Conservatória, Distrito de Valença, Rio de Janeiro 9 de julho de 1895 — 22:40 p.m.

Joaquim e Nayla contemplavam o firmamento de Conservatória em um silêncio absoluto e comovente. Nem mesmo o cricri dos grilos ou o farfalhar das folhas sob o vento noturno ousava profanar aquele instante. Para Nayla, o silêncio era uma catedral de adoração e reverência à Criação. Para Joaquim, o silêncio carregava significados que iam muito além da ausência de ruídos. Representava paz, refúgio, liberdade... e também saudade.

Era no silêncio que as lembranças de sua mãe surgiam com maior nitidez.

Recordava-se perfeitamente de como ela prezava pelos momentos tranquilos da casa, de como franzia levemente o cenho quando ele ou Cora erguiam demais a voz durante alguma brincadeira. Então, poucos instantes depois, acabava rindo baixinho enquanto levava o dedo indicador aos lábios, murmurando um suave:

— Shiuu...

Um gesto tão simples.

Ainda assim, transformara-se em uma das lembranças mais preciosas que Joaquim carregava consigo, daquelas que o tempo jamais seria capaz de apagar.

Mas... nem tudo seguia em paz na vida dos jovens enamorados.

Nayla sentia o laço do noivado apertar-se como um nó de forca. Passara toda aquela manhã ao lado de Abigail decidindo os enfeites e as receitas que seriam servidas na pequena comemoração após a cerimônia, enquanto pastor Elias ocupava-se das questões do dote e das manutenções no coreto onde a festa de seu martírio matrimonial seria celebrada.

Embora tentasse demonstrar tranquilidade, o coração da menina apertava-se cada vez mais conforme os preparativos avançavam.

Joaquim também carregava suas próprias angústias.

Cora piorava a cada manhã.

Já não se alimentava direito havia dias e caminhava pela casa como alguém que deixara de enxergar valor em si mesma. Havia em seus olhos um cansaço silencioso que feria profundamente o coração do irmão.

Joaquim odiava vê-la daquela forma.

Odiava perceber como Cora parecia acreditar ser apenas um objeto sem importância, alguém destinada a viver abaixo de todos os outros. E isso o machucava ainda mais porque, em segredo, sonhava com o dia em que a irmã pudesse ser vista com a mesma dignidade, delicadeza e respeito com que Nayla era tratada.

— Creio que as horas avançam e devo recolher-me — murmurou Nayla, despertando de seus devaneios.

Joaquim levantou-se lentamente. Seu corpo alto e esguio obrigava-o a baixar o olhar para encontrar a jovem parada diante dele.

Sua menina.

Sua doce e formosa menina.

Nayla possuía a pele morena dourada pelo sol, os cabelos perfeitamente encaracolados caindo em delicados cachos sobre os ombros, e os olhos levemente amendoados em um tom escuro e profundo como a noite. O nariz pequeno harmonizava-se com suavidade em seu rosto, enquanto os lábios cheios sempre despertavam no rapaz um estranho aperto no peito e no ventre, uma inquietação que ele jamais aprendera a explicar.

Por um instante, Joaquim apenas a contemplou em silêncio, como se temesse que qualquer palavra pudesse quebrar a beleza daquele momento.

Então aproximou-se devagar e depositou um beijo suave sobre a testa da jovem. — Almejo ver-te em breve, minha amada.

Nayla sentiu um aperto doloroso no peito.

O que restaria deles após o "sim" imposto diante do altar?

Já havia tentado, de todas as maneiras possíveis, fazer os pais compreenderem que Davi não era o homem com quem desejava se casar. Ainda assim, sua opinião parecia pouco importar diante da decisão já tomada pela família.

E por que aquilo deveria causar espanto?

Que mulher em Conservatória, ou em qualquer outro lugar do mundo, realmente possuía voz quando o assunto era casamento?

O pensamento fez um temor silencioso percorrer-lhe o coração.

Amedrontada, Nayla ergueu lentamente a mão até o rosto de Joaquim, acariciando-o com delicadeza. Sentiu sob os dedos o peso suave da cabeça do rapaz inclinando-se em direção ao carinho, enquanto ele mantinha os olhos parcialmente fechados, entregando-se àquele breve instante de paz.

— Não suportaria perder-vos... e temo amargamente magoar vosso coração com o destino que me impõem.

Joaquim tomou a mão da jovem e beijou-lhe o dorso com reverência. — Não podemos fugir dos desígnios que nos cercam. Morro um pouco a cada despedida, sabendo que este toque pode ser o último.

Os olhos de Nayla encheram-se de lágrimas. — Não consigo suportar a ideia de um desfecho tão cruel... Não consigo imaginar futuro pior que esse.

A voz saiu baixa e trêmula, quase se desfazendo junto ao vento da noite.

Joaquim nada respondeu, apenas soltou um suspiro pesado e fechou os olhos lentamente.

Sabia que, se tentasse pronunciar qualquer palavra naquele instante, acabaria cedendo às lágrimas e não estava disposto a permitir-se tamanha vulnerabilidade diante de um mundo que já lhe roubara tantas coisas.

Caminharam pela estrada de terra batida com as mãos entrelaçadas, mas o frio logo lhes roubou o calor das palmas quando foram obrigados a se separar para evitar os olhos venenosos da vizinhança. Nayla retornou para casa perguntando-se, como fazia em todas as noites, em que momento preciso se apaixonara por ele, apenas para concluir que fora no exato instante do primeiro olhar.

Ao transpor o umbral de sua casa, Nayla sentiu que a paz fora exilada daquele lar. Seus pais, que a esta hora deveriam estar entregues ao repouso, aguardavam-na na sala. Seus semblantes eram de mármore: duros, frios e carregados de um desgosto que pairava no ar como névoa.

— Papai... mamãe... o que fa — Antes que Nayla pudesse concluir a frase, Abigail acertou-lhe um forte tapa no rosto.

O impacto veio tão repentino e violento que a jovem sequer teve tempo de reagir. Nayla perde o equilíbrio e cai de joelhos sobre o assoalho.

Na mesma hora, os olhos de Nayla encheram-se de lágrimas, pela dor, pelo susto... ou talvez pelas expressões devastadas estampadas no rosto de seus pais. — O... o que houve?... — A voz saiu quase num sussurro trêmulo.

Sua mão subiu lentamente até a bochecha ardente, enquanto os olhos marejados erguiam-se em direção à mãe.

Abigail também tinha os olhos úmidos. Mas, diferente da filha, os dela não transbordavam medo ou confusão. Estavam carregados de ira, decepção e uma tristeza tão profunda que chegava a parecer insuportável.

— Como ousastes?! — a voz de Abigail era um chicote de fúria e lágrimas. — Envergonhastes vossa família a troco de luxúrias e desejos carnais! Arruinastes a trajetória de honra que construímos com tanto zelo. Brincastes com a confiança dos irmãos da congregação! Vosso casamento está por um fio antes mesmo de ser selado! Oh, Senhor, que provação é esta que me enviais?!

Nayla não precisava de mais palavras. O segredo fora descoberto.

— E-eu... peço perdão aos senhores... Jamais foi minha intenção trazer vergonha sobre esta família, mas...

O Pastor Elias ergueu-se, sua figura projetando uma sombra imensa. — Não desejo ouvir vossas justificativas vãs! Estás a encontrar-te às ocultas com um jovem profano, um homem que caminha em sentido oposto às leis de Deus!

— Não, papai! — Nayla levantou-se e segurou as mãos do pai, que estavam gélidas. — Joaquim é um servo, ele busca o caminho da retidão!

Elias desvencilhou-se com uma agressividade que Nayla nunca vira. — Ele é cúmplice de uma meretriz! Segue os passos torpes de seu pai!

— Escutai-me, por favor! — clamou a jovem. — Cora é sua irmã, e ele despreza as escolhas do pai!

Abigail empurrou-a em direção às escadas. — Basta! Cessai essa ingenuidade atroz! Estás castigada em teus aposentos até segunda ordem. Cabe a nós tentarmos salvar o que resta de vossa honra e de vosso casamento com Davi.

Nayla subiu os degraus em prantos, agarrada ao corrimão. — Só vos peço... não façais mal ao Joaquim.

Os pais trocaram um olhar sombrio antes de se recolherem, deixando Nayla entregue a uma noite de agonia e preces interrompidas por soluços.

***

Para alguns, aquela manhã havia amanhecido agradável sobre Conservatória. Para outros, o sol forte era irritante e cansava os olhos logo nas primeiras horas do dia. Já para o casal pastoral da cidade, aquele parecia o momento perfeito para visitar o xerife.

A residência de Luiz ficava em uma parte mais afastada da vila. Mesmo Conservatória não sendo grande, as terras do xerife permaneciam suficientemente distantes para mantê-lo longe dos vizinhos e, principalmente, das fofocas locais.

O xerife Luiz não costumava receber visitas.

Por isso, quando ouviu batidas à porta naquela manhã, foi tomado por genuína surpresa.

A casa encontrava-se quase inteiramente fechada, aprisionando em seu interior o cheiro de mofo, suor envelhecido e a fumaça impregnada dos cigarros consumidos ao longo dos dias.

Era, à primeira vista, uma casa imponente.

Os móveis eram feitos de madeira nobre, havia peles de animais espalhadas pelos cômodos e troféus cuidadosamente expostos para chamar a atenção de qualquer visitante. Contudo, toda aquela grandiosidade parecia esquecida sob uma espessa camada de poeira que se acumulava desde a morte de sua esposa.

Nada ali parecia verdadeiramente vivo.

Cora e Joaquim quase nunca cruzavam aquelas portas.

Os dois preferiam permanecer nos pequenos quartos alugados próximos ao coreto da vila, onde, apesar da simplicidade, o ar parecia menos sufocante do que dentro da antiga casa do pai.

Quando o Xerife abriu a porta, um sorriso cínico desenhou-se em seus lábios. — Que honra! A Casa Pastoral em minha humilde morada. Vieram em busca de doações ou de orações?

Pastor Elias, que apesar de sua natureza pacífica possuía uma presença imponente e um porte respeitável, firmou a mão contra a porta antes que o xerife pudesse fechá-la. — Viemos dar-vos um ultimato. Mantende vossos filhos longe de minha Nayla! Criaturas influenciáveis e mundanas que buscam arruinar a vida de uma jovem de bem.

O Xerife bufou, sua raiva crescendo. — E o que houve? Cora a ensinou o ofício da noite ou Joaquim a levou a provar dos pecados da carne? É simples: mandai a pequena confessar-se e pronto, o assento dela no céu estará garantido. Deixai-me em paz!

Ele tentou fechar a porta novamente, mas Elias aproximou-se, a voz baixa e carregada de uma autoridade perigosa. — Eu vos advirto: mantende vossa prole longe de minha filha!

— Posso muito bem mandá-lo para uma cela, pastor... e, se não retirar imediatamente essa mão de minha porta, será exatamente o que farei.

O clima entre os dois homens tornou-se pesado quase imediatamente. A tensão parecia comprimir o ar ao redor deles enquanto Elias deu um passo à frente, aproximando-se do rosto de Luiz e após isso se virou para se afastar da casa.

O casal afastou-se, deixando o Xerife com o sangue em ebulição pela humilhação sofrida. Com o ódio estilhando em seu olhar, Luiz partiu em direção ao centro da vila. Ele não aceitaria que os erros de seus filhos lhe trouxessem o desdém dos "santos". Joaquim e Cora pagariam caro pela audácia de sonhar com mundos que não lhes pertenciam.