Sob minha pele

26 Capítulo 26


Notas iniciais
Capítulo novo! ♥

Mel.

O dia está claro, o sol brilha forte lá em cima. Eu estou sentada em minha cama mirando o nada, tomando coragem para enfrentar o dia e o que está por vir. Olhando no relógio eu vejo que são oito e meia da manhã. Não foi uma noite fácil, eu não consegui pregar os olhos. Não sei se foi por saudade de John, ou se foi pela minha discussão com meu avô, ou pela conversa difícil que vou precisar ter com ele hoje. Nenhumas dessas três opções me deixam feliz.

Bufo frustrada.

Por que tudo tem que ser tão complicado?

Acho melhor eu tomar um banho. E depois pretendo fazer as pazes com meu avô. Preciso retirar esse peso do meu coração. Eu sei que nós não chegamos a discutir de fato, porém, ficou um clima estranho no ar. E eu não me sinto bem com isso.

Nós nunca brigamos!

E eu não quero começar agora que eu vou precisar me afastar dele. Não sei quando eu poderei voltar para visita-lo. Talvez eu precise de um tempo para me acostumar com a minha nova casa, com a nova cidade, com o novo país, com a minha nova vida.

São muitas coisas para associar!

Depois de tomar um banho rápido, procuro por roupas confortáveis. Eu tenho a impressão de que vai fazer muito calor hoje. Prendo meu cabelo com uma presilha e deixo duas mechas caídas em meu rosto. Opto por colocar uma saia verde e uma blusa de alças preta.

Passei muito tempo da minha noite pensando em que palavras eu deveria usar para contar a novidade para o meu avô, nenhuma das minhas opções pareciam boas o suficiente. No momento em que John me propôs me pareceu tão fácil, tão simples, eu vejo agora que não tem nada de fácil nisso.

É fácil fazer planos, imaginar um futuro perfeito, uma vida perfeita. Realiza-los é que é complicado. Complicado passar por cima de tudo o que te impedi, complicado enfrentar os obstáculos.

No momento em que estou me encaminhando para a porta ouço meu celular tocando baixinho. Em um piscar de olhos, antes que eu perceba minhas pernas já correm em direção ao criado mudo.

— Alô! – Digo ofegante assim que desbloqueio a tela.

— Bom dia anjo. – A melhor parte do meu dia.

Ouvir a voz de John me chamando de anjo.

— Bom dia senhor bonitão. – Digo num tom de brincadeira.

— Acabou de acordar?

— Na verdade não. Eu já até tomei banho. Eu iria descer para o restaurante para tomar café! – Faço uma pausa. – E depois eu vou ir conversar com meu avô.

—Isso é ótimo amor – ele diz animado.

— É. – Digo feliz por ele estar contente.

— Dormiu bem? – Ele pergunta com a voz rouca, mansa. – Eu não dormi muito bem. Acho que eu já me acostumei a dormir juntinho de você. Assim como eu já acostumei a começar meu dia ouvindo sua voz.

Sua declaração mesmo não intencional faz meu coração dar um tranco. É tão bom ouvir essas palavras vindas dele. Saber que é o que ele sente. Saber que ele precisa ouvir a minha voz antes de começar o dia. Isso meio que traz uma paz para mim.

Isso me faz ter mais certeza de como tudo irá ser perfeito em Nova Iorque!

E de certo modo, renova minhas forças para o que está por vir.

— E se eu te disser que eu também não consegui pregar o olho. Fiquei rolando na cama sem conseguir dormir. – Confesso para ele enquanto me sento na beira da cama sentindo o aperto da saudade me consumir aos poucos.

— Sabe – ele diz com sua voz maliciosa. Aquela voz que eu conheço tão bem. – se nós estivéssemos juntos, nenhum de nós estaria sem sono, ou com tédio na madrugada.

Eu tenho que rir com isso.

— Mas disso eu não tenho a menor dúvida. – Digo entrando na onda.

Se fosse qualquer outra pessoa que me dissesse uma coisa dessas eu estaria morta de vergonha, ou profundamente ofendida. Esse não é o caso se tratando de John. Ele é a pessoa que mais me conhece em todo o mundo. Em todos os sentidos da palavra.

— Então você sentiu minha falta? – Pergunto inocentemente.

— Com toda a certeza. – Ele suspira.

E isso faz coisas comigo. É como se ele estivesse sentindo muito a minha falta. Mesmo estando tão pouco tempo fora.

— Você está no hotel? – Pergunto ainda sentindo os efeitos que a voz maliciosa de John faz em mim.

— Sim. Mark também está aqui, nós estamos de saída. Eu tenho que resolver algumas coisas. Eu só queria falar com você antes. – Sua voz é quente como um lençol no inverno. Sua voz me envolve completamente.

— Então eu não quero te atrapalhar, nós conversamos depois. – Digo já sentindo sua falta. Sentindo loucamente sua falta.

— Vai sentir saudade? – Ele pergunta devagarinho com a voz baixa, bem baixa.

— Vou. – Digo honestamente.

— Ainda bem, porque eu já estou sentindo a sua. – Ele confessa fazendo meu coração se contrair e se expandir ao mesmo tempo. – Nos falamos depois amor. Eu te amo.

— Eu também te amo John. – Murmuro.

A linha está muda, porém eu ainda estou com o celular grudado a minha orelha. Seu fechar os olhos eu consigo ouvir tudo de novo. Cada palavra. Um sorriso enorme se abre em meu rosto, e eu me sinto como a pessoa mais feliz do mundo, e eu me sinto como se eu tivesse tirado a sorte de ganhar na loteria. Bom, de certo modo eu ganhei na loteria.

Na loteria do amor.

Desço as escadas para o restaurante e Julia está sozinha na cozinha,

— Bom dia Ju. – Digo deixando um beijo estalado em sua bochecha.

— Bom dia Mel. Está tudo bem? – Ele pergunta me olhando de rabo de olho.

— Tudo sim. Por quê? – Pergunto curiosa enquanto procuro algo para comer no armário. Acho uma forma com pães doces. Eles me parecem muito bons.

— Por nada. É que você não desceu mais ontem a noite. Fiquei preocupada. Você conversou com o seu avô? – Ela me pergunta enquanto me passa a garrafa de café. Ela parece inquieta.

— Não. – Digo num muxoxo. Eu vou ter que encara-lo. Eu não tenho escolha. No máximo depois de amanhã John vai estar de volta. Eu tenho que resolver isso de uma vez. – Você sabe onde ele está? – Pergunto enquanto levo a xicara aos lábios.

— Ele estava aqui quase agora. Acho que ele foi para o escritório.

— Acho que eu vou lá falar com ele. – Digo já sentindo o nervosismo me invadir.

— Antes de você ir eu queria te dizer uma coisa. – Diz Julia se virando para mim. Seus olhos me estudam. Conheço esse olhar.

— O que aconteceu? – Pergunto com a sobrancelha arqueada.

— Olha primeiro eu gostaria de dizer que talvez não seja nada de mais. – Ela diz receosa.

— Julia, você está me deixando nervosa. – Digo deixando a xicara de lado. – O que foi?

Ele engole em seco.

— Ontem enquanto você estava com John uma pessoa ligou aqui procurando por ele. – Ela diz devagar.

— Uma pessoa? – Pergunto. Não vejo nenhum problema nisso.

— Uma mulher.

Isso faz todos os pelos do meu corpo se arrepiarem. Isso faz todos os meus sinais de alerta piscarem loucamente.

— John tem uma irmã – digo. Talvez ela tenha ligado para ele. – E tem a mãe dele também. A mulher disse quem era? – Pergunto.

— Pode ser. A pessoa perguntou por ele e eu disse que ele tinha saído. Ela era bem rude para dizer a verdade. — Ela dá de ombros. – Ela falou algumas besteiras, tipo como eu não estava a atendendo direito – Julia revira os olhos como se isso não fosse importante — e depois desligou, Não me disse mais nada.

De repente eu me lembro do momento em que eu e John estávamos no piquenique e ele atendeu ao telefone de um jeito estranho. Quer dizer, ele nem chegou a atender. E também teve aquela ligação da biscate loira, e a mensagem.

Não gosto disso.

— Ligou no telefone do restaurante? – Pergunto achando estranho.

— Isso. – Ela confirma tentando sondar minha reação.

Eu poderia ligar para John. Eu poderia ligar e dizer que eu li a mensagem, e exigir que ele mande aquela loira de farmácia parar de importuna-lo. Porém, se eu fizer isso eu vou ser obrigada a assumir que eu li a mensagem. E sem permissão.

Nem morta!

Eu vou ser obrigada a ficar com essa pulga atrás da orelha até ele voltar.

— Tudo bem Ju. – Eu digo não querendo demonstrar que isso me deixou com a pulga atrás da orelha. – Eu vou ver meu avô.

Saio da cozinha com o pensamento a mil. Talvez a pessoa ligue de novo. É melhor eu ficar alerta com o telefone.

Subo as escadas em direção ao escritório. Fica passando mentalmente cada palavra que eu vou dizer ao meu avô. Espero que ele entenda. Espero que ele não fique magoado comigo. Eu não suportaria. Ele é muito importante para mim. Eu posso vir visita-lo sempre, John mesmo já disse isso para mim. Vai ficar tudo bem. Eu sei que vai.

Coloco minha mão na maçaneta sentindo um frio no estomago, um aperto no coração. Hesito um pouco antes de abrir a porta.

Este vai ser um momento muito importante em minha vida!

Eu estou decidindo um futuro!

Abro a porta e meus olhos vão diretamente para cadeira do meu avô. Porém, ela está vazia. Entro no escritório e está tudo escuro, a não ser pela pequena fresta de luz que entra por entre as cortinas.

Estranho.

Abrir as cortinas é sempre à primeira coisa que meu avô faz. Sempre que ele entra em qualquer cômodo escuro. Primeiro, ele sempre irá abrir as cortinas.

— Vovô? – Eu chamo examinando o escritório. O que é difícil. Por causa da pouca luz.

Vou até a cortina e a abro. A luz invade o escritório. Quando me viro vejo uma cena que faz todo o ar fugir dos meus pulmões. Meu avô está caído perto da mesa.

— Vovô! – Eu grito enquanto eu corro até ele.

Eu caio de joelhos ao seu lado, e eles está pálido. Ele está desacordado. E eu sinto tudo a minha volta dar um milhão de voltas. Checo seu pulso e ele está fraco.

— Ana! – Eu grito o mais alto que eu posso enquanto eu choro descontroladamente. — Ana! – Grito novamente. – Por favor, vovô, por favor, olha para mim, abre os olhos. – Eu suplico segurando sua mão. – Ana! – Eu grito novamente.

Meu deus, porque ninguém me ouve!

De repente a porta se abre com força e Ana entra correndo, mas antes de chegar a mim ela congela em seu lugar e me olha com os olhos arregalados, toda cor fugiu de seu rosto e por um segundo ela parece sem rumo.

Tanto quanto eu.

— Ana, liga para o doutor Carlos! – Eu grito descontroladamente. Eu mal reconheço minha voz. – Pede para ele correr para cá pelo amor de deus!

Ela parece acordar de seu transe.

— Eu já vou. – Ela diz nervosa sem tirar os olhos do meu avô. Cambaleando para trás ela vai até o telefone.

— Por favor, vovô fala comigo! – Eu imploro para ele enquanto não consigo cessar as lágrimas. Meu coração bate acelerado, meu coração dói.

Por favor, vovô não me deixe!

— Alô doutor Carlos, é a Ana. Eu não sei o que aconteceu, mas o José está desmaiado ...

Eu não consigo ouvir mais nada, o sangue bombeia rápido eu meus ouvidos. Todos os meus sentidos estão focados em meu avô. Em seu rosto pálido, em seus olhos fechados.

— Tudo bem, estamos esperando. Por favor, venha rápido. – Pede Ana antes de desligar o telefone. – O doutor está vindo. O que aconteceu Mel? — Sua voz está nervosa.

— Eu não sei – minha voz sai entrecortada – eu vim para conversar com ele, mas ele já estava caído aqui no chão. – Digo sem tirar meus olhos dele.

— O doutor mandou abrirmos os botões da camisa dele, e nós precisamos coloca-lo em algum lugar confortável. Precisamos tirá-lo do chão. – Diz Ana se aproximando. – Venha, me ajude a coloca-lo sentado no sofá.

Faço tudo mecanicamente. Meu avô é um homem grande e pesado. Eu e Ana temos trabalho para levantá-lo. Ana o segura pelos braços enquanto eu o seguro pelas pernas. É em um momento desses em que um homem faz toda a diferença. Depois de muito esforço conseguimos o colocar sentado em uma das poltronas.

— Onde estão os remédios dele? – Pergunta Ana enquanto analisa o rosto do meu avô. Ele tem um pequeno machucado na testa. Ele deve ter se machucado na queda.

— No banheiro do quarto. – Eu digo assustada. Minhas mãos soam, minhas pernas tremem. Eu não consigo raciocinar.

Eu estou com tanto medo.

— Você tem que ir lá buscar um dos comprimidos de emergência. – Ela diz enquanto retira a gravata do pescoço do meu avô. Do meu avô ainda desacordado. – Mel, meu amor, por favor, faça o que eu disse. Ele vai ficar bem. – Seus olhos me fitam com carinho.

Ana tenta me confortar, mas eu só vou ficar bem quando meu avô abrir os olhos de novo.

Saio do escritório em disparada até o seu quarto. Assim que chego ao banheiro olhando na prateleira dos remédios tento identificar o comprimido de emergência. São tantos comprimidos de tamanhos e cores diferentes, por um segundo eu me sinto confusa.

Qual era mesmo o nome do remédio?

Se bem me lembro era alguma coisa terminada com dil.

Ah, sim. Encontrei. Isordil. Pego um copo em cima da pia e o encho d’água. Corro em direção ao escritório.

— Calma José, vai ficar tudo bem. – Diz Ana baixinho conversando com meu avô.

Chegando perto do sofá vejo que meu avô está com os olhos abertos, quando eles se focam em mim eu sinto o alivio me invadir.

Ele vai ficar bem!

— Vovô. – Eu digo enquanto me aproximo dele. Minha voz está chorosa, partida. Seus olhos estão agitados. Ele está com medo. – Aqui. – Eu digo enquanto esmago o comprimido. Coloco em sua boca e derramo um pouco de água. Seus olhos me estudam. Ele parece fraco.

— O doutor já está chegando vovô. – Digo tentando acalmá-lo. Tentando me acalmar. Aperto sua mão como em um pedido silencioso para que ele não me deixe. – Eu estou aqui com você. – Eu murmuro. – Eu não vou te deixar. Eu te amo vovô. – Digo já sentindo as lágrimas inundarem meu rosto novamente. Uma lágrima escorre de seus olhos e eu quase sinto meu coração parar.

[...]

Eu tenho que agradecer e muito ao doutor Carlos. Em menos de vinte minutos depois da ligação da Ana, ele e uma pequena equipe já estavam atendendo ao meu avô, enquanto eu assistia tudo de perto. O doutor fez todos os procedimentos necessários. Alguns dos enfermeiros levaram meu avô até o quarto. Ele está deitado agora. Dormindo. Tranquilamente.

Eu queria estar tranquila.

Eu fico esperando sentada no chão do lado de fora no corredor. Eu não consigo parar de chorar. Eu sinto uma culpa enorme.

Será que foi por conta do que eu disse ontem?

Meu deus, que não seja. Ou eu nunca vou me perdoar.

A porta se abre e o doutor Carlos sai de lá com um enfermeiro – bom, pelo menos eu acho que é — alto. Muito alto. Ele não diz nada, apenas mantém seus olhos colados em mim.

— Como ele está? – Pergunto com a voz embargada me levantando do chão. Minha voz parece estar presa na garganta.

— Foi apenas um susto. – Ele diz e eu respiro aliviada. Eu sinto como se o mundo tivesse sido tirado das minhas costas. – Ele vai ficar meio grogue por uns dias. Foi um inicio de infarto, mas como foram tomadas as precauções rapidamente, ele está bem agora.

— Ele está fora de perigo? – Pergunto com medo.

— Não posso te garantir isso Mel. – Diz o doutor olhando bem no fundo dos meus olhos. Sinto meu peito dar um nó. – Você já sabe qual é o quadro do seu avô.

— Mas eu achei que ele estava melhor. – Digo confusa sentindo meu coração vir a boca. – Ele estava voltando ao normal eu não entendo.

— É assim mesmo. Momentos bons, momentos ruins. Nós temos que monitorá-lo. Eu gostaria de leva-lo para o hospital, mas você conhece seu avô. Ele não quer ir. Você tem que cuidar muito bem dele aqui, e ele ficara bem. Deixe ele descansar. Eu já passei as recomendações para a Ana, ela sabe o que fazer, ela vai te explicar tudo depois.

Aceno com a cabeça, porque sinceramente eu não sei o que dizer.

— Eu já vou indo. Qualquer coisa me ligue. Esse é o meu assistente o doutor Flores – diz ele apontando para o homem de cabelos escuros e olhos castanhos atrás dele. – Gabriel Flores, você pode ligar para ele também.

— Tudo bem. – Os olhos do assistente do doutor me avaliam com compaixão. E eu instantaneamente gosto dele.

— Não se preocupe, vai ficar tudo bem. – Ele diz me deixando ouvir sua voz pela primeira vez. Seus olhos escuros sorriem para mim.

— Obrigado — eu murmuro – por tudo.

— Estamos a postos. Qualquer coisa não hesite em ligar para qualquer um de nós dois. – Diz o doutor Carlos apertando meu ombro. – Até mais Mel.

— Até doutor.

— Até senhorita Guillén. – Diz Gabriel.

— Até doutor Flores. – Murmuro me despedindo.

Enquanto os dois descem as escadas, eu entro no quarto do meu avô. Ele está deitado desacordado.

Uma sensação ruim me toma por completo.

— Vai ficar tudo bem Mel. – Diz Ana com sua voz carinhosa. – Você ouviu o que o doutor disse, foi só um susto.

— Eu sei é que foi um susto muito grande. – Digo com a voz fraca enquanto me aproximo da cama. Sento-me ao lado do meu avô e passo meus braços por sobre seu peito o abraçando o mais forte que eu posso.

— Eu vou deixar vocês sozinhos. – Diz Ana saindo do quarto.

Eu fico ali. Chorando baixinho.

— Eu sinto muito vovô. – Eu murmuro. – Por favor, fique bem logo.

[...]

Não sei quanto tempo eu fiquei ali deitada. Acho que eu acabei caindo no sono. Levanto-me meio desorientada. O quarto está escuro. Olho para o meu avô e ele ainda está dormindo. Passo minha mão por seu rosto, por seu cabelo, e sinto uma onda enorme de amor e de carinho preencher meu coração.

Saio do quarto devagar. Desço as escadas em direção à cozinha. Ana está sentada com Julia a mesa. Julia está com o rosto vermelho. Assim que entro na cozinha ela corre para me abraçar. E eu a abraço forte, porque isso é tudo de que eu estou precisando agora. Eu me sinto um caco. Destruída. Sem chão. E eu não sei o que fazer.

— Ele vai ficar bem, não vai? – Eu pergunto baixinho para Julia.

— Vai sim Mel, você vai ver. – Ela me conforta.

— Ele ainda está dormindo? – Pergunta Ana enquanto seca os olhos com um lenço.

— Está. Isso é normal, não é? – Pergunto com medo. Eu queria que ele acordasse. Que ele falasse comigo.

Não consigo afastar a sensação ruim. O medo que seus olhos transmitiram vai ficar gravado em mim por toda a vida. Eu nunca vou ser capaz de esquecer. Eu preciso olha-lo de novo e sentir que vai ficar tudo bem. Ou eu não vou conseguir sossegar.

— É sim. O doutor disse que ele vai dormir por um tempo. Por conta do remédio. – Ela me explica.

Aceno com a cabeça. Sento-me em uma cadeira e coloco minha cabeça em minhas mãos.

— Mel, você está pálida. Você está se sentindo bem? – Pergunta Julia enquanto tira algumas mechas do meu cabelo que estão caídas em meu rosto.

— Eu só estou um pouco tonta. – Digo de olhos fechados, tentando fazer o mundo parar de girar. – Acho que foi o susto.

Deve ter sido isso. Está tudo rodando. Foi um susto muito grande. Eu achei que meu coração fosse parar.

— Quer um copo de água? – Pergunta Julia solicita.

— Quero Ju. – Respondo com a voz fraca.

— Você não está me parecendo muito bem. – Diz Ana examinando meu rosto. – Você quer tomar algum remédio para dor de cabeça?

— Não. Eu só quero ficar quietinha por uns minutos. Vai passar.

Julia me traz um copo de água que eu tomo o mais rápido possível. A água fria cai em meu estomago e eu instantaneamente a sinto o fazendo se embrulhar. Fecho os meus olhos com mais força para tentar afastar a sensação ruim.

— Melhor? – Ela pergunta.

— Melhor. – Eu minto.

A água parece que fez tudo se intensificar.

— Quanto tempo será que ele estava desmaiado? – Pergunta Ana.

— Não sei. Eu desci e procurei por ele, a Ju me disse que ele estava no escritório. – Digo para Ana.

— Não tinha nem dez minutos que ele tinha saído daqui – diz Julia. – Acho que não tinha muito tempo.

— Ainda bem, eu nem quero pensar no que poderia ter acontecido. – Diz Ana.

— Nem eu. — Digo num fio de voz sentindo uma vibração ruim se apoderar de mim.

O telefone do restaurante começa a tocar preenchendo o silêncio. O barulho do toque se faz incomodo em minha cabeça.

Talvez seja John!

— Deixa que eu atendo. – Eu digo me levantando. O pensamento de que talvez seja John me faz ter forças.

Talvez seja John. Espero que seja ele. Eu preciso tanto ouvir sua voz. Preciso tanto tê-lo perto de mim. Me consolando, me dizendo que tudo vai ficar bem.

— Alô? – Digo esperançosa. Sentindo meu coração vir na boca.

— Alô. Oi, eu gostaria de falar com o senhor Ackes. – Uma voz feminina melodiosa diz do outro lado da linha em inglês.

— Perdão, mas quem gostaria? – Pergunto curiosa e desapontada.

Droga Mel! Vocês acabaram de se falar. Talvez ele ligue à tarde.

Mas é que eu precisava tanto ouvir sua voz.

— Você apenas pode passar o telefone para ele? – Uma voz irritada rebate do outro lado da linha. Me tirando dos meus devaneios.

— Eu não posso dar informações sobre hóspedes se você não me disser do que se trata. – Digo procurando no fundo das minhas entranhas o tom mais profissional possível.

— Que inferno! – Diz a voz irritada. – Eu preciso falar com ele. Ele está ai ou não?

Um, dois, três... Respire fundo Mel!

— Como eu já disse eu não posso dar esse tipo de informação. – Digo novamente.

Que mulher irritante!

— Tudo bem garota, eu preciso falar com John. Eu sou a namorada dele, diga isso e ele vai saber quem é.

Por um instante eu sinto o chão se movendo sobre os meus pés. Eu sinto meu mundo desmoronando. Meu coração se despedaçando em mil pedaços. Meus sonhos indo por água a baixo. Meus olhos ardem pela vontade de chorar, e eu tenho que me segurar à mesa ao meu lado com força para não desmoronar no chão.

Isso não pode ser verdade!

Notas finais
O.O Comentem!