Notas iniciais
Original

Recife,mês de Dezembro,Marcus sentado em um bar à beira mar da praia de Boa Viagem,pensando em seus clientes,problemas,insônia,enquanto bebe seu chope gelado e acompanha com o olhar alguns homens fazendo a decoração de natal do estabelecimento.Ainda não está totalmente escuro,mas já não é possível ver o sol.Marcus se perde a noção da hora ao olhar aquelas luzes natalinas que tanto detesta.

Jogado ao sofá,pensando em mais um dia improdutivo que teve e sem aguentar a terrível dor de cabeça,um pouco bêbado cai no sono.No mar,não,não era Boa viagem,um mar diferente,de algum lugar distante,talvez algum lugar onde nem mesmo já visitara algum dia,uma casa branca...o telefone toca,e o desperta de um sonho confuso,misterioso. "Quem é?",pergunta ainda num tom sonolento, "O que quer tão tarde?" -Marcus,quando você vai largar esse maldito álcool? Pelo amor de Deus,já são 08:00 da manhã e você... "O que você quer comigo,Luiza,eu estava dormindo,e você sabe o quão raro isso é pra mim." Então,desliga o telefone e deixa Luiza falando sozinha.

Bom dia,Zé,me vê um sanduíche de salame e um chope gelado,por favor...ah,e um expresso curto."Não é cedo pra chope,cara?" diz Zé,em tom de brincadeira.Mais uma vez ali,naquele bar,naquela praia,Marcus Rippine olha as moças na praia naquele sábado de sol e se pergunta desde quando sonhara com essa vida de advogado de sucesso,porém,sem nenhuma emoção,afinal de contas,ele costumava gostar tanto da solidão quando mais jovem,por que isso mudaria agora? Idade,talvez.Ele sabia que não era mais um jovem e que apesar de charme,não poderia conseguir tudo que deseja.O chope gelado chega,esfria e quando está quase em temperatura ambiente o dono percebe que a bebida já está em sua mesa.Dá uma boa mordida no sanduíche,prova do chope e pede outro,mais gelado e alterna o álcool com o café de maneira quase compulsiva e aquilo lhe faz dar um sorriso amarelo que logo se desfaz na boca de lábios finos.Levanta,joga o dinheiro na mesa e antes de sair grita "É,Zé,comida talvez seja o único prazer na minha vida."

O final de semana passa devagar,já é segunda-feira. "Bom dia Dr.Rippine." cumprimenta a sorridente secretária. "Bom dia?" Bom dia é o que você me diz,Valéria? -Verônica,senhor- Ah,que seja...não acha que é pedir demais querer que eu tenha um "BOM DIA SORRIDENTE" em uma segunda-feira insuportável? A secretária desfaz o sorriso falso e dá um menor,porém mais verdadeiro e cúmplice.Chegando em sua sala,dá conta de quanto trabalho terá na semana e grita à secretária clamando alguma ajuda. "Dr.não seria certo eu analisar esses processos,não sou advogada,creio que não seria ético" -Ético Verônica?- grita ele enquanto ela sorri talvez porque ele finalmente acertara seu nome. -Minha querida,você trabalha comigo há quase um ano,já deveria saber fazer coisas erradas também,ética não existe,não nesse país,além do mais confio em você cegamente,meu amor.Preciso sair agora -Mas..- sei que posso contar com você.