Sob minha pele
63 Epílogo.
Mel.
Algum tempo depois...
A luz fraca entrando pela janela me dá ainda mais preguiça de abrir os olhos. Foi uma noite difícil. Não conseguia arranjar uma boa posição para dormir. Não uma em que eu me sentisse confortável.
Passo uma de minhas mãos ao meu lado da cama, mas já como eu desconfiava, está vazia.
Bufo.
Espreguiço-me antes de me levantar. Caminho até o espelho enorme em cima da penteadeira. Escovo meu cabelo, deixando-o cair como uma cascata em minhas costas. Olhando o relógio vejo que já passa das onze da manhã.
Dormi demais.
Bom, pelo menos compensei a insônia da madrugada.
As janelas ainda estão fechadas, e as cortinas ainda não foram abertas. Sorrio. John com toda a certeza quis me deixar dormir até tarde. Ele foi muito atencioso ontem à noite. Ficando acordado comigo. Massageando minhas costas, e sussurrando em meu ouvido o quanto eu o faço o homem mais feliz do mundo.
Saio do quarto e caminho pelo longo corredor antes de descer as escadas atraída pelos gritinhos e risinhos mais fofos de todo o mundo. Hoje é o aniversário de quatro anos do Max. John passou a semana inteira se segurando para não dar o presente antes do tempo. Parecia até que ele estava mais ansioso que o próprio Max. Desconfio que ele não tenha esperado por mim para abrir o presente. Isso explicaria os risinhos vindos da sala.
— O que vocês estão fazendo? – Pergunto adentrando a sala.
Eles estão sentados no chão, enquanto decoram a bicicleta nova.
Fiquei preocupada quando John disse que a compraria. Meu ursinho ainda é pequeno. Mas para o meu alivio ele comprou junto todos os acessórios de segurança.
— Bom dia, meu amor. – Diz John se levantando com um largo sorriso no rosto.
— Olha mamãe. – Diz Max alegre sem tirar os olhos do seu presente.
— Achei que faríamos isso juntos.
— Não aguentei. – John dá de ombros se desculpando. – Ele estava animado, e ele pediu tanto por isso. – Murmura. Acaricia meu rosto com a ponta dos dedos, e sorri antes de falar. – Dormiu bem?
Sorrio completamente apaixonada.
— Dormi. Quando eu finalmente consegui pegar no sono eu dormi feito uma pedra.
John se inclina e deixa um beijo longo e molhado em meus lábios, e logo depois se abaixa e deixa outro beijo em minha barriga de quase nove meses de gestação.
Ainda me custa não sorrir feito uma idiota sempre que me lembro de sua reação quando eu disse que estava grávida. Foi uma surpresa. Nós não estávamos tentando ter mais filhos, mas também não estávamos não tentando. Nós pensamos:
Se acontecer, aconteceu.
Eu já o tinha visto radiante de felicidade muitas vezes, mas naquele dia, aquele olhar, aquele sorriso, fez meu amor triplicar mil vezes. Se ele já era atencioso demais antes, nem sei o que dizer sobre agora. John cuida de mim e de Max, e do nosso bebê que ainda não nasceu como seus tesouros.
— Como está o meu garotão agora? – Pergunta acariciando minha barriga.
— Acho que agora ele está mais quieto. Ele estava impossível ontem. Não me deixa dormir de jeito nenhum. Acho que ele já está louco para sair.
— Não vai demorar muito mais, não é? – Diz engolindo em seco.
Sempre que eu menciono o parto John fica branco como um giz. Fico imaginando o que ele fará quando realmente estiver acontecendo.
— Não. – Murmuro. Fico na ponta dos pés antes de beijá-lo. – Não fique tão nervoso. Eu deveria estar nervosa. Ele vai sair de mim.
— Você tem razão.
— Claro que tenho. – Digo rindo. – Agora, eu preciso desejar feliz aniversário ao meu Ursinho.
Assim que ouve seu apelido Max corre até mim. Eu o levanto em meus braços do melhor jeito que consigo o abraçando com força.
— Você está tão grande Ursinho. Não quero que você cresça. – Murmuro com pesar.
Até ontem ele andava atrás de mim arrastando sua fralda pelo chão. Hoje, ele já quer andar de bicicleta.
— Feliz aniversário, meu amor. Você gostou do seu presente?
— Sim. – Responde animado. – Papai, vai me deixar andar na casa do vovô.
— Isso é muito legal. – Digo animada. – Mas não podemos esquecer do seu capacete. Não quero que se machuque.
— Mel, ele não vai se machucar. – Diz John tirando Max dos meus braços e o segurando nos seus. – Hoje vai ser um dia divertido, não é? – Diz com um sorriso animado para Max.
— Sim! – Grita Max.
Todos rimos.
— Ai meu deus! Não me façam ficar nervosa demais. – Imploro.
— Pode deixar, amor. – Sussurra John passando um dos braços por meus ombros, me puxando para junto deles.
[...]
Como o fim da minha gravidez está muito próximo, John achou que não seria bom para mim organizar uma festa como fizemos no ano passado. Então, decidimos que seria apenas um almoço para os mais próximos.
Ana veio para comemorar o quarto aniversário do Max, e veio também porque disse que queria estar perto de mim quando eu fosse dar à luz. Isso me alivio muito. Não que a mãe do John não fosse companhia suficiente. Ela é maravilhosa. Uma verdadeira mãe para mim. Mas Ana é quem sempre esteve ao meu lado.
— Ah! Meu garotão chegou! – Grita Clayton assim que vê Max descendo do carro.
Eles não se desgrudam.
— Vovô! – Grita Max correndo até ele.
Eles são muito apegados. Algumas vezes quando viemos almoçar por aqui, os três simplesmente somem depois do almoço. Já perguntei para John o que eles tanto fazem. Ele disse que jogam futebol.
— Mel, como está? – Pergunta Claire me abraçando.
Sorrio com ternura para ela.
— Estou bem, não precisa se preocupar.
— Está cuidando bem dela, John? – Pergunta encarando John.
John beija sua bochecha antes de responder:
— Ela é minha vida, mãe. Claro que estou cuidando bem dela.
Claire belisca a bochecha de John e ele sorri.
— Vamos Ana, acabei de fazer aquele bolo que você me mostrou a receita. Vamos ver se você aprova.
— Vamos lá. – Diz Ana me lançando um sorriso antes de passar pela porta.
As duas se dão muito bem. Claro, que Claire não cozinha tão bem quanto a Ana, mas as duas se divertem muito.
— Que barriga enorme Mel! – Praticamente grita Kelly com os olhos arregalados. – Você está tão linda!
— Obrigada Kelly.
— Não precisa ficar com ciúmes John, eu também te amo, mas eu sou uma tia coruja. Onde está o Max quero apertar ele.
Kelly olha por todos os lados, mas não o vê. Com toda certeza ele e seu avô já deram uma escapada.
— Você vai ter que arrancar ele do papai. – Brinca John. – Nem vi para onde eles foram. – Diz olhando ao redor.
Kelly faz uma careta.
— Ele nem mesmo nos dá uma chance. Estou morrendo de saudade do meu loirinho.
Nós todos rimos. John se posiciona atrás de mim e passa as duas mãos em volta da minha cintura, apoiando seu queixo em minha cabeça.
— Como está seu namoro? – Pergunto.
Kelly morde o lábio antes de sorrir. Ela está namorando secretamente há alguns meses. Não disse ainda de quem se trata, mas eu posso jurar que sei quem é.
— Estamos bem.
— Não entendo que tipo de namoro é esse. Se esse cara não veio nos conhecer ainda, é porque ele não é boa pessoa.
— Não enche John. Ele virá quando ele puder. – Rebate Kelly.
— Deixe a sua irmã em paz. – Digo cutucando sua barriga com o cotovelo.
— Ai. – Reclama.
— Acho que nós temos os mesmos gostos maninho. Adoramos os espanhóis. – Diz Kelly com uma piscadela antes de sumir pela porta.
HA!
Agora eu tenho certeza de quem é.
Os dois ficaram muito amiguinhos durante o meu casamento. Rafael veio passar alguns dias em Nova Iorque há uns meses atrás. Se for isso, fico muito feliz pelos dois.
— Não gosto nada disso. – Resmunga John.
Viro-me para encará-lo. Tenho vontade de rir ao ver o quanto incomoda o pensamento da irmã dele estar saindo com alguém. Tenho vontade de revirar meus olhos.
Homens!
— John, qual o problema de sua irmã estar namorando? Ela é muito bonita. E com certeza existe um cara por aí que deve estar apaixonado por ela.
— Ela é minha irmã. – Resmunga contrariado. – Não consigo vê-la de outro jeito. Ela é só uma criança.
— John, nós duas temos a mesma idade. E você já me engravidou duas vezes. – Digo incrédula.
Ele faz uma careta.
— É diferente. – Resmunga.
Suspiro alto.
— E se caso eu tivesse um irmão grandalhão e chato assim como você quando me conheceu? E se ele não quisesse que você se aproximasse de mim? Nós não poderíamos namorar, nem nos beijar, nem nada. O que você faria?
Assisto seu sorriso cafajeste ser formado.
— Eu sequestraria você. – Gargalho jogando a cabeça para trás. – Eu não resistiria. Continua. — Você é a coisa mais sexy que eu já vi na minha vida.
Agora ele está sendo bobo.
— Não estou me achando tão sexy agora. – Digo num muxoxo. – Eu estou enorme! Não estou nada sexy!
John coloca uma mecha do meu cabelo para trás do meu ombro. Aproxima seu rosto do meu e sorri antes de dizer:
— Acredite, você está mais sexy que nunca agora. – Murmura sedutor.
— Mentiroso. – Acuso adorando a brincadeira.
— Você sabe que não, amor. Cada dia que se passa eu fico ainda mais apaixonado por você.
Não me canso de ouvir isso. E John parece não se cansar de dizer também. Desde que nos casamos, desde que nos mudamos para cá, com o passar dos dias eu fui percebendo o quanto meu medo era bobo. Eu o amo com uma intensidade esmagadora, e ele me ama do mesmo jeito. Nossos filhos são a prova disso. Max e nosso pequeno que está perto de nascer.
John entrelaça seus dedos entre os meus, sorri enquanto me puxa delicadamente até estar bem próxima dele. Fico na ponta dos pés para juntar nossos lábios, em um beijo carinhoso e muito longo. Emaranho meus dedos entre seus cabelos que já estão longos outra vez. John sorri.
— Eu te amo. – Murmura.
— Te amo.
Não canso de dizer.
— Ai, não posso deixar vocês sozinhos por nem um segundo que vocês já começam a se agarrar. – Diz Kelly revirando os olhos. – Mamãe está chamando os dois. Vamos cantar parabéns para o Max.
Rimos.
— Já estamos indo. – Responde John. – E nem pense que você vai escapar de mim. Nós vamos conversar sobre esse seu namorado espanhol. Onde diabos você conheceu ele?
Se minhas suspeitas estiverem certas, eu vou rezar para que ele não descubra tão cedo. Nem sei qual seria a reação de John. Rafael é um cara legal, e acho que os dois formariam um belo casal, eu apenas não sei se John pensa o mesmo.
Kelly fica branca como um papel antes de mostrar a língua para o seu irmão e sair pisando duro para dentro de casa.
— Deixa ela em paz John. – Digo o repreendendo.
Até parece que sua irmã é uma garotinha inocente. Pelo o que nós conversamos ela é tudo menos inocente. Ela sabe muito bem o que está fazendo. Deve ser irritante ter o John no seu encalço.
Na verdade, eu já estou tendo uma certa prova disso. Desde o dia em que contei que estava grávida seus cuidados sobre mim se dobraram. Não posso sair sozinha. Não posso subir em lugares altos, porque segundo ele, eu posso escorregar e cair. Sei que ele está nervoso, sei também o quanto tudo isso significa para ele. É a primeira vez que ele acompanha de perto. Ele está tentando fazer tudo o que não pode fazer na gravidez do Max. É fofo eu sei, mas isso não impede que às vezes eu sinta vontade de dar um soco em seu nariz.
Claro que eu não faria isso.
Eu acho.
Rio.
— Do que está rindo? – Pergunta com as sobrancelhas franzidas.
— Estou pensando no quanto você fica fofo quando está com ciúme.
— Fico é? – Pergunta com seu jeito de menino.
— Fica.
— Talvez isso me ajude hoje à noite, quando chegarmos em casa. — Diz sugestivamente.
Sinto uma pontada de culpa. Há certas coisas que nesta altura do campeonato, e com essa barriga enorme, que simplesmente se complicam.
— Não vai rolar com essa barrigona aqui, sinto muito.
—Eu quis dizer que poderíamos assistir a um filme. Você tem uma mente muito suja. – Diz sério. Porém, há um brilho malicioso em seus olhos verdes.
Agora eu realmente estou inclinada a bater nele.
— Cala a boca! – Digo rindo.
John se aproxima e coloca as duas mãos sobre a minha imensa barriga.
— Você poderia dar uma ajudinha para o papai, não é? – Diz conversando com o garotinho dentro de mim.
— Você não presta. – Digo de boca aberta, mas sem conseguir cessar as gargalhadas.
John pisca um olho para mim.
— Nunca disse que prestava, amor.
[...]
Foi uma tarde divertida. Uma tarde em família. Fazemos muito isso aqui. Max ganhou muitos presentes de seus avós o que não é nenhuma novidade. Max o pequeno bebezinho em minha barriga também foi presenteado. Sempre fico muito encantada vendo John interagir com sua família. Vê-lo com sua irmã me faz ver o porquê de eu sempre ter desejado um irmão. Eles se alfinetam, brigam um com o outro, mas sempre se pode ver o carinho. John faria qualquer coisa por ela. Mesmo que ele não admita.
Nossa casa é linda. Fica há alguns quarteirões da casa dos seus pais. Ela é enorme e muito espaçosa. Fiquei de boca aberta a primeira vez que coloquei meus pés aqui. Lembro que no mesmo instante me senti conectada a este lugar. Seria aqui que eu viveria com o homem que amo. Que formaríamos nossa família. E tem sido assim todos os dias. Dias muito felizes. Temos nossas desavenças como qualquer casal, mas John sempre faz de tudo para que elas não durem muito.
E eu amo isso.
Amo que ele não consiga ficar longe de mim. Amo que ele não consiga mais dormir se seu braço não estiver ao redor da minha cintura. Se seu rosto não estiver enfiado em meus cabelos. Nós completamos um ao outro. Já ficamos tempo de mais separados. Nunca mais passaremos por isso de novo.
Remexo-me na cama sentindo um desconforto no pé da briga. John resmunga assim que me sento de supetão.
— O que você está fazendo aí dentro? – Pergunto acariciando minha barriga com ternura.
Sinto um chute. Sorrio. Sinto outro chute. Esse chute foi forte demais. Outro chute, e mais outro, e mais outro.
Ai droga!
Está acontecendo.
— John. – Chamo tentando acordá-lo. Recebo apenas um resmungo. – John! – Ele arrasta sua mão até a minha e a aperta com força. – John!
— Está com fome? – Murmura com o rosto enfiado no travesseiro.
— Não quero comer, droga. Quero que você olhe para mim. — Respiro fundo tentando me acalmar.
— O que foi? – Pergunta esfregando os olhos.
— Acho que está acontecendo.
— Acontecendo o quê? – Pergunta meio grogue.
Bufo.
Meu deus me dê paciência para que eu não o mate hoje!
— Seu filho vai nascer John! – Digo entredentes, sentindo outra pontada.
Isso o faz se levantar como se mil demônios estivessem em seu encalço. Ele levanta tão depressa que quase não consigo acompanhar.
— Está com dor? – Pergunta afobado acendendo o abajur ao lado da cama. – Sua bolsa já estourou? – Suas mãos tateiam ao meu redor na cama, e assim que ele sente o lençol molhado ele já tem a resposta para a sua pergunta. – Já estourou. Meu deus – resmunga – o que eu faço?
Tenho pena dele. Ele parece desesperado. Homens nunca sabem o que fazer nesses momentos. Preciso tomar as rédeas.
— Nós ainda temos tempo. Pelo menos um pouco. Me ajude a me arrumar.
— Tudo bem. Vou pegar uma roupa para você. – Diz apressado correndo até o guarda roupa. John tropeça em um sapato no meio do caminho. É adorável. Ele está completamente perdido. Tropeçando em seus próprios sapatos, e zanzando apenas de cueca pelo quarto. Essa vai ser uma ótima história para contar um dia. – Achei! – Levanta o vestido e me mostra como se fosse um prêmio.
Traz o vestido até mim e me ajuda a me sentar na beirada da cama. Faço uma careta assim que sinto as tão indesejáveis contrações começarem.
— Está doendo muito? – Pergunta, e a expressão em seu rosto partiria o coração de qualquer um.
Coloco minhas mãos em seu rosto, e o aproximo de mim.
— Você precisa respirar. Calma. Vai ficar tudo bem. Você vai acabar tendo um treco, e a brincadeira nem começou ainda. O negócio vai ficar bem feio daqui há algumas horas. Então, eu preciso que você se acalme agora.
John fecha os olhos e respira fundo. Encosta sua testa na minha, e então diz:
— Eu deveria estar te acalmando, e é exatamente o contrário que está acontecendo. — Diz parecendo culpado.
— Eu entendo, eu fiquei bem mais nervosa na primeira vez, mas tudo acabou bem, e hoje nós temos o Max. Pensa que daqui a pouco vamos ter nosso outro filho.
— Ele está vindo. – Diz com um sorriso encantador. É impossível não sorrir de volta.
— Está sim. – Murmuro.
— Mal posso esperar para conhecê-lo.
[...]
Ana ficou com Max em casa. John já havia preparado com meses de antecedência o meu atendimento na maternidade. Assim que chegamos já havia uma equipe nos esperando. Foi tudo bem rápido. Logo eu já estava sendo levada para o quarto, no outro instante os exames começaram. Agora eu estou apertando sua mão com força, lutando para suportar mais uma contração.
Ele não sai do meu lado. Não tira seus olhos verdes de mim. É tudo o que eu preciso.
— Eu amo você. – Ele murmura a todo instante.
Logo está acontecendo. O médico me manda empurrar e eu empurro com tudo o que tenho, mas parece não fazer a mínima diferença. John diz que eu estou indo muito bem. Diz que tem muito orgulho de mim. Ás lágrimas não param. São muitas coisas misturadas. Eu estou com medo, estou com muita dor, mas sei que tudo vai valer a pena.
— Estamos quase lá, senhora Ackes.
— Quase lá amor, quase lá. – Diz John e vejo em seu rosto que ele está apreensivo.
Ele está morrendo de medo.
Não sinta medo John.
O médico me manda empurrar mais algumas vezes, e eu obedeço. Aperto a mão de John ainda com mais força. Quero que termine logo. Quero ver o meu bebê logo. Empurro uma última vez, e então, assim como da outra vez me sinto vazia. Fecho os olhos e não sinto mais dor nenhuma. Acabou. Eu apenas ouço. Ouço o choro do meu bebê.
John desvia seus olhos de mim assim que o médico levanta o garotinho de cabeleira loira que acabou de sair de mim. Ele está de boca aberta. Os olhos vidrados. Ele está chorando e nem ao menos se dá conta disso.
Ele é nosso John.
Nosso outro pedacinho.
— Com quem o garotão vai primeiro? – Pergunta o médico sorrindo.
— Segure ele John. – Murmuro apertando sua mão.
Isso parece despertá-lo de seu transe. Ele se levanta e segura o pequeno embrulho como se não estivesse acreditando no que está bem na frente do seu nariz. É uma cena linda. John sorri sem tirar os olhos dele. Brinca com seus dedinhos.
Sorrio.
John volta a se sentar do meu lado e o segura de um jeito que eu possa olhá-lo também. Assim como eu suspeitei. Sinto meu coração bater desesperado no peito. A sensação é única. Ele é pequeno e adorável.
É meu.
É nosso.
E completamente loiro.
Rio entre as lágrimas.
— Ele é a cara do Max. – Diz John embasbacado.
— Então, ele é a sua cara.
— Ele é a minha cara. – Concorda sorrindo sem tirar seus olhos dele. – Meu deus, Mel, é tão surreal. Não acredito que ele está aqui. Você é a mulher mais incrível que eu já conheci em toda a minha vida. Obrigada, amor, obrigada por ter me dado eles dois.
Sorrio sentindo meu rosto se inundar outra vez. Meu coração tem um descompasso no peito.
Eles são tudo para mim.
— Obrigada você, por ter me dado uma família. — Choramingo.
John beija meus lábios e ficamos os dois admirando o nosso milagre.
[...]
Os pais de John não quiseram esperar até o outro dia, mas pensando bem, já é o outro dia. O parto durou bem mais do que eu imaginei. Estou sentindo o peso do cansaço, mas me recuso a dormir agora. Eu quero vê-los. Quero estar acordada quando a Ana chegar com o Max. Quero que ele veja seu irmãozinho.
Ficaram todos muito tempo babando em cima do pequeno Heitor, que nem se deu ao trabalho de abrir os olhinhos.
Já passa das duas, e todos já se foram menos a Ana. John está com Max adormecido em seus braços. Ele adorou a ideia de ser irmão mais velho. Senti que meu coração fosse parar quando ele beijou o rostinho do Heitor.
Agora eu tenho dois ursinhos loiros.
— Julia quase teve um treco quando eu disse que ele já havia nascido. – Murmura Ana acariciando meu cabelo.
— Quando ela vem?
— O voo dela e do Gabriel é amanhã à tarde.
Sorrio. Estou morrendo de saudade dos dois.
—Vou tomar um café, e vou aproveitar para ligar para ela.
— Tudo bem.
Ana beija minha testa e sorri docemente para mim. Seus olhos estão brilhando. Ela está orgulhosa de mim. Outra vez.
— Estou muito orgulhosa de você. – Cochicha. – Seu avô também estaria.
Sinto meus olhos marejarem.
— Obrigada Ana. – Sussurro baixinho.
Ajeito Heitor em meus braços. Ele está adormecido. Já encontrou sua posição preferida para dormir. Assim que Ana sai do quarto John se ajeita ao meu lado. Beija o topo da minha cabeça e sorri.
Sim, tudo valeu a pena. Eu passaria pelas mesmas coisas mil vezes se no final eu pudesse viver esse momento.
— Vamos ter trabalho em dobro agora. – Diz baixinho.
Ele não quer acordar nenhum dos dois. Nem Heitor que dorme em meus braços, e nem Max que dorme nos seus.
— Nossa família está crescendo. – Digo radiante.
— Está mesmo. – Diz orgulhoso.
— Eu disse que ele seria loiro. Sua genética é uma coisa poderosa. — Brinco.
John ri.
— Talvez seja os garotos. Quando vier uma menininha ela será sua cara.
— Você ainda quer uma menininha? – Pergunto mordendo meu lábio.
— Quero – sussurra – porque assim eu vou poder mimá-la muito, assim como eu mimo você.
Com toda a certeza do mundo este homem foi feito perfeitamente para mim. Se não fosse assim, de qual outro jeito ele teria me achado?
— Você é apaixonante sabia? — Pergunto abobalhada.
— É o meu rosto bonito. – Diz convencido.
Rio.
— Eu amo você. – Digo mantendo meus olhos nos seus. Encarando sua imensidão verde. – Amo muito, amo cada dia mais.
John sorri. Vejo em seus olhos o quanto ele está emocionado. Nós passamos por muitas coisas. Sofremos bastante, mas nossa recompensa está sendo maravilhosa. E é apenas o começo.
— Tudo isso não chega nem perto do que eu sinto. – Murmura com a voz entrecortada. — Quando olho para vocês três agora me faltam palavras para descrever. Eu te amo muito, Mel. Vocês são tudo para mim.
Encosto minha cabeça em seu ombro. John encosta sua cabeça a minha. Enrosco meu mindinho no seu, pois nossas mãos estão ocupadas com nossos tesouros.
— Sabe qual a melhor parte? – Pergunta John de repente.
— Qual?
— Precisamos continuar praticando.
— Praticando o quê?
— Praticando até termos a nossa garotinha.
Sorrio.
— Vou adorar praticar.
— Eu também, amor. Com toda a certeza eu vou adorar praticar. Temos muito tempo para isso. Todos as noites e todos os dias da nossa vida.
— Mal posso esperar. – Murmuro encantada.
Estamos apenas começando...
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