Sobre Heavy e Medic
1 Capítulo único
Medic poderia ser considerado um perfeito psicopata. Dissecava pacientes em nome da ciência, era o que dizia, mas os operava vivos, por puro prazer e curiosidade. Criou a brilhante Medigun é claro, mas só com o intuito de prolongar a vida de seus “pacientes” torturados. Arrancou todos os ossos de um homem por pura curiosidade- o esqueleto roubado agora enfeita sua casa. Enfim, um lunático insensível, cujos talentos atraíram a atenção de uma certa administradora, que o contratou para curar alguns mercenários.
Quando chegou ao time RED para trabalhar como médico de campo de batalha logo já teve serviço: um homem apareceu com o peito estourado, um míssil alojado em suas entranhas. O mais curioso é que o paciente estava consciente e aparentava não demonstrar dor. Medic nunca havia visto algo tão pitoresco quanto aquilo e, para recordar o momento, fez com que o grande homem bebesse contraste para registrar um raio x, desnecessariamente, vale realçar.
E logo foi enfiando as mãos nas vísceras do enorme Heavy (era como o chamavam), não usou luvas pois a sensação lhe agradava- a textura dos órgãos internos era algo fascinante. Foi puxando papo com o homem enquanto tirava o míssil, como se fosse algo super casual. Arrancou-lhe o coração e substitui-o por o de um babuíno. Conduziu um experimento que poderia ter causado um ataque cardíaco fulminante irreversível- a chamada Übercarga. Por sorte Heavy suportou uma carga elétrica que teria matado um homem comum, mas também não era um homem comum- Heavy era um tanque de homem.
Isso atraiu Medic, não era qualquer um que suportaria a dor de ter o peito aberto por um míssil, ter o coração arrancado, sofrer uma ubercarga. Heavy seria a cobaia perfeita para todas as suas experiências, desde que o gigante não suspeitasse.
Então Medic começou a tentar agradar Heavy lhe dando “sandviches”, uma receita simples que envolvia duas fatias de pão, alface, rodelas de tomate, uma generosa fatia de salame, uma pouco de anfetaminas e uma azeitona para completar. Não há palavras para medir como Heavy adorou o tal “sandvich”, se sentia mais forte após comê-los- efeito das drogas- e passou a levá-los para o campo de batalha, até deixando de lado sua escopeta para carregá-los.
Medic seguia Heavy para testar quantas vezes mais poderia dar Über sem que seu coração falhasse, com a Medigun curando cada ferida, o mantendo em pé para matar dezenas e mais dezenas de inimigos. Medic não podia negar, aquilo era muito mais emocionante do que matar um paciente por vez- mesmo que com o estranho sistema de respawn aqueles mortos reapareçam para se vingar. Reclamações começaram a surgir sobre como Medic só curava Heavy durante as partidas, então Medic se desdobrava para tentar curar todos, mas muitas vezes era Heavy quem Medic tentava seguir, já que ele era sua cobaia da uber carga.
Não há como descrever como Medic se decepcionou ao morrer pela primeira vez... era tão rápido: um tiro, um grito, uma dor, uma escuridão, e pouco depois, uma luz. Era simplesmente isso. Bem, exceto quando se morria queimado, mas era muito dificil de acontecer com os efeitos da medigun irradiando e com os ocasionais sandviches que Heavy lhe oferecia. A morte perdeu um pouco de seu encanto para Medic, já que essa havia se tornado uma atividade cotidiana. É claro que ainda se sentia excitado ao ver um corpo se despedaçar em mil pedaços em uma explosão, mas cortar pessoalmente as entranhas de alguém não exerciam em Medic o mesmo fascínio que antigamente.
E assim, com o tempo, Medic foi perdendo seu interesse inicial em dissecar Heavy por completo- Medic passou a o querer vivo, ao seu lado, contra hordas e mais hordas de inimigos. E pela primeira vez em sua vida Medic se viu a vontade perto de outra pessoa, dentre todos do time, Heavy era o que mais parecia entender seu prazer em matar, e mais do que isso, ele parecia gostar de sua companhia. Heavy era um enorme russo, pavio curto e sanguinário, mas ao mesmo tempo era um homem simples que parecia não se importar pelo fato de Medic ser um médico velho e insano com uma insaciável sede por sangue: Medic o curava, Medic o tornava invencível, Medic fazia sandviches. Para Heavy, Medic era um homem bom. Era o “seu” médico.
Medic ainda se sente embaraçado ao lembrar da primeira vez que Heavy soltou um “Eu AMO esse doktor!”. Ninguém nunca havia dito que o amava, nem sua ex-exposa, nem mesmo seus próprios pais. É claro que Heavy havia dito isso como um amigo, no entusiasmo da batalha após um über ter ajudado a aniquilar dezenas de inimigos. Mesmo assim, essas palavras atordoaram Medic, causando um desagradável rubor em sua face que custou a desaparecer. Rubor esse que surgia toda vez que Heavy dizia isso, ou o abraçava de felicidade após as vitórias- abraços tão apertados que faltava o ar a Medic, que no início apenas se deixava ser esmagado e murmurava embaraçado coisas como “Dummkopf”. Mas com o tempo, Medic foi se acostumando com as expansivas demonstrações de afeto do russo, e no fundo ele até que o “amava” de volta, muito embora se dependesse de Medic, ninguém nunca iria saber disso.
Medic sentia falta de Heavy. Aquela batalha insana havia chegado a seu fim, Medic estava de volta para Alemanha aonde, com o dinheiro que ganhara com seu trabalho de mercenário, tinha dinheiro suficiente para comprar sua licença médica de volta, e até um hospital inteiro se assim o desejasse. Poderia ter a melhor das mansões no mais lindo dos alpes alemães. Sua ex-mulher voltaria correndo para seus braços assim que visse sua fortuna, se arrependeria de o ter traído, de o chamar de ruim de cama. Mas quem precisa daquela megera, Medic agora poderia ter qualquer garota que quissese. Se quissesse, isto é. Tudo que ele mais queria era voltar para aqueles sanguinários dias de batalhas intermináveis, ao lado de Heavy. Sentia falta do cheiro de sangue, dos efeitos da kritzkrieg, das ubercargas, de não temer a morte. Sentia falta de Heavy gritando ameaçadoramente, de suas risadas espontâneas e estupidamente altas, de sua falta de modos comendo um sandvich. Sentia falta de ouví-lo cantar, de seus exagerados abraços, de suas simplórias conversas. Heavy era uma pessoa muito mais adorável do que sua hostil aparência podia mostrar.
Fazia parte do contrato deles: não poderiam entrar em contato com nenhum ex-colega de trabalho. Nunca souberam o nome um do outro e, se seus sotaques não o denunciassem, não saberiam nem da onde vieram. Tudo que Medic sabia sobre Heavy era que ele era um gigante da Rússia, e que ele sentia saudades dele, imensamente. Medic pensava se Heavy sentia falta dele também...
E em um dia vazio de inverno, um mês após seu retorno a Alemanha, Medic atende a porta de sua casa para dar de cara com ninguém menos do que o enorme russo, que não conseguia conter o sorriso. Medic sentiu o coração bater em sua garganta com a surpresa, e o ar lhe faltar aos pulmões quando Heavy o apertou forte em um caloroso abraço de urso. Sorrindo de orelha a orelha, Heavy não disse nada enquanto abraçava forte o seu Medic, que pela primeira vez sentiu o que era a felicidade- era reencontrar um amigo tão querido.
Miss Pauling deu o endereço de Medic para Heavy, mesmo sendo contra o contrato. Ela percebeu o que a administradora não foi capaz de perceber, o sentimento existente entre eles. Era um laço não apenas profissional, era muito especial, e ela não poderia deixar esse laço se perder apenas por causa de um contrato.
Heavy trouxe muitos presente para Medic, além de lembranças de sua terra natal, como uma ushanka que combinava com a que ele usava. Mas muito mais importante do que qualquer souvenir, Heavy trouxe de volta toda a ternura que Medic sentia por ele, que se esforçava para não abraçar Heavy a todo momento. A presença de Heavy era amistosa, preenchia todo o espaço vazio de sua fria casa, sua risada ecoava alto e seu sorriso largo era sincero- gostava de ficar com Medic, e isso o deixava feliz. Sua estadia na Alemanha era passageira, teria que voltar para Rússia para cuidar de sua mãe e irmãs no dia seguinte, mas manteriam contato de agora em diante- trocaram telefones e endereços e prometeram se visitar de vez em quando. Mas só de pensar em ter que se separar de Heavy novamente, Medic sentiu um aperto no coração pior do que quando se leva uma facada nas costas, um desespero maior do que quando se via sozinho no campo de batalha...
E então, quando Heavy se preparava para ir embora, Medic timidamente perguntou se, talvez, ele pudesse ir junto. Heavy piscou duas ou três vezes, visivelmente confuso, enquanto Medic se arrependia de ter aberto a boca. Heavy então disse, com um sorriso tímido: “Se doktor quiser, tem uma choupana ao lado da minha. Medic pode ir morar lá.” E com essa resposta, sem pensar duas vezes, Medic abraçou Heavy, se sentindo como uma garotinha de doze anos.
Felicidade é viver ao lado de quem se ama.
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