Sob minha pele
8 Capítulo 8
Mel.
Quero que ele veja que o que ele disse não me afetou em nada. Que eu não esperava nada. E que ele foi muito prepotente em dizer que não pode haver nada entre a gente. Quem disse pra ele eu queria alguma coisa? Que eu estava esperando alguma coisa. Eu estava quieta no meu canto, ele que veio com essa palhaçada de me fazer derreter como um cubo de gelo no sol, a um simples toque dele.
Idiota convencido!
Sentiu uma coisa diferente quando me viu? Eu vou mostrar o que eu estou sentindo agora. RAIVA!
Ele acha que vai chegar aqui arrasando corações, só pelo fato de ser de uma cidade grande? Só pelo fato de ter aquele cabelo lindo. Só pelo fato de ter aquele sorriso encantador de tremer as pernas. Só pelo fato de falar o meu nome como se fosse a sinfonia mais bonita do mundo. Só pelo fato de não sair do meu pensamento, e de me deixar desnorteada e sem ação com um simples elogio?
–Você é muito linda! — Ele disse.
Meu deus, como isso mexeu comigo. Como isso me fez sentir bem. Com apenas essa frase ele conseguiu a entrada com direito a permanência dentro de mim.
Droga! Eu estou fraquejando.
Foco Mel.
– Você está ótima Mel. – Elogia Julia.
Espero que eu esteja mesmo.
– Obrigada. – Digo alisando o vestido.
Chego ao restaurante e não estranho o fato de que praticamente toda a cidade está aqui. Ana deve ter colocado as mesas no canto. Pois elas estão todas amontoadas. Tem um grande espaço onde algumas pessoas dançam.
Mateo me vê. Mateo sorri. Mateo vem até mim.
– UAU! Caprichou! – ele está me olhando dos pés a cabeça. Isso meio que me constrange. – Você está muito bonita. – Seus olhos estão brilhando.
Sinto-me corar.
Por que estou corando?
– Obrigada. – Digo sem graça.
Acho que ele finalmente percebe que Julia está ao meu lado.
– Você também está muito bonita Julia. – Diz Mateo meio encabulado.
Ela sorri encabulada. Seus olhos estão brilhando.
Ela gosta dele!
Meus olhos buscam pelo restaurante, mas não vejo quem eu estou procurando. Mas para onde ele foi depois de me deixar aqui? Ele apenas saiu com o carro. Claro que ele não ia falar nada eu dei as costas e fui embora. Não me culpo. Ele devia ter um pouco mais de tato.
Não se trata uma garota como se quisesse algo com ela, não se enche o coração dela de esperanças e depois se pisa em cima.
Isso não se faz com ninguém. Mesmo não admitindo, aquilo me magoou.
Eu achei que fosse diferente, afinal, eu estou sentindo tudo diferente. Meus sentidos estão a flor da pele. E todos eles gritam seu nome como uma oração.
– Está procurando alguém? – Mateo me tira dos meus pensamentos. Seus olhos estudam meu rosto.
– Não. Não estou procurando ninguém. Alias, eu vou procurar Ana, talvez ela precise de ajuda. – Falo rápido.
Tento passar por ele, mas ele é mais rápido que eu.
– Fica só mais um pouco Mel. – Ele insiste enquanto segura meu braço. — Você acabou de chegar. Fica um pouco comigo, e eu até danço com você. — Ele sorri de canto de boca.
– Eu não vou demorar. – Digo me desculpando.
Parto para a cozinha deixando um Mateo meio desolado no meio do salão.
Aceno para algumas pessoas enquanto ando entre a multidão. Realmente não estou exagerando. Vejo Ruth no canto da parede com sua cara de antipática de sempre. Ela bem que podia mudar isso.
Insuportável!
Não sei para quê ela veio. Parece até que gosta de me infernizar com sua presença.
Esqueça ela Mel.
Ana está falando sozinha na cozinha.
– Ana, tudo bem? – Digo brincando. – Você tem amigos imaginários?
Ela bufa.
– Engraçadinha. – Diz enquanto arruma o cabelo. – Só estou checando se tem bebida para esse povo todo. Eu não vejo esse restaurante tão cheio desde a formatura da sua mãe.
Rio.
– Margarida trouxe mais coisas? – Pergunto me empoleirando ao seu lado.
– Trouxe sim. – Ela diz enquanto aponta para o canto da cozinha.
Garrafas de refrigerantes, tira gostos, bebidas "quentes". Por um momento eu fico preocupada. Ana não é muito forte para bebida. Dois copos e ela já parece sair de órbita. Estou sendo super protetora. Afinal, ela merece se divertir. E eu também.
– Então por que se preocupar? – Digo colocando as mãos em seus ombros e a forçando a olhar para mim. – Vá se divertir. Chega de trabalho por hoje.
Ela sorri.
– Você tem razão. Como alguém tão jovem pode sempre estar tão certa? – Agora ela afaga meus cabelos. – E você está muito bonita. Mateo já te viu? — Ela me dá um sorriso sugestivo.
Por que todo mundo fica falando dele?
– Já. – Reviro os olhos.
– Vocês ainda vão acabar se casando e tendo filhinhos. — Ela diz alegre demais para o meu gosto.
Não que eu já não tenha pensado nisso. Casar e ter filhos. Creio que esse é o sonho de toda mulher. Ser mãe. Tenho certeza de que esse dia irá chegar, mas não acho que o pai dos meus filhos será o Mateo. Ele é meu amigo. E eu não consigo vê-lo de outra maneira.
Nem em sonhos!
– Eu já disse que isso não vai acontecer. – Enfatizo para ela. — Nós somos amigos. E apenas amigos. Então é melhor ir tirando isso da sua cabecinha. Por que não vai rolar. — Digo pausadamente.
– Sei. – Ela arqueia a sobrancelha. — Se um dia acontecer, eu vou ser a primeira a dizer. "Eu disse!".
Ana sai da cozinha gargalhando. Reviro os olhos para ela.
Será que eu não posso ao menos escolher com quem eu quero passar o resto da minha vida? Sei lá, deixar meu coração escolher sozinho por quem ele irá bater mais forte. Embora alguma coisa dentro de mim me diga que ele já fez essa escolha. E eu sinceramente não sei se foi a mais acertada.
Entretanto, o que eu posso fazer? Ele não pediu minha opinião. Ele apenas escolheu.
[...]
Já estou há umas duas horas aqui, e nada dos forasteiros. Decidi chama-los assim agora. Nada de hóspedes. Isso é muito educado. Eles não merecem minha educação. Primeiro Mark foi muito rude, e segundo: John! Eu ainda não o perdoo por me dar falsas esperanças.
Panaca!
Já comi bastante. Já bebi bastante. Já dei umas dez voltas em volta do salão. E agora eu não consigo esconder meu tédio. E estou pensando seriamente em sair sorrateira e ir para o meu quarto. Mas isso é impossível com Mateo no meu pé o tempo todo.
– Você parece entediada. – Diz Mateo se sentando ao meu lado.
Como você adivinhou?
Talvez tenha um letreiro em minhas testa.
– Não estou não. – Minto. – Isso é sono. Não dormi direito essa noite. – Invento uma desculpa qualquer.
Ele afaga meus cabelos.
– Sabe o que vai fazer isso passar? – ele pergunta se inclinando para mais perto de mim. E eu disfarçadamente vou me inclinando para o lado.
– Ir dormir? Talvez eu vá mesmo! – Digo encarando as escadas. Talvez eu devesse mesmo ir me deitar. Tipo agora! Antes que a chance passe.
Ele ri.
– Você sabe que eu não ia dizer isso. Você e essa mania de atrapalhar minhas perguntas. – Ele balança a cabeça. — E eu tenho certeza de que você não se arrumou toda sesse jeito para não aguentar nem duas horas de festa.
Eu não me arrumei toda para essa festa boba. Eu me arrumei toda por outro motivo. Porém esse motivo resolveu não dar as caras!
Onde será que ele está?
Para onde será que ele foi depois de me deixar aqui?
– Você está mais esquisita que o normal Mel. — Diz Mateo franzindo suas sobrancelhas negras. — Tem algum problema? Sabe que você pode conversar comigo.
– Não se preocupe comigo. Como você disse eu apenas estou mais esquisita que o costume. Isso não deveria te surpreender. Isso é um dom. — Digo piscando para ele. — Que poucas pessoas tem.
– Tenho certeza que é. — Ele diz rindo com os olhos cor de avelã brilhando. — Mas como eu estava dizendo. Dançar vai fazer isso passar!
Dançar? Não por favor!
– Acho melhor não! – Digo franzindo o cenho.
–Eu acho melhor você levantar dessa cadeira. Ninguém mais aguenta sua cara de enterro. — Ele enfatiza isso. — Essa sua cara emburrada está me dando nos nervos.
Olho para ele assustada.
Estou com cara de enterro?
– Estou com cara de enterro? – pergunto de olhos arregalados.
– Se você continuar aqui sentada como uma múmia? Sim. – Ele está me olhando sério.
Agora ele está me puxando. Sorrindo enquanto me puxa. É contagiante. Acabo rindo também. Mateo me puxa para perto. Sua mão está na minha cintura. Sua outra mão está segurando a minha. Seu peito está bem colado ao meu. Seu rosto está em meus cabelos. O ouço suspirar. Sinto seu coração acelerado junto ao meu. Não sinto nada disse estando em seus braços, o que acaba deixando mais claro para mim que nós não nascemos para ficar juntos.
Meus pensamentos me levam até John. O que eu sentiria se eu chegasse a ficar assim tão perto dele? Ele apenas tocou meu rosto e foi como fogo em brasa. Eu me senti queimar. Meu corpo inteiro se incendiou. Penso em John. Estou com a cabeça encostada no ombro de Mateo. Onde ele está agora? Será que está com alguém que ele possa, e com quem ele queira ficar? E certamente essa pessoa não sou eu.
Mateo está me balançando no compasso da música. Uma música lenta. Mateo é um bom dançarino. Ele cheira meus cabelos. Ele está me segurando firme. Ele está bem perto. Meus olhos estão fechados. Não consigo parar de pensar em John. Seu rosto estava tão perto do meu. Eu senti seu hálito contra o meu rosto. Tudo o que eu queria era provar de seus lábios. Mateo está me abraçando. Abro os olhos.
John está na porta!
Droga!
Ele está me encarando. Ele está me vendo nos braços de outro. Sua expressão é esquisita de um jeito que eu nunca havia visto antes. Mas não sei se isso o incomodou ou se ele está apenas entediado. Seus olhos estão em mim. Meus olhos estão nele. Seus olhos estão sérios. Sua boca numa linha fina. Ele passa a mão entre os cabelos. E eu não posso deixar de pensar no quanto eu gostaria de fazer isso.
– Tudo bem? – Mateo chama minha atenção.
Meus olhos não estão mais em John. Agora estão em Mateo.
– Tudo. – Digo baixinho. Tentando forçar minha pulsação voltar ao normal.
Não, não está nada bem. Que droga John!
Volto a olhar para onde John estava a menos de cinco segundos, e ele não está mais lá. Meu coração se aperta. Ele não liga. Ele não me quer.
O quê aconteceu com mostrar para ele que eu não dou a minima?
A quem eu estou querendo enganar? Eu ligo! E muito!
A música acaba e Mateo ainda está me segurando. Tudo o que eu quero agora é chorar. Recomponho-me. Mateo relutantemente me solta. Sem dizer nada volto ao lugar onde eu estava. Enterro minha cabeça em minhas mãos.
O que é tudo isso? Se ele não quer, porque me olhar daquele jeito. Por quê?
Eu devo começar a evitá-lo. Não quero ficar perto dele e lembrar de suas palavras. Eu seria dele se ele quisesse. E ele sabe disso.
Sinto uma mão em meu ombro. Levanto os olhos. John está ao meu lado. Meu coração acelera, minha boca seca.
Você vai dizer que não me quer de novo?
– Seu amigo? – Ele pergunta. Não consigo decifrar a expressão em seu rosto. — Aquele com quem você estava dançando?
Engulo em seco.
– Sim. – Respondo cautelosamente.
– Ele gosta de dançar, não é? – Ele não parece muito bem. Está muito sério. Sua voz um tanto sarcástica. Na verdade, muito sarcástica. Ele não me parece nada feliz. E eu realmente não entendo o porquê.
– Talvez. – Dou de ombros. — Ele é um bom dançarino.
John bufa. Ele age como se eu tivesse acabado de dizer uma besteira.
Ele continua me fitando. Ainda bem que estou sentada, ou eu já teria desabado no chão. Meu corpo fraqueja perto dele. Eu não sou eu mesma. Nesses momentos eu sinto que meu coração toma as rédeas da situação. E nesse minuto, ele quer se jogar em seus braços.
– Quer dançar? – sua voz está hesitante.
Acho que meus olhos estão os mais abertos possíveis.
Ele está mesmo me chamando para dançar?
Eu deveria dizer não. Eu deveria dizer que por nada nesse mundo eu levantaria da minha cadeira para dançar com ele. Eu deveria ser fria, e dar troco pelo o que aconteceu hoje a tarde.
Mas é óbvio que eu acabo dizendo outra coisa.
Mas como eu disse antes. Meu coração está no comando, e ele não pensa direito.
– Sim. – Não posso fugir disso.
Sua mão está estendida para mim. Coloco minha mão na sua, e tudo dentro de mim acende como se fosse uma árvore de natal. Meus sinais de alerta estão gritando PERIGO! Estão gritando que eu devo me afastar enquanto é cedo. Mas eu não consigo. Algo me puxa. Eu não resisto. Não sou eu mesma perto dele. Perto dele eu sou alguém que não pensa. Sou alguém que apenas o segue, sem opção, sem escapatória.
Está tocando uma das minhas músicas favoritas no mundo, e eu a estou dançando com John. Eu nunca vou esquecer disso. Em toda minha vida.
Sua mão está na minha cintura. Minha mão está entrelaçada na sua. Meu rosto está em seu pescoço. Exalo seu cheiro. Quero deixar isso bem guardado. Não quero perder nada. Minha outra mão segura seu braço. Seu braço é firme. Seu peito está colado ao meu. Meu coração acelera. É difícil respirar. Seu coração também está acelerado. Ele respira devagar. Sua boca está na minha testa. Ele me segura com força como se não quisesse me soltar nunca mais.
Não me solte John!
Ele parece me completar. Cada pedaço dele. É como se eu tivesse sido feita para ele, e ele para mim.
Você sente o mesmo John?
– Você está muito bonita. E muito cheirosa também. – Sussurra em meu ouvido. Isso me faz arrepiar. – Eu sinto muito pelo o que aconteceu no carro. Eu não queria te magoar. Eu só achei que estava fazendo o melhor. – Sua voz demonstra culpa.
Eu queria tanto estar aqui. Nos seus braços. Não quero sair nunca mais.
Meus olhos estão nele agora.
– Eu não entendo você. Você me dispensa e agora está aqui. – Tenho plena consciência de que estou olhando para ele como um cachorrinho abandonado. — Você é meio confuso.
Ele tem que saber que está me deixando confusa. O quanto tudo isso é confuso. Não me importo de estarem todos olhando para nós dois.
– Nem eu mesmo estou me entendendo agora. Eu só quero ficar perto de você. — Ele diz com necessidade. — Eu sei que isso é confuso. Eu estou confuso também. Em todos os meus anos eu nunca me senti assim antes. Eu não sei o que você faz comigo. Não consigo me afastar. Senti ciúmes te vendo com outro. – Ele parece desconcertado. E até meio culpado por me dizer isso. E confuso. Ele sente o mesmo que eu. — Eu gosto de você Mel. – Diz baixinho apenas para eu ouvir. Sinto me arrepiar. Uma alegria muito grande me invade, e é quase impossível me manter quieta. – Ele é seu namorado? Você tem alguma coisa com ele? – Ele olha diretamente em meus olhos.
Ele está com ciúmes de mim. E isso me deixa muito feliz.
Faço que não com a cabeça. Por que minha boca não conseguiria formular nem uma palavra nesse momento.
Ele solta o ar, como se estivesse o prendendo. Como se estivesse com medo da minha resposta.
Um sorriso satisfeito se abre em seu rosto.
E nesse momento eu não nego mais para mim mesma. Eu estou apaixonada. Completamente. Irrevogavelmente. Apaixonada. Apaixonada por esse americano metido a besta. Apaixonada por esse homem confuso e incrivelmente lindo. Apaixonada por John Ackes.
Sorrio para ele. E deito minha cabeça em seu ombro.
– Eu preciso falar com você depois. Quando todos já tiverem ido embora. – Ele está falando baixinho para ninguém nos ouvir . – Eu vou vir te procurar aqui. Espere por mim.
– Tudo bem. – É tudo o que eu consigo dizer. Tem um sorriso tatuado em meu rosto. Não consigo desfazê-lo!
– Acho que chamamos atenção. – Ele está rindo olhando ao nosso redor.
– Eu também acho. – Digo sem saber ao certo o que eu deveria achar. Mas afinal! Ninguém tem nada com isso!
Olho em volta e mesmo tentando disfarçar dá para perceber que todos estão nos olhando. Mateo nos olha fixamente. Seu rosto está vermelho.
Sinto muito Mateo.
A música acaba. Tenho vontade de me agarrar a John. Não quero que isso acabe. Não quero que ele me solte. Ele coloca meu cabelo atrás da orelha e olha fixamente para os meus olhos. Sua imensidão verde. Eu me perco dentro dela.
– Você tem os olhos mais lindos que eu já vi. – Murmura. Coloca uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. E esse toque, esse toque simples, quase me faz desmanchar. Beija minha testa. E sai andando. Ele esta indo lá para fora. Minha vontade é de correr atrás dele.
Estou parada feito uma estatua no mesmo lugar em que ele me deixou.
Acho que derreti e virei uma poça no chão. Acho que criei asas e sai voando por ai. Acho que eu dormi naquela cadeira e isso é um sonho. Penso em me beliscar só para ter certeza, mas isso seria ridículo.
Parece até mentira.
Finalmente me recomponho e vou em direção a Julia que está com um sorriso brincalhão no rosto.
– Sabia que ele não ia resistir. – Ela pisca para mim.
Eu quero gritar. Eu quero cantar. Eu quero escrever seu nome na parede. Tem fogos de artificio estourando dentro de mim. E eu quase não me aguento de tanta felicidade.
Eu gosto de você Mel!
Essa será minha frase preferida de agora em diante.
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