Sob controle (Lucy, Livro 1)

8 Capítulo 8 - O dia do caçador


Notas iniciais
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“... e começaram os sete anos de fome, como José tinha predito. Houve fome em todas as terras, mas em todo o Egito havia alimento. ” — Gênesis 41:54

New Orleans

Sinto o balançar de meu corpo sendo carregado. Em uma pose gentil que a mão de Clinton apoia suavemente meu rosto contra seu peito, ele murmura para alguém explicando que está ajudando a amiga bêbada. Quanta gentileza. Minha visão turva dificulta compreender para onde estou sendo levada, sinto enjoo, os sons estão distorcidos, depois do segundo corredor teve alguns apagões. As vozes da festa e a música vai ficando cada vez mais distante, degraus e finalmente ele me coloca em uma cadeira. Eu quero abrir os olhos, mas é no máximo uma nesga de luz, faço força em meus braços e consigo apenas deslizar na parede, caindo lateralmente na cadeira.

— Não, ainda não. — fala Clinton, em reprovação.

Ouço o esfregar de tecidos, ele suspira se abaixando para mim e sinto uma picada em minha jugular. O líquido frio entra rapidamente, em poucos segundos não consigo mover mais nada, apenas sinto seus dedos no meu pescoço, sentindo minha pulsação.

— Isso deve ser o suficiente.

Apagão. A música fica alta de repente, estou em uma festa, vestido verde, uma taça de champagne na minha mão direita, minhas sandálias estão sujas, posso sentir o incômodo entre meus dedos, quase escorrego. Os garçons rodeiam o ambiente oferecendo as bandejas brilhantes.

— Não é maravilhoso tudo isso? — fala Cate Shipperd ao meu lado.

— Sim, é uma festa bonita. — falo, mas estranho minha voz. Eu não deveria estar aqui — Está sentindo frio?

Ao questionar sinto minha lateral esquerda gelada, tento aquecer meu braço com minha mão.

— Por favor. — Cate acena para um rapaz engravatado que se curva com a bandeja. — Ah, eu adoro esses.

Os canapés de steake tartare finamente colocados em pequenas torradas são atrativos. Ela pega um e o leva imediatamente a boca.

— É muito bom, prove. Esse é uma adolescente.

Ela sorri para mim enquanto oferece um canapé.

— O quê?

Olho em volta e percebo todos comendo, um homem se serve de uma perna humana assada com damascos. Eles elogiam os pratos, pequenas porções de brutalidade maquiada de finesa e poder.

— Coma. — sugere Cate — Você não reconheceu o gosto?

Olho-a nua, coberta em sangue de porco, mas ninguém faz nada. Todos estão na festa, comendo pequenas porções de cadáveres e tomando seus espumantes enquanto riem de forma macabra. As vozes se distorcem em minha mente e somem imediatamente com o som elétrico do acender de um fogão a gás, finalmente, consigo abrir os olhos. É uma força grande para levantar as pálpebras, sinto um enjoo que me desorienta, o chão parece se mover, como um líquido viscoso. Vejo que estou deitada de lado, meu braço esquerdo no piso frio ainda está dormente. Clinton caminha de um lado a outro na sala iluminada logo a minha frente. Ele usa um avental de couro protegendo sua camisa bem cortada, fez dobras nas mangas da camisa expondo os antebraços. Ao perceber que acordei, ele pausa a música que ouvia e se aproxima de mim.

Ele me coloca sentada agora, apoia minhas costas na parede, o som do rasgar do tecido é distinto. Ele toca minha coxa direita, depois seus dedos analisam novamente minha pulsação, ele olha no relógio antes de murmurar.

— Já consegue me ouvir?

Eu tento falar, mas apenas um grunhido escapou dos lábios relaxados.

— Tudo bem, sem pressa. — responde ele.

Ele pega um guardanapo e passa em meus lábios capturando a saliva que escapou devido paralisia e a tentativa fracassada em falar. Em seguida passa o polegar tirando o borrão do batom, suavemente, provocativamente. Inadequado. Levanta, caminha novamente jogando o guardanapo de tecido na lixeira, percebo que meus pulsos estão com pesadas algemas e correntes de ferro. Vejo-o cantarolar enquanto vai de uma bancada a outra, uma grande labareda de fogo se levanta com algo sendo flambado na frigideira.

Estamos em seu porão, a parede que me apoio é uma construção rústica de pedras, todas as outras cobertas de cerâmica muito clara. Ao meu lado direito, uma adega de diversos vinhos exibindo suas as pontas coloridas das garrafas. Ao lado esquerdo, uma pia larga presa à parede, uma geladeira e aparelhos de cozinha. Os utensílios reluzentes e brancos estão devidamente organizados, aparelho de moagem, sifões, galões de fermentação e defumação.

O chão de cerâmica clara é impecavelmente limpo, noto que ele pega uma cadeira se aproximando de mim. Tira o avental e o pendura em um gancho reluzente da parede, junto de seu paletó que já estava lá em um cabide, pega um prato na bancada e se senta à minha frente. Atrás dele posso ver o vulto de uma cadeira metálica que fica dentro de uma grande bacia metálica. Provavelmente, onde ele faz a sangria de suas vítimas.

— Até durou mais tempo do que eu esperava.

— O quê? — Finalmente consigo falar, ainda que de forma lenta.

— Eu não sabia quanto de paralisante teria que usar. Acabei usando quase todas que tinha, se precisasse de mais acho que não poderíamos ter essa conversa.

— O que você quer?

Ele sorri para mim e depois olha para o próprio prato no colo.

— Não é obvio? Sou um admirador, curioso e... apreciador da arte. Perdão pela minha falta de delicadeza, deixe eu te mostrar.

Ele se levanta da cadeira e se aproxima, ao se inclinar exibe o prato em sua mão. A louça branca possui oito fatias de carne mal passadas junto de um molho amarelado, purê e uma porção de brotos frescos.

— É um belo empratamento, você sabe como cozinhar, não é mesmo? Prepara muito bem antes do abate...

Ao olhar para ele meus olhos verdes ficam em fenda por um instante, porém não consigo ainda manter a transformação. Olho para mim mesma e percebo minha calça rasgada e dou falta de um músculo femoral.

Ele fica satisfeito e retorna a cadeira.

— Defumada, com tomilho, molho de laranja caramelada e purê de damasco com brie.

Após anunciar, ele levanta um longo garfo prateado, pega um tanto de purê, uma das fatias de carne, toca no molho e leva a boca. Eu assisto e fico observando seus batimentos cardíacos acelerarem. Ele só falta ficar excitado na minha frente.

— Chega de jogos, o que você quer? — digo já perdendo a paciência.

Ele geme fechando os olhos e coloca o garfo no prato.

— Eu sabia. Só haviam duas possibilidades. Ou seria muito ruim, e dura, ou seria muito intensa e...

— Ei... dá pra nós termos uma conversa aqui? — rebato, irritada.

— Me desculpe, nem te ofereci, está muito gostosa.

— Dispenso.

Ele sorri, pega uma segunda porção, agora com duas fatias e leva a boca. Mastiga desfrutando do meu sabor de forma ruidosa, se levanta, vai até a bancada para colocar o prato, pega um guardanapo de tecido e o leva a boca. Ainda mastiga quando olha para mim pedindo tempo para que possa me engolir antes de falar de forma educada.

— Me desculpe, prometo que deixo o resto para mais tarde, isso foi grosseiro. Você tem razão, vamos conversar. Eu a quero propor uma parceria.

— Quer um parceiro para seus assassinatos?

— O quê? Não, querida. Quer dizer, se você quiser, sim, é claro. Mas eu estava pensando em algo mais duradouro. Eu quero o que você tem.

— Honra?

— Imortalidade. — corrige ele. — É incrível o quanto pode viver e sentir, quero aproveitar o melhor do que a vida pode me oferecer. O que posso dizer, sou um hedonista.

— Ah, claro. Então você espera que eu te transforme apenas por que você me pediu?

— Eu posso te oferecer muitas coisas. Dinheiro, diversão, uma companhia, você é bem solitária.

— Pareço precisar de alguma coisa?

— Parece, talvez menos de dinheiro. Vamos lá, se não quiser minha companhia tudo bem, encare isso como um serviço prestado. Estou te contratando para me transformar e depois disso prometo que te deixo em paz. Te transfiro a vinícola, te dou quantos zeros em um cheque que você quiser e precisar.

— E se eu não quiser?

— Posso ter que ser obrigado a te convencer a fazer isso. Mas muita gente pode acabar magoada.

— Vai se foder! Não ligo para o que você vai fazer.

— Ah liga sim. Tanto liga que não pode ver uma loira magra morta que fica toda abalada querendo ajudar a polícia. Você mordeu a isca e se pendurou em meu anzol lindamente, Lucy. Não percebe o quanto essa culpa toda te faz fraca, ao invés de forte?

Eu lembro dos olhos do primeiro cadáver, a posição, de fato lembrou muito o jeito de Mirian morta. Mas, espera, como ele sabia disso?

— Tudo isso foi feito para que eu... os pacotes?

— Não fale como um policial, pacotes... que coisa mais infantil.

— Desculpe, acho que é infantil quem precisa matar mulheres para conseguir atenção. Alguma relação com a mamãe que não te deu bola quando criança?

Ele solta uma gargalhada.

— Se você quiser que eu conte de minha vida podemos ficar a noite toda.

— O que sabe de mim?

— Muito. O suficiente.

— Como?

Ele sorri, olha para o lado pensativo antes de responder.

— Foi outro hedonista como eu, Dorian, ele disse como te encontrar.

Balanço a cabeça hesitante.

— Mas ele deveria estar...

— Morto? Não, está muito vivo, ele foi um bom amigo anos atrás, eu já cozinhava na época, ele reconheceu os sabores dos meus ingredientes na mesma hora. Fiquei decepcionado, achei que você sentiria.

Eu senti, por isso senti mais desejo por sangue, mas não conseguia distinguir que era por conta dos pratos que ele me servia.

— Sinto muito se te decepcionei, não tenho o hábito de canibalismo.

— Tudo bem. Ele me disse o que você era, fiquei fascinado, tanto potencial com seu paladar apurado. Entendo você tirar proveito disso em ser enóloga, mas poderia ampliar o seu prazer com a carne. Fora que quem não quer imortalidade?

— Não tem ideia do que está me pedindo. Se bem que você muito mais monstruoso do que eu, não é um vampiro e ainda escolheu ser isso.

— Tudo é uma escolha, Lucy.

— Nem sempre. Eu não tive escolha.

— É óbvio que teve, você poderia escolher morrer de fome, mas escolheu a sobrevivência.

— Só porque me transformaram em um monstro, não significa que preciso agir como um.

Ele solta ri baixo.

— Aposto que você diz isso a si mesma no espelho. Tentando se fazer acreditar. — diz ele com desdém. — Isso não é ser monstruoso, de jeito nenhum, é apenas... evolução. Todos nós vamos devorar e sermos devorados. É só uma questão de quando e por quem.

— LUCY? ESTÁ AÍ?

— Hidekki? — respondo sem acreditar, o procuro pela sala iluminada. — Onde você está?

Clinton se levanta, sua posição impedia-me de ver Hidekki sentado na cadeira metálica. Ele vai para o centro da sala, fica de frente ao adolescente e tira o capuz que cobria seu rosto. Ele se apoia nos braços da cadeira se inclinando de frente ao rosto do adolescente que vocifera ao ver o sinistro sequestrador. Hidekki está nu, atado com cintas de couro castanho em seus braços, pernas, peito. Ele força seu corpo na superfície prateada tentando se soltar, mas até mesmo sua cabeça está bem presa, ele precisa me olhar pelo canto de olhos.

— Sabe, eu normalmente prefiro mulheres, pois tem mais gordura corporal, é mais suave, raramente pego meninos. Até porque, eles são mais complicados de conter. Ainda bem que seu amigo era um magricela, pena que sua carne provavelmente será meio dura.

Hidekki cospe no rosto de Clinton.

— Você é nojento, cara, é maluco varrido!

Clinton se inclina para trás, pega o lenço de linho branco em seu bolso frontal, limpa o rosto e se vira para a cozinha, jogando o lenço na lixeira. Ele puxa o carrinho-bancada, o coloca ao seu lado e começa a abrir as gavetas.

— E você é um moleque grosseiro. Desculpe, Lucy, eu preferia que não fosse assim, você sabe que não gosto de pressa, mas esse garoto tem me irritado esses dias. Aliás, tive que passar por ele na mensagem de texto, olhei a forma que ele escreveu para você antes e o imitei.

Ele coloca alguns utensílios de cozinha na bancada, o bater do metal ressoa no ambiente. Ascende uma das bocas do fogão colocando uma peça metálica na chama. Abre uma segunda gaveta e o vejo pegar uma faca curva, semelhante a uma garra de ave, é usada para desossar e raspar a carne.

— Deixa ele ir embora, o garoto não tem nada a ver com isso.

— Eu dei de cara com ele quando saí de sua casa outro dia, ele estava bem na porta e viu que eu saí pela pequena janela de seu porão. Ele sabia que eu não devia estar ali, eu não tive escolha. — Ele fala enquanto amola uma faca longa na pedra da pia. — Mas pensando bem, é um bom estímulo a você aceitar minha proposta.

— Não vou te transformar.

Ele levanta a cabeça, vira seu rosto para mim.

— Eu sou paciente, você vai mudar de ideia.

— Não.

— Essas paredes são grossas, ninguém vai te ouvir aqui. Eu tenho posso conseguir mais tranquilizantes. Ou posso até usar hélio, afinal você não permanece morta por tanto tempo.

— Clinton, não faça isso.

— Lucy, pensa um pouco, você não é burra. Você acha mesmo que eu traria você aqui sem ter uma contraproposta?

Hidekki neste momento já está hiperventilando, seus batimentos estão acelerados.

— Pera, o que? — O garoto fala choramingando.

— Não vou fazer isso. — enquanto falo, consigo me levantar, ainda que tenha que apoiar na parede pois minha perna direita ainda não está inteira.

Ele coloca a faca na bancada, vira-se a mim.

— Enquanto você não me transformar eu vou pegando pedaço por pedaço do seu animal de estimação e vou servir a mim e a você mesma.

Me calo. Ele percebe que estou pensativa.

— SOCORRO! — grita Hidekki em desespero.

— Não vou me dar ao trabalho de te amordaçar. — Clinton fala tranquilamente — Já tive três garotas juntas aqui, elas faziam muito mais barulho.

Clinton se aproxima empurrando o carrinho para o lado de Hidekki, com uma serra nas mãos. Ele se apoia na cadeira de Hidekki por trás, aproveita que meu amigo pode ver a bancada cheia de cortantes. Na mesma hora percebo o coração de Hidekki em arritmia, sua respiração é ofegante. Clinton pende a faca longa no ombro esquerdo de Hidekki, deixando-o ver o objeto muito próximo de seu pescoço.

— Em Yulin, na China, há um prato tradicional em que os cachorros são feridos e frequentemente torturados, antes de serem desmaiados e cozidos vivos. Isso para que a adrenalina no sangue penetre na carne do animal. — Ele balança a lâmina no ombro de Hidekki enquanto fala. — Assim, a carne possui grandes quantidades de adrenalina, a sopa é ideal para tomar nos dias mais frios do ano, aquece o corpo, devido ao aceleramento cardíaco.

— Meus pais são japoneses, idiota! — Clinton se curva sobre o ombro de Hidekki e responde.

— Eu sei, Hidekki, mas a sopa é mais saborosa. — Ele olha para mim, percebe que estou tentando desparafusar as correntes da parede. Ele corre e me acerta o meu rosto com o cabo da faca, dou uma cabeçada em seu nariz que se quebra e sangra.

— Owww, sua... vaca maldita!

Ele recua com a mão no nariz, volta para a cozinha, ouço-o abrindo a porta de um armário.

— Eu pensei em fazer tudo de forma civilizada, mas você não deixa. — Ele fala enquanto me levanto colocando os punhos prontos para dar uma surra no palhaço.

— Não achou que iria ser fácil assim, não é? — Ao dizer isso vejo ele levantar um maçarico, um sifão de licor, e o aponta para mim. — Oh merda.

Uma grande bola de fogo preenche o local, ouço o gritar de Hidekki ao fundo. Sinto o queimar de minha pele, rapidamente meu cabelo desaparece devorado pelas chamas, o som de craquelado é bastante perturbador. O filho da puta está me fazendo à pururuca. Ao fim do som oco de fogo, eu estou de joelhos no chão. Minhas pernas tentam se aliviar no piso frio, tento abrir meus olhos, mas minhas pálpebras estão coladas. Sinto Clinton ainda se aproximar de mim, eu não sinto direito ele me tocar, está tudo fodidamente queimado.

Eu estou entregue, não sei como sair disso... Uma vez me perguntaram que morte é pior. O problema não é morrer, mas sim sobreviver, é horrível ficar se regenerando em agonia. Sentir seu corpo se formando novamente, os ossos crescendo, músculos é estranhamente fácil, mas a pele, essa sim dói. Eu gemo um pouco, queimadura no corpo todo costuma ser uma das poucas dores que manifesto, tiro é fácil, corte é incômodo, porém suportável. Já a queimadura, a ardência... isso é horrendo.

Ele me derruba no chão, aproveitando-se de minha fraqueza momentânea. Quando consigo abrir meus olhos novamente, sinto falta de ar, ele aperta meu pescoço, seu rosto está muito próximo ao meu, seu corpo apoiado sobre mim. Usando o peso de seu corpo ele me asfixia com minhas presas aparentes, tento puxar seus braços, mas meus músculos queimados não respondem muito bem aos comandos. Então eu dou uma joelhada em suas partes baixas, ele geme baixo e me solta, viro de lado tossindo e ouço ele se afastar. Ele engatinha se afastando, se apoia na parede para se levantar, posso ouvir sua inspiração pausada tentando controlar a dor. Hidekki ri de Clinton.

— O que foi, pirado... ela machucou as tuas joias?

Hidekki ri alto deixando Clinton furioso, ele força a sua postura para ficar de pé, se aproxima do adolescente e aperta a cinta de seu pulso esquerdo. Ele se posiciona ao lado, pega o cutelo no carrinho bancada e levanta o metal até o alto da cabeça. Hurra em ira antes de baixar o cutelo em um som oco, direto no pulso imobilizado.

Hidekki olha e treme por um segundo antes de gritar, ele vê a lâmina deixar sua carne exibindo sua ulna cortada e radius ainda parcialmente ligado. Clinton levanta o metal mais uma vez para o segundo golpe certeiro, neste é possível ouvir o tilintar com o metal do braço da cadeira. A mão decepada finalmente cai na bacia abaixo da cadeira. Meu amigo para de gritar e fica apenas olhando para a ponta de seu braço, ele chora com os olhos muito abertos e paralisados de terror. A cinta segura parte do sangue, mas não será o suficiente. Ainda com as mãos sujas de sangue, Clinton pega a peça vermelha brilhante que estava no fogo. O garoto grita enlouquecidamente quando o canibal cauteriza seu membro.

Clinton então se afasta, coloca a peça na bancada vira-se para uma estante, pega um tecido branco, dobra quatro vezes e coloca na ponta do braço decepado. O tecido fica manchado de vermelho pelas mãos do assassino que estanca a hemorragia com facilidade, na bancada pega uma seringa, espeta na jugular de Hidekki já quase desmaiando.

— Isso é um coagulante, não vai morrer ainda. — Ele fala dando tapinhas no rosto de Hidekki, sujando o seu rosto de seu próprio sangue. — Eu posso consegui manter uma garota por até dois meses, Lucy. E sei que consigo melhorar.

Eu olho atônita.

— Não... eu não posso fazer o que você quer.

Hidekki olha para mim, seus olhos estão paralisados, ele sequer chora mais, apenas geme baixo de dor.

Clinton se abaixa e recolhe a mão de Hidekki na bacia, se vira para mim, olhando tudo sem reação, lutando para regenerar e poder respirar, e completa.

— Está tornando as coisas piores para você mesma, para o garoto. Isso é um desperdício de tempo e materiais. — Então joga o membro decepado na pia. — Isso só dará um caldo.

— Lu-lucy? — Hidekki me chama, seus lábios batem freneticamente, ele está entrando em choque.

— Fala... Calma... vai ficar tudo bem.

— Vai sim, assim que ela fizer um favorzinho para mim, você está livre, moleque. — rebate Clinton, enquanto arregaça mais as mangas para se lavar na pia.

— Eu vou chegar em um acordo, querido. Calma, vai dar certo.

Hidekki força seu rosto tentando me ver mais uma vez, ele treme, está suando muito.

— Não deixa ele me... Lucy, por favor...

— Não, eu não vou deixar, calma...

Clinton ri com o rosto ainda debaixo da água da torneira direcional.

— Ela já deixou, moleque. Se tivesse aceitado desde o início eu não teria material para o caldo de amanhã. — Clinton seca o próprio rosto, joga o lenço na bancada, depois acende o fogo, colocando a frigideira na chama. — Se não mudar de ideia até amanhã, eu pego a outra mão, aí sim, terei uma sopa decente, posso até fazer mais um prato. — Ele olha pra mim, cansado, mas com um sorriso nítido.

Clinton anda até a geladeira e busca o restante de minha coxa em um recipiente hermético, ele cheira a carne e coloca na bancada. Olha pra mim e joga fora o restante que tinha sobrado no prato do preparado anterior.

— O que posso fazer, eu não gosto de comida requentada. — Ele cantarola jogando o azeite extravirgem na frigideira quente e busca os outros ingredientes recém elaborados na bancada. — Ainda mais considerando agora que você regenera, não terei falta de material. Eu vou me alimentar até você se convencer do que precisa fazer.

Ele coloca a porção de carne na frigideira usando uma pinça quando nota que suas unhas ainda estão sujas de sangue. Pragueja, deixa o material, a carne perfumando o ambiente e depois abre um armário para alcançar escova e limpar as próprias unhas na agua corrente da pia.

Pensa, Lucy, você precisa sair daí. Olho em torno e vejo em meus pés o sifão que Clinton deixou no chão, infelizmente ele está vazio, mas desvio o olhar quando ouço um barulho do outro lado da sala. Vejo Manson entrar pela porta devagar, ele vê a mim e Hidekki na cadeira, silenciosamente tira a arma do coldre e desce as escadas devagar, pisa macio degrau após degrau. Aponta diretamente para Clinton distraído na limpeza na pia, quando já está próximo para e anunciar.

— James Franklin Clinton, coloque as mãos na cabeça

— Sargento Manson. Que bom que se juntou a nós! — Rapidamente ele atira a frigideira em Manson que precisa desviar do óleo quente, parte do óleo atinge o ombro de Hidekki que grita na cadeira. Eles circundam Hidekki, titubeiam na direção um para o outro, Clinton fica atrás de Hidekki impedindo Manson de atirar, ele alcança uma faca da bancada e coloca na garganta de seu refém.

— Agora é a minha vez, sargento. Solte a arma.

— Isso não tem como terminar bem para você.

— Agora, ou o japa vai esguichar dois litros de sangue direto no teto. — Ele fala calmamente enquanto esfrega a lâmina da faca na artéria carótida de Hidekki.

Tento alcançar o sifão com o pé. Manson recua, ele não tem ângulo de tiro e sabe que um corte nessa artéria não chega a durar um minuto de vida. Ele trava a arma novamente e a coloca no chão, Clinton pede que ele chute a arma para ele, e Manson o faz. Clinton se abaixa para pegar a arma, estica o braço para que não solte a faca do pescoço de Hidekki, a alcança e a joga na boca ainda acesa do fogão.

Assim que está suficientemente afastado de Hidekki, Manson salta para Clinton em fúria, o assassino ataca com a faca enquanto Manson defende o rosto com o antebraço. O policial responde à facada com um soco, o nariz de Clinton começa a sangrar novamente, ele bate na pia de costas. Manson o soca novamente no abdômen e um gancho direito no queixo muito forte, mas não o deixa cair, pois o segura pela camisa.

— Sabe qual é o problema de vocês psicopatas malucos? Sempre acham que são os mais fodões, que pegar mulheres e adolescentes desprevenidos é ser fodão. — Ele soca novamente o rosto de Clinton que cai no chão com o rosto nitidamente inchando rapidamente. Eu alcanço o sifão e o uso de marreta para quebrar as correntes na parede.

Manson olha na pia, pega um martelo de carne, o gira em sua mão direita e fala.

— Em Nova York todo mundo conhece o jeito de “tira bom e tira mau”. Vem um mau para te assustar e depois um bom para te enganar.

Clinton limpa o sangue com a manga da camisa e fala.

— Deixa eu adivinhar, vai me falar que seu parceiro é o tira bom.

— E por acaso estamos em Nova York?

Ele golpeia forte o joelho de Clinton, que berra ao estalar do joelho. Manson se aproxima de seu rosto para o atingir novamente.

— Essa é a minha cidade e você não vai... — Manson interrompe a sua fala com um grito de dor, Clinton alcançou uma faca e cravou em sua coxa direita.

Eu bato com toda a força conseguindo romper a argola da corrente. Tenho uma mão livre, mas o sifão quebrou, então tento puxar as correntes, apoio minhas pernas na parede tentando arrancá-las. Grito em dor, mas o suporte nem se move. Clinton pega uma faca, Manson é maior e mais forte, mas não é ágil e está ferido. Ouço mais um grito, é de Manson esfaqueado nas costas.

Manson e Clinton lutam na cozinha atrás de Hidekki, Clinton atinge a cabeça de Manson com um rolo de massa. Manson cai no chão desmaiado, sua camisa azul listrada está toda manchada, o sangue no chão claro é de ambos, mas Clinton é quem está de pé. Eu me penduro puxando as correntes com toda a força. Clinton olha para mim e não se importa, sabe que as correntes são muito largas, que estou queimada e cortada, não terei força para arrancar nada. Eu rosno alto conseguindo finalmente formar minhas prezas. Merda, isso vai doer. Clinton para tomar fôlego, pega a faca curva e vai para Hidekki.

— Depois eu termino com esse bruto, agora terei um par de bochechas para você entender que falo sério, Lucy. — Hidekki grita tentando se debater.

Clinton encosta a faca na bochecha de Hidekki, puxa o músculo lateralmente, mas quando inclina a faca sente a batida forte de meu cotovelo em sua cabeça. Solta, eu o ataco com socos de esquerda e cotovelos de direita. Minha mão ficou presa na corrente, usei minhas prezas para arrancar minha própria carne, romper ligamentos e cartilagem de meu punho. O osso foi o mais difícil, foi mais fácil quebrar apoiando na parede e dando uma forte joelhada. Finco minhas garras em seu peito e o lanço para a parede, seguro sua cabeça para uma joelhada e depois bater sua cabeça novamente na parede atrás de si.

Ele finca o gancho em meu estômago, recuo para que ele não consiga puxar. Porém, eu sangro, aliás estou sangrando demais, não sei quanto irei aguentar. Fico lenta, o suficiente para ele saltar em minhas costas laçando o meu pescoço com sua gravata, a usa como garrote se pendurando em minhas costas. Dessa vez não posso chutar, eu uso o cotovelo em suas costelas, o bato na parede, mas ele não está sangrando ou ficando mais fraco, eu estou. O peso de seu corpo me estrangula e minha visão já começa a ficar turva. Não posso morrer agora, não posso desmaiar.

Então me aproximo do fogão e vejo a arma na chama. Pego-a sem sentir muito de minha mão, atiro uma vez próximo ao meu ouvido, mas ele ainda está pendurado, não sei para que lado, não o vejo. Então encosto o cano quente no meu alto estômago e atiro. Clinton geme baixo atrás de mim, atiro novamente mais duas vezes, atravessando meu corpo e suas mãos fraquejam. Ele cai atrás de mim no chão, Manson, que acordara com o estrondo rapidamente me segura para que eu não caia diretamente no chão.

— Lucy, você está...

— Como está Hidekki? — pergunto para ele com meu corpo todo queimado, sem uma mão, um pedaço da coxa, três tiros e sangrando como um animal no abate.

— Eu tô... acho que estoooo.... Lucy? Eu não posso ver onde voc... — Hidekki tenta me olhar lateralmente, ele mal pode falar e se mover atordoado pela hemorragia e amarrado na cadeira.

— Não se preocupa garoto, ela vai ficar bem. — Manson responde enquanto me deita no chão e me pergunta ao pé de meu ouvido. — Você vai ficar bem, não vai?

— Vou sim, só me dá um tempinho tá.

Mal consigo terminar de falar e me sinto adormecendo profundamente.

7º Círculo do Inferno — A Violência

Eu dou um pequeno pedaço de carne para Cérberus, ele se aninha em minha perna destroçando a carne, cada cabeça pega um pedaço. Sentada à mesa com Mefisto me esqueço que este lugar não é assim para os outros, aqueles diferentes de minha condição.

— Ele vai ficar gordo desse jeito. — Mefisto reclama do outro lado da mesa com uma taça de vinho na mão.

— Ele é bonzinho.

— Com você, e com outros demônios. Deve achar que é da família.

— Ainda me pergunto como deixou uma brecha tão grande na negociação de minha alma. Como cometeu tal erro.

— Você sabe quantas almas eu negociei durante a Idade Média? Não era Idade das Trevas à toa, muitos vieram a mim.

Eu o olho rindo sarcasticamente.

— Ninguém é perfeito, erros acontecem. — responde ele enquanto toma o último gole da taça.

— Ainda bem para mim. Afinal, sabe me dizer o que farão com o assassino?

— Qual deles?

Olho-o sorrindo sarcasticamente.

— Ah, você diz o almofadinha? Eu não sei, cuido daqueles que negociaram comigo. Não é minha função dar a punição.

— Não é sua função, mas tem informações.

Ele dá um gole no vinho.

— É... tiveram muitas conversas do que seria mais apropriado.

3º Círculo do Inferno — A Gula

— James Franklin Clinton, seja bem-vindo ao seu inferno. Eu sou Banshee.

A aparência angelical de Banshee é algo sublime. Ela aparece nua com seu belo corpo escultural, pele rosada e longos cabelos louros cobrindo os ombros. Seus olhos azul claro e lábios de pêssego encantam qualquer um que ouse olhar.

— Parece que o inferno é melhor que eu imaginava. — Clinton sorri e tenta estender os braços para tocá-la. Mas quando percebe, eles estão imóveis, preso a uma cadeira prateada, com uma bacia embaixo, tal como a que ele usava em suas vítimas. Seu corpo está coberto por sanguessugas, um besouro azulado pica na parte superior da mão, ele mergulha sob sua pele se movimentando e comendo seus músculos.

Partes de seu corpo caem na bacia sendo devorados intensamente pelas inúmeras formigas, um som como de serpente rodeia o local. Enquanto isso, Banshee, calmamente se aproxima.

— O seu pecado foi a gula. Na verdade, foi de uma forma deveras peculiar. São raros os canibais que temos aqui. — Ele grita de dor, não pode se mover, suas pernas e costas estão coladas a cadeira.

— O mal é eterno, assim como tua alma. Sou o demônio que aterrorizavam os celtas. EU SOU A FOME. Aqui você irá se regenerar, e as pragas irão lhe devorar. Assim como você e eu, as pragas têm fome, insaciável.

Ela se aproxima dele, toca seu rosto em agonia com as duas mãos e sorri mostrando seus milhares de dentes finos e transparentes. Duas peçonhas, como de uma serpente, aparecem entre os dentes e ela o beija.

New Orleans

Eu acordo em minha cama, estou inteira, um pouco dolorida, mas pelo menos tenho duas mãos novamente, uma delas um pouco menor, falta ainda proporção. Sinto o cheiro de cigarros de Manson em minha sala. Levanto visto uma camisa de seda preta, calças de cano reto, botas Versace e passo a mão no cabelo para trançar. Percebo que não tem muito cabelo, está curto, bem rente. É mesmo, eu tinha esquecido, olho no espelho para ver como ficara e gosto da aparência, ressalta o meu rosto. Então vou para sala e encontro Manson, sentado no sofá com Hipátia ronronando em seu colo. Vejo que a manga de sua camisa esquerda está dobrada até acima do cotovelo, não pela noite quente, mas devido ao seu braço estar enfaixado, aquele que fora cortado por Clinton. Aproximo-me enquanto Manson tira o cigarro da boca e bate no cinzeiro no braço do sofá.

— Ela gostou de você.

— Por que ele se chama Hipátia? Nome complicado.

— Quando eu o encontrei estava toda machucada e sem pelos. A veterinária me falou que moleques devem ter colocado bombinhas em seu corpo e mesmo assim ele era gentil com as pessoas. Hipátia foi uma filósofa da antiguidade grega, matemática foi acusada de tudo o que a ignorância podia acusar na época e foi... atacada por causa disso. Mas ela é gentil mesmo assim.

— Ela recuperou bem os pelos. — Ele fala enquanto passa a mão grande na pelagem densa da tricolor. A mulher real teve seus cabelos brutalmente arrancados, assim como seus membros. Não contei que quando a encontrei ela estava com os filhotes, nenhum sobreviveu.

Curvo-me e pego o cigarro de Manson no cinzeiro, levo até minha boca e dou uma profunda tragada olhando para a varanda.

— Você sabe que essas coisas dão câncer né? — diz ele, quase me reprovando.

— Não para mim. — Paro, penso um pouco o questiono. — Como descobriu que Clinton era o Homem do Pacote? Você soube que eu fui pega?

— Você me mostrou o convite, tinha pequenas marcas na lateral do papel. Isso são marcas deixadas por impressoras, quando a bobina está mal colocada.

— E?

— E que as etiquetas, tinham a mesma marca. Ele estava te rodeando, não fui com a cara dele também, então te ofereci a carona para poder entrar na casa dele enquanto ele estava ocupado contigo.

— Interessante. Vai explicar tudo isso no seu relatório oficial? Eu tenho que fazer as malas e mudar de identidade?

— Não, por enquanto está no controle. Eu fiz a perícia “encontrar” a taça que ele deixou aqui, lá no galpão onde Cate foi encontrada. Então, o teste de DNA foi conclusivo.

— Nossa. Você ficou ocupado.

— Isso já faz dois dias, Lucy. Você quem ficou dormindo esse tempo todo.

— Ah, não reparei no tempo.

— Quem é Dorian?

— Estava lá já nesse momento?

— Você murmurou ontem à noite, enquanto dormia.

Suspiro um pouco pensativa.

— Dorian é uma ponta solta, achei que ele estivesse morto, mas parece que não está.

— Ele é um problema?

— Dos grandes.

— É um vampiro?

— Antes fosse. — Levo a mão a cabeça, por um momento esqueci novamente que meu cabelo está curto. — Obrigada. Eu poderia estar lá, naquele porão até agora.

— É possível, mas se você não pudesse arrancar o braço, eu também estaria lá. — Ele me responde sorrindo, eu devolvo o seu cigarro em sua boca, um pequeno gesto carinhoso que não tinha mais o hábito de ter.

— E Hidekki?

Ele aperta os lábios em preocupação.

— Ele vai precisar de terapia, mas é novo, vai ficar bem.

Concordo, ainda que preocupada, paro e olho para o seu distintivo brilhante de sua cintura.

— Você gosta disso, não é?

— Disso?

— De descer a mão em bandidos e salvar adolescentes em perigo.

— Eu adoro — Ele sorri com o lábio cortado. —, pena que nem todos são fáceis de lidar, as vezes eu queria me regenerar como você.

Olho em reprovação.

— Eu to brincando. Não gosto nem de carne mal passada, quem dirá sangue puro.

— Eu já trabalhei para o governo, não era uma policial, estava mais para uma agente que fazia o “serviço sujo”. Aqueles que não era para ser registrado. Basicamente, missões suicidas.

— Sei... talvez isso seja bom. Às vezes, não conseguimos levar um cara a julgamento pela via normal, há muita burocracia. Mas eu trabalho na SVU (Unidades de Vítimas Especiais do EUA), são casos que fariam qualquer um não ficar muito incomodados com evidências obtidas de formas estranhas.

— Droga! — falo irritada comigo mesma.

— O que foi?

— Será que ainda dá tempo de eu descontar o cheque que Clinton tinha dado a mim?

Ele balança a cabeça rindo um pouco, o rádio grita na cintura de Manson e acorda o gato.

— MANSON!

— Na escuta.

— Uma denúncia anônima para uma reunião dos russos, hoje haverá negociação de mulheres, vamos armar uma tocaia.

— Estou indo. — Ele desliga o canal do rádio, coloca novamente na cintura e olha para mim, quase me convidando.

— Sim, isso pode ser interessante. — Olho para uma máscara branca vienense que tenho presa a parede da sala — Me espere um pouco, eu vou me trocar.

Lucy e Manson voltam em “Lucy 2: Juízo Final” (disponível nessa mesma plataforma), afinal, novos monstros chegam a New Orleans.

Notas finais
Este livro faz parte do WSU, para maiores detalhes do universo compartilhado de escritores entrar na página do facebook.com/wsuniverse
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!