aprouver, contudo acha muito mais interessante gerar intriga entre Nidhog o dragão que rói as raízes da grande e mística árvore e Hræsvelgr, a águia que vive no topo da árvore. E sobre Knum dizem por aí que ele está em outro universo bebendo hidromel de abelhas azuis.

Notas finais
O que virá na próxima história? Talvez a origem de outros seres como Nidhog ou Hræsvelgr? Talvez o conto dos primeiros deuses os artesoes do mundo? Bom deixe sua sugestão caso queira saber mais. E até o próximo capítulo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.