Sob um Crepúsculo Diferente
13 Capítulo 12 - Tipo Sanguíneo (Parte 2)
Notas iniciais
Enquanto eu caminhava para a aula, minha cabeça estava girando mais rápido que uma hélice. Tão poucas perguntas foram respondidas em relação aquelas que foram perguntadas. Minhas emoções estavam pulsando pelo que acabara de ocorrer.
O Sr. Banner ainda não estava na sala quando eu cheguei. Eu me arrumei rapidamente no meu lugar e esperei que a aula começasse. Então o Sr. Banner entrou, pedindo ordem na sala. Ele estava equilibrando umas caixas pequenas nos braços. Ele as colocou na mesa de Mike e pediu para que ele as distribuísse pela sala.
— Tudo bem, pessoal, eu quero que vocês peguem um pedaço de cada caixa.
O Sr. Banner tirou um par de luvas de borracha do seu jaleco e colocou-as nas mãos. O som agudo das luvas de borracha batendo contra o pulso dele pareceu um mal presságio para mim.
— A primeira coisa é um cartão de instrução – ele explicou, pegando um cartão branco com quatro quadrados marcados nele. — A segunda é um aplicador – ele segurou alguma coisa que parecia ter dentes. — E a terceira é uma micro-agulha esterilizada. – Ele pegou um pacote de plástico azul e abriu. O aparador era quase invisível a esta distância, mas o meu estômago deu voltas.
— Eu vou passar com um conta gotas para preparar os seus cartões, então por favor, não comecem até eu chegar em vocês. – Ele começou na mesa de Mike e cuidadosamente colocou uma gota de água em cada quadradinho. — Agora eu quero que cada um de vocês fure o seu dedo cuidadosamente com a agulha... – Ele agarrou a mão de Mike e enfiou a agulha na pontinha do seu dedo do meio.
Oh não...
Um suor frio começou a escorrer pela minha testa.
— Ponham uma pequena gotinha de sangue em cada quadradinho. – Ele parou, demonstrando, pegando o dedo de Mike e apertando até o sangue sair.
Eu engoli compulsivamente, meu estômago pesando.
— E então aplique no cartão – ele terminou, segurando o cartão com gotas vermelhas pra todos nós vermos. Eu fechei meus olhos, tentando ouvir além do zumbido nos meus ouvidos. Meu coração começou a acelerar com o mal estar.
— A cruz vermelha está vindo pra Port Angeles no próximo fim de semana, então eu pensei que todos vocês podiam saber o seu tipo sanguíneo. – Ele parecia orgulhoso de si. — E aqueles que ainda não tem dezoito anos, vão precisar da permissão dos seus pais. Eu tenho documentos na minha mesa.
Ele continuou passando na sala com as gotinhas de água. Eu coloquei a minha bochecha no topo da mesa fria e tentei me manter consciente. Em todo lugar ao meu redor, eu podia ouvir gemidos, reclamações e gargalhadas dos meus colegas enquanto eles furavam seus dedos. Eu respirava calmamente pra dentro e pra fora pela minha boca.
Porque eu não matei aula com Edward também? Eu teria me poupado desse vexame. Pensei.
— Bella, você está bem? – O Sr. Banner perguntou. A voz dele estava bem perto da minha cabeça e parecia alarmada.
— Eu já sei o meu tipo sanguíneo, Sr. Banner – eu disse com a voz fraca.
Eu estava com medo de levantar a minha cabeça e acabar desmaiando ou pior, vomitando.
— Você está se sentindo desfalecer?
— Sim, Sr. – Eu murmurei.
— Alguém pode levar Bella pra enfermaria? – Ele pediu.
Eu não precisei olhar pra cima pra saber que Mike foi voluntário.
— Você pode andar? – O Sr. Banner perguntou.
— Sim – eu murmurei.
Só me tirem daqui o mais rápido possível.
Mike pareceu ansioso quando colocou o braço dele ao redor da minha cintura e colocou meu braço sobre seus ombros. Eu me inclinei pesadamente nele enquanto saíamos da sala. Mike me guiou lentamente pelo campus e quando estávamos passando pelo refeitório, fora do campo de visão da sala de aula, quando o Sr. Banner não podia mais nos ver, eu parei.
— Mike, será que você poderia me deixar se sentar um pouco? – Eu pedi.
Ele me ajudou a sentar na calçada.
— E o que quer que você faça, mantenha a sua mão no bolso.
Eu ainda estava muito atordoada. Eu caí pro lado, encostando o meu rosto no cimento frio e sujo da calçada, fechando os olhos. Isso pareceu ajudar um pouco.
— Nossa, você está verde, Bella! – Mike disse nervosamente.
— Bella? – Uma voz familiar chamou de longe.
Não! Por favor, diga que eu não estou imaginando essa voz horrivelmente conhecida!
— Qual é o problema? Ela está machucada? – A voz de Edward estava mais próxima e ele parecia aflito.
Eu não estava imaginando. Eu apertei meus olhos, esperando morrer ou pelo menos, não vomitar. Mike pareceu estressado.
— Eu acho que ela está passando mal. Eu não sei o que aconteceu, porque ela nem chegou a furar o dedo.
— Bella – a voz de Edward estava bem ao meu lado, aliviada agora. — Você consegue me ouvir?
— Não – eu gemi. — Vai embora, Edward.
Ele sorriu.
— Eu estava levando ela pra enfermaria. – Mike explicou em tom de defesa. — Mas ela não conseguiu ir adiante.
— Eu vou levá-la. – Edward disse. Eu ainda podia ver o sorriso na voz dele. — Então você pode voltar pra sala de aula.
— Não! – Mike protestou. — Sou eu quem deve fazer isso!
De repente a calçada desapareceu e meus olhos se abriram com o susto.
Edward tinha me pego no colo, tão facilmente como se eu não pesasse nada.
— Me ponha no chão! – Eu exigi.
Oh, não me deixe vomitar nele.
Ele já estava caminhando antes que eu terminasse de falar.
— Ei! — Mike chamou, já muito atrás de nós.
Mas Edward ignorou ele.
— Você parece horrível — ele me disse sorrindo.
— Me coloque de volta na calçada – eu gemi. O movimento da caminhada não estava ajudando muito. E ele não parecia estar se incomodando.
— Então você passa mal quando vê sangue? – Ele perguntou. Isso parecia divertido para ele. Eu não respondi. Eu apenas fechei meus olhos e encostei a cabeça em seu ombro, lutando contra a náusea com todas as minha forças, apertando meus lábios.
— E nem é o seu próprio sangue – ele continuou se divertindo.
Eu não sei como ele conseguiu abrir a porta enquanto me carregava, mas de repente estava quente, então eu sabia que estávamos do lado de dentro.
— Ai meu Deus! – eu ouvi uma voz de mulher falar.
— Ela passou mal na aula de Biologia – Edward explicou.
Eu abri meus olhos. Eu estava na secretaria e Edward continuou avançando em direção á enfermaria. A Sra. Cope, a recepcionista ruiva da secretaria, passou na frente dele pra abrir a porta. A enfermeira tirou os olhos de um livro, pasma, enquanto Edward me carregava pelo quarto e me colocava gentilmente em cima do papel que cobria o colchão de vinil na única cama. Então ele se afastou e foi se inclinar numa parede tão distante quanto foi possível pelo curto espaço. Seus olhos estavam brilhando e muito excitados.
— Ela só está um pouco enjoada – ele garantiu para a enfermeira. — Eles estão testando o sangue na aula de Biologia.
A enfermeira balançou a cabeça.
— Sempre tem um.
Edward tentou abafar um riso.
Eu queria dar um soco nele por ficar caçoando de mim.
— Fique um pouco deitada, meu bem. Vai passar logo. – Ela acalmou-me gentilmente.
— Eu sei – eu suspirei. A náusea já estava desaparecendo.
— Isso acontece muito? – Ela perguntou.
— As vezes — eu admiti, sentindo as minhas bochechas corarem. Edward tossiu para disfarçar outra risada.
Idiota. Pensei.
— E você pode voltar para a sala de aula, Sr. Cullen — ela disse pra ele.
— Eu devo ficar com ela. – Ele disse com tanta autoridade que mesmo torcendo os lábios, a enfermeira não discutiu mais.
— Eu vou pegar um pouco de gelo para colocar em sua testa, querida. – Ela informou e então saiu da sala.
— Você estava certo, Edward. – Eu gemi, deixando meus olhos fechados.
— Eu geralmente estou, mas sobre o que em particular desta vez?
— Faltar a aula é saudável – eu tentei respirar uniformemente.
— Você me assustou por um minuto lá fora – ele admitiu depois de uma pausa. O tom que ele usou fez parecer que ele estava confessando uma fraqueza vergonhosa.
Eu estava surpresa. Ele realmente se importava a este ponto?
— Eu pensei que Mike estivesse arrastando o seu corpo para enterrá-lo no bosque.
— Muito engraçado – eu ainda estava com os olhos fechados, mas estava me sentindo melhor a cada minuto.
— E honestamente, eu já vi cadáveres com uma cor melhor. Eu já estava preocupado em ter que vingar o seu assassinato.
Eu ri.
— Pobre, Mike... Eu aposto que ele está bravo.
E ri de novo lembrando da cena – mesmo que eu não tenha visto.
Essas coisas tinham que ser comigo...
— Ele absolutamente me detesta – Edward disse alegremente.
— Você não tem como saber disso – eu discuti, mas depois imaginei se ele não tinha como saber mesmo.
— Eu vi o rosto dele, eu posso dizer.
— Mas como você me viu? Eu pensei que você estivesse escondido...
Eu estava quase bem agora, apesar de que os enjoos iam passar mais rápido se eu tivesse comido alguma coisa no almoço. Por outro lado, talvez fosse bom que o meu estômago estivesse vazio. Provavelmente as chances de eu vomitar em cima de Edward seriam maiores. E se isso acontecesse, eu certamente cavaria um buraco na terra e nunca mais iria sair.
— Eu estava no meu carro ouvindo um CD. – Uma resposta tão normal que me surpreendeu. De repente me vi curiosa em saber que CD ele estava ouvindo.
Neste momento, a porta abriu-se e então abri meus olhos pra ver a enfermeira entrar com uma compressa fria na mão.
— Aqui está, querida. – Ela colocou na minha testa. — Você parece melhor. – ela sorriu gentilmente.
— Eu acho que já estou bem – eu disse, me sentando. Eu só sentia um pequeno zumbido nos meus ouvidos, sem nada girando. As paredes brancas estavam exatamente onde deveriam estar. Eu vi que a enfermeira estava prestes a me fazer deitar de novo, mas a porta se abriu nesta hora e a Sra. Cope colocou a cabeça para dentro.
— Tem outro aqui – ela avisou.
Eu desci pra deixar a cama livre para o próximo.
Eu devolvi a compressa para a enfermeira.
— Aqui, eu não preciso mais disto.
Então Mike entrou, agora carregando um pálido Lee Stephens, outro garoto da nossa aula de Biologia. Eu e Edward ficamos colados na parede pra dar mais espaço á eles.
— Oh, não... – Edward murmurou. — Bella, vá para a secretaria.
Eu olhei pra ele, confusa.
— Confie em mim. Vá!
Eu me virei e sai antes que a porta se fechasse, deixando a enfermaria. Eu podia sentir Edward bem atrás de mim.
— Você realmente me ouviu – ele parecia abismado.
— Eu senti o cheiro de sangue – eu disse, fazendo uma careta. Lee não estava passando mal por causa do cheiro de sangue como eu.
— As pessoa não podem sentir o cheiro de sangue – ele me contradisse.
— Bem, eu posso. É isso que me deixa doente. Tem cheiro de ferrugem e sal.
Ele estava me encarando com uma expressão ilegível.
— O que? – eu perguntei.
— Não é nada.
E então Mike saiu, olhando pra mim e depois pra Edward.
O olhar que ele passou pra Edward confirmou o que Edward havia dito sobre Mike o detestar. Ele olhou de volta pra mim, com olhos mal-humorados.
— Você parece melhor – ele acusou e eu não gostei nadinha do tom dele comigo.
— Mantenha a sua mão no bolso – eu pedi.
— Não está mais sangrando – ele garantiu. — Você vai voltar para a aula?
— De jeito nenhum! Se eu voltar, corro o risco de acabar passando mal novamente e tendo que voltar pra cá.
— É, você está certa... Então, você vai mesmo neste fim de semana pra praia? – Enquanto ele falava, ele deu outra olhada na direção de Edward, que estava inclinado no balcão da Sra. Cope, tão imóvel quanto uma escultura, olhando para o nada.
— Eu disse que iria, não disse? Então sim, eu vou!
— Ótimo! Então, nós vamos nos encontrar na loja do meu pai, ás dez. – Os olhos dele foram parar em Edward novamente, pensando se ele estava dando informação demais. A linguagem corporal que ele usou, deixou bem claro que não era um convite aberto pra outras pessoas – ou melhor, pra Edward.
— Eu estarei lá – prometi.
— Então eu te vejo na aula de Educação Física – ele disse, se movendo devagar até a porta.
— Até depois – eu disse. Ele olhou pra mim de novo, deu um meio sorriso e então, enquanto ele passava vagarosamente pela porta, seus ombros caíram e uma onda de simpatia passou pelo meu corpo. Eu pensei em como seria ver seu rosto triste novamente na aula de Educação Física.
— Oh, não! Educação Física – eu gemi.
— Eu acho que posso cuidar disso – eu não percebi que Edward havia se aproximado de mim. — Vá se sentar e fique pálida – ele cochichou no meu ouvido. A proximidade de sua voz fez com que um arrepio passasse por meu corpo.
Eu sentei em uma das cadeiras e descansei a cabeça na parede com meus olhos fechados. Crises de enjoos sempre me deixavam cansada e esperava que o meu recente show ainda estivesse presente no meu rosto. Eu ouvi Edward falando levemente no balcão.
— Sra. Cope?
— Sim, Edward? – Eu não ouvi ela voltar para a mesa.
— A próxima aula de Bella é Educação física, mas eu não acho que ela esteja bem o suficiente. Na verdade, eu acho que devia levar ela para casa. Você acha que pode liberá-la desta aula? – A voz dele estava muito sedutora. Eu podia imaginar como os olhos dele estavam persuasivos agora.
— Você também precisa ser liberado, Edward? – A Sra. Cope flutuou. Porque eu não podia fazer isto?
— Não, eu tenho aula com a Sra. Goff. Ela não vai se incomodar.
— Ok, então está tudo certo. Melhoras, Bella – ela desejou para mim.
Eu balancei a cabeça fracamente, levantando ela só um pouquinho. Eu me levantei vagarosamente e ainda estava bem.
— Você consegue caminhar ou prefere que eu te carregue de novo? – Ele perguntou quando voltou da recepção, sua expressão estava sarcástica.
— Não, eu posso muito bem andar sem nenhum problema. – Eu sussurrei para que a Sra. Cope não ouvisse.
Ele segurou a porta aberta para mim, com um sorriso educado, mas seus olhos estavam zombando de mim. Eu sai para a névoa fria que estava começando a aparecer no céu enquanto ela limpava o suor da minha testa.
— Obrigada – eu disse olhando pra ele. — Quase vale a pena ficar doente pra perder Educação física. Não que eu não goste, eu gosto, mas também desgosto. – Eu balbuciei bobamente.
— É só pedir – ele olhava diretamente pra frente, mas seus lábios estavam torcidos em um sorriso torto.
Nós estávamos perto do estacionamento agora. Eu fui na direção do meu carro, mas algo agarrou a minha jaqueta e me puxou de volta.
— Onde é que você está indo? – Edward perguntou, enfurecido. Ele estava agarrando a minha jaqueta com o punho inteiro segurando com uma mão.
Eu estava confusa.
— Eu vou para casa.
— Você não me ouviu prometer que te levaria para casa em segurança? Você acha que eu vou te deixar dirigir nessas condições? – A voz dele estava indignada.
— Que condições? Eu estou bem! E a minha caminhonete? – Eu reclamei.
— Eu trago depois da escola. – Ele já estava me arrastando em direção ao seu carro, me puxando pela jaqueta. E eu não tive escolha senão o acompanhar pra não cair de costas no chão. Ele provavelmente ia me arrastar de volta de qualquer jeito mesmo.
— Edward, me solte! – Eu insisti, mas ele me ignorou. — Eu já disse que estou bem!
Eu andei a passos largos na calçada molhada até que chegamos em seu Volvo. Então ele finalmente me libertou.
— Você é muito mandão! – Eu gritei. — Chato e irritante!
— Está aberta. – Foi tudo o que ele respondeu, indo para o lado do motorista.
— Eu estou perfeitamente bem pra dirigir até em casa! – Eu fiquei parada perto do carro, fumegando de indignação. A garoa havia parado, então eu não corria o risco de ficar encharcada. Ele abaixou o vidro automático e se inclinou no banco.
— Entre no carro, Bella.
Eu não respondi. Eu estava calculando as minhas chances de alcançar a minha caminhonete antes que ele me pegasse. Eu tenho que admitir, as chances não eram boas.
— Eu vou pegar você de novo – ele ameaçou, adivinhando o meu plano.
Droga. Pensei.
Eu tentei manter toda a dignidade que pude ao entrar no carro. Mas não tive muito sucesso... Eu me sentia meio idiota com o meu showzinho. E um pouco estranha estando aqui no carro sozinha com ele.
Ele mexeu nos controles, aumentando o aquecedor e abaixando a música. Enquanto ele saia do estacionamento, eu estava me preparando pra dar a ele o tratamento do silêncio – meu rosto demonstrando claramente as minhas intenções – mas então eu reconheci a música que estava tocando e a minha curiosidade foi além das minhas intenções.
— Clair De Lune? – Eu perguntei, sorrindo. Eu estava surpresa.
Será que era esse o CD que ele disse que estava ouvido antes de me ver quase desmaiando?
— Você conhece Debussy? – Ele também estava surpreso.
— Bem, não muito – eu admiti. – A minha mãe toca muita música clássica em casa. Eu só conheço as minhas favoritas.
— Essa é uma das minhas favoritas também – ele olhou para a garoa que havia retornado com mais força, perdido em pensamentos.
Eu escutei a música, relaxando no couro escuro do banco. Era impossível não responder a melodia familiar e tranquilizadora. Eu não pude evitar de sorrir lembrando de mamãe.
Oh, como eu sentia a falta dela...
A chuva transformou tudo lá fora em uma névoa cinza e verde. Eu comecei a perceber que estávamos indo rápido demais; apesar disso, o carro se movia com tanta uniformidade e calma que eu nem sentia a velocidade. Somente a cidade passando rápido me fazia reparar.
— Como é a sua mãe? – Ele perguntou de repente.
Eu olhei pra ele e ele estava me observando com olhos curiosos.
— Ela se parece muito comigo – eu comecei. — Eu tenho muito do meu pai na minha personalidade, mas fisicamente eu e mamãe somos muito parecidas.
Ele parou o carro e eu me dei conta de que já estávamos em casa. A chuva estava tão forte que eu mal conseguia ver a minha casa direito. Era como se o carro estivesse dentro de um rio.
— E porque sua mãe se casou com Phil?
Eu estava surpresa que ele ainda lembrasse o nome dele. Eu só o mencionei uma vez, há quase dois meses atrás. Eu levei algum tempo para responder, pensando em como explicar.
— Minha mãe é muito jovem para a idade dela. E eu acho que Phil a faz se sentir ainda mais jovem. E de qualquer forma, ela é louca por ele. – Eu balancei a minha cabeça e depois sorri. A atração deles era um mistério para mim.
— E você aprova? – Ele perguntou.
— Isso importa? – Eu apontei. — Eu quero que ela seja feliz.
— Isso é muito generoso, eu imagino – ele refletiu.
— O quê?
— Se ela estenderia a mesma cortesia pra você, não acha? Não importa qual seja a sua escolha? – De repente ele estava atento, seus olhos procurando os meus e eu não consegui desviar o olhar.
— E-eu acho que sim – Eu gaguejei. – Mas ela é a minha mãe. Ela sabe o que é melhor pra mim.
— Nada muito assustador então – ele brincou.
Eu fiquei confusa com a resposta dele.
— O que você quer dizer com assustador? Tipo, piercings e várias tatuagens pelo corpo?
— É uma definição, eu acho. – Ele deu um meio sorriso.
— E qual é a sua definição?
Mas ele ignorou a minha pergunta e me fez outra.
— Você acha que eu possa ser assustador? – Ele ergueu uma sobrancelha e a leve sombra de um sorriso iluminou seu rosto.
Eu pensei por um momento, confusa com a sua pergunta e refletindo se seria melhor falar a verdade ou mentir. Eu decidi que seria melhor dizer a verdade.
— Hmmmm... eu acho que você poderia ser, se você quisesse.
— E você está com medo de mim agora? – O sorriso desapareceu e seu rosto celestial estava sério novamente.
— Não – eu respondi rápido demais e o sorriso reapareceu.
Eu não sabia mais o que falar, então apenas fiquei refletindo suas perguntas e respostas. Quanto mais eu tentava entende-lo, mas complicado ficava decifrar seus enigmas. Agora, aqui, sentada em seu carro depois de falar muito de mim, de repente bateu a curiosidade de saber mais sobre sua família. A gente só falava de mim e se começaríamos a ser amigos, porque não saber mais? Esse era o tipo de coisa que amigos compartilhavam, não era?
— Então, agora você vai me falar mais sobre a sua família? – Eu perguntei pra distraí-lo. — Já falamos muito sobre mim, agora é a sua vez de me falar algo sobre você.
Ele estava instantaneamente cauteloso.
— O que você quer saber?
— Os Cullen te adotaram mesmo? – Eu verifiquei.
— Sim.
Eu hesitei por um momento.
— E o que aconteceu com seus pais? Mas você não precisa falar se for algo que te deixe triste.
— Eles morreram há muitos anos atrás. – O tom dele era decisivo.
— Eu sinto muito – eu tentei confortar.
— Na verdade eu não lembro muito deles claramente. Carlisle e Esme já são os meus pais a muito tempo.
— E você os ama muito. – Não era uma pergunta. Era óbvio pela maneira como ele falava deles.
— Sim. – Ele sorriu. — Eu não poderia imaginar duas pessoas melhores.
Eu sorri.
— Você tem muita sorte.
— Eu sei que tenho.
— E seus irmãos?
Ele deu uma olhada no relógio do painel.
— Meus irmãos, por falar neles, vão ficar muito bravos se tiverem que ficarem na chuva esperando por mim.
— Oh, é verdade, me desculpe. Você tem que ir.
— E provavelmente você quer o seu carro aqui antes que seu pai chegue em casa, assim você não terá que explicar sobre o acidente na aula de Biologia. – Ele sorriu para mim com um brilho nos olhos.
Eu ri.
— Eu tenho certeza que ele já sabe. Não existem segredos em Forks. – Eu ri de novo e balancei a cabeça.
Ele sorriu, mas havia algo mais neste sorriso.
— E antes que eu me esqueça... – Eu procurei a minha chave dentro da mochila. — Você precisará dela. – Eu entreguei a minha chave para ele. Ele pegou a chave sem encostar a mão na minha e colocou ela dentro do seu bolso do casaco.
— Se divirta na praia... ótimo clima para um banho de sol. – Ele olhou para a chuva caindo do lado de fora.
— Você não estará na escola amanhã? – Eu perguntei curiosamente.
— Não. Emmett e eu vamos começar o fim de semana mais cedo.
— E o que vocês vão fazer?
De novo, uma amiga podia perguntar isso, não podia?
— Nós vamos fazer uma caminhada na Selva de Pedra da Cabra, no Sul de Rainier.
Eu lembrei que papai havia comentado que os Cullen iam acampar frequentemente.
— Parece legal pra quem gosta de caminhar. Se divirtam. – Um sorriso estava brincando nos cantos dos lábios dele.
— E será que você poderia me fazer uma coisa este fim de semana?
Ele se virou pra me olhar diretamente nos olhos, utilizando todo o poder dos seus olhos dourados flamejantes. Eu balancei a cabeça desamparadamente.
— Depende do que você vai pedir. – Eu respondi, receosa.
— Não se ofenda, mas você parece ser uma dessas pessoas que atraem acidentes como um imã. Então, por favor, tente não cair no oceano ou ser atingida por algo, está bem? – Ele deu um sorriso torto. O desamparo fugiu enquanto ele falava. Eu encarei ele.
— Eu vou ver o que posso fazer. – E obrigada pela carona – eu disse enquanto saia para a chuva. Eu bati a porta atrás de mim com um pouco mais de força.
Como ele ousa? Eu estava espumando de raiva.
Ele ainda estava sorrindo quando foi embora.
Eu sentei na minha cama depois que troquei de roupa e tentei me concentrar no terceiro capítulo de Macbeth, enquanto tentava ouvir o barulho estrondoso da minha caminhonete. Eu pensei que mesmo com a chuva torrencial que caia, eu poderia ouvir o ronco do motor. Mas quando eu dei uma olhada pela janela – pela segunda vez – a minha caminhonete já estava lá.
Eu rapidamente calcei as minhas botas de veludo e corri escada a baixo pra pegar a minha chave. No processo eu tropecei no tapete embolado no pé da escada e cai com tudo no chão. Eu praguejei, quase me amaldiçoando pela falta de jeito quando me levantei e continuei em disparada pela porta. Eu rapidamente destranquei a porta e corri pra fora, tomando o maior cuidado pra não escorregar no processo. A chuva me molhou inteirinha, mas eu não ligava. Abri a porta da picape e lá dentro estava a chave em cima do banco, com um pedaço de papel branco dobrado por baixo dela.
Surpresa e muito curiosa, eu entrei dentro da picape e me sentei no banco pra poder ler o papel sem que a chuva o molhasse inteiro e eu perdesse o que quer que estivesse escrito. Peguei minha chave junto com o papel e o abril.
E nele, com uma letra bem elegante, estava escrito:
"Cuide-se, Bella". Seu amigo, Edward.
Eu sorri bobamente, suspirando em seguida.
Eu balancei a cabeça pra evaporar os pensamentos e sai da picape, trancando a porta e correndo pra dentro de casa. E assim que eu entrei em casa e tranquei a porta, corri pro meu quarto. Li o papel pela quarta vez e depois o guardei em uma caixa bonitinha que estava debaixo da minha cama.
Sentindo um pouco de frio por ter me molhado, eu rapidamente peguei as minhas coisas e corri pra tomar um banho bem quente. Devidamente vestida com roupas quentes, voltei pro meu dever de casa, enquanto esperava que papai chegasse em casa.
— A Sra. Cope me ligou e disse o que aconteceu. – Papai comentou quando chegou em casa.
— Pois é. E aposto que amanhã a notícia do meu "showzinho" – eu fiz aspas – já terá se espalhado por toda escola. – Eu fiz uma careta e papai riu.
— Não se preocupe quanto a isto. Logo eles vão esquecer. – Papai piscou e depois beijou a minha testa. — Estou feliz que esteja bem. E você agradeceu ao Edward por ter te trazido para casa? A Sra. Cope mencionou essa parte também.
— Oh, sim. Eu lhe agradeci e ele também fez a gentileza de trazer a minha caminhonete, já que ele me deu uma carona no carro dele.
— Carona, é? Vocês dois sozinhos, hein? — Ele questionou, me observando atentamente.
Eu fiz uma careta.
— Pai – eu gemi. — Só foi uma carona inofensiva. Edward é muito respeitoso, acredite. E além do mais, somos apenas amigos e parceiros de laboratório. Não tem nada mais que isso.
Será que não mesmo? Eu pensei e as palavras de Edward ecoou na minha cabeça novamente.
"Eu estou cansado de tentar ficar longe de você, Bella".
Eu balancei a cabeça pra dissipar esses pensamentos. Sei lá, eu tinha as minhas dúvidas...
— Já gosto desse garoto então.
Fale com o autor