Sob minha pele

59 Capítulo 59


Mel.

Passei a noite inteira preocupada. Ontem de manhã, depois que o John saiu para a reunião eu notei que Max estava mais quente que o normal. Além de estar muito inquieto. Ele ficou assim a tarde inteira, até que eu finalmente decidi ligar para o Rafael. Ele me deixou mais tranquila depois de examiná-lo, disse que tudo não passava de uma virose, mas que eu deveria manter os olhos nele.

Eu e John passamos a noite inteira em seu quarto velando seu sono. Mas como meu extinto de proteção de mãe é muito grande, eu mal consegui pregar os olhos a noite inteira. Não gosto de ver o meu ursinho doente. Me parte o coração.

Já passa das onze da manhã e Max ainda está dormindo. Ele nunca dorme até tão tarde. Isso já está me fazendo entrar em desespero.

— Como ele está? – Pergunta Ana.

Ela também está preocupada, e assim como eu, não quer tirar os olhos dele.

— Ele continua quente. – Digo testando sua temperatura. – Rafael disse para eu ficar de olho. Eu já dei o remédio duas vezes desde que ele saiu daqui, e a febre não abaixou quase nada. Estou preocupada Ana.

Meu filho é o que eu tenho de mais importante na vida. Qualquer coisa a seu respeito já me deixa de cabelos em pé.

— Deixe ele descansar mais um pouco Mel. Depois nós tiramos a temperatura dele outra vez, se caso ainda não tiver baixado nós chamamos o Rafael outra vez.

Olho meu anjinho e sinto meu coração despedaçar no peito. Passo minha mão entre seus cabelos, me inclino e deixo um beijo em sua bochecha rosada.

— John já foi? – Pergunto me virando para Ana.

— Não. Ele estava no telefone quando eu subi.

Franzo minhas sobrancelhas.

— Pensei que ele já tivesse ido. – Digo estranhando.

Ana sorri com doçura.

— Mel, ele também está preocupado com o Max. Claro que ele não iria sair sem saber como ele está. Ele estava me perguntando se ele já havia ficado assim alguma vez, e eu disse o óbvio.

— Óbvio? – Pergunto sem entender.

Acho que não é tão óbvio para mim também.

— Eu disse que toda criança fica doente. Max já ficou assim outras vezes. Ele estava meio assustado, e eu entendo, afinal, ele nunca passou por isso antes. Você deveria tranquiliza-lo. – Diz Ana.

Claro. Eu devo estar o assustando mesmo. Mas acontece que quando o assunto é Max eu acabo sempre ficando muito preocupada.

— Eu vou falar com ele. – Digo me levantando da cama. – Mamãe já volta ursinho. – Digo beijando seus dedinhos. – Fique com ele aqui Ana, ele pode acordar.

— Claro.

Saio do quarto de Max, e desço as escadas. Encontro John na sala. Ele está de costas para mim e de frente para a janela. Ele está com o celular no ouvido.

— Não sei pai. – Diz com a voz demonstrando preocupação. – Vou esperar para ver se ele melhora. Qualquer coisa eu te ligo. – Ele deve estar falando de Max. – Obrigado por estar cuidando das coisas por aí. Isso tudo é muito importante para mim. – Ele respira fundo e permanece quieto. – Espero que tudo corra bem. – Pausa. – Tudo bem. Mande um beijo para a mamãe e para a Kelly. – Pausa. – Tchau. Também te amo pai.

Estou encostada a porta esperando que ele me note.

Ele desliga o celular e o coloca no bolso. Passa as mãos por entre os cabelos e então se vira para mim. Primeiro ele parece surpreso em me ver, mas logo em seguida ele me mostra um dos seus melhores sorrisos. Aquele que faz meu coração bater mais forte.

— Você está aí. – Diz caminhando até mim.

Sorrio encabulada.

— Não queria atrapalhar o seu telefonema. – Murmuro.

— Era o meu pai. – Diz me puxando para perto. Passando os braços ao redor da minha cintura. – Eu disse sobre o Max. Ele ficou preocupado.

— Eu estou te assustando, não é? – Pergunto me sentindo culpada. – Sinto muito. Mas quando o assunto é ele, qualquer coisa já me deixa assustada. Se fosse por mim ele não ficaria doente nunca. Às vezes eu exagero mesmo.

— Você é a mãe dele. – Diz John colando seu rosto ao meu. Fico na ponta dos pés para conseguir alcançá-lo. – É normal. – Deixa um beijo na ponta do meu nariz. – Eu também estou preocupado. Não gosto de vê-lo assim.

Ergo meus braços e seguro seu rosto entre minhas mãos.

— Você é o pai dele. – Digo devolvendo suas próprias palavras. — É normal.

Isso o faz rir.

— Ele ainda está dormindo? – Pergunta.

— Sim. – John vem agindo estranho desde ontem à noite. – É por isso que está preocupado?

John engole em seco.

— Por isso, e por outras coisas também. – Diz me abraçando forte. Encosto meu rosto em seu ombro e deixo que ele me aperte contra ele. – Mas não quero falar disse agora. Ele é mais importante.

— John, eu sei que você tem trabalho. Não quero te atrapalhar.

John levanta meu rosto até que meus olhos encarem os seus. Me olha com determinação.

— Vocês dois são minha prioridade. Nada a respeito de vocês me atrapalha. E estou preocupado com o meu filho. O trabalho pode esperar. – Diz sério.

Sorrio.

Como serão as coisas quando ele estiver longe?

— John, eu estou exagerando. – Forço um sorriso. – Você pode ir. Qualquer coisa eu juro que te ligo.

Ele me encara inexpressivo por alguns minutos, como se decidindo se acredita em mim ou não. Acontece que Max já ficou assim outras vezes. Ele é uma criança, e assim como a Ana disse, crianças ficam doente o tempo todo.

— Promete? – Pergunta com a testa franzida.

— Prometo. – Respondo com sinceridade.

[...]

John saiu há algumas horas. Max já acordou e está assistindo Tv na sala. Ele ainda está muito quieto, mas acho isso normal. Eu mesmo quando estou doente não tenho muito animo para nada.

— Melhor ursinho? – Pergunto acariciando seu rosto.

Ele ergue os bracinhos para mim e eu o puxo para o meu colo. Sento-me no sofá e o aconchego da melhor maneira em meu colo.

Me pego pensando em tudo o que vem acontecendo entre mim e John nos últimos dias. Eu estou vivendo o paraíso outra vez. Ficar perto dele é tudo o que eu mais quero. Pelo menos é o que meu coração pede. Quando ele está por perto eu não raciocino direito. A parte mais racional dentro de mim diz que eu estou cometendo um erro. Ele vai embora outra vez. Nós não vamos ficar juntos. Porém quando eu estou com ele parece tudo tão certo. Estou muito confusa.

Ele está meio esquisito, pelo menos ele tem estado assim nos últimos dias. Porém sempre que eu pergunto ele desconversa.

Mesmo tentando me enganar eu tenho uma pequena ideia do que possa ser.

E isso me dá medo.

Eu não deveria ter me permitido me envolver outra vez. Não vai dar certo, e eu vou acabar saindo machucada outra vez. Eu deveria ter permitido que ele fosse o pai do Max, porque ele é o pai dele, mas eu deveria ter me mantido distante.

Eu fui fraca.

— Mel? – Ouço alguém chamar.

— Estou aqui. – Digo.

Julia aparece na porta da sala com o semblante preocupado. Ela joga a bolsa em cima do aparador e caminha até mim.

— Como está o meu bebê? – Diz se sentando ao meu lado e acariciando o rostinho do Max.

— Acho que ele está melhor. Ele estava mais quente de manhã. A febre baixou. – Olho para ela de sobrancelhas franzidas. – Mas eu ainda tenho que ficar de olho. Essas coisas são traiçoeiras.

— Minha tia me ligou. Gabriel me mandou vir. Ele disse que qualquer coisa você deveria ligar para ele.

— Obrigada. – Murmuro agradecida. Eles sempre estão preocupados com o bem estar do meu filho. – Rafael veio vê-lo ontem. Ele disse que deve ser uma virose. Nada de mais. Espero que ele esteja certo.

— Espero. Não gosto de ver meu bebezinho doente. – Diz fazendo uma voz engraçada.

De repente pelo canto do olho noto meu celular vibrando em cima da mesa de centro.

— Pode pegar para mim? – Peço para Julia. Ela se inclina, porém antes de passar para mim ela olha de quem se trata. Abre um sorrisinho debochado, e então me passa o celular.

Reviro os olhos.

— É o papai preocupado. – Diz com um sorrisinho.

— Não enche. – Resmungo para ela. – Alô? – Atendo ao telefone.

— Amor? – Incrível como a sensação de ouvi-lo me chamando de amor não mudou em nada com os anos. – Como estão às coisas por aí? E o Max?

Sorrio. Adoro que ele esteja preocupado com o nosso filho. Mas porque seria diferente? Afinal, Max também é dele.

— Ele está melhor John. – O ouço suspirar em alivio. – Eu disse que eu estava exagerando. – Digo rindo.

— Ainda bem. – Diz e sua voz parece um pouco cansada. Como se o que eu acabei de dizer tivesse dissipado uma parte de sua preocupação. Mas não tudo.

— Tudo bem John? – Pergunto preocupada.

Ele respira fundo.

— Conversamos quando eu chegar. – Diz e sinto meu corpo gelar. – Eu amo você. Qualquer coisa me liga. Vou ficar com meu celular por perto.

— Tudo bem. – Digo estranhando suas palavras. – Também te amo.

Essas palavrinhas ainda vão acabar com a minha vida.

Você está se deixando levar Melissa.

Está fazendo tudo o que prometeu não fazer.

Depois de desligar o celular, eu ainda fico alguns minutos com o aparelho em minhas mãos, sem saber o que pensar direito.

O que será que está o incomodando?

— Aconteceu alguma coisa? – Pergunta Julia me fitando com curiosidade.

— Não sei. Acho que não.

— Ele está preocupado com o Max? – Pergunta sem conseguir disfarçar o quanto isso a deixa satisfeita.

— Ele ficou a noite inteira acordado comigo. – Digo fazendo carinho na bochecha do anjinho que cochila em meus braços. – Acho que eu o apavorei. – Digo sem conseguir conter o riso.

Julia gargalha.

— Tenho certeza de que você o assustou. Você tem esse dom. – Diz com sarcasmo. – Mas então. Ele passou a noite toda aqui? Pelo o que minha tia disse ele está dormindo todas as noites aqui com você. O que está acontecendo afinal? Vocês estão juntos para valer? – Pergunta.

Julia não é de dar ponto sem nó. Odeia rodeios. Assim como eu. Mas às vezes eu realmente gostaria que ela fosse mais sutil.

— Nós estamos vendo no que as coisas vão dar Julia. – Digo não querendo entrar muito no assunto. Eu conheço Julia, e sei de cor tudo o que ela pensa. Não estou afim de sermão. – E ele vai embora, você sabe disso, estou tentando manter meus pés no chão.

E você poderia cuidar da sua vida...

Ergo meus olhos e a expressão em seu rosto me diz que o sermão já está chegando.

— Você está brincando? – Pergunta incrédula. – De quem foi essa ideia? – Pergunta e como sempre não me deixa responder. – Com certeza foi sua. – Me acusa. – O que você está pensando?

Reviro os olhos.

— Não quero me apressar. – Digo me defendendo. – Não quero fazer plano nenhum, porque eu sei muito bem que esse tipo de coisa comigo não funciona.

Já me deixei me levar por meus sonhos uma vez. Não acabou bem para mim. Ainda sinto os efeitos em meu coração.

— Vocês já apressaram as coisas Mel. Vocês sempre fizeram tudo rápido no momento em que deveriam ir devagar, e agora que vocês precisam ir rápido vocês desaceleram? Quer dizer. Tenho certeza de que isso é invenção sua, porque se fosse por ele nesse momento vocês estariam em lua de mel.

Isso foi o que eu pensei da outra vez.

E acabei grávida, e sozinha...

— Julia, eu preciso pensar nas coisas. – Digo com paciência.

— Não precisa não. – Diz com firmeza. – Você passou todos esses anos desejando que ele voltasse, e quando ele finalmente volta você quer ir devagar?

Ela não está dizendo nenhuma besteira. Disso eu sei. Julia tem estado comigo desde sempre. Ela me entende melhor até que eu mesma algumas vezes. Além de ter um talento e tanto em me repreender.

— Julia...

— Você não precisa mais pensar tanto dessa vez Mel. Você só precisa decidir. Sabe disso, não é?

Sei ao que ela se refere e isso faz meu estomago congelar.

— Eu sei, mas isso não deixa as coisas mais fáceis.

— Não deixa porque você não permite que as coisas sejam mais fáceis. Para de complicar tudo Mel. – Ela continua me encarando com desaprovação. – Seja feliz. Não é tão complicado.

[...]

O restaurante está lotado. Deixei Julia cuidando de Max e estou dando uma mãozinha para a Luiza que está se virando em três para dar conta de todas as mesas. Passo as próximas horas andando de um lado para o outro sem conseguir parar por nenhum segundo. Quando finalmente vejo o movimento começar a ceder me sinto aliviada.

— Acho que você já pode ir Luiza.

Ela me encara com alivio.

— Jura? – Pergunta afobada. – Muito obrigada. Acho que ainda dá tempo de me encontrar com meu namorado. – Diz soltando um risinho. — Então eu já vou indo. Vejo vocês amanhã. – Diz tirando o avental e acenando para mim e para Ana.

— Eu cuido do resto. – Digo lhe lançando um sorriso acolhedor. – Boa noite.

As mesas já estão praticamente vazias. Ana já encerrou os pedidos. Estamos recolocando as coisas no lugar. Ergo meus olhos e vejo John atravessando a entrada, e ele não está sozinho.

— Ai meu deus! – Diz Ana assim que nota Mark. Ele sorri enquanto a amassa em um abraço de urso. – Quanto tempo! – Diz Ana o abraçando. Quando eles se separam Ana lhe dá um tapa no ombro. – Por que não veio antes seu cara de pau? – Pergunta fazendo uma careta.

Mark coça a cabeça.

— Estamos atolados em trabalho desde que chegamos. – Diz Mark se defendendo. – Mel. – Diz me saudando com seu sorriso cafajeste.

— Olá. – Digo sorrindo. A essa altura John já está com os braços a minha volta me abraçando por trás. Ergo meu rosto e ele deposita um beijo em meus lábios. – Olá para você também. – Murmuro.

Ele sorri. Um sorriso encantador.

— Olá. – Murmura.

— Com fome vocês dois? – Pergunto.

— Mel, porque você acha que esse rapaz veio até aqui. – Diz Ana com as mãos na cintura se referindo a Mark.

Rio.

— Ana, você como sempre lendo os meus pensamentos. Ou neste caso, a minha barriga. – Diz Mark arrancando gargalhadas de todos.

— Vou preparar o prato de vocês. Sentem-se. – Diz se voltando para a cozinha.

— Onde está o Max? – Pergunta John.

— Ele está com a Julia. – Responde me virando para ficar de frente para ele.

— Ele está melhor mesmo? – Pergunta colocando uma mecha do meu cabelo para trás da orelha.

— Está sim. – Asseguro. – Quer que eu o traga? – Pergunto.

— Por favor, já estou com saudade dele. – Diz e essas palavras puxam as cordas do meu coração.

— Vou buscá-lo. – Digo me soltando dos seus braços. Antes que eu possa me afastar John me puxa de volta e me beija com vontade.

É só um beijo. Respire Mel. Respire.

— Estava com saudade disso também. – Murmura com suavidade.

Sorrio encabulada.

— Certas coisas não mudam. – Diz Mark sentado a mesa com os braços cruzados atrás da cabeça.

Saio do salão com um sorriso enorme tatuado em meu rosto. Ele acaba de me deixar tonta com esse beijo. Passei a tarde inteira me repreendendo por me permitir me envolver com ele outra vez, mas é só ele chegar para tudo ir pelo ralo.

Chegando à sala vejo que Julia e Max estão bem aconchegados no sofá.

— Max. – Chamo e ele ergue deu rostinho para me ver. – Papai chegou. – Digo o pegando em meus braços.

— Papai? – Pergunta baixinho.

Suas bochechas ainda estão rosadas por conta da febre.

Julia se senta e começa a se ajeitar.

— Que horas são? – Pergunta tentando colocar o cabelo no lugar.

— São quase nove da noite.

— Gabriel já deve estar chegando. Ele virá me buscar.

Espero Julia pegar sua bolsa e então partimos para fora. Assim que chegamos ao salão Max se agita em meus braços querendo ir ao encontro de John. Ele está tão apegado. Eles têm passado muito tempo juntos nos últimos dias. Max espera ansioso John chegar à noite. Max fala dele o tempo todo. Confesso que sinto ciúmes. Antes eu era o centro do seu mundo, porém agora eu tenho que dividi-lo, mas não estou reclamando. Na verdade, eu amo isso. Sinto como se fossemos uma família de verdade. Mesmo que essa família esteja com os dias contados.

— Ei campeão. – Diz John abraçando Max com força. – Papai passou o dia todo preocupado com você. – John o encara com ternura e Max sorri para ele.

Estamos todos sentados à mesa. Quase como nos velhos tempos. Me pego sorrindo imaginando que em outros tempos eu estaria rezando para que o janta acabasse logo para que eu pudesse ficar sozinha com ele.

Bem, não é assim tão diferente agora.

Ana e Mark desataram a falar sobre os velhos tempos. Eles sempre se deram muito bem. Lembro-me de Ana ter ficado um pouco triste depois que ele se foi sem se despedir. Ela me disse uma vez que ele a lembrava de seu irmão.

John está com Max em seu colo. Eles não se largam. Estou sentada ao seu lado com minha cabeça apoiada em seu ombro. De vez em quando ele se vira e beija o topo da minha cabeça.

— Você não vai se casar nunca? – Pergunta Julia para Mark. – Sei lá, encontrar alguma pessoa. Sossegar.

Ele ri tanto que joga a cabeça para trás enquanto gargalha.

— Tem certas coisas nessa vida que eu prefiro não experimentar. Casar é uma delas. – Responde com seu jeito cínico já tão conhecido.

— Você não muda. – Diz Ana rindo. – Eu tenho o pressentimento de que você ainda vai conhecer a mulher que vai te dominar. Ela vai te deixar de quatro.

— Essa mulher ainda está para nascer Ana. Não fui feito para ser dominado. E sem querer ofender – diz encarando demoradamente todos na mesa – esse corpinho aqui não nasceu para uma mulher só. Seria um desperdício. Imagina. Deixar todas as outras por uma só? – Pergunta fazendo uma careta engraçada. – Não seria justo.

— Eu já desisti dele. – Diz John zombando.

— Você é um traidor da causa dos solteiros. – Resmunga Mark aponto para ele.

Rio com seu comentário.

Passamos mais alguns minutos conversando até que Gabriel chegou para buscar Julia. Ele estava com o semblante cansado de quem passou o dia inteiro em um hospital. Eles não demoraram muito e partiram.

— Bom, acho que já vou indo também. – Diz Mark se levantando.

— Você pode ficar se quiser. Para não pegar estrada há essa hora. Você pode ficar em uma das cabanas. – Ofereço.

— Eu agradeceria. – Responde se espreguiçando. – Mas ontem à noite eu conheci uma garota, e se eu aparecer na casa dela agora talvez eu tenha sorte e ela me convide para ficar. – Diz com seu jeito cínico.

Reviro os olhos.

Depois que todos se recolheram eu deixei Max em seu quarto e eu e John partimos para o meu. Fizemos amor durante um bom tempo. Acho que nunca vou me cansar disso. De estar com ele.

Pelo menos por agora eu poderia evitar pensar em certas coisas, como em sua partida...

Estou aconchegada contra John enquanto ele brinca com meus cabelos. Seus dedos entre meus cabelos me relaxam. Meus olhos praticamente estão se fechando sozinhos.

— Eu quero falar com você sobre um assunto. – Diz hesitante. Viro-me para encará-lo e ele parece sério.

— Algum problema? – Pergunto preocupada.

— Não acho que seja um problema. – Murmura entrelaçando sua mão na minha. – Estar com você e com o Max nesses últimos dias foi a melhor coisa que já me aconteceu. E eu quero vocês dois para sempre assim bem perto de mim.

Sinto meu coração acelerar no peito porque sem muito bem aonde ele quer chegar.

— John...

— Eu quero que você me escute primeiro. – Diz acariciando meu rosto com doçura. – Mel, eu quero vocês dois perto de mim. – Seus olhos verdes me analisam. — Eu quero me casar com você.

O olho assustada sentindo frio na barriga. Sento-me e me cubro com o lençol. Eu sei o que ele vai me pedir. Mas não sei se eu estou preparada.

— Eu preciso voltar para Nova Iorque, mas eu não quero ir sozinho. – Diz sentando-se ao meu lado. – Eu quero que vocês venham comigo.

Sei que tudo entre nós sempre teve suas complicações. Muitos desencontros, muitas bobagens acabaram nos separando no passado. Tudo isso acabou deixando uma cicatriz em mim e mesmo depois de nos acertamos, depois de conversarmos e colocarmos os pingos nos is, não sei se já superei.

— Ir embora? – Pergunto num fio de voz.

— Amor. – Diz John segurando meu rosto entre suas mãos. – Precisamos começar de novo. Quero vocês dois ao meu lado. Nós vamos ficar juntos. – Ele encosta sua testa a minha. – Faremos dessa vez o que devíamos ter feito da outra. Você, eu e o Max. Eu vou comprar uma casa, com um jardim enorme para ele brincar. Não só para ele, mas para todos os filhos que ainda vamos ter. – Diz com um sorriso no rosto, mas eu ainda posso perceber a insegurança em seu tom de voz. – Você só precisa dizer que sim. – Implora.

Não sei se já se passaram segundos, ou minutos, mas nenhuma palavra saiu da minha boca. Eu estava com medo de quando esse momento iria chegar.

— Não posso John. – Digo sentindo um nó na garganta. – Não posso ir embora daqui.

— Por que não? – Pergunta com as sobrancelhas franzidas.

— Eu prometi ao meu avô que iria cuidar desse lugar. Ele confiou em mim. – Choramingo sentindo meus olhos marejarem. – Ir embora, seria como deixá-lo para trás.

— Mel – diz John encarando meus olhos com firmeza. – Seu avô não está mais aqui. Você não está o abandonando.

— Você quer que eu largue tudo para ir com você? Assim do nada!

— Eu sei que é em cima, mas eu já estou adiando a minha volta há algum tempo porque eu queria passar mais tempo com vocês. Eu estava com medo de tocar no assunto achando que você não iria...

— Quando você precisa ir? – Pergunto sentindo meu coração se comprimir no peito.

— Na sexta. – Murmura.

— Depois de amanhã? – Pergunto boquiaberta. – Tão cedo?

— Eu sei amor, mas eu preciso voltar para acertar algumas coisas. Eu não posso me dar ao luxo de me afastar durante tanto tempo. – A expressão desamparada em seu rosto é a mesma a qual eu vi há três anos. – Não quero ficar sem vocês. Não mais.

Eu já havia me acostumado com a ideia de viver aqui para o resto da minha vida. Aqui eu vivo cercada pela lembrança daqueles aos quais tanto me amaram e eu tanto amei. Ir embora seria como deixá-los para trás.

— Não posso. – Murmuro sentindo as lágrimas pesadas escorrerem pelo meu rosto.

John se afasta e me olha como se não estivesse acreditando nas palavras que acabaram de sair da minha boca.

Me sinto desamparada.

— Você sabe o que isso significa? – Ele pergunta com o rosto inexpressivo. Ele está vestindo sua armadura agora. – Sabe o que significa para nós? Para o Max?

— Eu não posso deixar tudo para trás John. Não posso ir embora com você.

John desvia seus olhos dos meus, passa a mão entre os cabelos, fecha os olhos com força e então volta a me encarar outra vez. Seus olhos antes pareciam quentes como fogo, agora estão frios como o gelo.

— Você não me perdoou, não é? – Pergunta num fio de voz.

Engulo em seco.

Encaro meus dedos sem conseguir encará-lo.

Eu passei muito tempo me amargurando. Essas coisas não passam de uma hora para a outra. Eu não consigo esquecer.

— Se você não me perdoou me diz de uma vez. Fala tudo o que você precisa. Você precisa desabafar? Quer me bater? – sua voz está embargada. – Faça qualquer coisa comigo, mas não me peça para ficar longe do meu filho.

— Eu não estou te afastando dele. Não é isso. Ele é seu filho, e você tem todos os direitos John. Você pode vê-lo...

— Quando? Duas vezes ao ano? – Sua voz soa fria. – Eu já te pedi que me perdoe por ter sido um idiota. O que você quer que eu faça mais para te mostrar que eu amo você mais que tudo. Quer que eu me ajoelhe aos seus pés? Que eu me humilhe? Por que se for isso eu faço Mel. Juro que eu faço qualquer coisa.

Claro que eu não quero isso.

Levanto da cama e procuro por minha camisola na penumbra. Sinto seus olhos queimarem minhas costas. Encontro-a e a visto rapidamente.

— Você precisa me dar uma desculpa! – Esbraveja. – Você precisa me dizer alguma coisa que justifique.

— Foi tão fácil para você ir embora. – Choramingo sentindo meu coração se despedaçar outra vez. De repente tudo o que eu senti naquele dia volta a me invadir com força total. – Foi tão fácil me deixar aqui. Esse tipo de coisa não some de uma hora para outra John.

— Você vai jogar o nosso futuro fora? Vai jogar tudo o que podemos ter por medo?

— Eu não confio em você.

Pronto. Essas são as palavras que mais definem meus sentimentos desde que eu voltei a colocar meus olhos nele.

Eu não consigo mais acreditar no que ele diz. Não consigo acreditar em suas palavras. Uma parte minha chega a duvidar do seu amor. É doloroso demais. Eu já ouvi tudo isso antes. Já ouvi todas essas palavras saírem de sua boca com adoração, com amor, ou com o que eu achei que fosse amor, e no final, elas não valeram de nada.

Essa frase parece acertá-lo como um soco. Seus olhos se arregalam e eu posso ver as lágrimas brilhando sobre o verde.

— Eu estou te pedindo uma chance. Uma chance para passar o resto da minha vida corrigindo o que eu fiz de errado no passado.

— Você sabe o que fez comigo? – Pergunto deixando que ele saiba pela primeira vez a profundidade da minha mágoa. – Você acabou comigo quando foi embora. Acabou com os meus sonhos. Acabou com tudo em que eu acreditava. Eu acreditei em você. Eu entreguei tudo para você. Eu me entreguei por completo para você John. E quando eu precisei que você confiasse em mim, quando precisei de você, você simplesmente foi embora. Por mais que eu ame você eu nunca vou conseguir esquecer. Sempre vai doer aqui. – Digo com a mão apoiada em meu coração.

Eu sempre me senti tão enganada.

John se levanta da cama e caminha até mim.

— Me deixa consertar. Não me peça para viver sem você. – Diz segurando meu rosto entre suas mãos me olhando com desespero. – Por favor. – Implora.

— Não consigo.

— Mel – implora com o rosto banhado em lágrimas. – Por favor. – Junta seus lábios aos meus e me beija com sofreguidão. Suas lágrimas se misturando as minhas. – Me deixa cuidar de você. Se eu pudesse voltar no tempo. Eu faria tudo diferente.

— Mas você não pode John. – Choramingo sentindo tudo dentro de mim doer. – Não pode mudar as coisas. Nem eu consigo mudar o que já está comigo há tanto tempo.

Eu o amo, amo demais, sempre amei, mesmo quando eu quis odiá-lo. Mas misturado ao amor à mágoa ainda se sobressai. Eu tenho medo de me deixar levar. Tenho medo de que ele me magoe outra vez. Ele usou as mesmas palavras da outra vez, e no final elas não tiveram valor algum para ele.

— Esses dias que passamos juntos não significaram nada para você?

— Significaram para você da outra vez? Aqueles dias em que passamos juntos fizeram você querer voltar atrás enquanto pegava o avião para longe daqui? – Pergunto sem conseguir me conter.

— Você quer me dar o troco é isso? Você quer me fazer sofrer? É isso? Por que se for, eu já sofri o suficiente por esses anos, e você também. Mas nós estamos aqui agora.

— Não me peça para largar tudo por você pela segunda vez, quando você nunca fez o mesmo por mim. – Digo o encarando. – Eu estava disposta a tudo por você. Deixar o meu lar, minha família, tudo para ir com você. Quando eu pedi que fizesse o mesmo por mim você não fez.

— Meu deus! – Esbraveja jogando as mãos para o alto. – Para de pensar no passado. Para de espelhar o que nós podemos ter agora com o passado Melissa! Eu estou aqui agora – diz batendo no peito — implorando para que você me dê uma chance de te fazer feliz. Uma chance para consertar tudo isso.

— Eu não acredito em você. – Respondo.

John dá alguns passos para trás como se eu o tivesse esbofeteado. Cruzo os braços em frente ao peito como se eu estivesse me protegendo.

— O que esses dias significaram para você? – Pergunta me fulminando com os olhos. – Nós fizemos amor Mel. Nós passamos todos esses dias juntos, eu, você e o Max. Nós dormimos juntos nessa cama. – Sinto sua fúria aumentar. Sua respiração está alta. Ele parece fora de controle. – Você olhou nos meus olhos e disse que me ama. Era mentira?

Passo minhas mãos pelo meu rosto tentando em vão cessar as lágrimas que insistem em cair.

— Não. Não foi mentira. – Choramingo sem forças. – Nunca foi mentira para mim John. Sempre foi verdadeiro. Mas no momento em que você foi embora eu acreditei que para você fosse tudo mentira!

— Eu já te pedi perdão! – Grita.

— Perdão não é o suficiente John. Nada que você faça vai apagar os danos que você deixou em mim. Eu amo você, e acho que isso nunca vai mudar, mas eu não consigo acreditar no que você diz, porque você já me disse tudo isso antes, e não cumpriu!

— Mas agora é diferente. – Diz segurando meu rosto entre suas mãos. – Sempre foi verdadeiro para mim. Sempre foi. Eu nunca te enganei. Tudo o que eu sempre disse foi verdadeiro. Você é o amor da minha vida. Não posso viver sem você. – Ele engole em seco, e eu sinto meu coração despedaçar a cada lágrima que escorre por seu rosto. – Por favor, me deixe consertar isso.

Eu tenho muito medo. Não quero me sentir desamparada, enganada, destruída outra vez. Eu demorei muito tempo para me recuperar. Demorei muito para confiar em outra pessoa de novo. Minha confiança nele foi destruída.

— Não consigo.

Seus olhos parecem me enxergar melhor agora.

— Não há nada que eu possa fazer? – Pergunta em um último esforço.

Não consigo responder. Não encontro palavras. Elas me faltam agora. Sinto os soluços sacudirem meu corpo. Cubro meu rosto com as mãos e me sento na beirada da cama me deixando chorar.

Eu o ouço andar pelo quarto, mas não consigo encará-lo. Não posso olhá-lo. Sinto uma dor insuportável no peito. Todas as sensações desgastantes me inundam outra vez. Me tiram o ar. Ergo meu rosto e ele está vestido. Ele está colocando suas coisas em uma bolsa.

— Aonde você vai? – Choramingo.

— Não posso ficar aqui. Preciso ir embora. – Diz mecanicamente enquanto anda pelo quarto recolhendo suas coisas.

— Você não precisa ir John. Está tarde. Eu não estou te expulsando.

— Não posso ficar aqui. – Repete. De repente ele se vira e me encara com o rosto banhado em lágrimas. Sinto o ar me faltar. – Eu nunca vou me perdoar pelo mal que eu te fiz. – Murmura.

— John. – Choramingo com a voz entrecortada.

— Eu venho ver o Max amanhã. Se não for problema. – Coloca a bolsa no ombro e caminha até a porta. Antes de sumir no corredor eu o vejo parar em seu caminho. Os punhos cerrados. – Não posso suportar que você me odeie Mel, e a pior parte é que eu não consigo ter raiva de você por isso. Eu sei que é culpa minha. Espero que você me perdoe um dia.

Sinto tudo dentro de mim se quebrar, se queimar, enquanto eu o observo ir embora. Deito-me na cama e choro, choro, porque outra vez ele se foi.

Eu o estou deixando ir...

Estou o deixando ir antes que ele me magoe outra vez.

Notas finais
Vamos ter paciência com a Mel. As coisas não estão fáceis para ela. Este é o antepenúltimo capítulo. Vejo vocês na próxima semana.