Sob minha pele
36 Capítulo 36
Notas iniciais
Mel.
Julia ainda me encara com os olhos arregalados e a boca aberta em um perfeito "O". Ela parece não acreditar no que eu acabei de contar. E sinceramente, nem eu mesma estou acreditando.
Só de lembrar no quanto eu fui estúpida eu sinto vontade de me bater.
Como eu pude deixar isso acontecer?
Bufo frustrada.
De repente o silêncio de Julia é demais para mim. Ela está me deixando mais nervosa ainda.
– Julia, pelo amor de deus! Diga alguma coisa! Você está me deixando nervosa! — Exclamo para ela.
Estalo meus dedos em frente ao seu rosto para ver se consigo sua atenção. Parece funcionar. Ela pisca algumas vezes como se estivesse saindo de um transe, ou alguma coisa parecida.
– Espera — ela diz afobada. — Vamos ver se eu entendi direito. — Seus olhos se fixam em mim. — Você acha mesmo que pode estar grávida?
Ouvindo desse jeito, sobre esse ponto de vista... Meu deus! Acho que vou passar mal!
Caio de costas em minha cama. Coloco meu braço sobre o meu rosto, tentando em vão fazer o quarto parar de girar.
Quase consigo me sentir uma criança de novo. Girando, e girando no carrossel do circo encantado.
– Mel — Julia me balança. — Vamos, não me deixe desse jeito. Responda! Você acha mesmo que pode estar grávida? — Ela praticamente grita.
A fuzilo com os olhos e ela se encolhe.
– Quer gritar mais alto? — Digo irritada. — Acho que meu avô ainda não ouviu. — Digo sarcástica.
– Sinto muito. — Ela diz baixinho.- Mas vamos, não seja obtusa. Responda logo.
Encaro o teto do meu quarto e penso em milhões, trilhões de jeitos de responder à essa pergunta. Afinal, eu me faço a mesma pergunta desde semana passada. Quando eu finalmente comecei a desconfiar.
– Acho que sim. — Murmuro.
Essa frase faz meu corpo gelar. Minhas mãos soam. Meu coração acelera, e por um momento eu realmente acho que vou ter um ataque de pânico.
E se eu estiver realmente grávida?
O que eu vou fazer?
Essas perguntas me assustam. A ideia toda é assustadora. Como eu posso ter um filho? Como eu vou cuidar de um bebê? Como eu vou poder fazer isso sozinha?
– Meu deus. — Julia sussurra. Ela está em estado de choque. Compartilhamos do mesmo no momento.
Suspiro alto.
– É uma suspeita. — Digo para tranquilizar Julia, mesmo sabendo que na verdade estou querendo tranquilizar à mim mesma. Afinal, este é o mesmo mantra que eu venho usando à dias.
É apenas uma suspeita. Apenas uma suspeita.
– Vocês não usavam camisinha? — Pergunta Julia tirando meus braços de cima do meu rosto. Suas feições estão num misto te ceticismo e incredulidade.
Sinto minhas bochechas corarem. Isso é muito íntimo.
Mais íntimo do que dizer em voz alta sobre suspeita de gravidez?
Julia estreita os olhos para mim.
– Não me venha com vergonha agora Mel! — Ela sibila. — Nem que você me jure de pé juntos eu não vou acreditar que vocês conceberam um bebê de encomenda da cegonha!
Se a situação não fosse tão assustadora, eu realmente teria caído na gargalhada agora. Porém o bolo formado em minha garganta me impede.
– Eu não sei. — Digo quase chorando. Sento-me abruptamente me ajeitando em cima da cama. — Nunca pensei nisso. Acontecia tão rápido. Quando eu dava por mim já estava acontecendo, e eu não conseguia pensar em mais nada. — A não ser em John, e em como eu me sentia segura e feliz em seus braços. — Não sei se ele usava. Mas eu acho que não. — Miro meus dedos sem querer encarar Julia.
Julia bufa alto.
– Que você é cabeça de vento, disso eu já sabia. Mas agora da parte do John não tem como perdoar. Meu deus! — Ela parece indignada. E estou me sentindo uma burra. — Claro que ele sabia o que podia acontecer!
Coloco minha cabeça em minhas mãos e quando dou por mim eu não tenho mais forças para segurar as lágrimas.
Eu estou perdida. Meu avô nunca vai me perdoar!
– Calma. — Diz Julia me consolando. — Primeiro me fala como você chegou à essa conclusão?
Levanto meu rosto, minha visão está embaçada. Passo minhas mãos tentando em vão cessar as lágrimas que insistem em rolar.
– Eu não tinha prestado atenção no início — digo soluçando — John estava aqui e ele era tudo o que eu pensava — e ainda é -, depois meu avô adoeceu, e logo depois John foi embora. Mesmo assim eu ainda não havia percebido que estava mais atrasado do que o normal, mas mesmo assim depois eu achei que pudesse ser por conta do nervosismo, do stress dos últimos dias. Eu andava meio fora de mim. Mas então os dias foram passando, passando, e nada. — Levo minhas mãos à cabeça em desespero. — E então eu percebi que eu ando passando muito mal ultimamente. Os enjoos, as tonturas, a indisposição. Então eu liguei um mais um, e não é necessário ter mais da metade de um cérebro para saber o que significava.
Julia ainda está estática como se estivesse tentando assimilar tudo.
Se está difícil para ela, imagine para mim!
– Você já fez o teste? — Ela pergunta enquanto coloca uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.
– Não. — Murmuro cabisbaixa. — Eu não posso comprar isso por aqui. Você sabe. Todos iam ficar comentando. Meu avô acaba de se recuperar. Não quero que ele fique mal outra vez por minha causa. — Digo triste.
– Bom, então nós precisamos comprar em outro lugar. — Olho para Julia e tenho certeza de que meus olhos estão brilhando para ela.
– Nós? — Pergunto um pouco surpresa. — Você vai me ajudar? — Minha voz sai chorosa.
Julia revira os olhos.
– Você não achou que eu fosse te deixar sozinha nisso, né? — Ela parece incrédula. — Você é minha irmã Mel! Eu vou sempre estar ao seu lado. — Ela diz como se fosse o óbvio.
Me jogo em cima dela a abraçando com força, enquanto choro com a cabeça deitada em seu ombro.
É muito bom saber que não estou sozinha. Saber que tenho alguém com quem contar.
– Olha — Julia segura meus braços me fazendo encará-la. — Não vamos nos desesperar. Vamos fazer uma coisa de cada vez. Primeiro nós precisamos saber se você está de fato grávida. — Essa palavra faz um soluço involuntário sair dos meus lábios, e eu quase caio em prantos outra vez. — Mel, eu sei que você deve estar assustada, eu também estaria, mas você precisa ser forte agora.
Eu sei que ela tem razão. Mas eu ainda estou muito surpresa com tudo. John não está aqui, e eu posso estar carregando um filho dele, um filho nosso, um pedaço de nós dois, e eu não sei o que nesse mundo poderia me deixar mais assustada.
Julia quebra o silêncio.
– Vamos fazer assim — diz Julia encarando o teto como se estivesse tendo uma ideia. — Amanhã cedo, nós vamos à cidade e vamos comprar o teste de gravidez. Não nos conhecem por lá. — Ela sorri confiante para mim. Não consigo devolver o mesmo sorriso.
– E se der positivo? — Pergunto baixinho fungando o nariz.
– Como eu disse: não se martirize antes do tempo. Você não sabe ainda. Vamos esperar. — Ela parece confiante.
Ela tem razão. Não vale a pena sofrer por antecipação. Pode ser tudo um engano
Espero!
– Então, amanhã cedo? — Pergunto receosa, com medo do que está por vir.
– Amanhã. Eu vou descer e avisar a minha tia, assim ela não pega no nosso pé amanhã.
Ela faz uma careta e eu sorrio para ela. Agarro suas mãos nas minhas.
– Obrigada — digo sincera — muito obrigada Ju, de verdade. — Digo realmente agradecida.
– Um dia eu vou precisar de você para alguma coisa desse tipo, e eu não vou querer desculpas. — Ela me adverte de brincadeira.
E dessa vez eu não consigo conter a gargalhada.
Depois que Julia se vai, eu me deito em posiçao fetal em minha cama. Levo minha mão timidamente ao meu ventre. Quando me dou conta estou conversando com o possível inquilino dentro de mim.
– Você está mesmo aí? — Sussurrou baixinho. — Sabe na confusão que você vai me meter?
Acariciou levemente meu ventre. Eu devo estar parecendo uma louca conversando sozinha em um quarto escuro.
– O que eu vou fazer John? — Digo como se ele pudesse me ouvir. Sinto as lágrimas queimando meus olhos outra vez. — Por que você me deixou sozinha? Por que não está aqui comigo? Eu estou com tanto medo.
[...]
À noite parecia não querer ceder lugar ao dia. Acho que foi a noite mais estressante que já passei desde que John foi embora. A expectativa, ansiedade, medo, tudo misturado. Eu não sei o que esperar. Eu não estou no controle.
Acabo de sair do banho onde eu fiquei mais do que o costume. Acho que eu estou demorando de propósito, tentando adiar o inevitável.
Julia veio ao meu quarto à uns dez minutos. Ela disse que iria me esperar para o café. Ela já avisou a Ana que vamos sair. Sinto um frio na barriga.
Coloco um dos meus vestidos favoritos. Eu estava com esse vestido quando conheci John. Isso faz um sorriso melancólico aparecer em meu rosto. Tanta coisa aconteceu desde aquele dia. Deixo meus cabelos soltos, e uso um pouco de corretivo embaixo dos olhos para disfarçar à noite mal dormida.
Quando chego à cozinha Julia está sentada à mesa tomando seu café. Seus pés estão batendo ritmicamente no chão, o que revela seu nervosismo.
Talvez ela não tenha dormido direito também.
– Bom dia minha florzinha. — Diz meu avô deixando seu jornal de lado para me cumprimentar.
– Bom dia vovô. — Digo indo até ele e enlaçando o seu pescoço em uma abraço apertado.
– Ora essa. — Ele diz rindo, retribuindo o meu abraço. — O que temos aqui. Que abraço bom logo pela manhã. — Ele beija o topo da minha cabeça.
Eu sinto muito vovô. Eu não queria te decepcionar.
Me afastando dele, tento me recompor.
– Eu não ganho nem um beijo? — Pergunta Ana com as mãos na cintura.
– Claro que sim. — Digo indo até ela. Deposito um beijo estalado em sua bochecha.
– Sente-se para tomar seu café. — Ela aponta para mim a cadeira de frente à Julia.
No momento em que me sento, nos entreolhamos. Sinto os olhos do meu avô em mim. Ele tem as sobrancelhas unidas, formando um pequeno "V" entre elas. É como se ele sentisse que a algo errado. Nossa ligação é muito forte.
[...]
Depois do café eu e Julia pegamos a estrada para a cidade. Não consigo conter o nervosismo. Torço minhas mãos em meu colo. Fito a paisagem, e não consigo parar de pensar no quanto isso irá mudar a minha vida. Meus planos para faculdade vão cair todos por terra. E ainda tem John. Como ela vai reagir?
Maldita hora em que pus meus olhos em você.
Suas palavras me fazem encolher. Fazem meu coração se apertar.
Ele me rejeitaria?
Fico tanto tempo perdida em meus pensamentos que nem me dou conta de que Julia já está estacionando o carro em frente a grande farmácia.
Ela se vira para mim com um sorriso confortador.
– Você veio calada durante todo o caminho. Tudo bem? — Ela parece realmente preocupada.
– Só um pouco assustada. Estou bem. — Sorrio de volta para ela.
– Então, essa é a hora. Vamos lá.
Julia salta para fora do carro, e eu demoro uns segundos a mais aproveitando para respirar fundo.
Entramos na farmácia completamente vazia. Graças a deus. Eu não sei muito bem em que setor ir para achar o que procuramos.
Uma moça se aproxima de nós duas. Em seu crachá está escrito Alessandra.
Julia toma a dianteira. Graças a deus, porque eu acho que vou desmaiar à qualquer momento.
– Bom dia — Diz Julia cordialmente — estamos procurando testes de gravidez. — Julia vai direto ao ponto. Sem rodeios. Sinto meu estômago se revirar.
– Me acompanhem. — Diz a moça com um sorriso amigável nos lábios.
Ela nos leva entre os corredores até o que estamos procurando.
– Nós temos muitos. Qual a preferência? — Pergunta a moça.
Julia e eu nos entreolhamos.
– Qual a diferença? — Me pronuncio pela primeira vez.
– Alguns revelam até de quantas semanas é a gestação. — Alessandra responde com eficiência.
No final acabo optando pelo teste que revela as semanas. Pego três. Não quero erros.
Depois de pagar no caixa, Julia e eu voltamos para o carro. Julia teve a ideia de comprar outros produtos para não levantar suspeitas.
– Bom, agora vamos para casa. — Diz Julia mordendo o lábio.
– Vamos. — Digo baixinho.
[...]
Chegamos ao restaurante um pouco depois das onze. Ana estava ao telefone então passamos direto para as escadas. Entramos em meu quarto. Julia tranca a porta. Tiro os testes da sacola.
– Acho melhor fazer isso logo. — Digo fitando os testes em minhas mãos. — Droga! Eu estou tremendo!
Julia está sentada em minha cama. Ela roe as unhas em um claro sinal de nervosismo.
Entro no banheiro. Tiro os testes das caixas. Leio a bula.
– Parece fácil. — Murmuro para mim mesma depois de ler as instruções.
Sigo as instruções à risca.
Segundo as instruções eu preciso esperar alguns minutos depois de fazer o teste.
Ouço algumas batidas na porta.
– Entra. — Julia não deve estar se aguentando.
– E aí? — Ela pergunta adentrando o banheiro.
– Não sei. — Digo confusa. — Tenho que esperar.
– Deixa eu ver.
Julia pega um dos testes, e demora alguns segundos o estudando.
– O que significa dois pauzinhos? — Sinto o ar deixar o meu corpo. Minhas pernas fraquejam. Seguro a pia com força. — Mel — diz Julia com os olhos arregalados — aqui está marcando quatro semanas.
Eu não sei em que momento me sentei no chão, ou em que momento eu abracei minhas pernas. Meu corpo inteiro treme enquanto eu choro. Um choro desesperado.
Isso não está acontecendo!
– Mel. — Julia se ajoelha em minha frente.
– O que eu vou fazer? — Pergunto a Julia. — Meu deus! Eu vou ter um bebê!
Julia me embala enquanto eu tento chorar o mais baixo possível para que não me ouçam. John, eu estou precisando tanto de você.
– Você olhou os outros? — Levanto meu rosto para encarar Julia.
– Todos o mesmo resultado. — Seus olhos estão vermelhos como se ela estivesse tentando segurar as lágrimas. Tentando ser forte por mim.
John.
Ele é a única coisa no qual eu consigo pensar. É o único que pode me consolar e me dar forças.
Nós vamos ter um filho.
– Mel. — Julia me ergue segurando meus braços. — Vamos sair daqui.
Julia me leva para fora do banheiro. Sento-me em minha cama em estado de choque. Julia puxa a cadeira que estava em frente à minha penteadeira e se senta em minha frente.
Julia toma meu rosto em suas mãos.
– Você sabe o que tem que fazer, não sabe? — Diz Julia me encarando com ternura.
Olho para ela em confusão.
– Você precisa ligar para ele. — Ela diz séria.
– Eu tenho medo. — Assumo.
Tenho medo de que ele não queira me ouvir. De que não queira falar comigo nunca mais.
– Mel, não é hora para medo. — Julia me repreende. — Isso não é mais sobre vocês dois. Tem uma criança agora.
Julia tem razão.
Meu filho.
Nosso filho.
Julia vai até minha bolsa e pega meu celular. Ela o entrega à mim.
– Liga. — Diz suavemente.
Com dedos trêmulos eu procuro por seu número na agenda. Aperto o verde para completar a ligação. Julia segura minha mão com força. Fecho os olhos tentando controlar meu estado.
Sinto a ansiedade me tomar. Meu coração palpita na expectativa de ouvir sua voz outra vez.
Eu te amo tanto John.
O telefone toca, toca, e acaba caindo na caixa postal.
Eu quase posso ouvir meu coração se despedaçando aos pedaços.
– Ele não atende. — Murmuro completamente quebrada, devastada.
– Tenta de novo. — Diz Julia.
Eu tento uma segunda vez, e não obtenho respostas.
Ele não quer falar comigo.
Ele me esqueceu.
Ele não me ama de verdade.
– Nada. — Digo derrotada.
– Tenta outra vez. — Me instiga Julia.
Levanto- me irritada, sentindo a adrenalina correr por minhas veias.
– Você não percebe? — Digo estridente. — Ele não quer falar comigo.
Tento me controlar ao máximo para não gritar, para não me deixar levar pela raiva.
Não tem outra explicação. O celular está sempre com ele. Ele nunca o larga. Faz parte do seu serviço.
Essa constatação só torna a dor mais profunda, mais insuportável.
Ando de um lado para o outro no quarto, sentindo as lágrimas pesadas caírem. Julia não sabe o que dizer.
Como ele pôde?
O que você fez comigo?
O que eu deixei você fazer comigo?
– O que você vai fazer? — Julia quebra o silêncio.
Eu não posso pensar só em mim agora. Existe alguém que vai precisar de mim. Eu preciso ser forte.
– Eu vou ter o meu filho — tento juntar o máximo de forças que tenho. O que ainda me resta. — Eu vou ter o meu filho. Sozinha.
– Tem certeza disso Mel?
– Ele não quis me atender. Ele não liga para mim. Porque ele ligaria para o meu filho? — Digo magoada.
Julia não tem o que dizer. Não há mais nada a ser dito. Já está feito.
– Eu vou cuidar do meu filho. Eu vou ser o suficiente para o meu bebê. — Digo tentando convencer à mim mesma.
Não vai ser fácil.
– Julia, esse vai ser o nosso segredo. Ninguém pode ficar sabendo. — Ela me lança um olhar como se quisesse dizer: uma hora eles vão notar. — Eu sei que é inevitável, mas eu quero guardar segredo. Pelo menos até eu criar coragem para contar para o meu avô.
– Tudo bem. — Ela acena com a cabeça concordando.
Eu preciso seguir em frente sem John, por mim, e pelo meu bebê.
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