Conservatória, Distrito de Valença, Rio de Janeiro1 de julho de 1895 — 05:10 a.m.

A manhã do primeiro domingo do mês nunca era como as outras, possuía uma aura de solenidade que parecia descer diretamente dos céus sobre a vila. O tempo oscilava em um bailado caprichoso: ora ventanias gélidas carregavam a poeira pelas ruas de paralelepípedos, ora um sol tímido, mas persistente, iluminava os canteiros e invadia as frestas das janelas em raios de ouro.

Em seus aposentos, Nayla vestia um traje que jamais ousaria exibir em público, pois a barra revelava dois dedos de sua anágua, um pecado para a etiqueta da época, mas uma necessidade para a lida doméstica na Casa Pastoral. Com os cabelos capturados em um coque rigoroso, ela desceu as escadas.

O Pastor Elias e a Missionária Abigail já a aguardavam. A mesa estava posta, mas o desjejum permanecia intocado. A família dedicara o jejum ao Senhor desde a manhã anterior, um sacrifício de louvor pela obra que realizariam naquele domingo de Ceia.

— Senhor Deus, eterno e soberano Pai... Perdoai-nos as nossas faltas e purificai nossas mentes e corações para a realização de Tua boa obra. Que o Senhor haja recebido nosso jejum como aroma suave diante de Teu altar, e que o trabalho de nossas mãos seja recompensado com Teu amor e com Teu azeite sobre este lar. Que nesta manhã nos lembremos dAquele que entregou a própria vida por nós, que padeceu na cruz por nossos pecados e tornou a conduzir-nos aos braços do Pai. Aquele que rasgou o véu, que suportou a maldade do mundo e do coração dos homens, mas que ao terceiro dia ressuscitou glorioso. A Ele sejam dados toda honra e todo louvor. Em nome de Jesus, oremos... amém.

Pastor Elias encerrou a oração com a voz serena. A pequena família permaneceu em silêncio por alguns instantes, ainda recolhida em suas preces silenciosas, antes de quebrarem o jejum ao som suave dos pássaros que cantavam do lado de fora da casa pastoral.

Abigail servia o pão simples sobre a mesa quando voltou-se para a filha:

— Nayla, teremos muito trabalho neste dia. Precisaremos subir à adega do sótão para buscarmos os vinhos que deixamos fermentando nestes últimos dois meses. Depois disso, sovaremos a massa dos pães da Santa Ceia... sem contar os afazeres cotidianos da casa.

Nayla assentiu animadamente.

— Sim, mamãe. Os domingos de Santa Ceia sempre me comovem tanto... Não consigo deixar de pensar em quanto Nosso Senhor Jesus padeceu naquela cruz por nós. Dá-me verdadeira vontade de chorar. Jamais me perdoaria se não entregasse o melhor de mim em ocasião tão santa quanto a preparação da mesa do Senhor.

Elias e Abigail trocaram um olhar silencioso e orgulhoso. Havia ternura na maneira como observavam a filha e também esperança pelo caminho que ela vinha escolhendo trilhar.

Então Elias sorriu discretamente antes de comentar:

— Estou certo de que tu e Davi haverão de formar um casal pastoral tão digno quanto nós.

A frase bastou para desfazer toda a emoção que repousava sobre Nayla.

Ela soltou devagar o pedaço de pão que segurava entre os dedos e abandonou a postura ereta à mesa.

— Poderíamos, ao menos hoje, não falar acerca dele?

Abigail ergueu os olhos para a filha, confusa.

— Minha filha, confesso não compreender o que te causa tamanho desgosto acerca de um rapaz tão bom e tão entregue à obra do Senhor quanto Davi.

Nayla deu de ombros, desviando o olhar para a janela.

— Não consigo enxergá-lo da mesma forma que todos vós.

Percebendo o rumo da conversa, Elias levantou-se da mesa, encerrando o assunto com suavidade:

— Bem... vendo-o assim ou não, o rapaz já me aguarda no templo. Temos algumas manutenções a realizar antes do culto desta noite. Tornarei para casa mais tarde.

E com isso, pegou o chapéu sobre o aparador e deixou a casa enquanto a luz da manhã atravessava lentamente as cortinas de renda da cozinha.

Durante toda a manhã, Nayla e a mãe trabalharam em uníssono. Nayla ficou encarregada de buscar as garrafas de vinho no sótão e retirar a fina camada de pó que havia se acumulado sobre elas durante os dois meses em que permaneceram guardadas para a Santa Ceia.

Quando tornou à cozinha, Nayla encontrou a grande mesa de madeira coberta por farinha. Abigail sovava a massa dos pães com paciência e delicadeza, enquanto recitava em voz baixa a passagem das bem-aventuranças, como se cada palavra fosse também uma oração:

— "Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus..."

Apesar de o canto não ser seu maior talento, Nayla sempre sentia vontade de entoar algum hino da Harpa Cristã nos momentos de trabalho e serviço. Havia algo na simplicidade daqueles instantes que a aproximava do Senhor.

— Mamãe, desejais ajuda com a sova?

Disse isso enquanto já arregaçava as mangas até os cotovelos e apanhava um dos aventais pendurados próximo ao fogão a lenha.

Abigail sorriu discretamente.

— Ora, claro que sim, minha filha.

E juntas passaram a trabalhar na massa dos pães da Santa Ceia. As mãos se moviam em ritmo calmo sobre a madeira enfarinhada, enquanto o aroma do fermento e da lenha aquecia toda a casa pastoral.

Em determinado momento, Nayla deu um leve empurrão no ombro da mãe apenas para chamar-lhe a atenção. Abigail lançou-lhe um olhar repreensivo, embora divertido, e a menina não conseguiu conter o riso baixo que escapou de seus lábios.

Então, tomada pela alegria e pela doce sensação da presença de Deus naquele lar, Nayla começou a cantarolar um antigo hino de Salomão Ginsburg. Sua voz era suave e imperfeita, mas carregada de sinceridade:

"Chuvas de bênçãos teremos...

É a promessa de Deus..."

Abigail logo acompanhou a filha, unindo sua voz à dela enquanto continuavam a sovar os pães.

"Gotas somente nós temos;

Chuvas rogamos a Deus..."

E juntas preencheram a pequena casa pastoral com louvores.

A luz do sol atravessava as nuvens daquela manhã e recaía quase inteiramente sobre a cozinha, iluminando partículas de farinha suspensas no ar como pequenos flocos dourados. Por um instante, parecia que o próprio céu contemplava aquele momento singelo de amor, devoção e comunhão.

Como se os olhos do Senhor repousassem com ternura sobre aquelas duas. Suas meninas preciosas.

***

A noite caiu sobre Conservatória, trazendo consigo uma agitação apressada à casa pastoral. Havia passos pelos corredores, portas abrindo e fechando, vozes baixas e o cuidado constante para que não chegassem atrasados ao culto de Santa Ceia.

Nayla vestia um delicado traje bege. As mangas rendadas iam até os cotovelos, adornadas por pequenos babados, enquanto a saia possuía camadas suaves finalizadas em bordados simples, porém cuidadosamente trabalhados. Os cachos castanhos estavam presos em um coque elegante que deixava algumas mechas à mostra, e sobre os cabelos repousava um véu claro em reverência à solenidade daquela noite.

Com a Bíblia apertada junto ao peito, ela desceu as escadas para aguardar os pais e ajudar a guardar os pães e os vinhos preparados durante a manhã.

Durante todo aquele dia, Nayla não havia pensado em Joaquim sequer uma vez.

Mas agora, no silêncio breve entre um afazer e outro, ele lhe veio à memória.

Recordou-se da voz baixa do rapaz dizendo que costumava ouvir os cultos pela rua dos fundos do templo. Talvez aquela fosse uma dessas noites.

Desde que haviam confessado o amor que sentiam um pelo outro, as terças-feiras haviam se tornado mais do que encontros de aprendizado. Tornaram-se também propósito de oração. Ambos oravam em segredo um pelo outro, pedindo direção ao Senhor e suplicando que, se fosse da vontade divina, pudessem permanecer juntos sob Sua aprovação.

Nayla baixou os olhos por um instante, perdida nos próprios pensamentos.

— Será que ele alguma vez participou da Santa Ceia...?

— Quem nunca participou da Ceia?

A voz de Abigail surgiu atrás dela tão repentinamente que Nayla levou um pequeno susto.

A missionária já estava pronta para sair. Enquanto falava, pegava a Bíblia do marido para que Elias pudesse carregar as bandejas cobertas pelos panos brancos, onde repousavam os preparos feitos pelas duas naquela manhã.

— Oh... ninguém, mamãe. Apenas me perdi em pensamentos.

Abigail suspirou discretamente.

— Pois trate de reencontrá-los depois. Vamos logo, antes que nos atrasemos.

Juntos, os três deixaram a casa pastoral em direção ao pequeno templo.

A noite estava especialmente agradável. Um vento fresco percorria as ruas estreitas de Conservatória, balançando as copas das árvores como se dançassem suavemente ao ritmo invisível da criação. A lua brilhava alta no céu, mas nem mesmo ela conseguia ofuscar o cintilar intenso das estrelas espalhadas pela imensidão escura.

Parecia uma noite preparada pelo próprio Deus.

Ao chegarem à igreja, a família ajoelhou-se próxima ao altar para uma breve oração antes dos preparativos finais do culto.

Enquanto Elias e Abigail organizavam cuidadosamente a mesa da Santa Ceia, Nayla ocupava-se dos lampiões, preenchendo-os com azeite para que permanecessem acesos durante toda a noite. Depois, limpou o pó das cadeiras e do altar, resquícios das manutenções realizadas pelos rapazes da igreja naquela tarde.

Pouco a pouco, os irmãos começaram a chegar.

As mulheres usavam vestidos longos em tons suaves, algumas com véus delicados cobrindo os cabelos. Os homens vestiam ternos escuros. Havia algo profundamente solene em todos os domingos de culto de Santa Ceia, como se todos soubessem que aquela não era apenas mais uma reunião de domingo.

Nayla se sentou ao lado da mãe, observando tudo com os olhos atentos. Ela gostava daquele clima diferente. O templo parecia mais silencioso nos cultos de ceia. Até as crianças falavam baixo.

No púlpito simples de madeira, o pastor Elias fechou lentamente a Bíblia após a leitura de 1 Coríntios 11. Sua voz ecoou firme pela igreja:

— "Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha."

Um silêncio respeitoso tomou conta do salão.

Então ele começou a falar sobre arrependimento, graça e comunhão. Não pregava alto como em outros cultos. Sua voz era quase pastoral demais naquela noite, como um pai aconselhando os filhos antes de uma longa viagem.

Enquanto ele falava, Abigail mantinha os olhos fechados em oração silenciosa.

Depois da palavra, os diáconos se levantaram dos primeiros bancos. Homens sérios, de postura firme, caminhando devagar até a mesa coberta por uma toalha branca rendada. Sobre ela repousavam o pão e o cálice de vinho.

Um dos irmãos começou a puxar um hino antigo, daqueles cantados sem pressa:

— "Rude cruz se erigiu..."

A congregação acompanhou em vozes suaves e emocionadas. Algumas irmãs choravam discretamente enquanto cantavam.

O pastor Elias então convidou a igreja para um momento de exame pessoal.

— "Ore ao Senhor. Coloque diante dEle o seu coração."

O templo mergulhou em murmúrios baixos de oração. Era possível ouvir pequenos soluços, pedidos de perdão, cadeiras rangendo e páginas de Bíblia sendo fechadas.

Nayla observou quando o pai desceu do púlpito e se aproximou da mesa da ceia. Ele pegou o pão com cuidado, como se carregasse algo precioso demais para mãos humanas.

— "O pão representa o corpo de Cristo, entregue por nós."

Os diáconos começaram a repartir pequenos pedaços entre os membros da igreja. Primeiro os homens, depois as mulheres. Tudo organizado e reverente.

Ninguém comia imediatamente. Cada pessoa aguardava segurando o pequeno pedaço de pão entre os dedos até que todos fossem servidos.

Então o pastor declarou:

— "Comamos juntos, em memória dEle."

O mesmo aconteceu com o vinho. O cálice passou lentamente pelas mãos da congregação, acompanhado por outro hino cantado quase em sussurro.

Abigail segurou a mão de Nayla por um instante enquanto o coral improvisado da igreja entoava:

— "Mais perto quero estar..."

Ao final, não houve aplausos nem euforia. Apenas silêncio, lágrimas discretas e uma paz difícil de explicar.

O pastor Elias fez a oração final:

— "Que jamais nos esqueçamos do preço da cruz."

E naquela noite, enquanto os lampiões tremeluziam suavemente e os irmãos deixavam a pequena igreja de madeira em passos lentos e silenciosos, Nayla sentiu novamente que havia algo santo na simplicidade daquelas pessoas.

Dentro dela existia uma parte que clamava por aquela vida de serviço eterno ao Senhor.

Ela se sentia plena ali.

Sentia-se completa entre os hinos, as orações e a humildade do templo.

Mas não ao lado de Davi.

Não se isso significasse abandonar os sonhos que cuidadosamente construíra para si mesma, os quatro anos de formação em Petrópolis, o desejo de lecionar, a liberdade silenciosa que imaginava existir além das montanhas de Conservatória.

Naquela noite, Nayla ficara encarregada de limpar a igreja após a Santa Ceia, pois Elias e Abigail haviam seguido para a casa de alguns irmãos a fim de realizarem orações.

Sozinha no templo, teve uma ideia.

Aproximou-se discretamente do pequeno armário onde guardavam alguns mantimentos da igreja e pegou um pedaço de torrada e um pouco de suco. Em seguida, saiu apressada, embora cautelosa, em direção à rua dos fundos.

Ali, entre o silêncio da noite e o cantar distante dos insetos, sussurrou o nome de Joaquim até encontrá-lo escondido próximo ao coreto.

— Que bom havê-lo encontrado aqui...

Parou diante dele com os olhos brilhando em ternura. Havia um sorriso sincero em seus lábios — daqueles que surgiam apenas quando estava perto dele.

Joaquim respondeu com a mesma expressão suave.

— Receio que este não seja o lugar mais prudente para dois jovens que desejam manter-se ocultos dos olhos alheios.

Nayla deixou escapar uma risadinha baixa antes de sentar-se nos degraus do coreto.

— Ainda assim valerá a pena. Tenho algo para ti.

Ela estendeu o pequeno copo e a torrada. Joaquim arqueou levemente a sobrancelha, confuso.

— Crês que estou faminto?

A menina riu de forma sincera.

— Não é isso, Joaquim... Dizei-me uma coisa: já participaste da Santa Ceia alguma vez?

Ele deu de ombros, desviando os olhos.

— Não. Nunca fui batizado. Não sou digno de um momento como esse.

A tristeza que atravessou o rosto de Nayla foi imediata.

— Sei disso... e muito me entristece. Porém... gostaria de mostrar-te como acontece. Como uma pequena lição extra.

Joaquim recebeu a torrada e o copo das mãos dela, ouvindo atentamente enquanto Nayla começava a falar.

— Há cerca de mil oitocentos e noventa e cinco anos, numa noite de Páscoa, Nosso Senhor Jesus reuniu-Se com Seus discípulos para a última ceia antes de ser traído, preso e crucificado por amor a todos nós.

A voz da menina tornou-se mais baixa, quase reverente.

— E naquela noite, ao repartir o pão, disse-lhes: "Tomai e comei; isto é o Meu corpo." Depois tomou o cálice e declarou: "Bebei dele todos vós; porque isto é o Meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos para remissão dos pecados..."

Os olhos de Nayla marejaram levemente.

— Foi uma noite dolorosa para Ele. Por vezes esquecemo-nos de que Jesus também sentia medo... também chorava. Segundo as Escrituras, chegou a suar gotas de sangue enquanto orava ao Pai: "Afasta de Mim este cálice..." Mas acima de tudo, submeteu-Se à vontade do Senhor.

Uma lágrima silenciosa deslizou pelo rosto da menina.

— É por isso que ceiamos... para jamais esquecermos desse amor tão puro.

O vento fresco da noite passou entre eles, balançando suavemente as árvores ao redor do coreto.

Então Nayla abriu a Bíblia pequena que carregava consigo e, sob o céu estrelado de Conservatória, começou a recitar pausadamente as palavras de 1 Coríntios 11.

Joaquim ouviu tudo em silêncio.

Sem interrupções.

Sem desviar os olhos dela sequer uma vez.

Quando terminou a leitura, Nayla fechou cuidadosamente a Bíblia contra o peito.

— Sei que não tendes em mãos o pão e o vinho consagrados da igreja..., mas creio sinceramente que o Senhor recebe tua gratidão da mesma forma.

A voz dela vacilou suavemente.

— E creio também que Ele há de curar teu coração de toda culpa e de todo pecado.

Por um instante, o silêncio da noite pareceu abraçá-los.

Então Nayla aproximou-se devagar e envolveu Joaquim em um abraço breve e delicado antes de retornar sozinha pela estrada iluminada pela lua, enquanto o rapaz permanecia imóvel sob o céu estrelado, segurando entre as mãos o simples pedaço de pão e o pequeno copo de suco como se carregassem algo sagrado.

***

Na manhã seguinte, Nayla foi desperta por um alvoroço vindo do andar térreo. Envolta em seu penhoar, desceu as escadas curiosa. À mesa, com seus pais, estava um homem que parecia ter saído de um quadro romântico. Tinha cerca de trinta anos, olhos verdes como as folhagens da serra, pele nívea e fios louros que brilhavam sob o sol matinal.

Quando os olhares se cruzaram, Nayla sentiu-se como uma obra de arte sob o escrutínio de um colecionador.

— Minha menina — exclamou o Pastor Elias, em êxtase. — Este é o Sr. Augusto Valadares. Ele veio de Petrópolis em busca de uma esposa que possa cuidar de seu lar e dar-lhe herdeiros de boa linhagem.

Petrópolis. A palavra sempre fora música para os ouvidos de Nayla. Mas, ao sentir o olhar possessivo e aquecido do Sr. Valadares, ela percebeu que aquele homem não era uma porta para seus sonhos, mas uma nova e luxuosa muralha.