Sob o Céu de Conservatória - Volume 1
2 Ovelha Perdida ou Lobo?
Conservatória, Distrito de Valença, Rio de Janeiro31 de março de 1895 — 13:10 p.m.
Nayla revolvia o conteúdo do prato com o garfo, a mente distante, ancorada na figura de Joaquim... este era o nome do cavalheiro que, por pouco, não lhe partira o nariz na semana anterior.
— Nayla? — O chamado de Abigail cortou o silêncio. A jovem recuperou a postura ereta num átimo, esboçando um sorriso que, embora largo, não alcançava a verdade de seus olhos.
— Senhora minha mãe?
— O que se passa, filha? Por que esses devaneios constantes? — Abigail aproveitava a ausência do esposo. O Pastor Elias fora chamado para uma assistência espiritual de emergência, deixando o almoço servido para trás.
Nayla mordeu o lábio inferior, ponderando se deveria guardar o segredo ou buscar conselho. Decidiu que não haveria confidente melhor que a própria mãe. — A senhora conhece o jovem Joaquim?
— O Correia? Filho do Xerife Correia? — A fisionomia de Abigail transfigurou-se instantaneamente. As sobrancelhas uniram-se e a missionária não ocultou o profundo desconforto ao ouvir aquele nome proferido pela filha.
Nayla assentiu, retraindo-se diante da severidade materna. — Eu o vi no coreto, no último sábado.
Abigail soltou um suspiro de indignação. — Antes não o tivesse visto! Deus me perdoe a franqueza, mas Joaquim e seu pai seguem a vereda oposta aos preceitos do Senhor. São gentes soberbas, escravas do soldo que recebem e mui amigas de pessoas que praticam... abominações! Não se misture com essa estirpe, ouviu bem, Nayla? Está terminantemente proibida de dirigir-lhe a palavra. — O dedo de Abigail erguido, a poucos centímetros do rosto da moça, selava a ordem.
— Mas, mamãe... não seria nosso dever cristão aproximá-los do Redentor? Ensinar-lhes as Escrituras? Eu divisei algo no olhar de Joa...
Abigail levantou-se bruscamente, retirando o prato de Nayla antes que ela terminasse. —"Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas." Não há o que fazer por quem prefere esbanjar vaidades a humilhar-se de joelhos no pó da terra diante do Altíssimo. Agora basta. Não desejo ouvir esse nome sob o meu teto. Vá para o templo e prepare a Casa do Senhor para o culto desta noite.
Sem replicar, Nayla seguiu para a igreja. O dia ardia em sol, sob um céu de um azul tão profundo que parecia um manto divino. O burburinho dos caixeiros e o riso das crianças nas ruas de pedra traziam um leve alento ao seu coração atribulado.
Ao adentrar o templo, ela arregaçou as mangas do vestido de algodão e, antes de iniciar a lida, prostrou-se sobre um dos bancos de madeira para orar.
— Oh, meu glorioso Deus e Eterno Pai. Agradeço-Te pelo privilégio de zelar por Teu santuário. Que cada banco polido e cada palmo de chão varrido sejam atos de adoração que atraiam a Tua presença. Abençoe o serviço desta noite e que cada hino toque as almas sedentas. Amém.
Enquanto encerava o madeirame, sua voz suave entoava o hino n.º 1 do Cantor Cristão:
Santo! Santo! Santo! Deus onipotente! Cedo, de manhã, entoamos Teu louvorSanto! Santo! Santo! Nosso Deus triúnoÉs um só Deus, excelso Criador
Santo! Santo! Santo! Todos os remidosJuntos com os anjos, proclamam Teu louvorAntes de formar-se o firmamento e a terraEras e sempre és e hás de ser, Senhor
Ao entardecer, ela retornou para casa apenas para trajar seu melhor vestido e preparar o espírito para a Palavra.
***
A família Barbosa retornou ao templo, acolhendo os irmãos que chegavam com saudações solenes.
— A paz do Senhor, Nayla — disse Davi, aproximando-se com um brilho insistente no olhar. — Estais encantadora neste traje.
Nayla limitou-se a um sorriso de cortesia, buscando rapidamente um pretexto para se afastar. — Com licença, Davi. Preciso verificar o nível do azeite nos lampiões, não podemos permitir que a luz se apague durante a ministração.
Ela já havia preenchido todos os reservatórios, mas o rapaz não precisava saber. Logo, aninhou-se ao lado da mãe para ouvir o coro e o sermão. O aroma do azeite queimado misturado ao cheiro da madeira antiga trazia-lhe paz, mas a imagem de Joaquim insistia em atravessar seus pensamentos como um intruso.
O Pastor Elias subiu ao púlpito. Sua voz, como um trovão controlado, ecoou pela igreja: — Amados irmãos! Nesta noite, o Espírito nos convoca através de um convite urgente: "Chegai-vos a Deus". Não é um dogma complexo, mas um chamado ao âmago da alma. Muitos conhecem a respeito de Deus, mas poucos caminham com Deus. Há um abismo entre ouvir falar e viver na presença!
Nayla ouvia o pai, mas seus olhos internos viam os olhos de Joaquim. Eram olhos opacos, destituídos daquela luz que ela via nos irmãos da fé. Não era uma atração romântica, ao menos, ela tentava convencer-se disso, era a mesma sede que ela via nas crianças da Escola Dominical.
"Alguém já lhe apresentou o amor de Cristo? Ou todos apenas o apedrejam pelos erros do pai?", questionava-se em silêncio.
Quando a menina sai de suas angústias o sermão já chegou ao fim e todos se põem de pé para a oração final.
— Senhor nosso Deus, nesta noite nos colocamos diante de Ti com corações sinceros. Reconhecemos que muitas vezes estamos distantes, não por Tua ausência, mas por nossa negligência. Ensina-nos a nos achegar a Ti. Que haja em nós fome pela Tua presença, sede pela Tua Palavra e um coração disposto a Te buscar. Purifica-nos, Senhor. Renova-nos. E faz-nos um povo que não apenas fala de Ti, mas que caminha contigo. Em nome de Jesus,
— Amém. — A igreja diz em uma só voz.
***
A família Barbosa iniciou o trajeto de volta, as Bíblias debaixo do braço, comentando os pontos altos do sermão. Ao dobrarem a esquina, ele surgiu.
Joaquim vinha no sentido oposto. Num gesto de respeito polido, mas apressado, ele inclinou a cabeça, murmurando um "boa noite" ao grupo. Naqueles breves segundos, os olhares de Nayla e dele se cruzaram novamente. Nayla sentiu o ar rarear em seus pulmões e um calafrio percorreu-lhe a espinha.
Ela apertou a Bíblia contra o peito, uma prece desesperada gritando em seu íntimo: "Tira este peso do meu coração, Senhor!".
Abigail, sempre vigilante, lançou um olhar cortante para a filha, captando cada nuance daquela reação, enquanto o Pastor Elias, alheio à tempestade silenciosa, continuava a discorrer sobre a graça divina.
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