Conservatória, Distrito de Valença, Rio de Janeiro18 de junho de 1895 — 18:10 p.m.

A noite estendera seu manto gélido sobre Conservatória com uma austeridade que anunciava a chegada do inverno. Quem se aventurasse pelas ruas sentia o açoite do vento minuano contra o rosto, os pássaros, que outrora orquestravam a alegria da vila, haviam batido em retirada para refúgios mais cálidos. Das chaminés das casas senhoriais e das humildes choupanas, subiam colunas de fumaça cinzenta, enquanto a lenha, tornada tesouro escasso, estalava nas lareiras em busca de prover algum acalento.

Nayla caminhava com passos pressurosos em direção à estação ferroviária. Contudo, o local, que antes era seu santuário de esperança, parecia ter perdido sua alma. Fazia duas semanas que Joaquim não aparecia para a lição semanal. Duas semanas de um silêncio ensurdecedor.

Seu coração, em um conflito entre o dever e a paixão, clamava pela presença do jovem. Nayla finalmente admitira para si: amava-o. Mas era um amor que cheirava a tragédia. Como conciliar a filha do Pastor Elias e da missionária mais íntegra da região com o filho de um homem venal e irmão de uma decaída? Joaquim era o herdeiro de terras negligenciadas e de um nome manchado, um rapaz a quem a sociedade não reservara sequer o direito à instrução.

— Boa noite, Sr. André. Como passa nestas horas gélidas? — saudou Nayla ao aproximar-se da bilheteria. O velho funcionário alimentava as lamparinas com óleo, garantindo que a luz não se extinguisse durante a madrugada.

O Sr. André voltou-se para ela com um sorriso que parecia aquecer o ar. — Passo bem, minha pequena e distinta Professora. Mas a senhorita... perdoe-me a franqueza de um velho, mas vossa fisionomia denuncia um desânimo que não lhe é habitual.

Nayla soltou um suspiro que pareceu carregar todo o peso do mundo. — Atormenta-me saber que minha tristeza é tão evidente, Sr. André. De fato, as semanas têm sido fustigadas por provações. Creio que o inverno, com seus dias acinzentados, subtrai-me a vontade de sorrir.

O Sr. André acomodou-se em sua cadeira habitual, observando-a com olhos sábios. — Compreendo-a. Chegou aos meus ouvidos a notícia de vosso compromisso com Davi. Decerto, não era ele quem vossa alma buscava para companheiro de jornada, não é verdade?

Nayla sentiu o peito arfar. A pergunta direta do bilheteiro quebrou as represas de seu silêncio. Nem mesmo a Ana Gertrudes ela ousara confessar tais angústias, sabendo que a amiga pendia para o lado das conveniências.

— Não, Sr. André, de modo algum! — as palavras atropelavam-se, urgentes. — Davi possui inclinações que me fazem duvidar de sua retidão. Ontem, durante um passeio, tentou uma proximidade que excedia os limites do decoro. Quando busquei o olhar de minha acompanhante, esperando auxílio, vi apenas sorrisos cúmplices, alegando serem tais liberdades "típicas entre noivos"! Sinto-me sufocada. Davi jamais permitiria que eu seguisse para Petrópolis ou que ingressasse em uma escola para lecionar. Casar-me com ele seria sepultar todos os sonhos que Deus plantou em meu peito.

Lágrimas cristalinas transbordaram, descendo pelas faces róseas da jovem.

— E a pessoa que realmente habita vossos devaneios é o jovem Joaquim, não é? — insistiu o Sr. André, com uma doçura que suavizava a invasão.

— Ah, Sr. André! Vê como minha existência está do avesso? Terei de ver o trem partir para Petrópolis enquanto meu corpo permanece cativo sob o céu de Conservatória?

O velho estendeu-lhe um lenço de linho e um copo de água pura. — Saiba, senhorita, que nesta estação, vossos segredos são guardados sob sete chaves e protegidos pela honra de um velho ferroviário.

Nayla sorriu por entre o pranto. — Agradeço-vos, de todo o meu coração. Irei para o banco de embarque realizar meu devocional. Preciso de respostas que só o Alto pode prover.

Nayla sentou-se no banco de madeira gélida. Diante dela, os trilhos estendiam-se como promessas de prata sob a luz da lua, atrás, a imensidão estrelada de Conservatória. Ela cerrou os olhos e elevou o pensamento:

"Senhor, meu Deus e Pai. Perdoa as faltas de Tua serva e inclina Teu ouvido às minhas súplicas. Afasta de mim os desejos que não provêm de Ti. Se for Tua santa vontade que eu me una a Davi, concede-me paz, mas se não for, Senhor, eu Te imploro... dá-me um sinal!"

Antes que o "Amém" cruzasse seus lábios, Nayla percebeu que a solidão fora interrompida. Ao abrir os olhos, Joaquim estava ali. Sentado em seu lugar de costume, a dois metros de distância.

— O que fazeis aqui? — perguntou ela, a voz oscilando entre o ressentimento e a saudade avassaladora.

Joaquim não respondeu com palavras. Em vez disso, desabou em um choro profundo e convulsivo. — Eu careço de vossa presença, Nayla! — exclamou ele, a voz embargada pela emoção. — Preciso de vossa voz suave, do vosso sorriso que ilumina as trevas do meu dia, da vossa educação que me faz querer ser um homem melhor. A senhorita é o ar que me permite respirar! Nestas duas semanas, não houve um instante em que vossa imagem não fosse o meu maior tormento e minha única paz.

Nayla sentiu o solo fugir-lhe aos pés. Joaquim, pela primeira vez, quebrou a barreira invisível da etiqueta e ajoelhou-se diante dela, tocando o solo que seus pés pisavam.

— Case-se comigo, minha amada! Podemos partir para terras distantes, onde o peso dos nomes não nos alcance!

— J-joaquim... eu...

— Graças a vós, eu O conheci! — Joaquim interrompeu-a, os olhos brilhando com um fulgor divino que Nayla jamais vira. — Ele me visitou na minha angústia e me reconheceu como filho!

— Ele? De quem falais? — perguntou ela, atordoada.

— Deus! Eu senti Sua presença, Nayla! Vi que Ele cuida de mim, que eu também posso ser alvo de Sua salvação e que Ele me ama, apesar de quem sou! — Joaquim repousou a cabeça sobre o banco, ainda chorando.

Movida por um instinto de compaixão e amor puro, Nayla estendeu a mão e repousou-a sobre as costas de Joaquim, acariciando-o com ternura. Ali, sob o céu de prata e a lua soberana, ela sentiu que o Senhor assistia àquela cena, selando um destino que eles deveriam trilhar juntos... mas pelo caminho da retidão.

— Joaquim... eu o amo. Oh, como o amo! Mas não posso fugir convosco como quem foge de uma responsabilidade. Não posso abandonar meus pais e meus deveres como se não possuíssem valor.

Joaquim levantou-se, e agora estavam a poucos centímetros um do outro, o calor de suas respirações misturando-se ao ar frio. — Compreendo, Nayla. Então... vós vos casareis com o Davi?

— Não é a ele que meu coração pertence — declarou ela, com firmeza. — E prometo-vos que farei tudo o que estiver ao meu alcance para que tal união não se concretize.

— Mas decerto um enlace entre nós jamais seria aceito pela sociedade — murmurou Joaquim, buscando o olhar dela.

— Sei que não — admitiu ela, respirando fundo.

— O que faremos, então?

Nayla esboçou um sorriso doce e, com uma coragem que só o Espírito provê, tomou as mãos de Joaquim entre as suas, entrelaçando seus dedos. — Entregaremos nossos caminhos Àquele que pode o impossível. Oremos.

E ali, unidos pelo toque de mãos e pela fé, sob a luz da lua, eles entregaram seus planos ao único Juiz capaz de transformar o impossível em milagre.