Sob o Luar
8 07 — Epílogo
Notas iniciais
Ernst morreu a primeira vez com três anos. Algum tipo de hemorragia interna depois de uma surra, meio que os homens na casa de seu tio arranjaram para fazê-lo falar. Acusado injustamente de traição, Heiss não pôde fazer nada além de assistir o sobrinho sendo surrado até a morte.
Ernst morreu a segunda vez com cinco anos, com uma flecha atravessando-lhe o peito. Obra de um assassino contratado para matar o rei e errara o golpe, ele ouvira falar. O garoto estava brincando no jardim quanto aconteceu.
Ernst foi envenenado com oito anos. Mais uma vez um ataque contra o rei. Um veneno bem escolhido foi posto no jantar daquela noite, e quando alguém percebeu que algo estava errado, já era tarde demais para salvá-lo. Somente Eruca saiu viva.
Com nove, foi jogado da varanda do quinto andar do castelo. Ele e a irmã mais nova brincavam, e por um acidente, um empurrão foi o suficiente para fazê-lo cair e deixar a irmã chorando copiosamente depois. Foi apenas um acidente, ela continuava repetindo aos pais.
Com onze, o castelo foi atacado mais uma vez e seu corpo foi reduzido a chamas. Doze, e dessa vez ele corria pelo jardim, gritando enquanto as chamas em seu corpo eram a única coisa que podiam iluminar seu caminho.
Vinte, e dessa vez sua vida foi tirada quatro vezes em sua primeira batalha após receber a White Chronicle. Uma tentativa de salvar os amigos. Acabou recebendo um ferimento no abdômen, e quando finalmente conseguiu voltar no tempo e deixá-los vivos novamente, ele havia perdido sangue o suficiente e fora demais para aguentar.
Stocke morre por uma flecha novamente, tentando proteger um informante que lhe fora designado para proteger. Morre por uma explosão na Alma Mines. Soterrado.
Um ataque de Granorg contra a Sand Fortress. Tentando proteger Kiel. Trinta anos, desmaia por usar muito de sua força ao voltar no tempo para tentar mudar a história mais uma vez.
Ernst morre com catorze anos, e Lippti e Teo não fazem nada. Teo estava preocupado demais tentando encontrar forças para continuar e recomeçar aquilo tudo mais uma vez.
Stocke morreu outra vez com vinte e cinco anos, esfaqueado por suas próprias mãos.
Bastou um único golpe para que Teo impedisse Stocke de abrir a porta.
Ele viu o homem paralisar por um momento. Viu-o parecer confuso, e quando ele tentou se virar, Teo fez questão de enterrar a lâmina ainda mais fundo contra sua pele. Stocke caiu próximo a porta, jogado aos seus pés. Ouviu Lippti sussurrar alguma coisa. Quando sentiu sua mão ser apertada pela irmã, foi quando ele parou e se permitiu desviar o olhar.
— Essa... — Ele ouviu Lippti começar, aproximando-se um pouco mais de Teo. Em pouco tempo, seu braço havia sido tomado pelo corpo assustado da irmã. Ela tremia, ele pôde notar. — É realmente a melhor coisa a se fazer...?
— Espero que seja — murmurou Teo em resposta, a voz baixa. — Ele provavelmente iria tentar de novo mesmo com nossos avisos.
— Sim, mas... Talvez ele pudesse parar se tivéssemos feito algo... Ele poderia entender como estávamos nos sentindo, ele...
— Não, Lippti. Ele estava completamente cego pelos próprios sentimentos. Não havia mais nada a ser feito.
A menina se calou mais uma vez. Estava tremendo, assustada e com medo de olhar para a poça de sangue que provavelmente manchava o seu vestido e os seus pés, mas em algum lugar dentro de si, ela podia ver o ponto que Teo estava tentando lhe mostrar.
Stocke provavelmente nunca pararia. Stocke provavelmente nunca consideraria que Teo e Lippti estavam sofrendo com aquilo tanto quanto ele, sempre tentando fazê-lo ter a plena certeza de que já não havia mais nada a ser feito para salvar sua relação, e muito menos Rosch. No fim, os dois apenas teriam que observá-lo tentar de novo e de novo, até que ele morresse tentando ou o próprio Teo tentasse fazer alguma coisa sobre o assunto.
E agora, ele havia feito. Teo havia feito, e ela estava aterrorizada demais para olhar o resultado.
— Devíamos limpar a bagunça antes de voltar e tentar de novo? — Teo perguntou, sem desviar os olhos do que fizera.
— Eu... Prefiro não olhar por enquanto — respondeu apenas. — Estou cansada.
— Não está sozinha nisso — ele quase riu. Houve apenas um sorriso ao invés do riso de fato. — Mas temos que voltar e recomeçar de novo. Pelo bem do mundo. Pelo nosso bem.
Limitou-se a assentir. Deixou que o irmão a guiasse, descendendo as escadas na frente dela. A cada vez que ele pisava em um degrau, Lippti podia ver uma mancha de sangue ser deixada no chão, e ela se perguntou se também estaria deixando manchas ao caminhar.
Teo parou por um momento na plataforma, agora pegando a maior das escadas que havia ali. No topo, podia ver a construção flutuante com as portas fechadas, quase como se esperasse pelo regresso deles. Quem sabe aquele mundo distorcido não estivesse feliz por estarem voltando a subir aquelas mesmas escadas e recomeçar?
Por um momento, sentiu o aperto nas mãos de Lippti cessar, e ela quase se viu livre dos dedos do irmão. Ela quase teve a impressão de que Teo estava se sentindo tão irritado com a aparência das portas que os levariam de volta para o começo de tudo quanto ela. Um ódio crescente sobre aquele mundo distorcido, a situação em que se encontravam, talvez até Stocke e do fato de serem os guias de Historia, fadados a recomeçar e guiar o dono da White Chronicle para alcançar seu objetivo.
Mas no fim de tudo, não era como se eles pudessem fazer alguma coisa. Não era como se eles ou Ernst — Stocke — tivessem escolha.
Na realidade, eles nunca tiveram.
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