Sob minha pele
43 Capitulo 43
Notas iniciais
John.
Tudo parece estar desmoronando ao meu redor, as coisas não parecem certas, de repente as escolhas que me trouxeram até aqui parecem totalmente erradas. Meu mundo parece totalmente errado, e eu não sei mais o que fazer para tentar colocá-lo no lugar. Como se eu tivesse acabado de perder uma parte indispensável de mim, como se eu tivesse perdido o dom de respirar, perdido o dom de controlar a mim mesmo...
Mesmo sabendo que tudo estava acabado, de certo modo saber que ela ainda me amava me dava um consolo. Mesmo que um consolo doentio e egoísta.
Mas a certeza de que ela já me esqueceu, é...
Quando dou por mim o telefone que estava em minha mão já está sendo arremessado longe e acertando com força a estante de vidro, que se espatifa em um milhão de pedaços no chão. Não satisfeito eu caminho até a mesa de centro no meio da sala e a jogo longe. As taças em cima do aparador são lançados à parede mais próxima. Vou feito um furacão até o escritório pego sua foto e a jogo com toda a força contra a parede fazendo a moldura quebrar.
As coisas quebradas ao meu redor me lembram uma zona de guerra, mas nada nesse momento está mais quebrado do que meu próprio coração.
Eu não o sinto mais. Parece que ele acabou de perder sua função. Eu estou com tanta raiva, com tanto ódio, com tanta dor. Ouço gritos e me espanto ao notar que estão vindo de dentro de mim. Estão vindo do lugar mais profundo e machucado que existe dentro de mim.
Ela não pode fazer isso!
Ela não pode fazer essa merda!
Meus joelhos fraquejam, e, eu cedo caindo de joelhos no chão duro. Meus pulmões não colaboram, e não me ajudam a respirar. Está tudo se remoendo e morrendo, queimando e machucando.
Droga! Por que eu simplesmente não consigo esquecê-la?
E, porque machuca feito o inferno a ideia de ela se casar com outro? A ideia de ela ser de outro, e não minha?
Vejo algumas gotas no chão, e só agora percebo que estou chorando. Que as lágrimas caem sem que eu possa evitar. Odeio me sentir fraco, e impotente, e tenho certeza de que eu estou patético de joelhos no meio dessa bagunça, chorando por uma mulher.
Se ela resolveu seguir seu caminho e se casar com aquele imbecil eu deveria fazer o mesmo. Mas apenas a ideia é insuportável. E eu nunca iria querer ninguém ao meu lado que não fosse ela.
Ela é a única que eu quis, e não vai haver outra.
Ouço passos, mas eu me recuso a me mexer.
— John? – Pelo tom de voz percebo que ele está espantado. – Droga John! Que merda é essa? Perdeu a cabeça?
Mark vem até mim e segura meus braços com força tentando me fazer levantar, mas eu não quero que me toquem.
Eu estou tão furioso agora que eu tenho medo de cometer uma besteira.
— Não encoste em mim. – Digo empurrando sua mão com ferocidade para longe de mim.
Saio a passos furiosos indo para o bar que fica no canto da sala. Agarro a garrafa de whisky e a viro em um dos copos mais próximos, o enchendo, sem nem pensar duas vezes eu o viro em minha boca deixando o liquido queimar minha garganta. Limpo com violência a droga das lágrimas que insistem em cair.
— O quê aconteceu aqui? – Pergunta Mark sem tirar os olhos de mim. – Anda responde! O quê aconteceu para te deixar desse jeito?
— Ela vai casar. – Murmuro encarando o copo vazio a minha frente.
Eu não suporto a ideia. Eu apenas não consigo...
Ela esqueceu tão rápido. Ela vai se dedicar a outro agora. Amar outro...
— Quem vai casar? – Pergunta Mark irritado.
— A Mel. – Respondo.
Ele pisca os olhos algumas vezes como se estivesse surpreso.
— Mel? – Pergunta boquiaberto. – Com quem?
— Com aquele merda! – Explodo jogando o copo na parede.
Se eu estivesse perto dele agora eu não iria parar como na outra vez, eu iria matá-lo! Finalmente conseguiu o que ele queria.
— Espera! – Ele diz abanando as mãos. – E pare de quebrar as coisas! Você está parecendo um maluco! – Diz brusco. – Como você sabe disso?
Ando de um lado para outro com as mãos cruzadas em cima da cabeça, sentindo meu corpo inteiro tremer com a adrenalina, com a raiva.
— John!
— Ela me ligou ontem à noite. – Digo sentindo meu coração doer no peito.
— Ela ligou para te dizer isso? – Ele pergunta incrédulo com a sobrancelha arqueada.
— Não sei por que ela ligou! – Digo jogando as mãos para o alto. – Acho que ela ficou irritada comigo!
— Deixa eu ver se entendi. – Diz Mark sarcástico. – Ela te liga e diz que vai se casar, te deixa nesse estado, e ela que fica irritada? – Diz dando uma risada debochada.
Eu o fulmino com os olhos.
— Não fui eu quem atendeu ao telefone. – Digo baixo com a voz entrecortada. Sentindo vergonha, me sentindo imundo outra vez.
— Quem atendeu? – Ele pergunta confuso. – Nós terminamos de trabalhar bem tarde, e quando eu sai você disse que ia dormir.
Suspiro alto.
— Maggie.
— Maggie? – Pergunta sem entender nada. – Quem diabos é essa?
Não estranho sua reação. Eu não falei nada sobre ela, e ele também não perguntou. Havia muito tempo que eu não a via. Nós havíamos ficado juntos umas duas vezes depois da noite do bar, depois ela simplesmente sumiu. E eu não procurei por ela. Por que eu faria isso? Nunca rolou nada além de atração carnal entre nós dois. Coisa de momento. Ela não fazia falta para mim.
Ontem quando eu estava prestes a entrar no banho para esfriar a cabeça antes de dormir ela apareceu aqui.
— A garota do bar. – Digo sem paciência.
Mark parece pensar um pouco como se estivesse buscando no fundo de sua mente, dentre milhões de rosto de mulheres diferentes, a que eu me refiro.
— Não lembro dela. – Diz por fim.
— Eu a conheci naquela noite com Clark, e Paul no bar. – Explico. – Nós viemos para cá e acabamos dormindo juntos, eu não lembro muito bem dos detalhes. Acho que eu estava muito bêbado. – Aquela noite é simplesmente uma imagem em branco em minha cabeça. – Só sei que ela apareceu aqui ontem à noite quando eu estava indo dormir, e – como eu explico?— Eu estava ...
— Como sempre um lixo. – Diz Mark sendo nada gentil. – Vamos encarar os fatos. Você tem seus dias ruins e seus dias bons. E hoje com toda a certeza é um dia ruim.
Ele não consegue esconder o quanto isso o irrita.
Estreito minhas sobrancelhas para ele.
— Nós acabamos ficando juntos de novo. – Continuo. – Então, depois eu levantei e fui tomar banho. E quando eu estava saindo eu a ouvi conversando com alguém no telefone – as feições de Mark mudam e ele entende o que aconteceu. – Como eu ia adivinhar que ela me ligaria? E porque aquela garota tinha que atender a merda do meu telefone. Porra! – Esbravejo sentindo a irritação voltar com força total.
— Mel é bem esperta. – Diz Mark hesitante. – Ela com certeza percebeu o que tinha acontecido.
— É claro que ela percebeu! – Grito frustrado. – Ela parecia tão magoada no telefone, e eu me senti um cretino outra vez. Eu tentei conversar, mas ela não quis me ouvir. Ela acabou desligando o telefone e não atendeu quando eu retornei a ligação.
Eu fiquei à noite inteira acordado torcendo para que ela me ligasse outra vez, torcendo para que nós pudéssemos conversar e se tudo desse certo, nos acertar. Se eu ouvisse de seus lábios que ela ainda me amava, eu não pensaria duas vezes em fazer minhas malas e ir vê-la.
Eu não suporto mais esse maldito inferno!
— Você ainda não chegou na parte do casamento.
— Eu lembrei que tinha o número do restaurante na agenda. Eu liguei, e aquele imbecil atendeu. – Digo com nada além de ódio pingando de minhas palavras. – Pedi para falar com ela, mas ele não quis passar, e já foi dizendo para eu não procura-la mais, porque ela iria se casar com ele.
Ela jurou para mim que não tinha nada com ele. Ela mentiu para mim outra vez, e isso crava uma faca em meu coração.
— Sinto muito John. – Diz Mark com compaixão em sua voz. – Mas e ela? Ela confirmou isso?
Fecho os olhos com forçando me recordando de suas palavras. Me levando a loucura, a beira da insanidade de tanto ciúme.
— Ela disse que é verdade. – Digo quase engasgando com o bolo que se forma em minha garganta. – Ela vai casar com ele, ela vai ser dele. – Esse é o pior sentimento do mundo. – Ela disse que me esqueceu. – Digo num fio de voz.
Mark se aproxima de mim e coloca a mão em meu ombro.
— Sinto muito cara. Sinto muito de verdade. – Sei que ele está sendo sincero.
— Eu não posso ficar sem ela. – Digo me rendendo as lágrimas outra vez. Eu nunca chorei tanto em minha vida. Eu nunca deixei que nada me afetasse tanto ao ponto de me levar as lágrimas. Mel encontrou uma brecha, uma passagem, e eu, simplesmente não consigo fechá-la.
— Eu sou seu amigo, e tento sempre ser sincero com você. – Diz Mark. – Mas a pior decisão que você já tomou foi ter ido embora sem tentar acertar as coisas antes. Isso está na cara. Isso está acabando com você.
— Eu não pensei em nada na hora. Eu só queria me livrar do que eu estava sentindo. Eu pensei que indo embora o que eu sentia ficaria lá, não achei que me seguiria e me torturaria.
Eu não achei que o amor pudesse machucar tanto. É uma maldita tortura psicológica. É um maldito sentimento, e eu não quero senti-lo mais.
— Talvez se você tentasse falar com ela. – Diz Mark.
Como se eu já não tivesse tentando.
— Ela disse que não quer mais saber de mim. – Digo me recordando de suas palavras.
— Então, faça o mesmo que ela. – Diz Mark energético. – Você estava tentando antes. Agora você tem um motivo a mais para tentar. Ela vai se casar! Ela vai formar uma família...
Eu o corto.
— Não repita isso. – Digo o alertando. – Nunca mais fale isso.
Não suporto essa imagem. Dela sendo mão dos filhos dele.
— Então vamos colocar uma pedra nesse assunto. Uma pedra nesse nome. Uma pedra nessa história. Sei que pode ser difícil, mas você não tem escolha. A não ser que você queira continuar sendo arrastado para esse inferno em que você vive nos últimos meses.
Passo as mãos pelo rosto limpando as lágrimas.
— Você tem razão. – Digo decidido. – Ela disse que esqueceu de mim, então eu vou fazer o mesmo.
Mark dá um sorriso orgulhoso.
— É isso aí! Pense em você. – Diz dando tapas em minhas costas.
Não posso viver com meu coração lá. Minha vida é aqui. E eu preciso refazê-la.
Eu estou desistindo, jogando a toalha, porque eu não aguento mais ser magoado.
[...]
Pedi para minha secretária arranjar uma faxineira para que viesse dar um jeito na bagunça. Claro que eu não disso o quão bagunçado está.
Eu tenho um jantar importante hoje. Minha irmã acaba de chegar do Canadá e eu ainda não tive chance de vê-la. Estou morrendo de saudade. Por isso minha mãe organizou um jantar para apenas nós quatro.
Saio do banho e faço tudo mecanicamente, evitando ao máximo deixar que meus pensamentos me levem a lugares indesejados.
Procuro por roupas mais formais, já que minha mãe sempre reclama das minhas roupas. Opto por uma calça escura, e uma camisa da mesma cor.
Não posso evitar o sorriso amargo.
Escuro como o meu coração.
Estou pegando minha carteira e minhas chaves em cima do criado mudo quando ouço a campainha tocar.
Desço as escadas e pela janela já posso ver que está prestes a anoitecer.
Abro a porta e dou de cara com uma senhora não muito baixa, de cabelos escuros presos em um coque na cabeça.
— Boa noite. – Ela me cumprimenta.
— Boa noite. – Digo tentando soar amigável apesar do meu humor.
Eu passo a ela instruções de onde tudo se encontra na casa. Não posso deixar de notar o seu olhar de espanto ao constatar o quanto o apartamento está bagunçado.
— Eu devo demorar pelo menos umas três ou quatro horas. Se caso, eu demorar mais você pode ligar para a minha secretária e ela fará o pagamento.
Ela acena com a cabeça.
Pego o elevador e aproveito para dar uma conferida no espelho. Meu rosto está pálido demais. Com certeza minha mãe terá argumentos para puxar minha orelha durante toda à noite. Às vezes ela se esquece de que eu não sou mais um menino.
[...]
Estaciono o carro e vou em direção à entrada da casa dos meus pais. É uma casa enorme e muito bem arejada, com um jardim enorme na entrada. Com janelas grandes e sinuosas.
Não bato na porta, pois sei que todos já estão me esperando. Entrando em casa já dou de cara com minha irmã que desse as escadas sem tirar os olhos do celular.
Reviro os olhos para isso.
— John! – Ela grita ao me notar. Sorrio para ela, e ela vem correndo até pular em meus braços e me abraçar com força. – Que saudade John!
— Também senti baixinha. – Digo com sinceridade. Minha irmã é umas das pessoas das quais eu mais amo no mundo.
Ela dá um tapa sem muita força em meu peito.
— Não sou baixinha. – Resmunga. – Sou quase do seu tamanho.
Gosto de provoca-la desde que éramos crianças. E ela tem razão. Ela não é baixinha. Minha irmã é alta e muito bonita. Isso me faz franzir os lábios. Se eu a acho bonita não quero nem pensar no que os outros homens acham. Ela é loira e tem os olhos da mesma cor dos olhos dos olhos do meu pai; azuis.
— Mal cheguei e você já está me batendo. – Digo brincando.
Ela meio que faz eu me sentir um pouco em paz. Talvez eu estivesse precisando disso. Precisando da minha família, para aliviar um pouco da destruição de dentro.
— Quem manda você ser um bobão. – Diz fazendo bico. – Mas temos assuntos a tratar. E a sua namorada?
Fecho a cara na hora. Eu não deveria ter falado sobre Mel para ela. Ela não vai me deixar em paz e isso é tudo o que eu não estou precisando agora.
— Não tem namorada nenhuma. – Digo me esquivando e adentrando a casa a procura dos meus pais.
— Ah! Como assim? – Diz ela segurando meu braço. – Você disse que tinha conhecido uma pessoa especial. E conhecendo você do jeito que eu conheço, só o fato de você chama-la de pessoa especial já é uma coisa e tanto.
Minha irmã fala de mais. E isso é irritante.
— Não se envolva nisso Kelly. – Digo a alertando.
— Não entendo. – Diz ela me ignorando. Como sempre. – Você parecia tão animado. Feliz. Achei que finalmente alguém tinha te fisgado de jeito. – Diz rindo. – O que você fez de errado? – Pergunta me fulminando com olhos.
Por que ela acha que eu fiz algo de errado?
— Eu? – Pergunto incrédulo.
— Eu conheço você cabeça dura. – Diz como se fosse óbvio. – Qual era mesmo o nome dela? – Diz pensativa. – Ah! Mel! E ela era bonita. – Diz piscando os olhos.
Sinto um frio no estômago apenas ao ouvir seu nome.
— Pare com isso! – A repreendo. – Não fale mais dela! E não fale sobre isso com nossos pais.
Ela arregala os olhos e faz cara de assustada. E eu conheço essa cara.
E não gosto dela.
— O quê você fez?
— Talvez eu tenha contado para a mamãe. — Diz dando de ombros como se não fosse nada de mais. Droga! Com certeza ela irá falar sobre isso depois. Kelly e minha mãe são iguaizinhas. Não tem o menor respeito por minha privacidade. – E para o papai também.
Ótimo!
— Droga Kelly!
— Você não pediu segredo. – Diz irritada.
Ótimo! Agora ela está irritada.
— Não toque mais nesse assunto. – Rosno para ela.
Amo minha irmã, mas ela sabe como me irritar.
— John! – Diz minha mãe vindo sorrindo em minha direção. – Como você está magro filho. – Diz apalpando minhas costas, enquanto me aperta em um abraço de urso.
— Mãe. – Digo querendo mudar de assunto. – Como está?
— Bom, meus filhos esqueceram que eu existo. Como você acha que eu estou me sentindo? – Diz fazendo drama.
Eu e Kelly reviramos os olhos como se fosse um ato ensaiado.
Minha mãe tem os cabelos cortados na altura dos ombros, em um tom de loiro escuro. Foram dela a quem puxei meus olhos verdes. Nossos olhos são idênticos.
— Não quero ser chata! – Diz puxando eu e Kelly ao mesmo tempo para um abraço. – Mas eu sinto falta de vocês. Queria que vocês nunca tivessem crescido!
Melhor meu pai chegar logo antes que rolem as lágrimas.
— Pare de drama Claire. – Diz meu pai achando graça. – Como vai filho? – Diz me dando um braço.
Meu pai já tem os fios brancos cobrindo quase toda a parte escura do cabelo. Seus olhos azuis são bondosos, assim como ele.
— Estou bem pai.
— Fiquei preocupado. Você não deu mais noticia. – Diz meu pai analisando meu rosto. Ele me conhece muito bem. – Depois conversamos melhor. O jantar já está na mesa.
— Ótimo! Estou morrendo de fome. – Diz Kelly nos fazendo rir.
Ela sempre está com fome.
[...]
O jantar está indo bem melhor do que eu imaginava. Kelly monopoliza todos contando de suas aventuras na faculdade. E eu acho isso ótimo. Pelo menos eu não sou o foco hoje. Preciso apenas ficar aqui sentado, deixando que minha irmã faça meu cérebro travar de tantas informações.
— As aulas são complicadas, mas eu estou me dando bem mãe. – Diz dando outra garfada no purê. – E universidade é incrível! Têm muitos gatinhos também. – Diz empolgada.
Estreito meus olhos para ela.
— Estou orgulhosa de você. – Diz minha mãe com um sorriso no rosto. – Sou muito orgulhosa de vocês dois.
Sorrio para ela.
Meus pais se entreolham. E esse é um sinal que eu conheço muito bem.
Lá vem...
— Então, sua irmã disse que você estava namorando. – Diz minha mãe tentando soar desinteressada, mas eu a conheço, e isso é tudo o que ela não está no momento. – Eu adoraria conhecê-la.
— Mãe, eu disse que ela não vivia aqui. Ela é da Espanha. – Diz Kelly para o meu pavor.
Droga! Será que nem aqui eu consigo me livrar disso.
A fulmino com olhos, mas ela parece se divertir. O que me irrita mais.
— Verdade. – Diz minha mãe como se tivesse se esquecido.
— Nós terminamos. – Digo emburrado sem querer estender o assunto.
— Que pena querido! – Diz minha mãe segurando minha mão por sobre a mesa. – É por isso que está tão tristinho? – Ela me olha com seus olhos carinhosos e isso é demais para mim.
— Não estou triste mãe. – Digo para confortá-la. Minha mãe se preocupa demais. – Eu estou bem.
Claro que me sinto pior ainda por estar tão na cara que eu estou tudo menos bem.
— Ele não quer falar sobre isso. – Diz meu pai intervindo pela primeira vez.
Exalo em alivio.
Lanço um olhar para ele querendo dizer: obrigado pai.
— Pelo amor de deus! É só uma pergunta! – Diz Kelly exasperada. – Até parece que estamos falando de uma coisa muito séria! John sempre foi muito fresco! – Diz me apontando o garfo.
Ela não vai parar.
— Ela vai se casar com outra pessoa. – Digo com minha melhor postura. Sem deixar transparecer meus verdadeiros sentimentos. – Satisfeita?
Ela parece murchar sobre o meu olhar, o que encaro como uma vitória.
O resto do jantar transcorre bem. Parece até que o assunto ficou esquecido. O que eu sei que não é verdade. Eles apenas querem me dar espaço. E eu agradeço. Não sei se algum dia eu vou estar preparado para falar sobre ela para eles.
Mesmo querendo afastá-la não posso deixar de pensar que a Mel amaria um jantar como esse. Ela é sempre tão sozinha. E pelo o que eu conheço dela eu sei que ela ficaria feliz em ter uma família grande.
Esses pensamentos só estão piorando as coisas.
Alcanço minha taça de vinho e dou um gole generoso.
— Então, a partir do próximo mês eu vou estar oficialmente aposentado. – Diz meu pai contente. Nunca achei que ele ficaria tão contente em se aposentar. – E você. – Diz apontando para mim. – Será o meu sucessor.
Fico orgulhoso de mim mesmo por meu pai confiar tanto em mim. Não posso deixar de pensar no quanto eu gostaria de dividir isso com ela...
— Estamos muito orgulhosos de você John! – Diz minha mãe dando a volta na mesa e me abraçando por trás. — Você já é um homem! Às vezes eu me esqueço disso.
Seguro suas mãos nas minhas e as beijo.
— Agora você já pode me dar aquele carro, maninho! – Diz Kelly piscando.
E eu não consigo ficar com raiva dela. Eu a amo muito. E eu sei bem que ela é uma cabeça de vento, e nem se dá conta das besteiras que faz. Ela estava apenas curiosa, não tem culpa nenhuma do que houve entre mim e Mel.
— Vou pensar no seu caso! – Digo mal humorado.
Kelly levanta de sua cadeira e dá a volta na mesa dando pulinhos até chegar a mim. Ela me abraça e me enche de beijos.
— Eu te amo. – Ela diz toda meiga.
— Também te amo mimadinha! – Digo beijando a ponta de seu nariz empinado.
— Bom – diz meu pai se levantando – acho que a ocasião pede um vinho especial também! Mas para você um suco mocinha! – Diz meu pai apontando para Kelly.
— O quê? – Ela pergunta dando um gritinho capaz de deixar qualquer um surdo. – Pai! Eu já tenho dezenove anos. Quase vinte! Eu já até namoro!
— O quê? – Pergunto espantando. – Namorado?
Claro que eu estou me sentindo um hipócrita, mas ela é minha irmã!
Minha irmã mais nova!
— Não começa John!
[...]
Depois de uma discussão saudável, de alguns brindes, eu me despeço dos meus pais e sou acompanhado por Kelly até o meu carro.
— Boa noite. – Digo beijando sua testa.
— Boa noite. – Diz acanhada. – E, eu sinto muito pelo o que eu disse. Sabe, — ela dá de ombros – sobre sua ex-namorada. Não queria te deixar mal, e eu percebi no seu rosto que não te faz bem falar dela.
Engulo em seco.
— Tudo bem Kelly. Não se preocupe comigo. Já sou bem grandinho.
— Você vai ficar bem mesmo? – Pergunta com os olhos azuis preocupados.
— Vou sim. – Digo sem muita confiança.
Espero que eu fique.
— E nós conversamos depois sobre essa história de namoro. – Digo para provoca-la.
Ela revira os olhos.
— Nem vem com essa.
[...]
O tráfego está bom, e a noite está muito bonita. As lembranças chegam mesmo eu querendo afastá-las a todo custo.
Eu seguro sua mão e a puxo até mim, sentindo uma vontade imensa de tê-la em meus braços. Bem perto de mim. Seus olhos tem um brilho especial, e eu me sinto mais que orgulho por ser o motivo desse brilho.
— O quê está fazendo? – Ela pergunta sorrindo feito uma menina.
— Eu quero dançar com você. – Digo encostando meu rosto no seu, balançando nossos corpos de um lado para o outro em uma dança romântica, numa noite romântica, em um lugar mágico, especial. – Aqui, sob as estrelas, só nós dois, como se não existisse mais nada.
A brisa leva seus cabelos. Seus braços estão arrepiados, e eu tento puxá-la para mais perto, para aquecê-la.
— Gosto dessa ideia. – Ela murmura com os lábios colados ao meu pescoço fazendo tremores tomarem meu corpo por completo.
E eu estou no céu...
Eu queria poder voltar até esses dias em que nós estávamos juntos. Em quando tudo o que era mais importante era estarmos juntos. Antes das brigas, antes dos desentendimentos, antes de nos perdermos um do outro.
Eu sinto sua falta.
Mas ela não é mais minha...
[...]
Chegando ao meu apartamento vejo que a senhora ainda está por lá.
Franzo minhas sobrancelhas. Já está tarde. Por que ela não foi embora?
— Algum problema? – Pergunto. – Pensei que a senhora já teria ido embora.
Olhando em volta vejo que já está tudo arrumado, mas claro que estão faltando algumas coisas, já que eu as quebrei.
— Eu não sabia o que eu deveria fazer com isso. – Ela vem até mim com uma foto em suas mãos. É a foto da Mel. – Não sabia se eu deveria jogar fora. – Ela dá de ombros. – Resolvi esperar e perguntar. Além de outras coisas que estão ali também. – Ela aponta para uma caixa.
Sinto meu coração palpitar no peito.
— Pode jogar fora. – Digo frio dando as costas.
— Tudo bem.
Estou andando em direção as escadas. Tentando dar às costas para ela, para suas lembranças, mas meu coração é fraco e não me permite.
— Espera! – Grito quando a senhora está prestes a sair pela porta. Ando a passos rápidos até chegar a ela. – A foto. Eu vou ficar com ela. – Digo sem encarar seus olhos.
Ela a tira da bolsa e a entrega a mim. Não entendo o seu sorriso antes de ela passar pela porta.
Contorno o rosto da fotografia sentindo meu corpo inteiro responder aquele sorriso como se fosse à primeira vez.
— Eu te amo Mel. – Murmuro afetado. – E isso nunca vai mudar.
Subo as escadas desanimado até despencar em minha cama com roupa e tudo. Fechando os olhos eu posso vê-la. Eu posso tocá-la. Em meus sonhos ela é minha, e só minha.
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