Sob o Hemisfério
3 Capítulo Três
Os sapatos de Javier eram como dois diamantes lustrados, perfeitamente encaixados sob medida nos pés de joanetes e unhas encravadas. Um pouco acima, a calça de alfaiataria cor de grafite, um cinto tendencioso vindo diretamente da Brioni, e o terno azul marinho com um guardanapo dobrado detalhadamente no bolso esquerdo. O relógio no pulso não parecia funcionar, mas parecia custar bons alugueis do meu kitnet, e cogitei pegá-lo emprestado para nunca mais devolver quando não estivessem olhando.
— The New York Times não é lá essas coisas, The Sun o desbancou como o jornal mais popular da América. Temos notícias sobre famosos, tempo, política, e a cereja do bolo, uma declarada opinião republicana. — Ele disse, batucando os dedos longos e tortos no seu copo de whisky. — Não devemos seguir adiante se a única vantagem é ter uma redação sua no rodapé. Precisa sonhar alto para alcançar o topo.
John anuiu sem precedentes e levou a taça de Martini aos lábios, bebendo um grande gole e buscando pela azeitona que restara do coquetel.
— Está tentando me convencer de que o TNT não é a melhor opção? Estou começando a achar que não me quer fora do Chicago Tribune agora que o Dalamar ficará em meu lugar.
Javier e ele riu, balançando a cabeça negativamente.
— Vamos Jones, achei que fosse esperto. Precisamos de você conosco, não sendo só mais um a se candidatar para aquele principado de jornalistas egocêntricos de Nova Iorque. Será importante, necessário, lhe daremos um aumento significativo para que compre uma casa à beira mar e nunca mais pense em sair de Chicago.
Suplicou em uma entonação calma, elegante, mas que demonstrava a necessidade de ter John com eles, redigindo matérias importantes para o estado. O homem de cavanhaque e aquelas roupas tão excêntricas para alguém como eu, estava disposto a fazer o possível para que seu melhor amigo não fosse embora e o jornal que dirige não voltasse ao limbo de onde saiu pela falta do redator principal.
Mesmo que isso significasse rasgar o pedido de demissão diante de seus olhos e se auto convidar para o nosso jantar de noivado.
— Tenho certeza que Cecília já está ansiosa para comprar grandes marcas, Lúcia é uma cliente assídua da Sephora. Podem ir às compras juntas enquanto trabalhamos, ninguém ficará de fora.
Os dedos de Jones se pressionaram em minha cintura, e eu mordi a ponta da língua, entendendo o pedido silencioso para que eu não me rendesse ao machismo velado daquela frase. Não era a primeira vez que Javier incentivava uma narrativa de dependência financeira, e não seria o último encontro que eu discutiria com John sobre como todos os seus conhecidos o influenciavam da mesma maneira, exigindo entrelinhas que eu fosse algum tipo de esposa troféu, sentada com bolsas Gucci, saltos da Prada e camisolas da Versace, aguardando meu marido rico voltar do trabalho para fazermos amor e vivermos felizes com um contrato de casório em que somente um dos lados redige ordens. Desde que passou a cogitar essa ideia a pauta tornou-se sensível, um assunto proibido que queríamos evitar.
Abri um sorriso gentil, me aproximando ainda mais de John e acariciando com ternura seu peito, ajustando o paletó com a graça de uma esposa carinhosa.
— Claro, será um prazer, chamarei Lúcia da próxima vez, ela irá adorar nosso novo instrutor de yoga.
Dito isso, beijei a bochecha de John e me afastei, não sem antes escutar um “o que isso significa?” vindo de Javier. Segurei a barra do vestido de cetim verde musgo ajustado em minha silhueta com uma fenda considerável em uma das coxas. O primeiro e talvez o único escolhido por mim após tantos anos participando de eventos familiares com a família de John. Mesmo que eu odiasse cumprir ordens desde criança, havia se tornado comum que eu não discutisse com os Jones sobre o que me era pré estabelecido. “Coma isso”, “vista isso”, “não diga isso”, “sorria mais”, ditando meus passos e moldando meus trejeitos ao que eles queriam, e não ao que eu desejava.
Exaustivo, porém de certa forma eu não precisava pensar demais e nem ponderar sobre o que eles esperariam de mim como esposa.
Encontrei com Carla em meio aos demais roubando alguns petiscos da mesa do buffet enquanto balançava a cabeça no ritmo de uma música latina que tocava há alguns metros dalí. Ela sorriu com a boca cheia e não pude deixar de achar adorável como Carla Jones parecia ser a mais normal daquela família.
— Pensei que não a veria. — Ela disse com o guardanapo diante da boca, seu vestido preto com decote de coração combinando petulantemente com os all star's plataforma cor de rosa.
— É meu noivado, achou que eu perderia esse incrível evento de elite que mais parece uma cena do LeBol?
Carla riu, concordando com um aceno.
— Mamãe se superou, não chegou nem perto de fazer algo parecido quando Alice se casou. — Ela apontou discretamente na direção de uma das mesas do gramado, onde os tios e primos de John, família e a tal da Alice estavam sentados. — Veja só, faz mais de uma hora que a Tia Floretta está olhando com a cara mais feia possível para Gertrudes que não para de falar sobre como a festa está linda. Se daqui não sair a maior briga da família, direi aos meus sobrinhos que foi o pior noivado que já participei.
Soltei o ar com bom humor pelas narinas, observando as pessoas citadas, atenta a como os parentes de Carla e John eram bem diferentes da minha pequena família. Eles, por sua vez, reunidos em uma só mesa do lado oposto do jardim, bebericavam seus drinks e davam risada de alguma piada que Danny havia contado, ou de alguma experiência de vida radical que meu tio Roberto passou enquanto morava no Brasil. Maíra em seu macacão de alfaiataria bege, Danny banhado e com a barba feita, Roberto com camisa havaiana e bermuda praiana, e, logo ao lado, vovó Heather habitualmente calada, mas com um sorriso pequeno e enrugado em seus lábios de batom vermelho. Distante mas presente, o que indicava que, bem lá no fundo, ela estava feliz por ver sua única neta se casando.
Desde que Eric se foi, a vovó Heather se tornou reclusa, até que as únicas notícias que tínhamos dela eram de seus vizinhos e do gerente da pousada na Costa Rica, para onde ela se mudou repentinamente sem que ninguém soubesse. Danny, na época aquele que cuidava das contas de casa, deparou-se com os cômodos vazios, com exceção de seu quarto intocado e da torradeira abandonada no meio da cozinha, deixada para trás como o restante da família que Heather preferiu não manter contato. O luto havia afetado a todos, mas para a mãe de Eric havia sido como morrer junto ao filho, a alma apodrecendo há sete palmos do chão enquanto seu corpo se tornara um andarilho sem rumo, infeliz e vazio.
A ordem natural da vida é que os pais partam antes dos filhos, mas quando ocorre o oposto, é como morrer aos poucos, gradativamente, dia após dia, sem que haja uma cura para o fim iminente.
O restante da área externa da casa dos Jones era preenchido pelos próprios e boa parte de seus amigos e colegas de elite. Amigos de John, primos, sobrinhos, irmãos, seus respectivos namorados, conhecidos da família, trabalho, e até mesmo alguns membros da imprensa facilmente vistos anotando algo em seus blocos de notas. Pessoas que não conheço e jamais conheceria se não fosse pelo poder aquisitivo e influente na cidade, e que, sem dúvidas alguma, não fariam diferença naquela festa para estarem alí se agradando com Foie Gras e Mini Lagostins.
Peguei uma trufa da bandeja de um dos garçons e agradeci com a boca cheia, dando um joinha para este.
— Você é o castigo divino da família.
A presença alta e robusta atrás de mim alertou-me em um salto, quase me fazendo engasgar com o petisco. Era Sebastian, com sua voz rouca de anos fumando charuto, e o perfume caro que custava bons salários meus residindo no New Orleans East.
— Mas que porra… — Ambos riram, se entreolhando com sua ligação de irmãos.
— A verdade te assusta?
Diminuí os olhos, estalando a língua no céu da boca e projetando o semblante mais emburrado que poderia ter. Seb pareceu achar ainda mais graça.
— Não tanto quanto a sua beleza.
— Touché.
E estendeu o indicador com o polegar erguido em uma arminha, atirando em minha direção e sorrindo um pouco maior do que antes.
— Onde está John? Pensei que o encontraria com você, afinal, não é bem um noivado unilateral.
Seb indagou, sendo o próximo a cemisserar os olhos. — Ou é?
Revirei os meus, não conseguindo conter a breve risada que meus lábios se agradaram em soltar.
— Não quero atrapalhá-lo, falar sobre trabalho não é bem o meu forte. E você? Prefere saber da vida alheia ao invés de fazer companhia a sua esposa?
— Ex-esposa. — Pontuou com o dedo levantado. — Kimi foi ao banheiro com as crianças e está irritada demais comigo para que eu queira me manter por perto. Principalmente agora com o jantar sendo servido, não conseguirei desviar de tantas facas.
Moveu as mãos como se desse golpes de karatê, o que me fez rir genuinamente. Balancei a cabeça, concordando com a fúria de Kimi e o que ela seria capaz de fazer com o pobre Sebastian.
— Muito sábio da sua parte, mas ainda muito cruel. O entretenimento da noite, eu diria.
Ele se dispôs ao meu lado, olhando para os convidados como eu, apontando com os dedos como Carla fizera há alguns minutos atrás. Falando nela, a menina mais nova dos Jones, com seus recém completados 16 anos de idade, estava agora conversando com alguns de seus primos a uma mesa distante, e me questionei sobre o momento exato em que ela nos abandonou.
— Mais do que isso? Só na minha família há uma dúzia de potenciais causadores de conflitos, quase como o Eixo e a Aliança na Segunda Guerra Mundial. Mussolini, Roosevelt — Apontou para cada uma das mesas enquanto ditava seus nomes. — Stalin, Churchill e…
— Não se atreva.
Interrompi, causando uma gargalhada de Sebastian. Também me entreguei ao riso, indignada que ele citaria o inominável.
— Você sempre torna tudo uma aula de história?
Seb deu de ombros, enfiando as mãos nos bolsos de seu casaco, um dos poucos que não se vestiu a caráter, ainda que não deixasse de lado seu âmago elitista.
Aquele homem, o mais velho dos irmãos Jones, era relativamente atraente, e talvez ainda mais depois de seu divórcio, quando passou a resolver problemas sérios e assuntos jurídicos com maturidade. Nos conhecemos entre amigos em comum, porém só trocamos mais de algumas poucas palavras quando fui apresentada como namorada de John há bons anos atrás. Ele tinha cabelos escuros na altura dos ombros, uma barba bem desenhada, um sorriso encantador, e apertou minha mão por mais tempo do que deveria para que eu não conseguisse evitar pensar demais no quanto nossas mãos se encaixam com facilidade.
Uma iniquidade gostosa, proibida, uma adrenalina que percorria meu corpo toda vez que estávamos juntos e me fazia repetir como um mantra que John existia e Kimi era sua atual esposa. Entretanto, desde que a chama gêmea de seu casamento se apagou, me peguei pensando em como Sebastian ficava agradável com os cabelos despretensiosos em um wavy mullet, barba feita, e o olhar tão intenso que eu podia sentir cada centímetro do meu corpo ferver em contrapartida.
— É o meu charme, você sabe.
— Costuma usar com as noivas dos seus irmãos?
Cruzei os braços descontraída, e ao contrário do que imaginei, Sebastian não pareceu desagradado com a constatação. Ele sorriu, aqueles mesmos olhos que perturbavam minha noite encarando os meus sem vacilo.
Escuros, profundos, vivos.
Apaixonados.
— Só com aquelas que ficam deslumbrantes em um vestido verde musgo.
‣
A atmosfera de Near Manholo parecia outra na semana seguinte, com todos apressados e seus uniformes assemelhando-se a vultos através das cortinas. O que antes surpreendia pela calmaria e a paz quase irônica naquela região do país, havia dado espaço a uma série de acontecimentos, como a chegada de novos soldados, pacientes e a volta do pelotão Águia Seis, a equipe de militares especiais que passaram quatro semanas em campo antes de retornarem. De acordo com Nala, uma mulher alta, mulata, e de sorriso deslumbrante em seu jaleco que a anunciava como chefe da equipe, aqueles homens eram os mais aguardados como evidência das consequências da guerra e seus feitos pela segurança nacional. Se voltassem, ainda existiriam fagulhas de esperança, mas se terminassem como combatentes caídos ou os tais “mártires da pátria” — termo usado para se referir aqueles mortos em combate — nada mais poderia ser feito.
Eram os melhores e detinham a responsabilidade de permanecerem vivos como perspectiva de uma batalha de maquete, marionetes de líderes mundiais que observavam tudo de suas poltronas de couro acolchoadas enquanto lutam por eles.
— São a prova de que sairemos daqui vivos e não em caixas de madeira como metade dessa população.
Então Nala Swahili finalizou, se juntando aos demais e ajudando quem precisava ser ajudado.
Todos alí admiravam aqueles soldados regressores, não por seus feitos ou história, mas por devolverem a positividade e a esperança, sem se importarem com os efeitos e o que precisaram fazer para chegarem vivos.
O egoísmo do ser humano em seu esplendor.
Não fui visitada ou observada mais de perto pelas horas seguintes. A cortina permaneceu fechada durante todo o período de turbulência e não havia mais nada que eu pudesse fazer sem que fosse escutar o que se passava do lado de fora. Os ruídos metálicos e o ranger da estrutura de macas sobre o piso, arrastados com urgência, máquinas e seus bips insistentes, assim como manobras de ressuscitação que reconheci pelas sombras de corpos em cima de outros mais vezes do que considerei ser comum.
As coisas não pareciam tão otimistas sob essa perspectiva.
Levantei-me com cautela, esticando os braços para me apoiar nas muletas, com um pouco mais de habitualidade passados dias sob os cuidados médicos e a visita insistente da ortopedista Sargenta Hoffman, uma mulher robusta com seus aparentes mais de 1,70, cabelos perfeitamente colados na cabeça por um gel de menta que irritava minha narinas, e o porte nada discreto sob as vestimentas de treino da brigada militar. Imponente, profissional, e por mais que cada instrução soasse como se eu fosse mais um de seus soldados prestes a urinar nas calças, não era tão ruim quanto esperava ser. Ela falava o mínimo e respeitava meu estado de espírito desagradado com os seus, mesmo que não soubesse disso.
Cruzei as cortinas e olhei para ambos os lados do corredor antes de prosseguir, seguindo os ensinamentos de Hoffman e a falta de gentileza de Alexander que me faziam lembrar que eu ainda era uma pobre moribunda e não uma atleta olímpica dos 1.500 metros livres. Um passo após o outro, como Danny fizera com Maíra quando mamãe deslocou o quadril na aula de samba ao voltar do Brasil depois de tantos anos. Me lembrei de seus sorrisos, as broncas, todas as risadas quando a mulher balançava o corpo como uma passista favorecida, e caminhei com a consciência tranquila, mesmo que meu coração apertasse em angústia ao pensar em casa.
Em nossa última ligação, em meados de Julho, um mês após meu embarque para a Nigéria, Maíra e Danny se espremeram próximos do telefone para que me escutassem. Pouco se ouvia o tio, apenas mamãe e seus gritos histéricos comovidos pela decisão e sumiço repentinos. Em alguns momentos Danny apenas dizia “Pegue leve com ela” e o estalo ardido provavelmente eram tapas bem dados da cunhada nas costas do americano. Eu ri, me expliquei, e com os olhos lacrimejados, prometi voltar para casa inteira, viva de preferência, valendo um ingresso da final dos Warriors x Raptors da NBA para Danny, e a vida de mamãe que dependia inteiramente da minha desde que Eric se foi. Quando desligamos, nós duas sabíamos que a próxima vez não seria tão em breve quanto fizemos parecer.
Deixei que uma frota de homens fardados passassem pelo corredor, médicos militares que vez ou outra apareciam na unidade, e que foram contatados para auxiliarem no presente caótico. Cruzei a porta e a visão do sol cegou meus olhos, brilhante o suficiente para que as retinas ardessem e eu sentisse uma ligeira dor de cabeça irradiando nas têmporas. Alex não havia me deixado sair durante todo aquele tempo e ele não estava alí para me proibir, pelo jeito não estaria tão cedo uma vez que mais homens eram levados para dentro e precisei me jogar para o lado antes que fosse atropelada por músculos densos e sangue jorrando de perfurações abertas. Nada que me comovesse, só angustiando cada centímetro das minhas extremidades por não poder ajudá-los.
Escondi os olhos do sol tórrido e dei alguns passos fajutos à frente, meias pessoas correndo para lá e pra cá com suas risadas infantis e estridentes, suas carecas brilhantes reluzindo um universo completamente diferente do que se passava em suas cabecinhas criativas e imaginativas. Crianças sendo crianças, chutando bolas, empurrando umas as outras, pique-esconde, envolvidas em seus mundinhos, vindas de sei lá aonde, sei lá porque.
A área externa assemelhava-se a uma maquete daquelas de mesa, projetado simetricamente, composto por hangares, postos e tendas, delimitados por grades altas e seus avisos de alta voltagem. Funcionavam como centros de abastecimentos, cozinhas, depósitos e armazéns, instalações operacionais, e descobri cada um deles devido aos nomes em placas perfeitamente colocadas sobre suas entradas, acompanhados da bandeira americana nada discreta no rodapé. Soldados andavam de um lado para o outro, mulheres com bebês no colo, e o idioma nigeriano se fundia ao inglês como uma feira lotada na matina. Uma parte saudável daquela que conheci no hospital, de certo alheios do verdadeiro problema que acontecia há poucos metros dalí.
Acompanhei com o olhar alguns dos pequenos nativos, encontrando mais grades adiante, atrás do dormitório militar. Além deste, mais hangares, porém recheado de mulheres e homens, assim como crianças barulhentas que se assemelhavam a zona civil que em algum momento Alexander mencionou. Me aproximei com cautela, atravessando o portão, o soldado que empunhava uma arma logo ao lado não se importando com a minha presença ou com a bola de futebol que acertava suas botas vez ou outra. Um mundo novo, como um universo de sorrisos, gritos de mãe e uma quarentena segura, bem distante do que encontrei em Warri.
— Cuidado! — Uma voz aguda advertiu, de repente, o sotaque africano pesado em seu inglês arriscado oscilando no que aparentava ser a puberdade. Não tive tempo de desviar do que vinha em minha direção e gritei antes de cair para trás, acertada por algo na canela, que por sorte teve a dor contida pelo gesso que envolvia a perna lesionada.
Resmunguei baixo, algumas regiões das costas arranhando com os pedregulhos do chão terroso.
— A senhora está bem?
Aquela mesma voz questionou, a figura de uma cabeça lisa contornada perfeitamente em frente ao sol que ardia meus olhos. Pisquei algumas vezes, mais cabeças aparecendo acima de mim.
— Mas que merda…
Mãos me puxaram para cima e com cuidado fui deixada em pé novamente, meus herois olhando-me com olhos grandes e curiosos, envoltos por uma pele cor de ébano brilhosa, sujas do que parecia ser terra e poeira. Lembro de tê-los visto rolando no chão em uma partida de futebol antes que fosse parar por lá também.
— Desculpa, meus irmãos perderam o controle, não consegui parar a tempo.
Então vi um carrinho de rolimã perto de nossos pés, e olhei para o menino que reconheci como sendo quem me avisou tardiamente. Aparentava ter uns 15 anos, enquanto seus irmãos eram mais novos, quatro meninos e uma menina pimpolha bem curiosa.
— Tudo bem. Está tudo bem. — Acenei com a mão e afastei o cabelo bagunçado da face, suspirando. — E vocês? Todos estão bem?
As cabeças se voltaram para o mais velho, esperando uma tradução do que eu havia dito, que chegou apenas com um aceno de cabeça para que respondessem conforme. Não pude deixar de achar graça em como pareciam suricatos sendo guiados pelo líder mor.
— O que é você?
Olhei para baixo, reparando que vestia os trajes finos de paciente e o gesso grosso que pesava em uma das pernas, subsequente as muletas embaixo do braço e os furos indiscretos dos acessos intravenosos por todo o antebraço. Pela maneira que a pequena me olhava, eu não aparentava coisa diferente de um fantasma, com a pele pálida e olheiras profundas, uma morta-viva vagando sem rumo pelos corredores daquela prisão legalizada de Near Monholo.
— Sou médica. — Disse apenas.
O maior entre eles balançou a cabeça e voltou-se aos seus irmãos, dizendo algo em seu dialeto nativo que os dispersou, ainda que seus olhos estivessem presos a mim como quem não queriam ir. A pequenina enfiou seu polegar na boca e acenou a mãozinha, correndo para os braços de uma senhora que lavava algo em uma grande tigela.
— O que é esse lugar?
O menino sorriu, algo como gentileza e bom humor pela pergunta patética que escapou dos meus lábios.
— Nossa casa.
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