Sob o Luar
1 Luar, o que trazes pra mim?
Notas iniciais
Estava sentada jogando um joguinho qualquer no celular, o Granny’s estava parado hoje, só de manhã que foi um pouco agitado mas agora à tarde estava deserto então havia arrumado tudo, preparado as coisas para serem usadas amanhã por que hoje a noite eu não estaria presente e nem minha avó.
Dei um sorriso após conseguir marcar um ponto no jogo e me dediquei à ele e eis que aparece um cliente, me levantei sorrindo e o atendi. Pediu donuts de morango e chocolate quente, entreguei à ele. Donuts fazem um sucesso nessa cidade e Henry deve ser o maior consumidor daqui!
Dessa vez fiquei debruçada no balcão e peguei algumas balas para chupar, depois de perder várias vezes saí do jogo e entrei na pasta de fotos, tinha várias com diversificadas pessoas, sempre fui viciada em fotos e sempre tive o dom de sair bela mesmo até fazendo caretas. Tenho com a Snow, Emma, Henry, David, Whale...estávamos dando um selinho nessa foto, Graham, Granny, Archie, Belle, Ashley, Blue, Leroy...mesmo parecendo impossível e Regina...que tirei escondida.
Mesmo com tantos amigos me sentia sozinha, de que adianta a amizade se não tem família, não tenho meu clã, é doloroso todos esses anos ter vivido sozinha, tudo, todas as transformações, uivos, corridas... E nunca pensei que diria isso...mas...todos os meses de cio...me culpava por antes odiar isso, aqueles belos homens lupinos encorpados à disputarem entre si quem ficaria comigo, mas que se tornava em vão pois minha mãe nunca me entregaria à um guerreiro só por que era experiente em combate, quem diria que eu iria sentir falta!
Todos esses anos solitária me ensinaram algo, que as pessoas são a única chave para te salvar da solidão, por isso ainda espero e aguento essa dor que só intensifica a medida que escurece nos dias de lua cheia e onde estão todos os amigos?! Ocupados com seus deveres e famílias. Não segurei as lágrimas deixei que elas escorressem e levassem minha família que não passava de lembranças e pensamentos escuros, não vou mais esconde-las, elas são as únicas que me entendem e as que sempre estiveram comigo.
Guardei o celular e as observei molharem o balcão, não tinha forças para as impedi-las, talvez nem quisesse, nem elas eram capazes de amenizar o que sinto, na verdade era momentâneo, logo depois elas voltariam novamente dolorosas, agora os soluços já preenchiam o local e eu estava cada vez mais afundada nelas. Me envolvi por completo que nem percebi os pares de olhos amendoados de uma cliente que me encarava preocupada.
—Esta tudo bem moça? —Pergunta me avaliando. Demoro para voltar à mim e perceber o que acontecia.
—...Estou sim...—Minha voz era falha e trêmula.
—Vim pagar o que devia. —Me deu uma nota de vinte dólares, apenas peguei nem me lembrava da conta. Ela ficou mais um pouco me encarando com ternura e delicadeza, como não me importei, agradeceu e seguiu seu rumo pelas ruas. Já estava anoitecendo então recolhi as mesas de fora, guardei as coisas, peguei a chave trancando a porta e o portãozinho, e rumei para o hospital ir ver minha a avó. Estava no médico por que se queimou com azeite quente, passei rápido por Whale que estava ocupado e segui para o quarto indicado na mensagem, entrei e sorri ao vê-la.
—Vó! —Corri até lá e a abracei, ela não pode retribuir pelo braço machucado, deixei o aperto e fui olhar a queimadura, estava feia mas um pouco melhor, a beijei no impulso.
—Tudo bem Ruby? —Não precisava dizer, ela me conhecia, apenas desabei em seu colo com minhas companheiras molhando-a. Me apertou com o braço bom enquanto acariciava meus cabelos, não tinha o que falar todos esses anos era meu abrigo, já conhecia suas palavras mas não a culpava, ficamos em silêncio não totalmente por conta de meu choro.
—Vá querida, você tem um encontro com a lua. —Me disse um tempo depois secando minhas lágrimas.
—Ficará bem? —Retornei e assentiu.
—Qualquer coisa mando David para procura-la. —Concordei me despedindo e sai voltando para casa.
Joguei minha bolsa, botas e chaves no canto e me olhei no espelho, meus olhos vermelhos por conta das duas ondas de choro e ainda mais vivos e o amarelo tornando os esverdeado imperceptíveis, meu nariz todo enrugado e o faro mais aguçado, meus dentes principalmente os caninos estão maiores, minha língua bem mais grande, minhas orelhas mais pontudas, finas e um pouco peludas e por último minha pele coberta por uma camada de pelos de coloração cinzenta.
Saí de frente do objeto espirrando por conta dos indícios de perfume de minhas roupas, logo me livrei delas e relutante entrei no banheiro iniciando um banho apenas com sabão, nada com aroma. Terminei me secando minimamente, vesti uma camiseta de malha até um pouco abaixo dos seios e um mini shorts folgado do mesmo tecido, preferia roupas leves para as transformações.
Saí descalça mesmo, já estava acostumada com aquelas florestas, cruzei a cidade seguindo para a mata e logo senti o barro grudar nos meus pés havia chovido ontem e hoje nublado, então o solo ainda estava molhado, respirando fundo o cheiro da terra e o orvalho fresco, como eu agradecia por ter isto aqui na cidade, não seria nada sem um pedaço da natureza para contemplar.
Antes eu vivia sossegada mas depois que a maldição foi quebrada tudo voltou como uma bomba, me sentia só mas pelo menos não tinha a lembrança de uma família morta e a consciência do fato de que eu estou realmente sozinha.
Bem adentro da floresta me concentrei em observar o céu negro e suas nuvens tampando a luminosidade da lua por ainda me mantendo humana, esperei calmamente que o momento de vergonha dela acabasse para se mostrar, já acostumei então não ficava mais agitada com a transformação, assim que os dourados de meus olhos se encontraram com os prateados da lua exposta senti as mudanças.
Meu corpo inteiramente dolorido, os ossos a diminuírem de tamanho me forçando para baixo, meus pés e mãos diminuindo e as garras tomando o lugar das unhas, minha parte traseira agora sustentava um rabo, a boca se alargando ficando pontuda junto com o focinho achatado no final e os pelos a cobrir rapidamente minha pele, não pude deixar de soltar um grito de dor mais parecendo um uivo ao final dessa mudança, estava acostumada mas transformações sempre são doloridas afinal trocar de corpo não é nada satisfatório, a sensação de ter seus ossos sendo encolhidos bruscamente, me sentia numa caixa apertada mas obviamente era gostoso, é uma maravilha ser um animal, poder correr e mostrar seus instintos fantásticos.
Meus sentidos se encontravam fascinantes, ouvia os roedores perfeitamente, sentia os cheiros profundos da terra molhada ou dos musgos, os pingos das árvores a cair sobre meus pelos, me sacudi dando pulos altos, dei umas mordidas no ar e afundando as patas no barro sai em disparada, correndo como se não houvesse amanhã.
Não tinha como explicar a vivência maravilhosa do vento batendo com força na sua face arrepiando os pelos, o pulmão a queimar conforme sua velocidade e os reflexos ágeis a desviar dos empecilhos no caminho, fazia isso inúmeras vezes mas era sempre extasiante, cheguei ofegante à parte mais íngreme da montanha, deveria ter uns bons metros lá embaixo e uma queda seria morte na certa.
Me aproximei até a beirada jogando meu corpo numa sentada desleixada, reuni profundamente o som na minha garganta e erguendo o olhar para minha amante vívida na escuridão estrelada, soltei o uivo à romper furiosamente dentro de mim e preencher o céu carregado de dor e angústia...se pelo menos ouvisse os ecos em retorno ficaria feliz...apenas o cantar do grilo, soltei outros e só esse maldito inseto que respondia.
Era sempre assim, uivos solitários de uma fêmea necessitada, nem tudo é um mar de rosas e quando se afunda nele que sente os espinhos, mesmo mil maravilhas minha metamorfose vinha as penalidades, mais precisamente e novamente minhas lembranças, elas são armas mas também escudos, te levantam e também afundam, lembro de toda minha selvageria e agora sou mais calma e contida graças à David, não gosto de lembrar dos meus tempos de frenesi pois logo os pensamentos trágicos me invadem e dentre elas à mais terrível...ter matado e devorado meu namorado.
Lágrimas me possuíam, mesmo eu revivendo esse momento sempre ainda não o arranquei do peito e nem podia...minha última visão dele, seu terror visível e minha imagem faminta refletida em seus olhos!
Também me lembrava completamente de minha mãe, uma bela mulher com seus cabelos castanhos, pose dominante e rodeada pelos machos do clã, ela que me ensinara a aceitar meu lobo, conviver com ele e a controla-lo e em outra tragédia a perdi para defender uma amiga. Levantei-me e pus a continuar andando por entre as árvores, não iria desperdiçar uma noite gostosa e bela com tristeza, caminhei por toda a extensão do arvoredo, pisava com a ponta dos dedos, inclusivamente não perdi minha graciosidade e não estava preocupada em rastrear algo...apenas andar.
Conforme eu andava observava o cenário, confesso que tenho medo oculto de ficar aqui à noite mas sou uma loba e não tenho predadores, não mais. Ando mais um pouco e observo algo entre os matos, fiquei intrigada e decidi-me aproximar, fui à passos lentos até lá e quando cheguei fiquei estupefata, era encantador! Uma mulher linda e solitária, seus cabelos de um estilo diferente preto e branco mas não deixava de ser belo, a posição em que estava não me permitia uma visão detalhada, então arrodiei e apareci um pouco mais de frente, percebendo que ela estava de cabeça baixa apoiada em seu colo coberto pelo vestido preto brilhoso que se estendia até seus pés envoltos por um salto vermelho, admito que tem que ter controle para andar com um desses na floresta.
Sentei e fiquei observando-a, era estranho me sentia como se tivesse algo que me puxasse para ela, algo que me dominasse, me controlava, algo que me impedia de sair de perto e não entendi.
Vislumbrei melhor, era deslumbrante e não precisava conhecer seu rosto para provar, eu já estava ficando impaciente estava ali há vários minutos e ainda não havia me encarado nem notado minha presença, depois de um tempo percebo que ela levanta o rosto olhando para o lado oposto do meu e pude ver algo, iluminado pela luz da lua...uma única e solitária lágrima a cair daqueles olhos azuis prateados e tornou a baixar a cabeça, fiquei preocupada, o que será que havia acontecido? Por quê? Inúmeras perguntas sobre alguém que nem conheço invadiam minha mente e eu sabia o que era, o que os heróis sabem fazer de melhor, ajudar.
Sim!
Estranhamente estava sentindo essa necessidade de ajuda-la. Fiquei extremamente inquieta, parecia que essa mulher fazia parte de minha vida, talvez por que a única pessoa que não me temeu quando me encontrou assim na floresta, precisava pensar em algo para atraí-la, resgata-la de seus pensamentos sombrios, dei uma procurada e encontrei um monte de gravetos, peguei um grande suficiente para caber minha boca e sua mão sem deixa-la enojada e voltei, continuava do mesmo modo.
Uma ansiedade gigante dentro de mim se transformando em algo que me sufocava, precisava se esvair disso que me consumia e subia à garganta, conforme se intensificou passou intensamente por minhas cordas vocais transformado...em um latido?! Ruby você latiu?!
Não pude ficar intrigada com o latido porque em seguida ela ergueu sua cabeça até mim me encarando com curiosidade, não perdi tempo, abocanhei o graveto e me aproximei lentamente depositando-o em cima do banco e voltando a encarando com o rabo abanando lhe transpassando confiança, não que ajudasse, talvez.
Me fitou como quem discordasse do que estava acontecendo, esperei sentada umas meia-hora alguma reação dela, depois desse tempo encarando com negação, bufou e pegou o ramo com semblante enojado, me encarou e jogou um tanto mais longe que me encontrava e logo corri o pegando e voltando até ela que me esperava, devolvi sorrindo mentalmente.
Pegou novamente e tornou a joga-lo, ficamos assim por vários minutos e percebi que melhorou sua feição, fiquei feliz por ter conseguido tira-la de seus pensamentos e agora eu ocupava seus devaneios, foi satisfatório! O que ela mandava eu fazia, deitar, sentar, rolar e dar a patinha, nesse último fiquei mais receosa e o fiz um pouco amedrontada, mas logo fui surpreendida por ela me virar e tive minha barriga acariciada freneticamente por suas mãos agora sem as luvas mas com o tilintar das jóias, fiquei a mordendo de leve enquanto via os lábios vermelhos se contorcer em um quase nulo sorriso e após uma risada seca, achei magnífico e me deixei a observa-la e admira-la, esplêndida porém, exótica.
A madame se levantou saindo do banco mas adentrou mais a floresta, talvez não fosse embora, corri para alcança-la e a segui prontamente, estava indo em direção do lago, em minha licantropia odeio água. Assim que chegará continuadamente já seguia retirando a roupa, a linda e grossa pele já descia por seus ombros e fazia um amontoado sob as pedras, logo seus pés livres do saltos, acredito que devem estar doloridos, quando seu vestido preto brilhoso desceu por suas curvas medianas fiquei descrente, não poderia estar sentindo algo por uma...mulher...desconhecida!
Quis me retirar dali mas meu corpo não me seguia, ele estava vidrado à ela então só me restava contemplar aquele corpo que agora se banhava tranquilamente sentada nas pedras e com o luar a reluzi-la, me aproximei instintivamente me abaixando até o chão com o rabo entre as pernas e dando lambidas em sua mão, comportamento lupino de submissão e ela reconhecia pois me fixou com olhar dominador.
Fiquei observando na beirada, péssima ideia, fui puxada abruptamente para dentro, fiquei desesperada, não sabia nadar e quando eu ia afundar braços femininos me seguraram e gesticularam movimentos para que eu repetisse e me dando conta, estava nadando normalmente, fomos até a outra metade, a água estava fria mas gostosa.
Depois de um tempo nos retiramos e fiquei fitando o corpo ser coberto lentamente, voltamos para onde estávamos, ela tornou a se sentar e subi me deitando em seu colo e prontamente fui acariciada, estava claramente feliz e me sentindo protegida, revigorada e com o vazio em meu peito preenchido. Era uma desconhecida mas não senti medo, senti...amizade, talvez, mas precisamente companheirismo em mais uma das solitárias noites de lua cheia, adormeci contente e exausta.
O sol quente a passear pelos meus pelos, os pássaros a cantarem e as nuvens me abandonaram naquele banco, levantei e fui para a sombra só então percebendo que estava sozinha, nenhum rastro da mulher que antes me acompanhava. Saí em disparada para a cidade á sua procura, com aquele medo de não encontra-la e o aperto crescente no coração, não sei, conforme corria o cansaço e a dor emocional se transformando em uma só coisa me impedindo de continuar.
Sentimento de culpa e perda me assolavam...se pelo menos tivesse me despedido, se pelo menos ela conhecesse minha verdadeira forma, tudo que senti quando perdi meu namorado voltaram intensamente e as lágrimas já desciam silenciosas, não sabia o que fazer então apenas me recolhi em casa, ignorei a capa vermelha sobre a cama, minha dor era lupina.
Então é isso? Estarei novamente sozinha e agora terei outra lembrança para me condenar!
Fale com o autor