Sob minha pele

54 Capítulo 54


Mel.

Eu chorei. E chorei muito até pegar no sono na noite passada. Chorei por estar me sentindo o pior ser humano da face da terra. Chorei por minha mentira, chorei pela dor que esta mentira vinha me infligindo nos últimos anos. Chorei ao me lembrar do magoa, e da dor que enxerguei nos olhos do homem a quem eu sempre amei, e que ainda amo com todo o meu coração. Eu não posso negar para mim mesma. Eu o amo. Amo muito. Mas algo dentro de mim me faz reprimir esse sentimento. Eu não quero ter que recolher os caquinhos do meu coração outra vez. Eu não quero abrir o meu coração para a única pessoa que poderia destrui-lo em poucos segundos. Não outra vez. Eu não vou fazer isso.

Quantas vezes eu havia sonhado?

Sonhado que Max conheceria John. Que John o seguraria em seus braços. Eu sempre quis vê-los frente a frente. Essa imagem ontem quase me fez perder o fôlego. Eu levei alguns instantes até perceber o que estava desenrolando a minha frente.

Ele estava ali.

Com Max.

E eu nunca havia sentido um misto mais impressionante de sentimentos.

Ternura, amor, felicidade, medo, angustia.

Tudo junto.

Eu havia passado a noite em claro depois de ter fugido dele na outra noite. Se eu fechasse os olhos eu ainda podia sentir suas mãos me apertando com força. Eu ainda podia sentir minha pele quente onde ele havia tocado.

Foi difícil resistir... porém, era necessário.

Não posso me deixar cair em seus encantos outra vez!

Eu não sou mais aquela garota a quem ele conheceu três anos atrás. Eu amadureci. Eu fui forçada a isso quando me vi sozinha no mundo com um filho para criar.

Lembro-me do tom de voz frio e zangado com o qual John me acusou ontem:

— Você não precisava ter ficado sozinha porque ele tem um pai!

Eu sei que ele me receberia. Sei que ele teria assumido meu filho, porém naquela época eu estava magoada demais. Abalada demais. Tudo estava caindo por terra. Eu não tinha para onde correr. Eu não sabia o que fazer, e procurar John, me humilhar para ele, com toda a certeza era a última coisa da minha lista.

Eu havia tentado. Eu havia dado alguns passos até ele. Por que ele nunca fez o mesmo por mim? Eu estava cansada de sempre ser eu quem deveria correr, quem deveria gritar, quem deveria implorar para que as coisas fossem diferentes.

Lembro-me de ter pensado: Se for para ficarmos juntos, estará tudo nas mãos dele.

Ele não fez nada!

Olhando de outro ponto de vista, eu sei muito bem que parece que o que eu fiz não tem perdão. Talvez não tenha. Mas apenas eu sei o que me levaram a tomar minhas decisões, e por mais que eu explique eu tenho certeza de que outra pessoa não irá entender.

Pensando nesse assunto eu havia decidido a levar Max para conhecê-lo. Eu estava disposta a aguentar as consequências dos meus atos. Eu sabia que não seria nada fácil, mas eu já havia tomado minha decisão. Eu apenas não esperava que John aparecesse aqui antes que eu pudesse fazer algo.

Me senti diminuída com o seu olhar. Era explicita a raiva em seus olhos que estava sendo dirigida a mim. Aquilo doeu em mim. Doeu muito.

Eu não queria discutir. Eu não queria acusá-lo de nada, porém ele me forçou a isso quando começou com suas insinuações. Insinuando que eu era um tipo de pessoa fria e sem coração. Não esperava que ele soubesse o quanto eu tinha sofrido calada durante esses anos. O quanto eu sofria toda vez que olhava para Max e tinha a plena consciência de que John não o conhecia. O quanto eu me recriminava por desejar que ele estivesse ao meu lado depois de tudo. Sua insensibilidade me tirou do sério. Ele nunca esteve aqui. Então eu fiz o que ele havia me aconselhado.

Eu segui com a minha vida, e ele seguiu com a dele.

Mesmo que tenhamos perdido alguma coisa no caminho.

Acho que ele não acreditou em mim quando eu disse que iria levar Max até ele. Eu meio que já esperava por isso. Mas essa era minha intenção, e sobre isso tenho minha consciência limpa. Mesmo que de forma desastrosa, já havia acontecido. Ele já sabia de tudo. Ele já sabe que tivemos um filho. Ele deveria estar me odiando agora. Uma pequena parte minha sofre, porém outra mais sensata diz que é o melhor.

Melhor nos afastarmos.

Max me perguntou sobre ele após ele ir embora. Com um nó na garganta eu disse que ele já havia ido embora.

Uma parte minha encara a janela a toda hora, esperando que a qualquer momento ele estacione o carro, e entre pela porta outra vez, arrancando o ar dos meus pulmões.

Ele não vai desistir do Max. Eu sei que não. Ele irá amá-lo assim como eu amo porque ele é um pedacinho nosso. Ele é tanto meu quanto dele. Ele tem seu sangue.

E eu vou ter que aprender a conviver com isso...

Eu quero que Max cresça com o seu pai por perto. Quero que ele saiba que tem outra família. Que tem uma tia, avós., que ele tem um pai...

Rafael me ligou algumas vezes ontem à noite, porém minha dor de cabeça não me deixou atendê-lo. Eu sei que lhe devo uma explicação pelo desastroso jantar naquela noite. Ele merece saber. Ele ficou de passar aqui mais tarde antes de anoitecer.

— Está no mundo da lua outra vez? – Pergunta Ana me cutucando.

Sorrio para ela.

— Só estava pensando um pouco. – Murmuro.

— Se você quiser conversar. – Diz de dando de ombros.

Sei que sempre posso confiar nela, porém sinceramente eu não sei o que eu posso dizer que ela já não saiba de cor.

— O mesmo de sempre Ana. A confusão, a angústia no peito. Me sinto num beco sem saída sem saber para onde correr. Acho que eu me encurralei sozinha.

— Se você se refere a John, ficou muito claro para mim que vocês ainda são loucos um pelo outro, não que isso seja novidade da sua parte, mas eu acho que se vocês conversassem sem acusar um ao outro como fizeram ontem, às coisas possam funcionar.

— Para quê? – Pergunto tentando não soar irritada. – Para que conversar? Por quê? Não tem mais conserto Ana. Acabou! Não existe mais nós dois, acho que nunca existiu. Nós somos de mundos diferentes. Eu vivo aqui e ele lá. Não funcionou da última vez, porque funcionaria agora? Eu já sei como esse filme termina, e eu não estou disposta a revivê-lo.

— Mesmo que seu coração lhe diga o contrário? – Pergunta Ana incrédula.

— Eu ouvi o meu coração da última vez. Eu entreguei tudo para ele, e não foi suficiente. Eu assisti meus sonhos se despedaçarem bem na frente dos meus olhos. Eu não vou passar por isso outra vez! – Digo decidida.

— Vocês eram jovens Mel. Estavam experimentando um amor novo. Era apenas vocês dois contra o mundo. Você é mais madura agora. Mas pense bem, agora tem o Max. Ele é fruto daquilo que vocês dois viveram. Fosse o que fosse, foi forte o suficiente para gerar uma vida. Você não acha que tem outra oportunidade batendo a sua porta?

Mas porque diabos Ana está enfiando essas coisas em minha cabeça?

Eu não quero criar expectativas. Eu não quero pensar no que pode ser, porque eu melhor que ninguém sei o quanto pode ser doloroso assistir o rumo diferente que a vida pode tomar.

— Se ele quiser fazer parte da vida do Max pelo tempo que ele ficar aqui eu não vou impedir. Se caso ele não queria eu também não irei brigar – essas ultimas palavras me fazem vacilar. – Mas eu não vou me envolver nisso. Eu não vou. Eu sou a mãe do Max, e ele é o pai, esse é o único vinculo que temos juntos Ana.

Ana estuda meu rosto por alguns segundos sem dizer uma única palavra. Seus olhos transbordam compaixão, e ela parece sofrer por mim, embora eu não entenda o porquê.

Respiro fundo.

— Não vou insistir com isso Mel. Você melhor que ninguém sabe da sua própria dor. Mas não deixe que isso te cegue. – Diz antes de se virar e ir em direção à cozinha, me deixando desconcertada e com os pensamentos a mil.

[...]

O sol se põe no horizonte, e nenhum sinal de John por hoje. Isso meio que me causa um alivio. Eu não me sinto confortável para encará-lo. Seus olhos me acusam de um modo amedrontador. E o pior é que eu sei que mereço. Isso só dificulta tudo.

Max está deitado no tapete da sala, com muitas almofadas ao seu redor. Ele enrola a fralda em seu dedinho. Seus olhos verdes estão fixos na televisão a sua frente. Ele se virá e me vê olhando para ele encostada à parede da sala.

— Mamãe. – Me chama estendendo os bracinhos.

Sorrio e vou até ele. Deito-me ao seu lado e o puxo para que sua cabeça repouse em mim. Passo alguns minutos encarando a televisão sem prestar a menor atenção no que está passando ali.

Respiro fundo.

Eu preciso começar a prepará-lo. Eu sei que John virá conversar com ele. Max é muito pequeno, ainda é um bebê para mim, porém ele também é muito esperto. E eu sei que John irá querer que ele o reconheça como pai. Uma parte minha também quer, e espera por isso.

— O que você achou daquele moço que esteve aqui ontem? – Pergunto hesitante. Pego sua pequena mãozinha e levo até meus lábios, assim como eu fiz quando o peguei pela primeira vez em meu colo.

Max se vira para me encarar com seus grandes olhos. Ele franze as sobrancelhas claras como se estivesse confuso.

Talvez ele não se lembre.

— Você se lembra dele? – Continuo. – Sabe, aquele para quem você estava mostrando o seu desenho.

Seus olhos brilham com o reconhecimento.

Sorrio.

— Você gostaria de vê-lo outra vez? – Insisto.

De repente Max se levanta e caminha arrastando sua fralda no chão até seus desenhos que ficam colados na parede ao lado da janela. Aquele parte da sala é como se fosse o seu mural. Ele pega um dos desenhos e o traz até mim.

—Olha mamãe. – Murmura.

O desenho mostra o que seria eu – sorrio – me reconheço no desenho pelo formato longo das linhas negras. Max senta-se ao meu lado e me observa analisar o desenho.

— Batman. – Diz apontando para o desenho com a máscara. Porém ao lado a um novo. Um que ele não havia desenhado antes. O que parece um rosto sorri. O desenho tem os cabelos claros, como os dele próprio.

Sorrio.

É o seu papai, meu amor.

— Você vai dar isso para ele, quando ele vier te visitar? – Pergunto sentindo meus olhos marejarem.

Talvez alguma coisa dentro dele tenha dito.

Talvez ele saiba, mesmo que inconscientemente.

Dou um beijo estalado em sua bochecha, e o puxo para o meu colo. O abraço forte como se ele pudesse escorrer por entre os meus dedos.

Meu filho é a coisa mais importante que eu tenho. Eu faria qualquer coisa por ele. Enfrentaria qualquer coisa por ele. Não hesitaria em dar a minha vida por ele.

Espero que ele me perdoe.

— Mel.

Viro meu rosto a ponto de ver Ana.

— Tem alguém te procurando lá fora. – Anuncia com os olhos bondosos.

Enxugo meus olhos com as mãos. Sinto meu coração desandar no peito. Sinto minhas mãos tremulas, e realmente penso duas vezes antes de me levantar para atender quem quer que seja.

— Quem é? – Pergunto com medo da resposta. Com medo de que seja ele. Com medo de ter que encará-lo mais uma vez.

— Rafael. – Diz Ana com uma expressão estranha.

Respiro aliviada, mas não por muito tempo. Eu irei ter uma conversa muito difícil com ele agora. Não sei nem por onde eu devo começar.

— Eu já estou indo. – Digo me levantando.

— Eu vou ficar aqui com o Max. – Diz Ana com ternura.

Respiro fundo outra vez antes de passar pela porta. Eu o encontro de costas para mim, comtemplando a janela a sua frente. Ele parece pensativo. Eu paro em meu encalço e o observo. Observo seu jeito sereno contrastando com seu corpo forte.

Por que eu não me apaixonei por você?

Seria tudo tão diferente agora.

Ele se vira a tempo de me ver parada ali o observando. Pisco algumas vezes ao perceber que fui pega no flagra. Sorrio sem jeito.

— Adoro esse sorriso. – Ele murmura. E seu jeito desamparado ao dizer isso quase me faz chorar.

— Como está? – Pergunto indo até ele.

Ele passa seus braços ao meu redor e beija minha testa com ternura como ele sempre fez desde que nós conhecemos. Sinto sua barba por fazer arranhar meu rosto. Eu sempre gostei muito dessa sensação. Seus braços fortes me apertam com força. Sinto seu coração acelerado. Me permito sentir isso. Nem que seja pela última vez.

— Poderia estar melhor. – Murmura respondendo minha pergunta. – Mas eu quero saber de você. Acho que temos que conversar, não é? – Pergunta e eu reconheço em seu tom de voz que tudo o que ele menos quer é conversar agora.

Sorrio me soltando dele e me sento em uma cadeira próxima. Ele me segue e senta a minha frente. Ele dobra as mãos em frente ao corpo e me encara com seus olhos azuis.

Estremeço.

— Acho que te devo explicações – começo sem jeito. Talvez seja melhor começar explicando o que aconteceu naquela noite no restaurante.

— Você conhecia aquele cara do restaurante? – Pergunta sem rodeios.

Rafael gosta de tudo às claras, e eu sempre soube disso. Eu o admiro por isso também.

— Sim. – Respondo baixinho. – Ele é o pai do Max.

Rafael faz uma expressão de espanto. Franze as sobrancelhas escuras e encara a mesa como se estivesse pensando. Passa uma das mãos entre os cabelos escuros. Dá um leve sorriso, mas eu sei que seu sorriso não é de felicidade, e sim de dor.

— Bem que eu achei estranho. Ele me pareceu familiar, mas eu não liguei nada na hora. – Diz pensativo como se estivesse revivendo aquele momento em sua cabeça. – Max parece muito com ele. Muito mesmo. – Diz num tom amargo como se fosse doloroso demais se dar conta disso. – Ele é um homem de sorte.

Sinto um nó se formar em minha garganta.

— Ele voltou há pouco tempo. – Digo apressada.

— Ele ainda gosta de você? – Pergunta me encarando não me deixando escapatória. – Por que eu quase tenho certeza que sim. Eu não vejo outro motivo para o comportamento que ele teve aquela noite, a não ser ciúme.

Arregalo meus olhos me sentindo mortificada.

— Eu não sei Rafael. Eu realmente não sei como te responder isso.

Me sinto uma droga ao me lembrar do que aconteceu logo depois daquela cena no restaurante. John me imprensando contra a parede. Seu corpo me apertando com força. Sua boca devorando a minha.

E eu queria estar ali.

Eu havia desejado aquilo há muito tempo...

Recomponho-me.

— Você vai contar sobre o Max? – Pergunta mudando de assunto. Ele deve ter percebido o meu desconforto. – Vai dizer para ele que tiveram um filho?

— Ele já sabe.

— Você contou? – Questiona.

Antes eu tivesse contado...

— Ele veio aqui ontem sem avisar. Ele viu o Max e juntou um mais um. Eu não tive como fugir. Esconder é uma coisa, porém olhar para ele e mentir dizendo que Max não era seu filho era uma coisa muito diferente, e eu não poderia fazer isso.

— Ele não acreditaria mesmo que você negasse. – Diz Rafael encarando o guardanapo a sua frente. – Max é a cara dele. Não teria como negar. – Diz com amargura. – Você está bem com tudo isso? O que ele irá fazer?

— Não sei. Ele não reagiu muito bem. Me acusou de um monte de coisas. Disse muitas coisas, e eu sei que mereci. Mas não sei como as coisas vão ficar agora. – Digo me lembrando exatamente de cada palavra dirigida a mim com ódio.

— Se você precisar de qualquer coisa sabe que pode contar comigo. – Diz segurando minha mão com firmeza por sobre a mesa.

Como sempre. Ele sempre está disposto a me oferecer a mão.

— Eu sei disso. – Respondo baixinho.

Ele engole em seco e crava seus olhos azuis em mim com intensidade. Sinto como se eles por um instante pudessem me atravessar, e ver tudo dentro de mim.

— Como ficamos nós dois agora? – Pergunta sem querer mais rodeios. Sei que é isso o que ele veio buscar aqui. Respostas. Eu estive as procurando durante toda a noite.

— Acho melhor darmos um tempo. – Sussurro.

Ele encosta-se a cadeira como se minhas palavras o tivessem acertado com força. Sinto meu coração se comprimir no peito. Ele vira o rosto e parece estar fazendo um esforço enorme para controlar suas emoções.

— Achei que fosse isso o que você iria dizer. – Diz rouco com os olhos baixos. – Eu vou respeitar a sua decisão. Mas eu vou sempre estar esperando por você.

— Você não precisa esperar por mim Rafael. Não se sinta preso a mim, porque você não está. – Ele tem o direito de continuar sua vida. Tem o direito de conhecer uma pessoa e se entregar completamente a ela. Coisa que eu não posso fazer agora.

— Meu coração está ligado a você desde a primeira vez que te vi. – Diz com um sorriso torto no rosto. – Mesmo que o seu nunca tenha se ligado ao meu. – Engulo em seco. – Sabe, às vezes eu me pego pensando no que teria acontecido se eu tivesse chegado antes dele. Talvez você tivesse me amado.

Sinto uma lágrima escorrer pelo meu rosto.

— Eu amo você. – Digo com a voz embargada.

— Mas não como você o ama. – Diz voltando a segurar minhas mãos. – Eu sabia disso antes, mas eu pensava que com o tempo isso ficaria no passado, mas olhando para você agora é doloroso demais de perceber. Está tão na cara que nem se eu fechar os meus olhos e ficar cego para tudo isso, eu ainda saberia, e ainda assim me machucaria do mesmo jeito.

— Eu sinto muito. – Choramingo.

— Não é culpa sua. Você sempre foi sincera comigo, e mesmo assim eu insisti. Mas sabe que eu fico feliz em ter insistido. Eu nunca vou esquecer nada do que passamos juntos. Todos os momentos. Apenas as horas em que passei com você em meus braços já fazem tudo valer a pena. – Seus olhos azuis estão marejados, porém mesmo assim ele tenta sorrir. – Espero que ele saiba o quão valiosa você é, ou eu serei obrigado a quebrar a cara dele.

Rio se duas palavras.

— Nós não vamos ficar juntos Rafael. – Digo limpando minhas lágrimas. – Isso não vai acontecer. Ele vai voltar para Nova Iorque, e eu e meu filho continuaremos aqui. Como da última vez. – Digo rancorosa.

Rafael sorri.

— Acho que você não se conhece direito.

Franzo minhas sobrancelhas em confusão. Não sei o que ele quer dizer. Rafael sempre foi um pouco misterioso. Principalmente no que diz a meu respeito. E eu sempre achei isso muito atraente, porém não mais atraente que um americano que bagunça a minha vida desde que chegou por aqui.

Há três anos atrás.

Decido não responder.

— Eu posso vir ver Max qualquer hora dessas? – Pergunta me olhando por sob seus cílios.

Ergo uma sobrancelha para ele.

— Sério Rafael? – Pergunto contendo o riso. Me sinto aliviada de termos entrado em um campo mais confortável. Sei que é doloroso para ele, entretanto para mim também está sendo doloroso. – Claro que você pode vir aqui não só para ver o Max, como que para me ver também. Antes de tudo nós somos amigos, não é? – Pergunto sentindo medo de que ele diga que não. Que não somos mais amigos.

Um sorriso se abre em seu rosto, e isso tira um peso das minhas costas. Eu adoro vê-lo sorrir. Aquece o meu coração.

— Somos amigos, e espero que um dia talvez – ele dá de ombros – possamos continuar de onde paramos. – Diz esperançoso.

— Talvez. – Murmuro.

Eu sei que não é definitivo. Quando John for embora é bem provável que eu e Rafael talvez tenhamos outra chance. Mas com ele por perto eu não consigo pensar.

— Agora, você pode chamar o Max para eu vê-lo? – Pergunta se levantando. – Eu tenho plantão na próxima hora, não posso me atrasar.

Rafael é sempre muito responsável com seus pacientes. Eu mesma já fui sua paciente, e foi ai que meu carinho por ele nasceu.

— Eu vou buscá-lo. Só um minutinho.

Antes que eu possa me virar Rafael segura meu braço com carinho. Reconheço em seus olhos um pedido. Eu não posso negar. Ele passa os dedos com ternura em meu rosto. Fecho meus olhos deixando que seu carinho aqueça o meu coração. Sua outra mão se apoia em minha bochecha e ele junta nossos lábios em um beijo terno e doce. Suspiro. Seus lábios se movem vagarosamente sobre os meus.

— Espero que não seja o último. – Ele murmura se afastando.

Sorrio com carinho para ele.

Deixo Rafael sozinho por alguns instantes e exalo em alivio. Até que não foi tão difícil. Eu sabia que ele iria entender. Esse tempo irá ser bom para mim. Eu preciso pensar, e me encontrar outra vez. Max ainda está deitado onde eu havia o deixado.

— Max. – Digo e ele se levanta do colo da Ana. – Rafael quer ver você.

Ele sorri e vem até mim. Eu o pego em meus braços. Ando com ele de volta ao restaurante, e assim que ele vê Rafael fica inquieto para sair dos meus braços.

— Fael! – Grita quando eu o coloco no chão e ele vai correndo até Rafael.

— Campeão! – Diz Rafael o abraçando e o erguendo em seus braços. – Acho que você cresceu desde a última vez em que eu te vi. – Diz brincando o que arranca risinhos de Max.

Rafael sempre esteve ao meu lado desde a gravidez, e quando Max nasceu também. Eu vejo o quanto eles se gostam. E sei também o quanto Rafael gostaria de ser pai do Max.

— Boa noite. – Imediatamente sinto os pelos dos meus braços se eriçarem, e sentir tudo o que essa voz provoca em mim se intensificar umas mil vezes.

Meus olhos procuram com pressa, e então eu o vejo parado na entrada do restaurante. Meus olhos estão fixos nele, porém seus olhos estão fixos em Rafael com Max no colo.

Droga!

— Boa noite. – Murmuro me recompondo.

Rafael o encara com a mesma firmeza. Os olhos de John cintilam de raiva, e eu o conheço bem para saber que ele está a ponto de explodir.

— Bom, eu já vou indo. – Diz Rafael depositando um beijo na bochecha de Max. Max passa seus bracinhos envolta do pescoço de Rafael o abraçando e isso parece enfurecer John. – Até mais amigão! – Se despede Rafael acariciando as costas de Max.

Eu sinto o clima pesado ao meu redor e não sei o que fazer para amenizá-lo.

— Até mais Mel. – Diz.

Rafael passa por John, enquanto esse continua parado feito uma pedra. Pela primeira vez eu percebo o embrulho embaixo do seu braço.

Ele trouxe um presente para Max!

— Max. – Eu chamo e ele vem até mim ainda olhando para a entrada do restaurante. Eu o pego em meu colo.

John parece acordar de seu transe. Ele coloca um sorriso em seu rosto, mas eu o conheço bem para saber que ele está possesso. Ele caminha até mim.

— Pensei em passar aqui para te trazer uma coisa. – Diz para Max. Parece até que eu estou invisível. – Eu vi e pensei que você fosse gostar.

Max arregala os olhos. Ele adora presentes. Coloco Max no chão e John se ajoelha para encará-lo de perto. John sorri para ele.

— Meu? – Pergunta Max apontando para o embrulho.

John ri. Um som satisfeito e aliviado. Ele parece disposto a conquistá-lo.

— Para você sim. Você é um garotinho muito especial. Eu vou abrir para você. – Diz John tirando o laço do pacote. Quando ele finalmente tira o embrulho por completo, ele fica muito mais que feliz ao ver a expressão admirada de Max. Ele trouxe um boneco de pelúcia do Batman. É enorme. Tenho certeza de que deve ser muito caro. – Gostou? – Pergunta orgulhoso.

— Meu? – Pergunta Max animado.

John ri, e o som de sua risada puxa as cordas do meu coração.

— É claro que é seu!

Max abraça o boneco e John para muito mais que apenas satisfeito consigo mesmo.

— Agradece Max. – Digo me intrometendo pela primeira vez no momento de pai e filho. – Como a mamãe te ensinou? – Pergunto passando meus dedos por entre seus cabelos claros.

John levanta seus olhos e me encara por alguns instantes antes de os fixarem em Max outra vez.

— Você pode me dar um abraço? – Pergunta John com a voz embargada.

Engulo em seco quando ouço sua voz triste. Ele olha Max com expectativa. Max olha para o presente e para John e então dá alguns passos hesitantes em sua direção. Ele encosta sua cabeça no peito de John, e John o envolve com seus braços, em um abraço apertado. Com os olhos fechados John beija o topo da cabeça de Max. Ele se levanta ainda com Max em seus braços. Eu vejo seu alivio ao ter Max perto dele, e eu reconheço esse sentimento. Eu me senti assim quando o segurei junto a mim pela primeira vez.

— Obrigada. – Diz Max baixinho.

— Eu vou te trazer muitos presentes de agora em diante. – Diz John sem soltá-lo. – E eu vou vir de ver todos os dias. – Os olhos dele brilham e eu percebo o quanto ele está feliz. – Eu amo muito você. – Murmura.

Max beija a bochecha de John e eu me pego sorrindo assistindo os dois.

— Boa tarde. – Diz Ana e ela parece tão maravilhada quanto eu com a cena que vê a sua frente. – John, você por aqui. – Exclama alegre.

— Vim ver esse mocinho. – Diz sem tirar os olhos de Max. – Mas também vim para conversar com você Mel. – Dizendo isso seu olhar parece até mais brando do que o de ontem.

— Já que vocês precisam conversar, eu vou levar esse mocinho para tomar banho. – Diz Ana dando os braços para Max.

John o passa para Ana um pouco relutante.

— Olha! – Diz Max erguendo o presente para que Ana veja.

— Uau! Que lindo. Quem te deu foi o papai? – Pergunta Ana, e no mesmo instante ela parece perceber o que acabou de dizer.

— Papai? – Pergunta Max confuso.

E era exatamente isso o que eu temia. Eu não quero confundi-lo. Não quero que ele sofra.

— Ana. – Murmuro quase implorando.

— Vamos tomar banho, meu amor. – Diz Ana pensando rápido e desconversando levando Max com ela.

Assim que eu e John ficamos sozinhos eu me sinto meio sem jeito de encará-lo. Sei que teremos muitas coisas as quais colocar em pratos limpos. Ele tem perguntas, e eu lhe devo respostas.

— Eu quero registrar meu filho. – Diz com a voz firme não deixando espaço para recusas. – Eu quero que ele tenha meu nome. Eu acho muito justo.

Pisco algumas vezes antes de respondê-lo.

— Também acho.

— Achei que você fosse brigar. – Diz espantado. – Mas fico feliz em ver que você está sendo sensata. Eu tenho meus direitos como pai, e eu quero cumpri-los. – Enfatiza.

— Eu sei John. – Murmuro.

Quando o silêncio pesa entre nós dois eu o ouço respirar fundo. Ele coloca as mãos nos bolsos da calça jeans. E volta a me encarar.

— O que ele queria? – Pergunta.

— Ele quem? – Pergunto desconcertada.

— O médico.

Não gosto para onde isso está nos levando. Não quero falar sobre minha vida pessoal. O único assunto que temos em comum é Max, e nesse assunto eu estou disposta a abrir mão de algumas coisas, porém em minha vida particular não.

— Ele veio falar comigo. – Respondo sem querer revelar muito.

— Falar o quê? – Pergunta sério.

Deixo escapar uma risada nervosa.

— Não é da sua conta John. – Respondo sem paciência.

— Ah, é claro que é da minha conta. Eu venho aqui ver meu filho e o encontro com aquele cara. – Diz se alterando. – O que ele é? – pergunta ríspido. – Meu substituto?

Conto até três tentando não me estressar com suas palavras.

— Não seja ridículo. – Eu o repreendo.

Não acredito que ele está me dizendo isso!

Ele não percebe o quanto é ridículo?

— Eu estou sendo ridículo? – Pergunta incrédulo. – É isso o que ele é. Espero que você não tenha dito ao meu filho que aquele cara é pai dele!

Não acredito que ele queira ir por esse caminho...

— Eu nunca disse nada disso para Max! – Exclamo irritada. – Rafael sempre esteve muito próximo dele, desde que ele nasceu, e ele tem muito carinho por ele. Mas ele sabe que Rafael não é o pai dele!

— Ele pode achar isso! – Devolve furioso. – Ele é pequeno! Pode achar isso! Você deu a esse cara o que deveria ter dado a mim! Eu sou o pai dele! Eu deveria ter feito parte da vida dele desde que ele nasceu! Não ele!

Engulo em seco.

— Eu não posso mudar as coisas John. Não posso. Então, por favor, pare de jogar isso na minha cara! – Grito aos prantos.

Viro-me de costas para ele buscando me recompor.

Por que sempre temos que acabar brigando?

— Me desculpe. – Sussurra com a voz rouca. – Eu perdi a cabeça. Sinto muito. Eu não vim aqui brigar, eu vim conversar, acertar as coisas. Mas vê-lo aqui... – Ele deixa a frase no ar.

Viro-me para encará-lo outra vez e vejo que suas palavras são sinceras.

— Eu estou arrependida do que fiz John – digo com sinceridade – eu realmente estou. E eu também estou disposta em ajudá-lo no que eu puder em relação a Max. Mas não vamos confundir as coisas.

— Você tem razão. Eu sinto muito. Eu vou tentar me controlar.

O descontrole dele sempre acaba com tudo...

Conseguimos sentar e conversar como pessoas civilizadas por alguns instantes. Eu faço tudo mecanicamente, buscando escapatórias para que eu não precise tocá-lo, nem olha-lo, nem senti-lo muito perto.

Ele tem muitas perguntas sobre Max, e eu respondo pacientemente.

— Quando é o aniversário dele? – Pergunta com os olhos ainda fixos em uma foto de Max ainda recém-nascido. Ele já está nessa posição há uns cinco minutos.

— Vinte e sete de novembro. – Murmuro.

— Ele foi um bebê grande. Não puxou você. – Diz com um sorriso sedutor desenhado em seus lábios.

— Não mesmo. – Concordo rindo. – Ele não parece comigo em nada. – Digo pensativa. – Quer dizer, talvez na personalidade, mas fisicamente ele sempre pareceu com você.

Parece até que nos sentimos do mesmo jeito ao falar do nosso filho.

— Meus pais querem conhecê-lo. – Diz ainda revirando as fotos a sua frente.

Sinto meu estômago revirar. Se eles querem conhecê-lo é porque já sabem de sua existência – óbvio. – Então já devem saber que eu escondi. Sinto um frio na barriga ao imaginar o que eles devem estar pensando de mim.

— Você contou para eles? – Pergunto hesitante.

— Eu contei ao meu pai. E ele contou a minha mãe. Ela me ligou eufórica ontem. Ela sempre quis um neto. Vivia me cobrando isso.

Me sinto desconcertada.

— Essa foto é muito bonita. – Murmura. Ergo meus olhos para examinar a foto que está em suas mãos. E é minha. Eu estava com sete meses de gravidez. Estou sorrindo para a foto. Aquele foi um dia muito divertido.

— Eu fiquei enorme. – Digo arregalando os olhos.

John sorri.

— Eu gostaria de tê-la visto assim. Carregando o meu filho. – Murmura pensativo. – Quando foi isso?

— Foi no aniversário do meu avô. – Murmuro triste.

John me olha com os olhos tristes. Sinto algo dentro de mim se amolecer. Acho que é o muro que eu criei para afastá-lo.

— Sinto muito por seu avô Mel. Eu não tive a chance de dizer antes. Sinto muito mesmo. – Diz baixinho.

— Eu também John. Eu também sinto.

Mesmo já tendo passado algum tempo eu ainda sinto sua falta todos os dias. Acho que eu nunca vou me conformar de tê-lo perdido.

— Quando podemos ir ao cartório? – Assusto-me com sua pergunta. Cartório? Ele quer casar comigo? – Eu disse que quero registrá-lo com o meu nome. – Termina.

Suspiro aliviada.

— Qualquer dia. – Respondo depressa torcendo para que ele não tenha notado de uma forma mágica o que se passou por minha cabeça.

— Ainda não te perguntei o nome completo dele.

Sorrio. Sinto um frio na barriga.

Espero que ele goste..

— Maximilían. – Murmuro encarando-o. Perdendo-me em sua imensidão verde. – Maximilían Richard Guillén.

Os olhos de John brilham em uma felicidade mal disfarçada.

— Richard? – Pergunta contente. – Sabia que existe uma tradição em minha família? – Pergunta com as sobrancelhas arqueadas. Nego com a cabeça. – Meu avô era Charles Richard, meu pai é Clayton Richard, eu sou John Richard, e agora meu filho também segue essa tradição.

Uau! Dessa eu não sabia!

— Acho que eu acertei em alguma coisa então. – Murmuro sentindo meu coração acelerar de um modo desesperado dentro de peito. Ver esse sorriso de perto mexe com tudo dentro de mim.

— Eu também não te agradeci. – Diz pensativo com a voz embargada.

Franzo minhas sobrancelhas.

— Agradecer? – Pergunto confusa.

— Por ter me dado um filho. – Murmura com a voz afetada pela emoção. – Obrigada Mel.

Sorrio sentindo meus olhos marejarem.

— Eu que tenho que agradecer. – Choramingo. – Ele foi a melhor coisa que você poderia ter me dado. Se não fosse por ele eu não sei o que teria sido de mim.

Não sei a que eu teria me agarrado depois de você partir, depois do meu avô partir...

Antes que eu perceba eu sinto as mãos de John acariciando meu rosto. Sinto seus dedos secarem minhas lágrimas. Deito meu rosto em sua mão com ternura. Meu corpo o reconhece. Conhece seu toque. Cada fibra do meu ser sabe a quem pertence. Sabe que o ama. Ele aproxima seu rosto do meu devagar. Perco minha linha de raciocínio por alguns instantes.

É difícil me segurar quando ele está tão perto...

— Mamãe. – Ouço Max me chamar.

O que eu estou fazendo?

Levanto-me depressa e vou até ele. Eu o pego em meu colo. John demora mais alguns instantes antes de se levantar da cadeira e vir até nós.

— Bom, acho que já vou indo. – Murmura.

— Não. – Diz Max emburrado se desvencilhando dos meus braços. Eu o coloco no chão. Ele vai até John e segura sua mão. – Vem. – Diz o puxando.

John abre um sorriso enorme. Porém olha para mim antes de segui-lo como se estivesse pedindo minha permissão.

— Tudo bem. – Murmuro.

Max o guia até a sala. Ele me pede para colocar – outra vez – o filme que ele acabou de assistir.

— Acho que ele quer que você assista com ele. – Digo para John.

— Então, vamos assistir ao filme! – Diz John animado.

Max parece encantado o encarando. John se senta no chão rodeado pelas almofadas, e Max se senta em seu colo. Nunca largando sua chupeta, nem seu mais novo boneco.

— Tudo bem? – Pergunta John receoso.

— Tudo. – Digo tentando reprimir o sorriso que ameaça rasgar meu rosto em dois. É tão bom vê-los assim. – Por que não fica para o jantar? – Pergunto esperançosa. Eu quero manter esse momento. – Assim você pode ficar mais tempo com ele.

Nós temos um filho.

Nós precisamos aprender a conversar sem deixar que as coisas do passado se infiltrem entre nós dois.

— Então eu fico. – Diz decidido.

Decido deixá-los um pouco sozinhos. Antes de sair eu volto a olhar para os dois e sinto uma felicidade imensa ao vê-los. Max está com a cabeça apoiada no peito de John. Seus olhinhos estão fixos na televisão. Mas a atenção de John está em Max. Ele o observa. Vejo uma lágrima escorrer por seu rosto. Sinto uma lágrima escorrer pelo meu.

Talvez não tenha sido tarde demais...