Sob o Luar
7 06 — Falha
Notas iniciais
Stocke estava se sentindo cansado. Mais cansado do que de costume.
Sim, aquilo era um pouco de cansaço físico porque afinal, havia acabado de participar de uma luta de espadas, mas estava mais se referindo ao cansaço mental do que ao físico. Foi por isso que, assim que se viu na plataforma flutuando que era o seu chão, tratou de encontrar um lugar para pressionar as costas e continuar deixando as lágrimas caírem.
Ele não se sentia sozinho de fato naquele outro mundo que chamava de Historia, mas do mesmo jeito acabou chorando na primeira oportunidade e continuava agora. Afinal, o corpo estava pesado e o peito doía, falhando em conter o turbilhão de pensamentos que tinha agora. Ele achava que, diante da mesma cena, ele não se sentiria assim tão abalado, mas a verdade era que estava cansado e Stocke não queria mais se levantar dali.
Porque aquela não era a primeira vez que tentara salvar Rosch, e estava longe de ser a primeira vez que o via morrer. Utilizando-se da White Chronicle, havia voltado no tempo apenas para impedir
A primeira vez que isso acontecera fora bastante semelhante a essa. O que era diferente foi que ele tinha desacreditado na carta e havia tentado conversar com Rosch sobre o assunto. Convencera-o a sair, e depois de alguma forma estavam lutando.
O próprio Stocke acabara matando-o com suas próprias mãos.
A segunda vez, ele tentou conversar com Rosch assim que voltou. Tentou não acompanhá-lo, tentou fazê-lo ouvir suas palavras, entrou em brigas. Noutra, tentou impedir o ataque. Numa, Rosch foi morto por Raynie, outra por Marco, e a partir de sétima vez que isso aconteceu ele começou a parar de contar.
As viagens no tempo foram tantas que o próprio Stocke começou a se perguntar por que começou a fazê-las, para começo de conversa. Bastava olhar para Rosch, porém, que a resposta a essa pergunta vinha e ele se sentia determinado a tentar novamente. E talvez até agora ele estivesse determinado para tentar novamente.
— Stocke? — Ele sentiu a presença de Lippti antes mesmo de vê-la caminhando em sua direção. Como de costume, Teo estava caminhando ao seu lado, segurando-lhe a mão. — Não vi você chegando.
— Aconteceu alguma coisa, Stocke? — Agora era Teo quem falava. O rapaz, porém, limitou-se a esconder o rosto entre os joelhos. A que ponto ele havia chegado, agora que havia chorado em Historia e não conseguia parar mesmo quando os dois elfos vinham ao seu encontro?
Teo abriu a boca para continuar falando alguma coisa, mas o soluço que involuntariamente deixou os lábios de Stocke foi o suficiente para interrompê-lo. Desejou que eles pudessem perceber logo que ele não queria companhia e sair dali. No momento, Stocke os odiava por estarem tentando fazê-lo desistir de Rosch e seguir como diziam. Odiavam por querer fazer dele uma boa pessoa que o dever devia ser salvar o mundo e os odiava por ter dado aquele ultimato, aquele maldito ultimato que trouxera as lágrimas que há muito já deveriam ter secado. Não deviam vê-lo chorar assim. Não devia, não podia estar chorando, ele...
— Algo deu errado, não foi? — Teo perguntou, a voz soando um pouco mais baixa e suave que de costume.
— Presumo que deve ter falhado novamente nas suas tentativas de salvar Rosch, não foi? — Lippti continuou. Stocke preferiu continuar calado.
— Apesar de esse não ser exatamente o momento certo para dizer isso... — O elfo começou. — Eu realmente espero que você se lembre do nosso ultimato, Stocke.
— Que insensível da parte de vocês — resmungou, finalmente levantando o olhar para exibir o rosto molhado de olhos azuis vermelhos com a maior dignidade que podia juntar. "Ao menos sobrara alguma?"
— Um pouco engraçado você dizer isso agora. — O elfo sorriu. — Mas talvez isso seja bom. Estaríamos sendo apenas justos.
— Certo, podem ser o que quiserem. Eu vou voltar.
— Voltar para onde? — Lippti o encarou. — Ou acha que tentar salvar Rosch a esse ponto vai fazer alguma diferença.
— Vai fazer.
— Você já tentou de tudo até agora, Stocke...
— Vai fazer. — Ele continuou firme.
Os elfos apenas o encararam novamente. Os olhos de Teo pareceram seguir a lágrima solitária caindo por um dos olhos, Stocke pôde notar.
— Olha, eu sou o dono da White Chronicle, não sou? — o loiro perguntou. — Pelo o que eu saiba, eu posso fazer o que eu quiser com ela. E vocês não deveriam interferir.
— Realmente, não deveríamos. No entanto, a situação está saindo do nosso controle. E do seu também.
— Então que ela saia do controle! — A voz de Stocke aumentou de tom. Ele estava alterado. Ele estava alterado, e Stocke não tinha certeza se alguma vez já ficara dessa maneira antes. — Vocês continuam não estando no direito de interferir!
— Stocke... — murmurou Teo dessa vez. Lippti permaneceu com a expressão impassível. — Stocke, estamos interferindo pelo seu bem.
— Você sabe por quanto tempo esteve tentando, Stocke? — Lippti não lhe deu chances de continuar. — Está tentando há quase três anos, Stocke. Voltando de novo e de novo no mesmo lugar, para fazer as mesmas coisas e ver a mesma cena.
— Acha também que iríamos ficar parados vendo você sofrer durante todos esse tempo? Se pudéssemos, teríamos feito alguma coisa, te indicado um novo caminho. — Stocke sabia que aquilo era verdade. — Teríamos, e até tentamos para que as coisas ficassem do jeito que queria, Stocke. — Ele sabia que aquilo tudo era verdade talvez fosse por isso que o peito doía tanto.
Por que, então, uma parte grande demais dele continuava se recusando a acreditar que não teria mais nenhum meio de consertar as coisas? Ele tinha um poder único em mãos. Ele poderia reescrever a história. Poderia moldá-la como desejasse, dependendo de suas escolhas. Enquanto Stocke tivesse a White Chronicle em mãos, ele não pararia de tentar.
Foi por isso que mesmo com o rosto repleto de lágrimas e o peito doendo com alguma coisa que ele não poderia identificar, Stocke se levantou. Foi por ainda existir uma pequena chama de esperança dentro de si que ele escolheu continuar, passando por Lippti e Teo. Mesmo sem a ajuda deles, Stocke ainda tinha conhecimento o bastante para voltar por ele mesmo.
— Stocke, por favor — A voz de Lippti o chamou novamente. Ele não virou a cabeça, mas ouviu os passos dela e do irmão seguindo os seus, ecoando pelo lugar. — Stocke!
Ele decidiu parar de ouvir assim que ouviu o terceiro chamado. Ele não iria parar para conversar com os elfos. Ele não iria porque ele suspeitava que mais um momento na presença deles o faria fazer alguma coisa que provavelmente não devia, então apenas continuou.
O som de seus passos caminhando sozinhos pelas plataformas flutuantes ecoaram novamente. Teriam Lippti e Teo desistido de segui-lo?
Continuou caminhando. Encontrou uma das escadas, e seguiu por ela, parando apenas quando encontrou a porta desejada. Branca, feita de madeira, e com a maçaneta num tom de vermelho que lembrava muito as vestes de Stocke.
Tocou a maçaneta, e hesitou. Assim que voltasse, ele teria que ter a conversa com Rosch novamente, e desde lá, gastar os seus outros meses para tentar
O sorriso cruzou-lhe o rosto quando ele--
Ele ouviu um som. Algo que lembrava muito como uma faca cortando carne.
Pareceu estranho perceber que aquele som veio de seu próprio corpo.
No momento seguinte, a dor o atingiu. Dor, calor, e talvez mais alguma coisa que ele apenas podia identificar como agonia ao perceber que a lâmina estava sendo pressionada com força contra sua carne, tirando dele o máximo de dor possível, o que era tremendamente angustiante de se pensar.
Finalmente, o cérebro pareceu assimilar o que estava acontecendo. Ele quis gritar. Ele até tentou abrir a boca, mas tudo o que saiu dela foi um gemido estrangulado. Stocke apenas podia dizer que ele havia sido atingido pelas costas, e que sua mente estava sendo envolta em névoa rapidamente. Não conseguia pensar direito.
A lâmina foi pressionada ainda mais contra seu corpo, e novamente, o som de antes pode ser ouvido e suas forças haviam sido completamente drenadas do corpo. Stocke caiu no chão.
Ele pôde o seu agressor por apenas um instante. A figura de Teo o encarava, ao lado de Lippti, um reconhecimento que breve que ele pôde ter por apenas um momento. Quando olhou para eles e percebeu que o sangue estava deixando o corpo com velocidade cada vez maior, Stocke não sentiu nada. Nem raiva, nem medo, nem tristeza, nem remorso e muito menos a determinação que enchera o seu corpo antes, dando-lhe forças para continuar caminhando.
Ele apenas pôde encarar o par de elfos antes de perder a consciência.
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