Sob o Céu de Conservatória - Volume 1
10 O Sacrifício
Conservatória, Distrito de Valença, Rio de Janeiro — 6 de agosto de 1895, 19:30 p.m.
A noite sitiara por completo o vilarejo de Conservatória. Naquela data específica, o inverno mostrava sua face mais cruel, com ventos gélidos que faziam o termômetro despencar para impiedosos 8°C. As janelas das casas estavam completamente fechadas e o aroma de lenha queimada escapava das chaminés, até mesmo os cães de rua, desprovidos de um teto, amontoavam-se uns sobre os outros nos cantos dos quintais, buscando o milagre do calor mútuo sobre feixes de palha seca.
Na Casa Pastoral, contudo, Nayla parecia imune ao bom senso que recolhia os viventes. Estava sentada de frente para a janela escancarada de seus aposentos, observando a tapeçaria de estrelas sem esboçar um único movimento. A ponta de seu nariz exibia um tom avermelhado e os pelos de seus braços arrepiantes protestavam contra o vento, mas ela nutria o pavor de se mover. Mover-se significava desviar os olhos do céu e despencar de volta para a sua desoladora realidade.
Vinte e oito dias haviam se passado desde a última vez que contemplara o semblante de Joaquim. Vinte e oito dias desde que sua liberdade fora confiscada pelas grades invisíveis do desfavor familiar. O noivado com Davi fora dissolvido, o que outrora fora seu maior anseio, mas a que preço?
O que restava de sua existência? Aos dezoito anos, sem a promessa de um matrimônio honroso, destituída de suas funções na Escola Bíblica e convertida no alvo preferido dos murmúrios da vila. Nayla sentia um medo devorador do porvir. Estava arrasada por ter acreditado que o Altíssimo validaria uma felicidade ao lado do homem que amava, um jovem que agora definhava sob a vigilância severa das fazendas do Xerife, terminantemente proibido de colocar os pés no perímetro urbano. Chegara aos seus ouvidos o boato de que o próprio pai de Joaquim estava disposto a trancafiá-lo em uma cela escura caso ele ousasse tentar qualquer aproximação com a filha do pastor.
— Ai! — um arquejo escapou de seus lábios.
Nayla despertou de seu transe ao notar que, no automatismo de sua angústia, enterrara as unhas na pele do dorso da mão esquerda, abrindo feridas que agora vertiam um filete escarlate. Com um suspiro desalentado, concluiu que precisava fechar a vidraça, persistir sob aquela corrente gélida resultaria em uma enfermidade física que ela não desejava somar às suas dores espirituais.
Ao girar o corpo, contudo, deparou-se com o Sr. Augusto Valadares encostado contra o batente da porta, observando-a em silêncio.
Nayla, em um reflexo de etiqueta e autoproteção, alisou as dobras de seu vestido de lã e ocultou a mão ferida atrás das costas.
— Boa noite, Senhorita Barbosa — saudou ele. Mantendo a postura de cavalheiro, Augusto não invadiu o santuário do quarto, mas aguardou até que ela o acompanhasse na descida até a sala de estar.
— Boa noite, Sr. Valadares — respondeu a jovem, forçando um sorriso frágil enquanto tomava assento à mesa da sala, logo ladeada por ele.
Os pais de Nayla não se faziam presentes, se estavam na residência, já haviam se recolhido aos aposentos para o descanso ou para as orações privadas. O Sr. Valadares tornara-se uma presença diária desde o escândalo no coreto. Nayla não podia negar que as aparições do aristocrata era o único bálsamo em sua rotina sufocante, afinal, ele era o único indivíduo que ainda se assentava ao seu lado sem cobri-la com o manto do julgamento ou do desprezo.
Aos poucos, a mente de Nayla, outrora tão convicta de seus passos, começara a ceder à ideia de que abandonar Conservatória e seu rastro de ruínas talvez fosse a única saída viável. Não havia um único amanhecer em que ela acordasse com o coração leve. Ana Gertrudes não mais solicitava seu auxílio na confecção das tortas para o mercado, sua mãe a exilara dos ministérios e, quando adentrava o templo, Nayla era relegada ao último banco, sabendo de antemão que os assentos adjacentes permaneceriam vazios, como se ela carregasse uma peste. Até mesmo as crianças, que antes corriam ao seu encontro com risos francos, eram puxadas abruptamente pelos braços por mães que lhe dedicavam olhares inflamados de reprovação.
— O que a aflige esta noite? Andastes a chorar novamente, Nayla? — Augusto buscou o olhar dela com uma inflexão de genuína preocupação.
Nayla ofereceu-lhe mais um de seus sorrisos desprovidos de alma.
— Rogo que decline desses sorrisos sem vigor — pediu ele, suavemente. — Não precisamos de aparências entre nós. Se a vossa alma estiver quebrantada, apenas permita-se estar assim. Estou aqui para oferecer-vos escuta, não cobranças.
As lágrimas, represadas a duras penas, romperam os olhos de Nayla. Ao erguer as mãos para ocultar a face, a rigidez do lenço falhou e o Sr. Valadares vislumbrou o ferimento sangrento no dorso de sua mão. Com extrema delicadeza, ele envolveu os dedos da moça e trouxe a mão ferida para perto de si.
— Os tempos têm sido inclementes, não é verdade? — murmurou ele, retirando um lenço de cambraia perfumado do bolso do colete. Augusto envolveu a ferida com o tecido e depositou um beijo brando por sobre o linho. — Dou-vos a minha palavra de honra de que esta tempestade haverá de passar.
Nayla fitou-o através da névoa do pranto. Augusto reluzia a segurança que o mundo lhe negara: suas vestes ostentavam a distinção da alta sociedade de Petrópolis, os botões de madrepérola perfeitamente alinhados e, como de costume, a corrente de ouro de seu relógio de bolso reluzia contra o tecido de sua calça escura.
Desejando desesperadamente desviar o foco de sua própria miséria, Nayla fixou os olhos no colarinho do homem. — O Sr. não possui apreço por gravatas? — indagou, apontando discretamente para o pescoço despido do adereço formal. Era uma observação fútil para o momento, mas ela não suportava mais ser a figura trágica que monopolizava a melancolia de todas as noites.
Augusto inclinou a cabeça e permitiu que um sorriso cúmplice surgisse sob o bigode louro e aparado. — Confessar-vos-ei um segredo que fere a minha vaidade, senhorita: ignoro por completo a arte de desferir um nó em uma gravata. Por tal razão, prefiro a dispensa do acessório a ostentar um arranjo malfeito.
Pela primeira vez em semanas, uma risada genuína e cristalina brotou dos lábios de Nayla. — Oh, peço-lhe desculpas! É que, habituada a ver meu pai e os demais senhores sempre devidamente adornados, presumi que a ausência do laço fosse alguma sorte de modismo aristocrático vindo das alturas de Petrópolis.
Ele negou com um aceno divertido. — Porventura a senhorita detém o conhecimento desse artifício?
— Sim, meu pai sempre dependeu de meus auxílios para os cultos mais solenes — anuiu ela.
— Sendo assim, posso acalentar a esperança de que, de agora em diante, vossas mãos guiarão os nós de minhas gravatas? — a voz de Augusto assumiu um tom de seriedade magnética. Seus olhos verdes fixaram-se nos dela com tamanha intensidade que Nayla baixou o rosto, as unhas ameaçando perfurar novamente a carne da outra mão.
Augusto segurou ambas as mãos da jovem, impedindo que ela se ferisse. — Vossos pais concederam-me a permissão para lhe tornar minha noiva. O consentimento foi selado há cinco dias.
Nayla sentiu o impacto da revelação como se o ar lhe faltasse nos pulmões. — M-me desculpe... eu não tinha ciência de tal acordo.
Seu estômago contraiu-se em um turbilhão de sensações desconhecidas. Augusto era um enigma constante para ela, não sabia discernir se a presença dele representava um porto seguro ou o naufrágio definitivo de sua juventude.
— Pedi expressamente que vos poupassem da notícia — explicou ele, sem cessar o carinho terno nos dedos dela. — Não nutro o menor desejo de coagir-vos a um matrimônio sem o vosso arbítrio, Nayla. Jamais seria essa a minha conduta. Aguardava o instante em que vossa alma estivesse menos atribulada, mas os compromissos em Petrópolis clamam pelo meu retorno imediato. Por essa razão, vejo-me na obrigação de interpelar-vos esta noite. Nayla Barbosa, aceitais unir vosso destino ao meu? Aceitais ser minha esposa?
Um longo e pesado silêncio estendeu-se pela sala. Nayla sentiu como se suas cordas vocais tivessem sido arrancadas por mãos invisíveis. Não havia espaço para recusas, a recusa significava a permanência no limbo da vergonha e do isolamento. Diante do altar do sacrifício, tudo o que pôde fazer foi inclinar a cabeça em um solene assentimento.
Augusto soltou uma lufada de ar, uma risada de puro alívio escapando de seu peito. — Oh! Isso é de uma magnificência sem par! Seria de vosso desagrado se adiantássemos as núpcias para daqui a dois dias?
— Não... de modo algum. Não desejo ser o estorvo que posterga vossos negócios na serra — respondeu ela, a voz mecânica.
Com os arranjos definidos, o Sr. Valadares despediu-se, deixando a Casa Pastoral.
Nayla permaneceu estática à mesa. Seus olhos fixaram-se na chama trêmula da vela que agonizava sobre o candelabro. Sua mente, outrora povoada por sonhos de salas de aula e lecionamento em Petrópolis, foi inundada pela antiga sabedoria das Escrituras:
"Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor." — Provérbios 19:21
O destino, de fato, a conduziria a Petrópolis, mas não sob a insígnia dos estudos ou do magistério. Nayla subiria a serra desposada, mas não nos braços de Joaquim. As vigílias haviam sido longas, as lágrimas haviam banhado os trilhos da ferrovia, mas a Providência parecia ter traçado um itinerário divergente de seus anseios humanos.
— Que seja feita a Tua soberana vontade, meu Pai — sussurrou Nayla, erguendo-se com a solenidade de uma mártir. — Eu deposito minha confiança na Tua verdade e caminharei sob os Teus misteriosos desígnios.
Com um sopro firme, Nayla extinguiu a chama da vela, sepultando a sala e a si mesma na mais densa, longa e irremediável escuridão.
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