Sob minha pele

52 Capítulo 52


Notas iniciais
Capítulo gigante, mas foi necessário! kkkkk ;)

John.

Acho que dentre todas as noites mais difíceis que tive depois de conhecer Mel, essa com toda a certeza foi a pior. Eu não esperava vê-la ontem no restaurante. Eu havia acabado de sair do trabalho depois de um dia desgastante. Um dia muito cansativo. Tive que lutar contra meu próprio impulso para não ir procurá-la outra vez. Sei que foi tudo repentino, sei que ela precisa de um tempo e eu estou disposto a lhe dar esse tempo. Eu só não estava preparado para vê-la com outra pessoa. Com outro cara porra! O jeito como ele a olhava. Com admiração, com desejo, com amor fez meu sangue ferver. Eu não queria ir até lá e fazê-la me odiar, mas eu realmente não estava me aguentando.

Sua reação foi espantada e raivosa – nada que eu já não conhecesse nela. – Tentei me controlar ao máximo, apesar de estar quase explodindo de tanto ciúme, eu não queria dar outro motivo para ela se afastar de mim. Mas eu não sou idiota. Eu o vi o quanto eles são íntimos, o quanto eles se conhecem. Isso me entristeceu demais. Eu havia demorado demais.

Talvez ela o amasse.

Esse pensamento desapareceu da minha cabeça assim que meus olhos notaram o pingente pendurado em seu pescoço. Aquilo me deu esperança. Uma parte minha achou que ela o havia jogado fora. Fiquei muito feliz em constatar que não, que ela ainda o guardava que ela ainda usava uma parte minha junto ao seu peito.

Nós precisávamos conversar. Eu a conhecia bem e sabia que se eu a irritasse o bastante ela não se seguraria e viria tirar satisfações.

E foi exatamente isso o que ela fez.

Fiquei esperando por uns dez minutos no quarto. Mark havia ficado irritado por conta da minha cena no restaurante. Me senti culpado. Nós havíamos trabalhado muito o dia inteiro. Queríamos uma boa refeição antes de ir dormir, e eu estraguei tudo. Por isso ele acabou me deixando sozinho com o meu mau humor e com o monstro do ciúme, e saiu para procurar algo.

E eu fiquei esperando por ela.

E uma parte minha sabia que eu faria aquilo pelo resto da minha vida. Eu sempre esperaria por ela.

Ela demorou demais.

Fiquei com medo de ela ter me ignorado outra vez, e ter ido sair com o médico. Isso fez meu sangue ferver, e minha raiva entrar em erupção. Todos esses sentimentos cessaram assim que ouvi batidas firmes na porta.

E ali estava ela.

Irritada e linda!

Aquela imagem me transportou no tempo. Há três anos atrás, antes da última vez em que fizemos amor.

Ela estava disposta a arranjar confusão. Disposta a me irritar, entretanto eu consegui me controlar bem, quer dizer, até ela mencionar que ela e o médico tinham um tipo de amizade colorida.

Aquilo me deixou furioso!

Pode parecer antiquado, e talvez seja, mas para mim era horrível o pensamento de outro homem tocando-a, de outro homem beijando-a assim como eu fazia.

Foi demais para mim!

Eu precisava mostrar que ela ainda me pertencia. Eu precisava fazê-la lembrar de como era bom ficarmos juntos. De como era entorpecedor a sensação de nossos corpos juntos. Eu nunca fui capaz de esquecer. Estar com outras mulheres depois dela sempre foi vazio. Ela mesmo que ingenuamente – pois ela ainda era inexperiente – me mostrou como uma relação entre duas pessoas pode ter dois lados. Pode ser muito prazeroso. Mas quando se junta isso com a pessoa que ama, com a pessoa que está diretamente conectada ao seu coração é simplesmente celestial. Ela me levava ao paraíso.

Quando meus lábios se juntaram aos seus outra vez eu senti minha alma sair do corpo. Eu estava em casa. Ela é minha casa. Eu não consegui parar. Eu não queria forças às coisas, mas assim que minhas mãos a tocaram eu senti que ela precisava daquilo tanto quanto eu. Eu precisava senti-la de novo, eu precisava me livrar daquela droga de abstinência que já durava três anos. Tentei ir com cuidado. Mas no momento em que suas mãos agarraram meus cabelos foi como se o tempo não tivesse passado. Ainda estávamos enrolados um no outro, enrolados na pequena cama de solteiro naquela cabana.

Tudo estava indo bem. Não era apenas desejo carnal, qualquer coisa com ela sempre foi mais que isso. Meu coração desejava se fundir ao dela. Desejava senti-lo batendo junto ao meu, no mesmo ritmo, como se fossemos um só.

Estava indo tudo bem. Eu sentia o seu desejo, sua vontade. Eu sentia seus lábios contra minha pele. Suas mãos contra o meu corpo. Eu a ouvia ofegar e sabia que ela queria muito. Em um momento quando a luz iluminou meu peito ela viu minha tatuagem e isso me deixou nervoso.

Eu sempre quis saber o que ela acharia. Eu sempre disse que ela tinha me marcado, e eu queria ter algo dela gravado em mim, uma coisa diferente do sentimento que eu vinha carregando.

Naquele momento eu vi em seus olhos o quanto aquilo mexeu com ela. Seus olhos marejaram e eu senti meu coração acelerar no peito. Eu a amo muito. Amo demais. Eu não vivo sem ela, sem ela eu apenas existo. E existir apenas não basta.

Eu vi amor em seus olhos. Eu vi saudade. Sua atitude depois daquilo me deixou desconcertado. Eu sabia que ela tinha sofrido tanto quanto eu, eu vi isso no modo agressivo com que ela me recebeu quando eu voltei. Mas naquele momento nós estávamos prestes a fazer amor. Não entendi o porquê de ela sair correndo.

Fugindo!

Não consego entender até agora.

Mark está me encarando apoiado ao aparador com os braços cruzados na frente do peito. Ele está com a mesma cara desde ontem. O olhar acusador dirigido a mim está me tirando do sério. Ele sabe que ela esteve aqui. Suspeito que ele tenha uma leve ideia do que aconteceu – ou quase aconteceu. – Também sabe que não acabou bem.

— Você está amarrando essa bota a mais de dez minutos. – Diz de repente quebrando o silêncio. – E sua cara está hilária. No que está pensando?

Bufo.

— Na merda da minha vida. – Digo frustrado.

— Isso é meio forte, não é? – Diz irônico.

Ergo minha cabeça e o encaro por alguns segundos antes de desviar meus olhos. Termino de amarrar minhas botas. Levanto-me e vou em direção à cadeira. Pego minha camiseta e a visto.

— Não quero forçar nada John, mas você está muito mais que apenas esquisito desde ontem. Você quer me contar o que aconteceu? – Ele dá de ombros. – Nós nunca tivemos reservas sobre assunto nenhum, muito menos com mulheres. O que ela fez que te deixou com essa cara?

Suspiro alto.

— Nós nos beijamos. – Digo fechando os olhos e massageando a têmpora, em uma tentativa de me livrar da dor de cabeça que está me incomodando.

— Ora! Então isso é bom. Vocês transaram? – Tenho vontade de tirar o sorriso debochado do seu rosto aos socos.

Ele sabe que não gosto — na verdade odeio — que ele fale sobre o que eu e Mel fazemos juntos. Ele tem razão em uma parte. Nós nunca tivemos reservas em falar nesse assunto sobre qualquer mulher. Porém a esta altura do campeonato ele já deveria saber que Mel não é qualquer mulher.

— Não me olhe com essa cara! – Diz rindo. – Qual é! Vocês transam. Todo mundo faz isso. Não estou dizendo nada de mais aqui. Só estou tentando entender. Se vocês transaram significa que ainda tem uma esperança! Então você deveria estar feliz, e não com essa cara de bunda!

Reviro os olhos.

Mark é meu melhor amigo. E mesmo abominando seu jeito nada sutil de ser, eu sei que posso contar com ele. Inclusive para desabafar quando eu preciso. Afinal, eu já fiz isso inúmeras vezes. Ela já me viu chorar. Ele já me viu chamar por ela. Ele já me viu encher a cara de um jeito que eu nunca fizera antes e ele sempre sabia o porquê.

Ele sabia que era por ela.

— Estava tudo indo bem. – Digo enquanto me sento na beirada da cama e encaro meus dedos entrelaçados. – Nós nos beijamos, e eu senti que ela ainda me ama. Eu sei que sim. Estava tudo indo bem, mas de uma hora para outra ela simplesmente começou a chorar e a dizer que sentia muito. – Encaro a cama a minha frente. Foi difícil demais pegar no sono deitado ali essa noite. Seu cheiro estava nos lençóis e isso não me deixou ter paz durante toda à noite.

Estava tudo indo bem...

— Talvez seja por causa do doutorzinho com quem ela estava ontem à noite. Eles pareciam mais que amigos. – Diz com insinuação. Ignoro. – Talvez ela tenha se sentindo culpada por ter vindo até aqui. Por que vamos falar sério John. Ela sabia o que iria acontecer, e se ela veio até aqui ela queria também.

— Ela não tem nenhum relacionamento com ele. – Resmungo.

— Ela te disse isso? – Pergunta interessado.

— Disse. – Não quero dizer o que realmente ela me disse. Na verdade, eu nem quero pensar no que ela me disse. Talvez se eu não disser eu acabe esquecendo.

— Tudo bem então. – Murmura. – Vocês dois são muito complicados. Vocês são um dos motivos pelos quais eu fujo de relacionamentos. Pelo amor de deus! – Diz exasperado. — Parece até uma novela com um roteiro sem fim. Vocês tem tudo para ficarem juntos, mas ao invés de fazer isso preferem encontrar problemas e os enfiar entre vocês dois.

— Eu não estou procurando problemas. Eu estou tentando. Achei que tudo ficaria bem, mas eu não consigo entender a reação que ela teve ontem. Nós estávamos quase... – Deixo a frese no ar.

— Talvez ela tenha se lembrado de que você é ruim de cama. – Diz zombando. Eu o fuzilo com os olhos. – Só uma brincadeirinha para aliviar o estresse. – Diz levantado as mãos em rendição.

Por que ela fugiria de mim?

Por que ela sente muito?

Do que ela tem medo?

Eu fico repassando aquele momento em minha cabeça procurando algum motivo, algum sinal do que estaria a afetando tanto.

O que poderia tê-la deixado tão angustiada?

— Não consigo pensar em nada. – Continua Mark. – A cabeça das mulheres é muito complicada. Se você for parar para analisar tudo o que elas pensam, você vai acabar enlouquecendo.

— Foi como se ela estivesse escondendo algo. Eu vi culpa nos seus olhos, e desespero. Eu não entendo.

— Talvez ela esteja se sentindo culpada por tudo o que aconteceu por vocês dois terem se separado. – Olho para Mark boquiaberto. – O quê? – Pergunta. – Olha, eu escuto essa ladainha há três anos, eu gosto de brincar com a sua cara porque eu acho que você precisa de alguma coisa que te faça rir de vez em quando. Não se esqueça de que você é meu melhor amigo, e eu sempre te ouço. Eu sei o que você sente, e te entendo. E eu quero te ajudar.

Ele tem razão. Ele ouve isso há muito tempo. Ele já sabe de cor tudo o que sinto. Sabe o quanto foi duro para mim perdê-la. Ele tem sido uma espécie de psicólogo.

— Talvez seja isso. – Murmuro.

— Tente conversar com ela outra vez. Se ela não quiser conversar a agarre e lhe de o maior beijão. Ela vai ficar sem rumo e ai então você diz tudo o que quer.

Rio com isso.

A filosofia de Mark diz que não há melhor “cala boca” para uma mulher do que um beijo muito bem dado.

— Eu tentei isso ontem. – Digo rindo.

— E quase deu certo. Treine um pouco no espelho antes de sairmos, quem sabe melhora um pouco. – Diz tirando sarro da minha cara.

E ele conseguiu. Já me sinto um pouco melhor.

— Cala a boca! – Digo me levantando.

Vou até o espelho e passo os dedos por entre meus cabelos já secos tentando colocá-los no lugar.

— Você vai procurá-la de novo? – Pergunta me encarando sério desta vez.

Respiro fundo.

— Eu estava pensando em ir lá depois do almoço. Você sabe como aquele lugar costuma ser cheio na hora do almoço, e eu quero conversar com ela a sós. Então eu vou um pouco mais tarde.

— Boa sorte. – Diz apertando meu ombro. – Sabe que torço por você, e se ela é sua felicidade, e você já deixou isso bem claro para mim. Eu espero de verdade que tudo termine comigo com uma taça de champanhe na mão, enchendo a cara na porcaria do seu casamento!

— Desejamos a mesma coisa então! – Digo esperançoso.

[...]

O sol brilha forte no céu. Minha camisa está completamente encharcada pelo suor que desce por minhas costas. Eu já devo ter esvaziado umas cinco garrafas de água desde que cheguei aqui.

Nós estamos analisando a parte mais alta do terreno. Montamos as barracas nos mesmos lugares de antes. Uma barraca em especial me deixou desconcertado. Lembranças minhas e delas em uma tarde chuvosa, com muitos trovões gritando no céu, enquanto fazíamos amor em um sofá apertado está mexendo comigo.

Esse lugar é cheio de lembranças nossas. Nós dois deitados em uma toalha sentindo o sol nos aquecer. Meu corpo apertando o seu contra a grama. Meus lábios explorando cada pedaço do seu delicado pescoço.

Eu quero que isso volte a acontecer!

Quero muito!

— Já deu uma olhada nos resultados?

Assusto-me ao ouvir a voz de Rupert invadindo meus pensamentos. Viro-me para ele um pouco desconcertado.

— Eu dei uma olhada por cima. – Respondo automaticamente.

— Se você quiser dar uma olhada agora. – Diz me passando a prancheta de anotações. – Segundo os testes a terra está adequada. Então estão liberadas as obras.

Sorrio contente.

Finalmente uma boa noticia!

— Então não vamos demorar muito com isso. – Digo virando as páginas. – Em quanto tempo você acha que podemos começar? – Pergunto sem tirar meus olhos das páginas. Esforço-me para entender a letra horrível a minha frente.

— Em algumas semanas. Precisamos ligar e fazer os pedidos de materiais. Precisamos arrumar as equipes. Você sabe. – Diz dando de ombros como se apenas o pensamento já o deixasse cansado.

— Toda a parte burocrática. – Resmungo.

— Isso aí! – Diz rindo. Ele sabe bem como a papelada pode acabar com nossos neurônios. São muitos detalhes. Muitas coisas a ajeitar. – A parte boa é que você já pode ir embora se quiser.

— Não, eu não vou agora. – Digo suspirando já pensando na batalha que estou prestes a entrar. – Eu tenho que fazer algumas coisas antes de ir.

Ele franze suas grossas sobrancelhas como se não compreendesse direito o que estou dizendo.

O ambiente de obras pode ser muito caótico. Meu trabalho agora pode ser feito no meu escritório confortável em Nova Iorque. Porém eu não quero voltar agora. Eu tenho algo pelo qual lutar nesse lugar. E eu não posso me dar por vencido, não até que eu me convença de que realmente acabou.

[...]

Estou encerrando uma conversa com alguns fornecedores em Boston, e a conversa parece não ter fim. O homem do outro lado da linha arrasta a conversa o quanto ele pode. Observo Mark rir enquanto eu reviro os olhos.

— Então estamos certos. Conversamos amanhã. – Digo usando meu tom usual de negócios. E então desligo.

— Ele te alugou por um tempão dessa vez. – Diz Mark rindo enquanto leva o copo aos lábios.

— Nem me fale. – Digo cansado.

Sirvo-me de um pouco de café.

Olho meu relógio e já passa das quatro horas da tarde. Há essa hora o horário de almoço no restaurante já acabou há algum tempo. Espero que ela esteja em casa. Sinto um frio na barriga, e um medo de enrolar em meu peito.

Não quero que seja nosso fim.

Eu tenho muito medo de nunca reconquistá-la.

— Coragem homem. – Diz Mark como se estivesse lendo meus pensamentos.

— Talvez seja uma conversa definitiva. – Digo sentindo o suor frio já brotar em minha testa.

— Talvez seja um recomeço. – Diz Mark tentando me animar. – Isso tudo ainda pode acabar comigo enchendo a cara no seu casamento, lembre-se disso. E logo depois pegando uma das madrinhas. Talvez a Julia. – Diz com um sorriso sedutor.

Cuspo meu café em um ataque de riso.

— Acho que não. Só se você quiser pegar o marido dela antes. – Digo limpando as gotas de café que caíram em minha camisa.

Mark arregala os olhos e abre a boca em um “O” perfeito.

— Marido? – Pergunta incrédulo. – Não acredito que ela se casou! Puta merda! Então eu perdi minha chance de tentar algo com ela?

— Julia não é para o seu bico garanhão. – Digo rindo de sua incredulidade. – E acho bom que você controle essa língua, se o marido dela te ouvir dizendo essas coisas ele quebra o seu pescoço. O cara é enorme!

— Casada. – Ele murmura para ele mesmo. Balançando a cabeça em negação. – Talvez a Mel tenha uma prima bonita. – Diz depois de se recompor.

— Você não tem jeito. – Repreendo-o de brincadeira. – Eu preciso ir agora. Vou passar na pousada e tomar um banho. Eu estou todo suado por causa desse calor infernal.

— Vai lá cara! Pode deixar que te deixo informado das coisas aqui. Eu deveria ser promovido. – Diz com o dedo em riste para mim. – E eu quero saber dos detalhes depois, amigão! – Diz sugestivamente.

Mostro meu dedo do meio para ele enquanto saio da barraca.

[...]

A água fria cai em meu rosto e é como se ela lavasse minha alma. A acalmando para a tempestade que está prestes a chegar. Nesse momento eu me pego pedindo algum tipo de ajuda. Quero que ela saiba o quanto meu amor é sincero, o quanto eu quero fazê-la feliz. Quero que saiba o quanto eu estou disposto a lutar por ela.

Se ela quiser...

Saio do chuveiro e troco de roupa rapidamente não querendo perder nem um segundo. Coloco uma calça jeans clara, e uma camisa de flanela verde escura. Encaro meu reflexo no espelho e estou parecendo meu antigo eu. Aquele que a Mel conheceu. Talvez ela se lembre também quando olhar para mim hoje.

Pego as chaves do carro em cima da cômoda. Saio do quarto e desço as escadas decidido a reconquistar a mulher que eu amo.

A estrada está calma. Pensei em ligar o som para me animar um pouco, porém as músicas deprimentes que começaram a tocar me deixaram irritado.

Droga! Eu preciso que tudo dê certo. Eu preciso que ela me ouça. Eu preciso que ela me queira de volta. Pois se ela me quiser, eu sou capaz de me casar com ela amanhã mesmo, apenas para não correr o risco daquele doutorzinho aparecer e tentar me roubar ela.

Eu olhei bem para ele ontem. Ele está apaixonado por ela. Ele faria qualquer coisa por ela. Ele a quer. Mas ela já é minha, e eu não vou abrir mão disso enquanto eu tiver a certeza de que ela também quer. Enquanto eu tiver a certeza de que seu coração ainda me pertence.

Fiquei tanto tempo perdido em meus pensamentos que nem percebi que eu já estava fazendo a curva na esquina que dá para o restaurante “Asa dourada”. Senti meu coração acelerar, e tudo dentro de mim dar sinal de vida.

Vamos lá John! Seja corajoso!

Estaciono o carro em frente ao restaurante e tudo parece muito quieto. A caminhonete está estacionada ao lado.

Ela está em casa!

Aperto o volante entre meus dedos. Respiro fundo tentando tomar coragem. Tentando reunir forças e esperanças.

Isso não vai acabar aqui!

Abro a porta do carro e assim que coloco meus pés para fora sinto meu corpo gelar. Meus extintos estão gritando. Chamando por ela. Todo o meu ser implora para que ela não tenha me esquecido. Fecho meus olhos e me recordo no nosso beijo na noite passada. Sinto minhas forças renovadas. Ela não teria me beijado daquele jeito se não me amasse. Ela apenas é durona demais para admitir logo de cara. Eu preciso interpretar bem suas palavras hoje. Ela sempre me dá as respostas entrelinhas, sempre como enigmas. Eu preciso decifrá-la. E eu aprendi a fazer isso muito bem.

Para na porta. Respiro fundo e então entro no restaurante. Tudo está muito quieto e vazio como eu imaginava que estaria. Olho ao redor e não tem ninguém no balcão e ninguém por perto. A não ser por um garotinho que está sentado em uma cadeira grande demais para ele. Ele parece absorto no que está fazendo. Tanto que nem reparou que eu estou aqui. Ele tem os cabelos loiros curtos com cachinhos nas postas. Ele balança os pezinhos de um lado para o outro.

Sorrio.

Estranhamente ele causa algo em mim.

— Olá! – Falo. Ele ergue os olhos e tira uma mecha do seu cabelo de frente da testa. Eu me sinto estranho. Seus olhos são verdes. Mas não verdes claros, e sim verdes como as folhas. Ele me lembra minha mãe. Na verdade, ele me lembra muito ela. Ele continua me encarando e eu percebo que talvez ele possa estar assustado. – Tudo bem? – Pergunto colocando um sorriso amigável em meu rosto.

Talvez eu devesse esperar Mel aparecer...

Eu me aproximo devagar até onde ele está, e em nenhum momento ele tira seus grandes olhos de mim. Sinto algo se aquecer dentro de mim. Sento-me na cadeira a sua frente, e apoio meus cotovelos na mesa.

—Olá! – Digo. Ele é apenas um garotinho. Não deve ter mais de três anos. Ele é muito pequeno. Ele agarra com força seu lápis azul e me encara como se estivesse decidindo se eu sou de confiança ou não.

De repente me lembro de que acabei de falar inglês. Talvez ele não me entenda. Quando estou prestes a abrir minha boca para reformular minhas palavras num idioma que ele compreenda, ele faz algo que me deixa boquiaberto.

— Oi. – Responde em inglês.

Sorrio. Sua voz soou tão baixa. Tão meiga. Ele é um garotinho adorável, e muito esperto também. Ele acabou de me responder em inglês. Me deixou surpreso e desconcertado.

— Qual seu nome? – Pergunto realmente interessado em saber mais sobre esse garotinho inteligente a minha frente.

Ele desvia seus olhos de mim e volta a se concentrar em seu desenho.

— Max. – Diz baixinho.

Ele coloca a língua entre os dentes enquanto aperta com força o lápis contra o papel. E eu me pego observando seus movimentos com atenção. O porquê eu realmente não sei.

— Que nome bonito. – Digo prestando atenção em seu desenho. – Eu me chamo John. – Ele continua com os olhos focados em seu desenho. – Quantos anos você tem Max? – Pergunto o encarando com um sorriso no rosto.

Ele larga os lápis em cima da mesa e passa a encarar seus minúsculos dedinhos. Eu rio de sua ingenuidade. E sinto meu coração se aquecer enquanto o observo. Ele ergue seus olhos para mim e me mostra dois dedinhos na mão.

— Dois. – Responde.

— Tudo isso! – Digo brincando. Isso o faz rir. E eu me surpreendo quando noto o quanto seu sorriso me deixa feliz. Sorrio para ele. – Você é um garotinho muito inteligente para a sua idade. Na sua idade minha mãe me disse que eu ainda comia giz. – Digo mais para mim do que para ele.

— Não pode comer giz. – Diz me repreendendo. Depois volta a sua atividade.

— Eu disse. Você é muito inteligente para sua idade. – Digo incrédulo. — Quem te ensinou a falar inglês? – Pergunto realmente curioso.

Ele me encara com os olhinhos verdes semicerrados.

— Desenho. — Responde.

Estanho sua resposta.

Pela primeira vez eu começo a prestar atenção em seu desenho. São muitos rabiscos misturados, mas eu consigo decifrar o que parece um rosto. Bom, na verdade são dois rostos – eu acho. — O desenho tem muitas cores. Vejo longas linhas do que parecem serem cabelos. Cabelos muito negros.

— O que você está desenhando? – Pergunto interessado ainda observando seu desenho.

— Mamãe. – Diz com doçura.

— Sua mamãe, é muito bonita. – Digo elogiando seu desenho. Suponho que as longas linhas sejam os cabelos da mãe dele. Já no desenho ao lado, o que deveria ser o rosto – bom pelo menos eu acho que seja um rosto, ainda estou tentando decifrar – está pintado de preto. Como se fosse um tipo de máscara. É tudo muito confuso. Mas acho que estou começando a entender. Afinal, ele é muito pequeno, ele tem seu jeito próprio de desenhar, ele segura o lápis de sua maneira própria também. Ele é apenas um garotinho. – Quem é esse? – Pergunto quando a curiosidade é demais.

— Papai. – Responde sem tirar os olhos do desenho.

— Seu papai usa uma máscara? – Pergunto estranhando sua resposta.

— Batman! – Diz levantando o desenho para que eu o veja.

Exalo.

Agora entendi. Ele deve achar que seu pai é um tipo de super herói. Logo depois ele me ergue o pé para que eu veja sua sandália que por sinal também é do Batman.

— Você gosta do Batman, Max? – Pergunto observando seu rosto.

— Max gosta! – Diz fazendo um bico enquanto continua com seu desenho.

— Sabia que ele também é o meu super herói preferido? – Pergunto e ele arregala seus olhos para mim como se eu o tivesse chocado. E ele fica mais adorável ainda com essa expressão. – É verdade. – Digo sorrindo. Sentindo um afeto enorme por esse garotinho. — Desde que eu era pequenininho assim como você!

Ele abre um sorriso. Depois estende o braço e pega o lápis verde e continua a pintar o seu desenho.

— Seu papai gosta de super heróis, assim como você? – Pergunto curioso.

Eu quero continuar conversando com ele. Eu quero ver outro sorriso. Eu quero ouvi-lo conversar comigo.

Eu estou gostando muito de estar aqui com ele.

— Papai viajando. – Responde simplesmente.

Estranhamente sua resposta faz um nó se formar em minha garganta. O jeito como ele disse me entristeceu. Ele é um garotinho tão esperto.

— Ele não gosta? – Pergunto outra vez.

Ele me olha com suas sobrancelhas claras franzidas como se não estivesse entendo minha pergunta.

— Papai viajando. – Responde outra vez.

Essa resposta outra vez acende uma ideia em minha cabeça.

— Você conhece o seu papai, Max? – Pergunto por impulso.

— Não. Papai viajando.

Sua resposta faz meus olhos marejarem. Acho que ele não conhece seu pai, e isso traz um aperto ao meu coração. Passo minhas mãos por seus cabelos claros. E penso que qualquer um sentiria muito orgulho de ser o pai desse garotinho.

Pela primeira vez me dou conta de que ele está sozinho aqui.

— Onde está a sua mamãe? — Pergunto olhando ao redor de repente.

Ele levanta o rosto e olha ao redor como eu acabei de fazer, como se estivesse procurando por alguém, e então aponta com o lápis para a porta lateral que dá para o andar de cima. Eu conheço para onde leva porque já passei algumas vezes por ali.

— Onde você mora? – Sinto uma vontade enorme de perguntar várias coisas de repente.

Ele aponta outra vez para a mesma porta e sinto algo estranho dentro de mim. Como se tivesse alguma coisa errada.

Ele não pode viver aqui.

Pode?

Talvez a mãe dele trabalhe aqui.

— Então você mora aqui com a sua mamãe? – Pergunto e ele aquiesce ainda concentrado em sua atividade. – Qual o nome da sua mamãe, Max? – Pergunto sentindo meu coração ter um descompasso no peito.

Não sei a razão, mas essa pergunta me causa medo.

— Mel. – Diz baixinho.

Ouvir esse nome saindo de sua boca faz meu corpo inteiro se arrepiar. Eu o olho sem acreditar no que ele disse. Ele é só uma criancinha. Ele não mentiria.

— Sua mamãe se chama Mel? – Pergunto com a voz entrecortada.

Ele aquiesce outra vez.

— Mamãe. – Diz apontando para o desenho. E reparando no desenho eu percebo o que eu não havia percebido. As longas linhas negras. Os cabelos. É ela. Só pode ser ela.

Mel teve um filho?

Estou desconcertado. Boquiaberto. Isso não é o que eu esperava encontrar. Não mesmo. Franzo minhas sobrancelhas em confusão. Ele não se parece com ela. Nem um pouco. Mel tem os cabelos muito escuros. Max tem os cabelos muito claros. Mel tem os olhos muito escuros também. São grandes e muito castanhos. Os de Max são verdes. Talvez na cor da pele eles se pareçam. Max tem a pele muito clara, assim como ela. Parando para analisa-lo. Sim. Ele se parece com ela. No jeito. O mesmo jeito meigo. Até no jeito como ele franze o nariz e me olha como se não estivesse entendendo nada do que eu digo. Exatamente como ela faz. Porém fisicamente não. Ele não se parece com ela. Na verdade, ele se parecesse...

Sinto o choque me acertar como um soco direto no peito. Max parece alheio a minha reação. Sinto falta de ar. Eu apenas o encaro boquiaberto. Sem acreditar no que meus olhos finalmente enxergaram.

Não pode ser.

Ela não faria isso comigo!

Meu deus!

Por isso ele me faz lembrar minha mãe. São seus olhos. São idênticos aos dela. São idênticos aos meus.

— Max! – Alguém o chama. E eu conheço essa voz. Conheço muito bem.

Ergo os olhos a ponto de vê-la parar em seu encalço. Ela arregala os olhos assim que me vê. Seu rosto empalidece. E pela primeira vez eu não preciso decifrar o que está escrito em seu rosto. Está bem óbvio. Encaro Max outra vez e sinto uma dor enorme me atingir por dentro.

Não. Não pode ser isso.

— Max. – Diz ela parecendo acordar de seu transe. Ela caminha até ele e então o pega em seus braços. – Você pode ir lá para dentro, meu amor? – Diz com ternura. Mas eu posso sentir o nervosismo em sua voz.

O jeito que ela fala com ele. Com tanta ternura.

Ele é filho dela!

Ele é meu...

Eu não consigo desgrudar meus olhos. Ele tem dois anos. Ele se parece comigo. Tudo se encaixa. As datas se encaixam. Seu nervosismo se encaixa.

Porra!

— Ana! – Ela grita. Ainda sem me olhar. Ela evita ao máximo colocar seus olhos em mim, enquanto eu não consigo parar de olhá-la. Ela me deve explicações. Eu nunca estive tão puto quanto agora! – Ana! – Grita outra vez.

Ana sai lá de dentro enxugando as mãos em seu avental, ela para no meio do caminho assim que me vê. Me encara com pavor nos olhos. Ela olha de mim para Max e parece não saber o que fazer.

Acho que tenho minha resposta!

Ela se aproxima de nós sem tirar seus olhos de mim. Acho que ela enxerga a raiva em meus olhos.

— Por favor, leve ele lá para dentro Ana. – Diz Mel passando Max para os braços dela. – Você quer bolo? – Pergunta encarando Max.

— Desenho mamãe. – Diz Max apontando para o desenho no qual ele trabalhava com tanto afinco.

Mamãe.

O nó em minha garganta se intensifica muito mais.

Ela vai até a mesa o pega e o entrega e ele.

— Leve ele Ana, por favor. – Choraminga de costas para mim.

Não quero que ela o leve para longe de mim. Eu o quero perto. Eu ainda não entendo o que eu estou sentindo, nem o que eu senti o olhando pela primeira vez, mas eu não quero que ele se afaste de mim.

— Tchau. – Diz Max acenando para mim.

Sinto meu coração despedaçar no peito. Sinto uma lágrima descer pelo meu rosto. Ele é tão pequeno.

— Tchau amigão. – Digo e minha voz sai abafada. Embargada.

Ana o leva para dentro e meus olhos nunca o deixam. Quando ele some entre a porta eu dirijo meus olhos para ela. Ela está de costas para mim. Eu quero que ela me diga a verdade. Eu não quero que ela minta para mim. Eu quero que ela olhe em meus olhos.

Eu estou a ponto de explodir!

— Você tem um filho? – Pergunto secamente. Minha voz sai acida.

Ela se empertiga e respira fundo antes de se virar para me encarar.

— Eu disse para você não vir aqui. – Diz baixinho.

Bufo irritado.

Ela só pode estar de brincadeira. Ela vai vir com esse papo outra vez. Ela entende o que acabou de acontecer aqui? Ela sabe o quanto isso está me matando por dentro?

— Não me venha com essa! – Digo mal conseguindo controlar meu tom de voz. – Responda a porcaria da minha pergunta! Fale sério comigo pelo menos uma vez na vida!

Ela engole em seco e abaixa os olhos até suas mãos entrelaçadas.

— Ele é seu filho? – Pergunto outra vez.

— Sim. Ele é meu filho. – Diz levantando o rosto e me encarando com aqueles grandes e brilhantes olhos. Sinto meu coração ter um tranco. Sinto meus sentidos perderem o sinal.

Passo minhas mãos por meus cabelos. Ando de um lado para o outro ficando de costas para ela. Penso. Penso. Tanto tempo. Tanto tempo se passou. Eu preciso perguntar. Eu preciso tomar coragem. Mas eu tenho medo. Medo da decepção que isso irá causar em mim.

— Quem é o pai dele? – Minha voz soa rouca por conta do nó que está formado em minha garganta.

Essa pergunta parece a empalidecer mais. Ela cruza seus braços em frente ao peito como se estivesse tentando se proteger. Olha para todos os lugares menos para mim.

— Quem é o pai dele Mel? – Pergunto outra vez. Meu tom de voz está glacial.

— Ele é meu. – Murmura baixinho ainda sem me encarar

Uma risada amarga sai do fundo de mim.

Ela não tem coragem de me olhar. Eu vejo as lágrimas descendo pelo seu rosto. Lágrimas descem pelo meu. Por que nem em um milhão de anos eu estava esperando por isso.

— Ele não pode ser só seu! – Cuspo para ela sem paciência. – Ele tem que ter um pai! Quem é o pai dele, porra? – Eu estou perdendo o controle dos meus atos. Não quero fazer algo do qual eu vá me arrepender depois. Ela começa a soluçar e a chorar de um jeito que me faz querer consolá-la, porque apesar de tudo eu a amo. Eu estou com muita raiva agora. Mas eu odeio fazê-la sofrer. Porém não posso dar o braço a torcer agora. – Por que ele se parece tanto comigo? – Pergunto num fio de voz. – Por que ele me lembra tanto a minha mãe?

Ela fecha os olhos com força e quando volta a abri-los ela me encara e eu vejo em seus olhos. No jeito que ela me olha quase se desculpando.

Dou um passo para trás.

— Ele é meu? – Pergunto sem ter certeza de que quero ouvir sua resposta. Sem saber se eu realmente vou aguentar a noticia de que eu tive um filho com a mulher que eu amo. Mas que ela o escondeu de mim. – Ele é nosso? – Pergunto com a voz embargada.

Nós ficamos juntos. Nós dormimos juntos, e antes de mim ela nunca tivera ninguém. Três anos depois eu volto e a encontro com um filho pequeno. O que ela quer que eu pense?

Eu não sou idiota!

— Me responde Mel. – Digo cerrando os punhos ao meu lado. – Anda! Para com isso! Estão se passando mil coisas pela minha cabeça agora! Por favor, me diga a verdade! – Imploro.

O tempo parece parar de repente.

— É. – Diz baixo. Tão baixo que mal consigo ouvi-la. Mas ouço o suficiente para sentir um calafrio subir por minha espinha. – Ele é nosso. – Diz me olhando com os olhos marejados.

Cubro meu rosto com minhas mãos me sentindo desamparado. Enganado. Eu tenho um filho! Um garotinho! Sorrio ao me lembrar do jeito inteligente com o qual ele conversou comigo há poucos minutos.

De repente esses sentimentos são tomados pela raiva. Raiva por ela ter me escondido isso. Raiva por ela não ter me contato antes, eu precisei vir aqui para descobrir. Raiva por ela ter me privado de conviver com o meu filho! Eu perdi muito tempo. Eu perdi dois anos da vida do meu filho! Sinto uma pontada no peito ao me lembrar do jeito triste ao qual ele disse que seu papai estava viajando.

Eu sou o pai dele!

A encaro. Sentindo meu sangue fervilhar no corpo. Sentindo todo o meu autocontrole sumir pelos ares. Eu quero tanto gritar com ela. Jogar em sua cara tudo o que ela me disse. Disse que eu a havia feito sofrer. Como diabos ela vai me explicar isso? O que ela acha que está causando a mim agora?

— Eu sinto muito John. – Choraminga aos prantos. – Eu sinto muito mesmo.

— Por que você fez isso comigo Melissa? – Pergunto me sentindo vazio por dentro.

Como eu posso confiar nela depois disso?

Eu mal consigo olhá-la agora!