Notas iniciais
Estou um dia atrasada, mas ainda quero que essa one seja considerada para o Femslash February. O texto está confuso, peço perdão, não desenvolvi como queria, mas um dia farei uma fic decente dessas duas e desenvolverei a relação delas apropriadamente. É universo alternativo, perto de ficção histórica, mas baguncei totalmente as épocas, então prefiro não associar nada com nada.Espero que gostem. :3

Annabeth estava petrificada.

O sangue parecia ter congelado nas veias e artérias, os músculos derretiam e ela não conseguia sair de onde estava, mesmo ouvindo ao longe gritos de sua mãe. Céus, ela tinha de se mexer.

Recomponha-se, e ela se endireitou. Respirou fundo, ergueu os cantos dos lábios num meio-sorriso agradável o suficiente para não preocupar sua mãe e elegante o suficiente para não incomodar outros nobres. Ela sorriu, sorriu e seguiu para as grandes portas, sendo recebida pela anfitriã, cujo sorriso abria maior que seu próprio e irradiava graça e doçura que Annabeth não acreditava possuir, embora a loira pudesse notar que aquele sorriso era provavelmente forçado. Ela era linda e os cachos pretos presos num coque eram elegantes, linda e os olhos igualmente pretos passavam confiança e perspicácia, linda e o vestido de seda roxo caía perfeitamente em seu corpo esguio e delicado.

"Seja bem-vinda. Meu nome é Reyna e sou da casa de Ramírez-Arellano. Sou do reino de Roma e serei sua anfitriã esta noite."

Rainha.

"Hm, olá. Chase. Annabeth. Quero dizer, meu nome é Annabeth e sou da casa Chase." Uma risadinha nervosa escapou dos lábios da loira e ela abaixou a cabeça. Reyna ergueu uma sobrancelha perfeitamente arqueada e deu um passo para o lado.

Reyna.

Reyna era linda e a audácia daqueles olhos negros estaria cravada na mente de Annabeth por um longo tempo, ela tinha certeza.

...

Não demorou muito até a festa (noivado, Annabeth sabia, mas não tinha certeza de quem) se tornar absurdamente entediante e tudo que a loira desejava era a companhia de uma xícara de seu chá favorito acompanhado da leitura de Platão. O frio se enraizava em torno de seus dedos longos, ela tremia levemente e por todos os deuses, como aquele tecido era fino. Bem dizia sua tia, elegância e conforto não andam juntos.

A caça havia começado e isso era ridículo. Porque as moças deveriam querer se casar com alguém de posses e títulos e deveriam querer que algum deles se interesse por elas, então seriam duquesas, baronesas, princesas, rainhas, ao lado de seus maridos e teriam de parecer felizes e teriam de sorrir enquanto sabiam que o casamento despencava, seriam perfeitas em seus espartilhos apertados demais, matriarcas da família exemplar do reino, presas a doutrinas, dogmas, leis e contratos. Trancafiadas na mansão de seus maridos porque as filhas precisavam aprender a costurar e os filhos sairiam na caça. Elas poderiam visitar amigas, vizinhas, mas deveriam ser rivais por baixo dos panos, oprimidas por eles e por elas também.

Annabeth sabia onde tudo terminaria e não conseguia se imaginar numa situação dessas. Mesmo que se ela não se casasse logo, "ficará velha demais e nenhum homem irá querê-la!", mesmo que aquele homem dos olhos verdes estivesse vigiando-a há mais tempo do que gostaria, mesmo que a pressão estivesse enlouquecendo-a.

A liberdade era a essência de Annabeth.

Então ela sabia que não se casaria com o homem dos olhos verdes. Sabia que não seria matriarca da família exemplar. Sabia que suas escolhas trariam desonra à família. Mas a liberdade valia mais, valia tanto.

Sua respiração começou a falhar enquanto a pressão conhecida parecia aumentar exponencialmente nas costelas e pulmões. Mas rapidamente esqueceu o incômodo a ver a rainha de olhos negros vir em sua direção. O contato visual se estabeleceu silenciosamente, agradavelmente, era algo íntimo para duas desconhecidas, mas nenhuma delas se sentia incomodada. Annabeth captou a mesma irritação que ela apostava ser evidente em seus próprios olhos cinzentos, o mesmo tédio, mas a ousadia, divertimento e severidade eram novidade. Seus lábios apertavam-se numa linha dura, rígida, mas seu olhar não continha desaprovação. Ela parecia ansiosa.

Reyna sentou-se ao lado da loira, que imediatamente ficou paralisada. Reyna tinha linhas de expressão severas para uma face delicada e demasiada jovem, os olhos continham a mensagem que a morena não colocava em palavras, mas não precisava.

"Há uma biblioteca no andar de cima. Temos Aristóteles."

Um sorriso brincou nos cantos dos lábios de Annabeth.

"E Epicuro?"

"Com certeza."

"Absoluta?"

"Já li cada examplar contido naquela biblioteca. Posso afirmar-lhe que sim."

O sorriso de Annabeth aumentava a cada resposta vinda da morena.

"Parmênides?"

"Um exemplar único."

"Pitágoras?"

"Polêmico. Sim."

"Sêneca?"

"Romano, uh? Sim."

Annabeth mordeu o lábio inferior.

"Safo?"¹

"Belíssimos poemas."

"Leve-me."

Subiram.

...

A coleção era gigantesca e o fato de Reyna ter lido tudo era admirável. Ela parecia ter um gosto especial por histórias de guerras, mas conseguia descrever facilmente estruturas, colunas, estilos de arte diferentes, detalhes e formas distintas de arquitetura dos lugares para os quais ela já havia ido. O fascínio pela outra garota era alimentado pelo sorriso contido enquanto ela narrava Ilíada, a eloquência que ela nunca conhecera em outras garotas, outros garotos a deixava boquiaberta e a leveza de Reyna deixava qualquer assunto agradável.

Até ela tocar no ponto da liberdade. Aquela da essência, aquela dos sonhos, aquela da vontade, aquela que era a vida de Annabeth.

"Nunca seremos livres. Nunca."

"Como não? Podemos exercer nossa liberdade... longe dos olhos alheios."

"Não. A liberdade é o que nos torna distintas, mas se não podemos exercê-la... qual o sentido? Se não podemos fazer o que desejamos, onde está a liberdade?"²

"Nas pequenas coisas. Grandes passos você dá aos poucos. A liberdade é inerente ao humano, mas o inferno são os outros. Sermos reprimidas, oprimidas, pela sociedade não cancela nossa liberdade, apenas interfere nela. Somos livres, Reyna, livres."

Porque Annabeth era fiel à crença, era fiel à liberdade e por mais que houvesse discordância da moça dos cabelos negros, ela não deixava de se fascinar por Reyna não apenas compreender o assunto, como ser capaz de deixá-lo fluir. A perspicácia de Reyna a encantava.

"Somos presas. Repressão não é liberdade."

"Se não fôssemos livres, eu poderia fazer isso?"

E então só houve confusão de ambas as partes após o choque dos lábios de Annabeth contra os de Reyna. A morena sorriu internamente. Havia feito a coisa certa ao chamar aquela garota para a biblioteca.

Mas se elas eram realmente livres, por que estavam se beijando escondidas ali?

Mas Annabeth era fiel a sua crença e haveria de arrastar Reyna consigo. Elas tinham tempo.

...

Annabeth odiava a rotina e as algemas que vinham junto, mas aquela parte em especial de sua rotina era verdadeiramente agradável.

Dia sim, dia não, era concedida a permissão para visitar Reyna (sua mãe ficara feliz com a nova amizade da filha e decidiu conceder o direita a tais visitas quando ela não tinha aulas). Annabeth era livre dia sim, dia não. Porque, com o passar das semanas, Annabeth descobriu o gosto da verdadeira liberdade ao lado de Reyna porque pelos deuses, ela era tão diferente, tão diferente, mas tão idêntica a Annabeth, e elas se encaixavam tão bem quando estava frio e os cabelos dourados de Annabeth pareciam mais bonitos sendo trançados pelos dedos ágeis de Reyna (que sempre buscava flores para enroscar nos fios da loira) e aqueles olhos tão marcantes não encontraram os seus por mero acaso.

Mas por que, por que a liberdade importava tanto para a loira quando elas liam poemas em idiomas desconhecidas a tarde inteira? Por que por que tanta discussão quando os cabelos de ébano roçavam em seu pescoço e mãos entrelaçadas lhe proporcionavam a melhor sensação do mundo?

Elas estavam felizes, felizes, felizes e tão, tão presas.

Mas a nobreza mandava e demandava e elas estavam perdendo tempo demais, tão velhas, tão instruídas (como se mulheres precisassem disso!), mas não sabiam costurar tecido algum. Mas havia o garoto louro de olhos azuis, estava interessado, era legal e possuía tanta influência, mas aquele tom de loiro era errado para Reyna. O tom ideal era o da loura animada, leitora, diferente.

Reyna era conhecidamente adoradora de olhos pretos, pretos líquidos, pretos noite, pretos seda, pretos expressivos e nunca sequer precisou resistir à tentação dos olhos claros. Mas o contraste de Annabeth era magnífico porque aquele cinza era apenas alguns tons mais claro que seu amado preto e ainda assim, era uma cor clara, brilhante, expressiva, sempre audaciosos, sempre incríveis.

E entre elas havia a beleza, os livros, a liberdade, a graça porque nenhum homem jamais faria qualquer uma daquelas coisas com nenhuma das duas e elas sabiam que nunca encontrariam ninguém igual. Havia necessidade de estar com a outra.

Elas estavam perdidas.

...

Mas a liberdade era inerente e Annabeth precisava tanto, tanto.

Então quando ela sugeriu uma fuga ("só nós, livres"), Reyna não pensou duas vezes.

Malas pequenas, mentes lotadas demais, elas não precisavam falar. O contato dos dedos entrelaçados dizia o suficiente. Não sabia para onde iriam. Não havia um sentido, elas concordaram em construir um significado, um caminho.

Annabeth sabia das dificuldades. Sabia que às vezes era difícil chegar ao coração de Reyna. Era difícil convencê-la a dormir com o corpo enroscado ao seu. Era difícil, difícil, mas ela trabalhava para mudar isso. Confiança e amor ela tinha, só precisava decodificar os pensamentos da morena. Era um desafio adorável.

Elas carregavam mais livros do que suas pequenas malas suportavam e céus, era difícil viajar com um espartilho sufocando-lhe, mas nos lábios de Annabeth havia um sorrisinho divertido e isso compensava. Perdidas, mas livres. Loucas, mas livres. O amor que Reyna havia passado a nutrir pela outra aumentava a cada segundo, seu peito queimava a cada sorriso, sua pele se arrepiava a cada toque. Annabeth era brilhante.

...

Perdidas, mas admiradas. Corajosas. Tinham boa fama por ali e estavam aprendendo a se virar sem ajuda alguma.

Inteligentes, bravas, insanas. Elas sorriam e assentiam.

A noite vinha e o céu era perfurado pelo brilho individual de cada estrela. Cada uma. E Reyna as namorava, as observava, as adorava. Deitava a cabeça no colo de Annabeth, que corria os dedos pelos fios de ébano. Aquela noite seria dedicada a Sêneca. Annabeth se curvou para depositar um beijo delicado nos lábios da morena, que sorriu.

Acompanhadas apenas das estrelas e de um exemplar tão único quanto o sorriso de cada uma, elas irradiavam felicidade que mal sabiam expressar.

Eram livres.

Notas finais
Me avisem se houver erro porque não revisei nada.Comentários são bem-vindos. Safo¹: poetisa grega conhecida por textos que continham amor entre mulheres. Tudo de liberdade²: aqui foi onde ferrei toda a parte histórica. Planejei algo que se passasse perto do Renascimento, com tudo isso de nobreza e aceitação e princesas e livros greco-romanos, etc., e do nada jogo existencialismo no meio, sendo que isso é coisa do século XX. Essas noções sobre liberdade e "o inferno são os outros" fazem parte da filosofia existencialista, que indico bastante a todos, é incrível. Perdão por possível incoerência, erros gramaticais ou ortográficos. Obrigada por ler.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!