Sob minha pele
33 Capítulo 33
Notas iniciais
Mel.
Algumas semanas depois...
Meus dias tem se passado mecanicamente. Eu levanto da cama, cumpro minhas obrigações, cuido do meu avô.
Tem sido assim durante os últimos dias. Eu tento parecer forte e despreocupada. Tentando voltar ao que eu era antes dele. Antes de tudo. Antes de ter o meu coração partido. Antes de ter que abrir mão do homem que amo.
Meu avô está muito melhor. Ele recebeu autorização para se levantar da cama há dois dias. E isso não poderia tê-lo deixado mais feliz. E eu bem que entendo ele. Ficar deitado o dia inteiro sem poder fazer nada deve ser irritante.
Julia parece preocupada. A todo instante ela me questiona se eu estou bem, se eu preciso de alguma coisa. E eu sempre com um sorriso no rosto respondo que sim. Que estou ótima. Não estranho sua preocupação. Ela me viu destruída, arrasada. Eu nunca havia me sentido daquela forma antes. O desespero, a dor, o sufocamento... Eu não desejo para ninguém.
Às vezes eu tento convencê-la – convencer à mim mesma – de que tudo não passou de um amor inocente. De uma coisa que não levaria a nada. De uma coisa que vai cair rápido no esquecimento. Talvez no dele, porque do meu nunca vai se apagar.
O pensamento dele me esquecendo é devastador. Não posso pensar desse jeito. Preciso parar de me martirizar. Parar de pensar no que era para ser, para me focar no que eu tenho agora.
Eu tento ser forte. Sorrir, conversar, ser alegre com todos. Mas apenas eu sei o quanto é duro ir dormir chorando todos os dias, sentindo falta daquilo que já foi meu. Daquilo que não vai voltar mais. Que está perdido.
Me pergunto também se ele pensa em mim. Ou se nessas duas semanas ele já se esqueceu de tudo, assim como ele queria. Assim como ele me fez acreditar.
Maldita hora em que pus meus olhos em você.
Foi isso o que ele disse.
Teria doído menos se ele tivesse arrancado o coração do meu peito com uma faca e pisado em cima.
Eu disse que não queria vê-lo nunca mais, porém isso não é verdade. Não sei quando. Não sei se um dia eu vou vê-lo de novo. Talvez um dia ele não passe de uma lembrança do passado. Uma lembrança bonita e triste.
— Mel, você quer que eu leve o almoço do seu avô? — Pergunta Julia me tirando dos meus devaneios.
— Não eu faço isso. – Digo indo em direção à mesa.
Meu avô agora tem que ter uma alimentação mais saudável que antes. Antes ele já era privado de comer muitas coisas, agora as coisas pioraram um pouco mais, e ele não ficou nem um pouco feliz com isso.
Ele se queixa, pois diz que a comida não tem gosto nenhum. Mas o que eu posso fazer? Ele tem que seguir a dieta. Nem que eu tenha que obrigá-lo a isso.
Nós fomos ao médico na última semana. O doutor disse que ele está se recuperando rápido, mas por conta da sua idade, ainda há precauções que precisam ser tomadas. Ele nunca irá ficar cem por cento fora de perigo, então eu tenho sempre que estar por perto. Isso não o agradou em nada. Meu avô é um homem que sempre se orgulhou de não precisar de ninguém, imagino como deve ser difícil para ele ter que depender de mim, da Ana...
O doutor Gabriel Flores vem toda semana visitar meu avô pessoalmente. Isso me deixa muito tranquila. Ele é um homem bom e se preocupa com seus pacientes. Meu avô gosta dele. E eu também.
Ah! E mais uma pessoa...
— O doutor Flores vai vir essa tarde? – Pergunta Julia.
Ela está ensaboando alguns pratos na pia. Ela tenta parecer indiferente, mas eu tenho percebido que ela está interessada nele. E eu arrisco a dizer que as vindas dele até aqui para ver meu avô também são para ver a Julia.
— Não sei. Se ele não vir hoje, ele vem amanhã. – Dou um dos meus melhores sorrisos atrevidos. – Por que está tão interessada?
Suas bochechas coram. E isso tira qualquer dúvida.
— Por que – ela gagueja – eu queria fazer um bolo. – Ela dá de ombros como se não fosse nada. – Ele está sendo tão gentil. Eu queria retribuir de algum jeito.
Parece convincente, mas eu conheço minha amiga, e eu sei quando ela me esconde algo.
— Isso é verdade. Ele tem sido muito gentil. Eu nunca vou poder agradecer tudo o que ele tem feito. – Digo concordando com Julia. – Sabe — digo querendo parecer desinteressada — acho que ele não tem namorada.
Júlia arregala os olhos.
— Por quê? Você está interessada nele? – Ela pergunta meio triste.
De onde ela tirou isso?
— Não. – Digo depressa. – Claro que não.
Eu não sei quando eu vou ser capaz de ter esse tipo de sentimentos outra vez. Talvez quando o meu amor por John acabar. O que eu duvido que vá acontecer. Ele está enraizado em mim. E eu vou amá-lo para sempre.
— Ele é um amigo. – Continuo deixando claro que não quero nada além de amizade. – Mas pelo o que conversamos, ele não tem ninguém. A família dele vive em Barcelona. Ele veio para trabalhar. Vocês deviam conversar mais.
— Você acha? – Ela pergunta com uma expressão que me faz querer rir.
Está tão na cara!
— Julia, todas às vezes em que ele vem aqui você se tranca em algum lugar. Ele pergunta por você. Eu arrisco a dizer que ele gosta de você. Você devia falar com ele. – Digo tentando dar um empurrãozinho. – Puxar assunto, sei lá.
— Ele pergunta o quê? — Ela diz de olhos arregalados. Como se a ideia de alguém se interessar por ela fosse absurda.
— Onde está a sua amiga? Aquela de cabelos longos. Julia? — Digo tentando imitar sua voz.
O que não dá muito certo!
— Ele sabe meu nome? – Pergunta Julia perplexa. Surpresa. Tenho vontade de bater nela.
— Claro que sabe! – Digo enérgica. – Julia ele já te viu milhares de vezes. Deve ter te achado bonita, sei lá. Quem sabe ele te chama pra sair.
— Acho que não. – Ela diz cabisbaixa.
— Por quê? Você é bonita, legal, uma boa pessoa. Qualquer cara poderia se interessar por você. Só porque você teve uma experiência ruim com o Mateo, isso não quer dizer que você vai ter experiências ruins com todos os homens que aparecerem na sua vida. – Digo sorrindo para ela.
Ela coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha, e me encara com os olhos tristes.
— Talvez você possa conhecer alguém também. E deixar para trás a experiência ruim. – Ela diz receosa me encarando com seus olhos castanhos.
Franzo minhas sobrancelhas em confusão.
— Experiência ruim? – Questiono.
— Você sabe. – Ela dá de ombros. – Você e John.
Perco meu olhar ao longe. É como se tudo parasse de funcionar quando o assunto é ele.
Eu não tenho conversado muito sobre esse assunto. A não ser comigo mesma quando estou sozinha.
— John não foi uma experiência ruim. – Digo dizendo a verdade do meu coração. – Ele foi a coisa mais linda que já aconteceu na minha vida. Um sentimento verdadeiro que eu vou carregar para sempre. Apenas não era para ser. – Dou de ombros tentando soar indiferente por fora, porque por dentro ainda machuca, ainda dói.
Às vezes eu acho que foi tudo um sonho. Porém quando alguém além de mim toca em seu nome eu sei que foi real.
Mais do que real!
— Você ainda sofre por ele? – Vejo compaixão em seus olhos.
Não quero pensar nisso agora!
Não agora!
Eu não posso chorar!
— Não. – Minto. – Não vou dizer que não sinto falta dele, mas vai passar logo. – Sorrio para ela.
Eu não quero que saibam o quanto eu sofro. Principalmente meu avô. Não quero que passe por sua mente que eu estou infeliz. John não me deu opção. Ele não deu opção para nós dois. Poderia ter sido tudo diferente se ele tivesse me ouvido, se ele tivesse sido menos insensível. Se ele tivesse entendido a minha situação, e compreendido o quanto tudo estava sendo difícil para mim, o quanto eu estava sofrendo por ter que adiar tudo, sofrendo pela doença do meu avô.
E ainda estou!
— Não sei se acredito em você. – Julia estuda meu rosto. – Sei lá, você parece diferente. Triste. Não é a mesma de antes. Você está diferente. Todo mundo já percebeu.
— Vai passar. – É a única coisa que eu consigo dizer sem desabar.
— Se você quiser conversar. Qualquer hora você pode vir falar comigo Mel.
— Eu sei. – Digo pegando a bandeja com o almoço do meu avô. – Já enrolei demais. Meu avô já deve estar com fome.
Pego a bandeja e deixo a cozinha. Vou em direção ao escritório me equilibrando para não deixar nada cair. Eu tenho me sentido um pouco fraca ultimamente. Talvez seja porque eu já não estou me alimentando tão bem. A fome foge de mim.
Abro a porta do escritório e meu avô está sentado em uma de suas poltronas favoritas enquanto ouve rádio. A cabeça encostada no encosto da poltrona, os olhos fechados, o semblante pacifico. Quando encosto a porta o barulho o faz despertar. Abrindo os olhos ele sorri para mim. E esse sorriso faz tudo valer a pena, e toda dor se esvair por um tempo.
— Eu trouxe seu almoço. – Digo sorrindo. Feliz por ele estar bem.
— Aquela comida de doente de novo? – Ele diz franzindo o lábio.
E lá vamos nós!
Tem sido uma guerra exaustiva.
— Sopa de frango. – Ele faz uma careta. – Pare com isso. Eu amo a sopa de frango que a Ana faz. Estou até pensando em comer dela também. — Digo com as mãos na cintura como se ele fosse uma criancinha birrenta.
— Você deveria mesmo. Você está muito pálida. Estou preocupado com você. – Ele diz dando uns tapinhas no braço da poltrona.
Sento-me lá e ele segura minha mão.
— Eu estou bem. – O asseguro.
— Você ainda não me contou como foram as coisas com John.
Meu coração se aperta. Se espreme. Ainda dói muito. Ainda é muito difícil.
— Foi tudo bem. Nós sentamos e conversamos e chegamos a conclusão de que deveríamos ser amigos. Sem mágoas. Foi tudo muito bonito, mas não existia esperança para um futuro e nós sabíamos disso. – Deus sabe o quanto é difícil mentir. O quanto é difícil fingir que algo tão grande não foi nada.
— Ele parecia tão apaixonado. – Ele diz desconfiado. – Você também.
— Acho que nós estávamos sim. – Digo apertando seus dedos. – Mas foi passageiro. A vida segue.
— Está tudo bem mesmo? – Faço que sim com a cabeça. – Fico triste por não ter me despedido dele. Ele era um bom homem. – Sinto meus olhos arderem. – Eu faria gosto se vocês se casassem, você sabe disso.
Isso é demais para mim!
— Ah vovô! – Digo me levantando e rindo tentando disfarçar meus verdadeiros sentimentos. – Eu? Me casar? Pelo amor de deus!
Ele ri.
— Você não muda. – Ele balança a cabeça em descrença.
— Bom, eu vou ver se precisam de mim lá fora. O senhor vai ficar bem sozinho? – Pergunto preocupada.
— Não se preocupe tanto comigo Mel. – Ele me repreende. – Eu acho que essa sua fraqueza – eu devo ter feito uma cara de surpresa por que ele continua – não faça essa cara. Eu venho prestando atenção em você, e Ana também.
— Não se preocupe comigo. – Digo baixinho.
— Eu sempre te peço a mesma coisa. Isso te impede de se preocupar? – Suas sobrancelhas se arqueiam e eu me sinto com dez anos de novo.
Sendo repreendida por conversar demais na aula.
— Não. – Respondo.
— Prometa que vai se cuidar. Não fique tão preocupada comigo. Eu vou acabar me sentindo um peso. Não quero ser um peso para você.
A melancolia em sua voz quase me faz chorar.
Vou até ele e me sento aos seus pés. Deito minha cabeça em seu colo enquanto ele mexe em meus cabelos como quando eu era criança.
— O senhor não é um peso. O senhor sempre cuidou de mim, então é justo que eu cuide do senhor. Nós cuidamos um do outro.
— Você tem razão. Mas mesmo assim não deixe de se cuidar. De dormir bem, de se alimentar. Faça coisas de meninas da sua idade. Eu te conheço bem e sei que você sofre por aquele que não está mais aqui. Lembre-se apenas que você é jovem e tem a vida inteira pela frente. Você vai se apaixonar de novo.
Não tenho tanta certeza disso. Eu tenho vontade de dizer, mas me contenho.
— Você tem razão.
— Claro que eu tenho razão. Sou velho. – Ele ri.
Não dessa vez vovô. Não dessa vez.
Após deixar meu avô tranquilo, almoçando no escritório eu parto para o banheiro mais próximo e me tranco lá. Eu preciso ficar sozinha. Eu preciso respirar. Eu preciso parar de fingir por alguns segundos.
Sento-me no chão e com a cabeça encostada em meus joelhos eu tento recuperar meu fôlego.
Eu vou precisar fingir. Fingir muito bem. Eu preciso controlar meus sentimentos. Pelo menos na frente do meu avô.
De uma hora para outra tudo começa a girar, eu me sinto tonta e com um mal estar muito grande tomando conta de mim. Passo a mão na testa tentando secar o suor que está brotando me deixando pegajosa. Fecho os olhos com força em vão tentando fazer o mal estar passar. De repente é como se meu estômago criasse vida e estivesse querendo colocar tudo para fora. Vou até o vaso sanitário onde eu tento, tento, mas não consigo colocar nada para fora, afinal, não há nada para ser expulso. Meu estômago se comprimi com força, mas eu não tenho nada para colocar para fora, e o esforço faz uma pequena dor aguda me atingir, o que faz meu corpo se curvar para a frente. Eu não comi nada hoje, nem ontem. Na verdade eu não lembro quando foi a última vez em que eu coloquei algo no estômago. Encosto minha cabeça em meu braço tentando me recuperar. Fico nessa posição por uns dez minutos. Quando me sinto melhor levanto-me e vou em direção à pia. A água fria em meu rosto parece fazer milagre. Molho meu pescoço, minha testa e já sinto um pequeno alívio.
Quando eu era criança eu costumava ter essas crises, sempre quando eu não me alimentava direito.
Eu tenho que parar de evitar comida!
Olho-me no espelho e pela primeira vez percebo como meu rosto está mudado. Mais pálido do que antes, com olheiras. Não me reconheço.
Desvio os olhos da garota de pele pálida, e de feições tristes que me encara no espelho. Da garota de grandes e castanhos olhos melancólicos.
Suspiro alto encostado minha cabeça ao meu braço. Respiro fundo. E saio do banheiro. Do meu pequeno refugio. O único lugar em que eu posso parar de fingir.
Volto à cozinha e Júlia está atarefada decidindo o que fazer para o jantar à noite.
— O que você acha que devemos fazer? – Ela pergunta distraída com o lápis na boca.
— Acho que alguma coisa simples. Sem muita frescura. – Digo enquanto me sento à mesa.
Ela levanta o rosto e franze as sobrancelhas escuras.
— Mel, você está bem? – Pergunta Julia vindo até mim.
Eu estou?
— Não sei. Estou me sentindo meio fraca. – Confesso. Apoio minha cabeça em minha mão, ainda sentindo a fraqueza se apoderar de cada fibra do meu ser.
— Não é para menos. – Diz Julia com tom de censura. – Você não para de trabalhar, e não pense que eu não notei que você não tem se alimentado direito, é óbvio que ia dar nisso. Você está querendo pegar uma anemia ou coisa pior?
Nessas horas Julia parece minha avó!
Minha avó acreditava que qualquer mal se resolvia com comida. Você ficou gripada? Então você não está se alimentando direito. Você quebrou um braço? Então você não está se alimentando direito.
Sorrio com a lembrança.
—As coisas parecem não me cair muito bem nos últimos dias. – Confesso. – Eu não consigo manter nada aqui. – Coloco minha mão em minha barriga.
— Isso é o resultado da correria, do estresse que você vem passado nos últimos dias. Você deveria pedir um remédio ao Gabriel quando ele vier visitar seu avô.- Ela sugere.
— Você deve ter razão.- Murmuro. – Mas não tenho tempo para isso agora. Vamos trabalhar. Daqui a pouco vão chegar os clientes para o jantar e o restaurante não vai se arrumar sozinho.
Julia sorri para mim.
— Não vou te convencer do contrário. Vou?
— Claro que não. – respondo com petulância.
Julia revira os olhos.
— Teimosa. – Resmunga.
[...]
Ana está resolvendo os últimos detalhes das compras da feira de amanhã. Nós temos um acordo especial com o senhor que cuida da horta. Ele sempre vem primeiro aqui. Então sempre pegamos os legumes mais frescos.
— Ai está você – diz Ana carregando uma caixa que parece pesada demais.
Corro para ajudá-la.
— Deixa eu te ajudar com isso. — Vou até ela e a ajudo a colocá-la em cima de uma das mesas.
— Por onde você anda? Parece até que você está se escondendo de mim nos últimos dias. — Ela diz se queixando.
— Não seja boba. — Sorrio.
— Você já foi ver seu avô? — Ela pergunta.
— Já! Eu deixei ele almoçando no escritório. – Digo colocando meu cabelo atrás da orelha.
Ana me encara por tanto tempo que eu começo a ficar desconfortável.
— O que foi Ana?
— Nada. – Ela abana as mãos. – Deve ser esse calor infernal. Eu estou derretendo.
Sorrio para ela, aliviada.
— Vou levar essas coisas lá para dentro. – Ela diz olhando as caixas. – Talvez eu precise de mais de uma viagem. Não tenho braços fortes.
[...]
Arrumo todas as mesas no restaurante. Retiro as toalhas e coloco novas. Consigo terminar tudo, porém ainda me sentindo mal. Deve ser o calor, misturado com tudo o mais.
Quando passam das oito horas o restaurante já está bastante movimentado e eu ando de um lado para o outro atendendo a pedidos, e os levando até as mesas.
— Julia, uma macarronada para a mesa oito. – Digo um pouco cansada me encostando ao balcão.
Sinto meu corpo amolecer. Acho que estou ficando doente.
— Você deveria descansar. – Ela diz com ternura.
— Não vou deixar vocês sozinhas. – Murmuro.
— O movimento não vai aumentar. Hoje é quarta, nós damos conta. – Diz Ana colocando a mão em meu ombro. – Você parece muito cansada. Estou com medo de você desmaiar a qualquer momento por aqui. E eu não vou ter força para te carregar. – Diz zombando.
— Não exagera. – Digo a fitando com os olhos estreitos. – E eu não estou com sono.
Eu evito dormir.
Ele está em meus sonhos.
— Não estou exagerando. E se você não quer dormir, se deite, leia um pouco. Você gosta tanto de ler. Acho que não vai ser uma tortura, não é?
Isso sim é tentador.
— Parece uma boa ideia. Vou dar um beijo em meu avô antes. — Digo aceitando a oferta.
Antes de ir para o quarto passo no escritório e peço para que ele não demore muito a ir dormir. Como sempre ele me pede para eu não me preocupar.
Subo para o meu quarto, tomo um banho rápido, e quando estou em minha cama reinicio pela milésima vez a leitura de um dos meus livros favoritos. A estória de um amor trágico antes parecia linda para mim, agora parece magoar minhas feridas. John mudou minha percepção de vida. Por experiência própria, agora eu sei que um amor trágico não tem nada de belo. Bom, pelo menos na vida real. Onde as cicatrizes são reais, e as lembranças amargas de mais para se suportar.
Início a leitura e não chego nem ao terceiro capítulo e já sinto meus olhos pesarem como se tivessem vontade própria. O sono vem devagar e me toma por completo.
Ele está sorrindo para mim. Ele não foi embora. Ele está aqui. O sol forte em seu cabelo o deixa quase loiro. Eu digo isso a ele. Ele ri. Ele me beija. Ele me abraça. Ele me gira no ar como se eu fosse uma garotinha. Assim como costumava fazer, quando eu corria até ele no fim da tarde. E eu rio. Gargalho. Feliz. Ele está aqui. Eu estou em seus braços. Seus lábios encontram os meus, fazendo um arrepio subir por minha espinha. Ele me beija. Seus lábios se juntam aos meus com força. Suas mãos me agarram. Me apertam.
— Eu te amo tanto. – Sussurro com os olhos cheios de lágrimas. – Não me abandone. – Eu suplico segurando sua camiseta com força.
Eu tenho medo que ele se vá. Que ele vá para longe onde eu não posso alcançá-lo. Aonde eu não posso estar com ele.
— Nunca. – Ele diz e seus lábios se juntam aos meus em um beijo apaixonado.
Não sei ao certo quando eu acordei. Não sei ao certo se eu estava realmente dormindo, ou se eu estava delirando. As imagens se misturam.
Eu não consigo parar as lágrimas. Eu não quero que ninguém me ouça. Eu choro baixinho com o rosto enterrado no travesseiro e com a mão segurando com força a única coisa que ele me deixou.
Com todo o meu amor,
Do sempre seu.
John.
— John.— Seu nome sai com um soluço forte. Com uma sofreguidão devastadora. Aperto a pulseira próxima ao meu coração.
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