Sob controle (Lucy, Livro 1)

5 Capítulo 5 – O dia da caça, não do caçador


“O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso.” — Friedrich Nietzsche

Jasenovac, 1943

Ao entrar no estoque do centro onde eu estava, pude ver fileiras de prateleiras metálicas. Cada uma delas contém frascos, caixas e bandejas organizados em números identificados na beirada. Observo que um símbolo de estrela com seis pontas fica a frente uma ala inteira, sinto um cheiro familiar, me atrai ainda que seja desconfortável. Algumas prateleiras agora possuem a identificação de um círculo com um ponto no centro. Levanto meu pulso esquerdo, confirmando que é o mesmo sinal.

Não demoro muito a encontrar, minha prateleira de número 18909. Acho pelo meu próprio cheiro, partes, órgãos, até uma perna inteira está lá com diversas marcas de retiradas de amostras. Uma pilha de papéis com tudo documentado, tenho receio. Não lembro quando extraíram meus olhos, minhas prezas, e talvez seja melhor não lembrar, o que me ajudaria? Me afasto e vejo que há mais prateleiras como a minha, pertences e partes de pessoas que eram interessantes ou não para essa seita macabra. Estou longe de ser a primeira, mas posso ser a última, pelo menos aqui. Me aproximo da porta para consultar o mapa preso na parede, tenho que encontrar outro estoque.

No galpão de armamentos, pego tudo que seja necessário para fazer uma limpeza nesse campo de horrores. Já passei na cozinha e peguei alguns pacotes de açúcar, abri e misturei com o diesel de alguns galões. Tudo deve ser pensado, afinal, sou apenas uma e os outros prisioneiros estão fracos demais para um combate direto. Preciso surpreender o maior número de soldados possível. Pego todas as armas automáticas e semiautomáticas que consigo carregar. Não posso contar com o treinamento militar dos fracos aliados.

Quando estou saindo, encontro uma pilha de itens saqueados: castiçais, relógios, joias e dentes de ouro. Um dos objetos me chama a atenção. Aproximo-me e pego uma adaga, a lâmina brilhante destaca a insígnia da estrela de David. Seria irônico matar um nazista com ela, ou talvez, perfeito. Chegando no dormitório das prisioneiras, percebo que todos já estão acordados, em pé me esperando. Abro o saco de armas no chão e aviso:

— Vocês sabem atirar? Sabem recarregar? — Duas levantam as mãos, as outras se entreolham. — Vocês devem destravar desta forma, já estão carregadas.

Mostro a elas como recarregar e destravar, o som do clique ecoa no galpão. A minha volta, há cerca de cinquenta mulheres muito magras em seus uniformes brancos numerados. Estranho, eu poderia jurar que alguns dos números eu vi iguais em pessoas diferentes, talvez eles reaproveitem a numeração para evitar evidências. Afinal, é importante registrar os estudos, não aqueles que são apenas massa e mão de obra escravizada.

— Não se preocupem em acertar na cabeça, é melhor no tronco, maior área, apenas mirem e atirem até pararem de se mexer. Vocês devem esperar o meu sinal, então saiam todas de uma vez, de ambos os lados. Eu já terei cuidado das torres. Quando saírem, se concentrem nos dormitórios da esquerda.

— E os da direita?

— Se tudo der certo, eles já estarão mortos. Aguardem o meu sinal.

— Qual sinal? — questiona uma armada de um fuzil.

— Um iluminado. — respondo, enquanto pego um dos galões de diesel e o amarro em minhas costas.

Escalo a parede do galpão-dormitório, saindo pela escotilha no telhado. Aguardo a passagem do canhão de luz e ando pelas sombras, cada torre parece ter dois ou três vigilantes, na forma alimentada que estou me permite até ouvir a respiração lenta e apática. Facilmente escalo a primeira torre pelas barras de madeira. Ao chegar, levanto rapidamente por trás de um soldado e quebro o seu pescoço. Assim que o outro se vira, dou-lhe um golpe na garganta, impedindo-o de gritar; ele tenta levantar o fuzil. Armas longas são de saque lento, e uso isso a meu favor. Saco a adaga e em um movimento ascendente cravo em seu queixo, pode-se ver a lâmina dentro de sua boca, a ponta saindo pelo alto da cabeça. Adagas longas são práticas, limpas e silenciosas. Eu seguro o seu corpo antes de tombar e o desço devagar, tiro a adaga e limpo o sangue no uniforme dele. Eu o levanto novamente e o posiciono em pé, amarrando-o no pilar, como se ainda estivesse de vigília. Dessa forma, no escuro, vão demorar a notar que não há observadores na torre. Ponho seu fuzil nas minhas costas e vou para a segunda torre de vigilância. Será uma longa noite.

New Orleans

No dia seguinte, Hidekki me auxilia na compra on-line do quadro. Participei de muitos leilões, mas nunca pela internet. Ele me ensina como mexer nesses aparelhos eletrônicos, mas essa é uma linguagem que ainda tenho dificuldades. Ele sempre me diz que preciso disfarçar isso, pois, na “minha idade”, a maioria sabe lidar com tudo isso muito bem. Através de cliques e lances é muito mais rápido que ao vivo, as pessoas clicam sem pensar. E eu também, rapidamente gasto quase um milhão de dólares para garantir que o quadro do século XVI venha para a minhas mãos. Eu achei que nunca mais veria o rosto deles, ainda mais depois de tudo o que aconteceu.

No porão, já mais tranquila com minha aquisição a caminho, observo a boneca de pano de Laura. A peça tão antiga e bordada está protegida em uma caixa de vidro, os cabelos de lã escura estão trançados tal como fazia em minha filha, quase sinto o fio frisado passando entre meus dedos. Hidekki brinca com Hipátia no chão, enquanto come batatas-fritas. Por um instante, com a tricolor em seu colo e pernas cruzadas, ele para e me vê em um momento saudosista. Ele me conhece há dois anos e já sabe que me comunico muito bem de forma silenciosa. Não quero mais me evolver emocionalmente nesse mundo.

— Você tá legal? — pergunta ele de boca cheia.

— Sim, eu “tô legal”, Hidekki, obrigada. Obrigada mesmo. — Escuto o tocar da campainha. Deixo a boneca de Laura, o adolescente asiático, a gata e subo para atender a porta.

— Precisamos conversar — diz Manson, passando por mim com uma pasta na mão. Ele joga a pasta em cima da mesa e apalpa rapidamente os bolsos do paletó, rapta o maço, puxa o cigarro e o acede nervosamente, solta o isqueiro na mesa em seguida.

— Claro, entre por favor... — falo enquanto me conformo da invasão e Hidekki aparece no corredor.

— Olá? — Hidekki o cumprimenta, com toda a simpatia que um adolescente pode ter, Manson apenas olha enquanto abre o arquivo.

— Sargento Jones Manson, este é um amigo, Hidekki Yagami. — digo, apontando para ambos.

— Nossa, um sargento? Que foda! — diz Hidekki, estendendo a mão e sendo gentil com o glutão do Manson. Eu gesticulo a Hidekki, avisando-o que ele deve ir embora.

— Oi, garoto. — Manson o cumprimenta, e lhe dá as costas enquanto folheia as fichas.

Eu chamo novamente Hidekki, ele bate os pelos de gato da calça enquanto se aproxima, já na porta ele sussurra.

— Falante esse seu namorado... — diz ele, curioso sobre o que não deve.

— Não começa, Hidekki. Vai pra casa. Toma o dinheiro do táxi. Isso é coisa séria, depois a gente conversa.

Entrego duas notas de dez dólares dobradas em sua mão e encerro o assunto. Fecho a porta rapidamente e volto-me para Manson.

— O que era tão importante que não poderia ligar para avisar que vinha? — Ele puxa a foto de uma cabeça apoiada nas mãos, usa um óculos escuros de grife, seus lábios coloridos em batom vermelho foram costurados internamente para simular um beijo lançado.

Aproximo-me e olho a sequência de fotos, duas louras, uma latina, uma possivelmente cigana. Uma tem brincos delicados, talvez sejam joias. Elas estão como se estivessem à beira de uma piscina, tomando banho de sol, as amigas parecem conversar. Manson dá uma baforada antes de falar.

— Elas foram entregues todas juntas?

— Sim. E ele ficou com os pescoços dessa vez, talvez queira esconder a marca de mordida...

— O que está sugerindo?

— Pode ser um de vocês? Você conhece alguém que...

— Acha que conheço todos os vampiros da cidade?

— Tem outros?

— Não que eu saiba.

— Todas sempre têm o sangue drenado. Isso é uma constante.

Pego uma das fotos, olho para suas mãos, barriga e para os cortes.

— Você tem o relatório do legista?

Ele me entrega as fichas que foram inteiramente preenchidas: características, exames de drogas e outros inúmeros detalhes registrados. Nelas, vejo que foram todas desmembradas, sem as vísceras e não havia nenhum sangue no plástico. Me chama a atenção o índice de adrenalina de ATCH (Hormônio da dor), elas estavam conscientes. O desgraçado gosta do desespero delas. As partes não foram simplesmente jogadas no plástico, ele as posiciona cuidadosamente. Seu posicionamento é tão montado tal como uma peça de quebra-cabeças. Isso me denota um homem metódico, limpo e muito perfeccionista. Sempre escolhe “uma parte” para ficar, dessa vez, foram os pescoços. Claro, isso sem falar de órgãos internos que quase todas as vezes fica com o fígado, coração e as vezes os estômagos.

— Um vampiro não precisa necessariamente morder o pescoço para obter o sangue, pulsos, parte interna dos cotovelos também são pontos bons para beber...

Ele olha para mim.

— Não é do meu agrado, antes que se preocupe.

— Por que?

— Por que o que?

— Por que você não bebe... mais?

Suspiro olhando para as fotos dos cadáveres.

— Em primeiro lugar, o efeito pode ser um pouco intoxicante, isso eu já disse. Segundo, faz muita bagunça...

— Você não pareceu incomodada na escola.

Olho pra ele.

— Aquilo foi diferente, não fui lá pra me alimentar, mas para evitar que algumas pessoas morressem desnecessariamente.

Ele olha pra mim me analisando, por um instante até parece dar um sorriso lateral. Traga profundamente antes de questionar.

— Mas conhece quem poderia se interessar por isso?

— Talvez (é claro que sei), mas não acredito que esteja aqui em New Orleans (isso eu já resolvi). Enfim, até mesmo a veia interna da coxa pode ser usada dessa forma, pescoço é só um clássico usado nos filmes, mas não é essencial. E ainda ele pode ter feito uma sangria. — falo enquanto ainda leio a ficha.

Manson me analisa em silêncio, o que ele pensa? Encaro-o, e complemento.

— Um corte na garganta e depois virar o corpo de ponta-cabeça. A gravidade faz a maior parte do trabalho.

— Eu sei o que é uma sangria, mas isso não responde minha pergunta.

— Em alguma delas teve marcas de garras? Ou mordidas? — falo em tom de deboche.

— Não. Nada animalesco.

— Se visse marcas de garras seria possível, mas assim, não tem nada que indique ser especificamente um vampiro. Ele levou o pescoço assim como levou a coxa antes, assim como leva os órgãos internos. — Manson balança a cabeça em desilusão, reparo em suas olheiras, sua queimadura na lateral do rosto e seu fedor de cigarros. — Pra mim está tendendo mais a ser um médico, um cirurgião.

— Isso o legista comentou. — fala, apoiando-se na mesa, já cansado.

— Me mostre as fotos da primeira vítima encontrada. — Ele mexe na pilha de papéis, pega a primeira ficha e me entrega as fotos de uma garota de quinze anos.

Observo rapidamente e viro para ele a foto, apontando para o corte no braço e no pescoço.

— Olha isso, está vendo os cortes laterais?

— Cortes laterais? Não vejo nada. — diz ele, aproximando o rosto da fotografia.

— Exatamente. Sem cortes de hesitação, ele sabe como cortar a pele sem danificar as fibras.

— Então, possivelmente, essa nem é a primeira vítima. — completa ele. Eu olho para ele percebendo seu desapontamento.

— Sim, é possível. Essa primeira, é de muito tempo atrás?

— Cinco anos.

— Talvez só tenha chego na cidade há cinco anos. Já verificaram se há casos semelhantes em cidades vizinhas?

— Onde? No nosso banco de dados totalmente informatizado e integrado de todas as cidades? — fala ele, de forma sarcástica.

Ele volta os olhos para o relatório da cena. Eu ainda observo as fotos da primeira vítima.

— Corte limpo, não tem ranhuras nos ossos divididos com perfeição. Já pensou em tráfico de órgãos?

— Isso foi descartado rapidamente, alguns opioides que estão no sangue não permitiriam o transplante em um hospital.

— Bom... talvez não vá para hospitais, uma clínica irregular?

— Ele tem material suficiente para várias clínicas, ou até para um zoológico...

Agora sou eu quem olho para ele, sugestão macabra, mas possível.

— Acho que ele pode ser um cirurgião. Todas são jovens, de classe média e hoje em dia com a pressão pela beleza perfeita... talvez tenham ido em um mesmo cirurgião plástico. Bom, é uma teoria. — Ele ouve tudo balançando a cabeça com o cigarro na boca. Realinha as fotos, compara, pega as fichas e começa a reordenar na grande pasta.

— Por acaso, você é médica para saber isso tudo?

— Sou. — Percebo seu olhar relutante. — Eu sou muitas coisas, tive tempo pra isso.

Ele se acalma um pouco, puxa a cadeira e senta encostando a cabeça. Noto seu cigarro quase derrubando as cinzas em minha mesa de mogno, estendo o braço para a estante ao meu lado, pego um pires e coloco ao lado de sua mão. Eu vou até a cozinha, pego o queijo em pedaço, uma faca e a garrafa da cachaça “Nega Fulô” que importei do Brasil. Coloco na lateral da mesa e entre os cadáveres, corto o queijo na tábua, sirvo o meu copo e olho para ele. Ele assente com a cabeça e eu sirvo um copo para ele.

— Quem é mesmo o garoto? — disse ele, enquanto tomava o shot e logo depois colocava um pedaço de queijo na boca. Faz uma careta rápida tentando disfarçar a surpresa com a força da bebida.

— Hidekki, ele me ajuda com computadores e outras coisas eletrônicas.

— Ele também é um vampiro?

— Não... — Eu rio um pouco ao me sentar à mesa. —, ele não é um vampiro. É um tipo de monstro diferente, um adolescente.

— Mas ele sabe que você... — Ele fala gesticulando com o cigarro acesso entre a ponta dos dedos.

— Eu o contratei para consertar um computador de mesa em casa a cerca de dois anos atrás. Então ele mexeu nas minhas coisas, pois queria roubar algum dinheiro e acabou encontrando a minha geladeira de sangue.

Ele explode na risada, curvando-se para frente, eu rio junto.

— Imagino que ele deve ter ficado apavorado!

— Inicialmente, ele achou que eu era uma traficante de órgãos, depois viu minhas antiguidades e pirou. Até vomitou no carpete, mas foi engraçado.

— Você está rodeada de pessoas estranhas, Miryan.

— Lucy.

Ele para, olha pra mim, quase sorri. Seu rosto está mais relaxado, reparo que ele tem um queixo bonito, bem marcado.

— Lucy Iordache, é o meu nome real, o que minha mãe escolheu para mim.

— Lucy... afinal de contas, de onde você é? — Agora o sorriso dele escapa, não é de todo mal.

— Romênia.

— Achei que fosse da Transilvânia. — Ele fala enquanto serve mais uma dose.

— A Transilvânia fica na Romênia.

— Ah...

*********

Jack White é Agente e Psiquiatra do FBI, ele lê o relatório em suas mãos e depois questiona Manson.

— Quem lhe passou esse perfil?

— Isso importa agora? — fala Manson, irritado em prestar contas aos Federais, mais ainda por estar de ressaca.

Eles estão no escritório de Manson, na abafada sala em que o policial trabalha. Os gaveteiros cobrem a parede da direita e à esquerda estão as janelas. Manson pega o maço no fundo da gaveta, está vazio. O amassa e o joga na lixeira ao seu pé. O agente suspira ao terminar de ler o relatório, abaixa o fino óculos de grau e volta a questionar.

— Já verificaram os médicos?

— Médicos, academia, amigos, aplicativos de namoro, chats de internet, cadastros de lojas e supermercados. Infelizmente, ainda não encontramos nenhuma ligação entre as vítimas. Não sabemos como ele conheceria todas elas, parece algo realmente aleatório.

— Ou seja, ainda não tem pistas de como encontrá-lo. — Manson não responde, apenas curva um pouco suas sobrancelhas enquanto leva um chiclete de nicotina à boca. — Certo, espero que entenda a situação em questão aqui, Sargento Jones Manson.

— Eu entenda? Agora que temos alguma chance de irmos atrás desse filho da puta, vocês vêm aqui com suas insígnias e acham que vamos entregar tudo de bandeja?

— Escute, não prec... — Jack é interrompido pelo tapa de Manson na mesa.

— NÃO! Escute você, eu estou nesse caso há quase um ano! Ninguém investigava antes, ninguém ligou os assassinatos! E só agora é que viram os casos similares em Nova Jersey, aqueles que vocês também nunca deram a mínima! Até agora são 32, tem pelo menos 20 que poderiam estar vivas se vocês tivessem feito algo!

Jack tenta falar algo, mas Manson continua.

— Agora, só porque uma das garotas era sobrinha de uma atriz famosa, a coisa muda de figura? Onde vocês estavam quando eu precisei explicar para um pai, o que aconteceu nos últimos dias de sua filha de 17 anos? Ela estava viva enquanto... Vocês só nos negaram recursos, negaram um psicólogo para fazer o perfil, negaram o laboratório para os exames específicos. Eu posso acabar com isso, EU QUERO ACABAR COM ISSO, e vocês não vão ousar me impedir.

Jack olha apreensivo, leva a mão a cabeça e fecha a pasta colocando-a em cima da mesa do escritório. Ele guarda os óculos de grau no bolso da camisa e olha para a mesa cheia de papéis empilhados. O cinzeiro está lotado, o calor não é vencido pelo ventilador de metal que balança com o movimento sobre o gaveteiro. Continua circulando o abafado ar da sala e rangendo na lateral da sala. Ele pensa muito no que dirá antes de responder.

— Duas semanas. É o máximo que posso lhe dar. — Jack fala ajustando sua gravata.

— Eu espero fechar antes disso.

— E quanto á esse seu consultor... é mesmo de confiança para dar informações assim?

— Isso não é da sua conta.

O agente ameaça sair, mas volta.

— Você já pensou em atrair o serial?

— Como assim?

— Disse que ele está mudando o padrão, ficando provocativo, o caso está na mídia agora e seriais gostam de notoriedade.

— Eu sei disso, acho que ele deve ter ficado muito satisfeito com a entrevista da atriz criticando a “polícia apática”.

— Podemos usar isso a nosso favor, eu posso conseguir uma entrevista em que você fale mais sobre o caso. E se houvesse uma declaração oficial, uma que o fizesse querer se mostrar mais, ele pode se apressar, acabar errando em seu método. Pode esquecer de lavar o corpo antes, nos deixando mais evidências entregando a sua posição.

— Quer ser responsável pelo próximo cadáver que aparecer?

— Acorda, Manson, ele está entregando a cada duas semanas, todos os sábados, hoje é quarta... ele já tem uma escolhida.

Manson titubeia um pouco mas acaba aceitando.

— O que você tem em mente?

*********

Na noite seguinte, assisto a entrevista de Manson na televisão, ele está com uma camisa bem-feita, ele consegue disfarçar bem da tensão, noto que maquiaram suas olheiras, ele aparou a barba e está bem vestido dessa vez.

O policial diz:

— Esse perfil, foi estabelecido por uma grande equipe de psicólogos do FBI, além de outros colaboradores.

— Mas então é confirmado que o Homem do pacote possui tais distúrbios?

Cate Shipperd está se divertindo, normalmente suas entrevistas são sensacionalistas, as vezes sobre curiosidades excêntricas, ela quer ser aquele tipo intelectual e sair das subcelebridades e suas esquisitices, essa é uma boa oportunidade.

— Sim. O abuso sexual, a falta de espermatozoides no líquido seminal e o lavar da pele. Tudo sugere que ele possua alguma disfunção sexual e reprodutiva, que o impeça a reprodução. É possível que esteja usando as vísceras como forma de combater tal problema... há indícios que faça um ritual religioso. Procuramos um suspeito religioso entre 40 a 55 anos, forte e com acesso a um ambiente médico. Possivelmente um enfermeiro, talvez até recusado na faculdade de medicina.

— Ele não poderia ser médico? — pergunta o repórter.

— Só se fosse um muito ruim.

Ela sorri, parece surpresa e quase satisfeita com uma sobremesa. Ela sempre levanta polêmicas em suas entrevistas, as vezes de forma cruel.

— Por que um médico ruim? — Ela questiona em tom debochado.

— Há sinais de hesitação, tendões dilacerados indicam ser alguém inábil para a cirurgia.

Que diabos você está fazendo Manson? Provocar um homicida, não me parece uma boa ideia.

Em outro ponto de New Orleans

O notebook brilha no quarto escuro, ele assiste a reportagem de Manson rola a tela para baixo com o mouse branco. A sessão de comentários é diversa, muitos parecem rir do assassino. “É claro que tinha que ser um INCEL para ser doente dessa forma!” Se destaca o comentário com muitas curtidas. A cada fala mentirosa do policial ele bate com as pontas dos dedos na mesa. Quase que marcando um ritmo, a melodia de sua difamação. Ele termina de ler, volta para o vídeo com o sorriso da entrevistadora, pausa o vídeo congelando a imagem de Manson na tela. Suspira, e cruza os dedos das mãos na frente do rosto, apoiando o queixo pensativo, ainda olhando para a tela brilhante. Neste momento um bipar chama a sua atenção no canto inferior direito, ele leva o ponteiro branco suavemente até lá e clica no quadro piscante que abre uma nova janela.

O rosto dela aparece gritando, ela se ajoelha no chão claro de piso frio e chora. Sua pele morena, cabelos longos e ondulados, olhos amendoados sugerem uma descendência latina, ela está sem sapatos em sua sala. A imagem da mulher é aproximada pelo toque do mouse na escala de zoom, ele maximiza a tela e liga o som.

— Eu juro que faço o que você quiser, só por favor me solte, eu quer...

Ele desliga o som. Já ouvira a mesma ladainha muitas vezes, mas ele a assiste chorar. Seus gritos silenciosos o agradam, suas mãos estão algemadas nas correntes, presas à parede de pedras, os olhos inchados mostram que ela chora e não dorme há dias. Ele diminui a imagem de sua encarcerada e alinha no canto superior da tela a reportagem que estava na página aberta reaparece. Ele lê novamente o título “Homem do pacote é um religioso estéril”, seu dedo bate novamente contra a madeira da mesa. Ele baixa a tela do notebook e olha para o lado, avista uma câmera em um tripé.

*********

Passaram alguns dias até um rapaz adentrar a delegacia com um buquê de flores. Os lírios brancos e cor-de-rosa compõem uma delicada e chamativa peça. O rapaz atravessa o salão, pergunta pela pessoa destinatária, os risos curiosos apontam a direção, o entregador segue. Aborda Cris que aponta para o escritório de seu parceiro, ele sorri para os colegas.

— Dez pratas que é daquela boneca da 23ª avenida que pegamos semana passada.

Uns riem, Dolores fica apenas curiosa, ao mesmo tempo apreensiva. O entregador bate à porta anunciando.

— Entrega para Sargento Jones Manson.

Manson olha por cima dos óculos de leitura, franze sua testa e dá a volta na mesa se aproximando.

— Tá brincando comigo? — Ele olha diretamente para Cris atrás do entregador.

— Não vem não, eu juro que não foi eu dessa vez!

Manson ri, ainda que corado através da pele negra escura.

— Eu tenho que assinar?

— Sim, aqui. — indica o entregador para o sistema eletrônico sensível ao toque.

Um assovio provocativo atravessa a sala cheia de ruídos de telefones e papéis.

— Tá, é bonito mesmo. Não tem problema algum homem receber flores, tempos modernos que chamam, né? — Tenta minimizar seu desconforto para os colegas.

Cris se aproxima, indica o envelope colado no celofane do embrulho.

— Vai, mata minha curiosidade.

— Sai pra lá.

— Ah vai, fala pra mim, tava tentando parar pra impressionar não era? Tirar o bafo de cinzeiro, te falei que devia...

— Eu não sei do que...

Manson abre o envelope, o texto digitado é curto e claro.

“Tive que adiantar a entrega com sua entrevista, meu novo pacote te aguarda no telhado, vamos conversar”.

— SEGURA ESSE GAROTO! — Manson grita para Cris, aponta rápido para o entregador que estava de saída. Ele corre pelo salão indo direto para as escadas de emergência, sobe os cinco andares o mais rápido que pode, fica ofegante ao abrir a porta corta-fogos.

Do lado de fora, bem no centro do telhado há um pacote de plástico, branco leitoso, ele mal brilha com o sol. Dolores chega logo em seguida, verifica todo o telhado com sua arma já preparada.

— O que tá... ah merda, isso é o que eu tô pensando?

Manson se aproxima, responde o rádio que já o chamava, pede que Cris chame a legista e uma equipe de processamento. Ele ouve a voz dele ressoando pelas escadas, já que estava no meio do caminho. Ao se aproximar, percebe o laço dado no fio de silicone, dessa vez está inteiramente embrulhado, mas pressente seu conteúdo. Levam ainda alguns minutos para a equipe chegar, a legista veste luvas látex e puxa o fio com delicadeza.

As pernas cruzadas do cadáver sugerem uma pose de yoga, mas seu torso não está presente, seus braços formam uma pirâmide, se equilibram no alto onde deveria ter os ombros. Suas mãos decepadas ficam a frente do rosto, a esquerda porta a mão direita com o indicador em riste. Com a cabeça em seu colo, e a mão a frente dos lábios, parece estar pedindo silêncio. Os olhos foram retirados, os dois buracos são preenchidos por moedas de um dólar sendo possível ver a imagem da águia careca.

Cris se afasta, leva a mão a boca em um enjoo repentino. Dolores, logo atrás, desvia o olhar, ainda que se aproximando.

— Como ele trouxe até aqui? — Manson se pergunta enquanto olha ao redor, em busca de uma câmera, percebe estar rodeado de muitas janelas residenciais e um prédio abandonado logo ao lado.

— São muitas janelas, vai levar tempo para verificar todas elas. — diz a policial.

— E vai ser ainda pior pra processar todo esse telhado, estava fechado hoje de manhã, achei que estavam limpando. — fala a legista ao indicar copos plásticos de café e pontas de cigarro no chão. — Até descartamos tudo que é nosso e o que pode ser dele, vai levar semanas.

Manson lembra que ontem mesmo estava fumando lá encima, alguns dos cinco cigarros que ele normalmente diz que são apenas três cigarros diários para Cris.

— Ele está contando com a bagunça. — Manson fala e se vira para Cris. — Falou com o garoto?

— Ele tá lá embaixo preocupado com outras entregas.

Manson desce, seus joelhos doem com os degraus repetitivos, sua consciência também, em ver que o assassino quase se exibe para a delegacia. Os olhares dos colegas o perseguem até ele conduzir o entregador para o escritório, são duas horas confirmando dados, o rapaz fica com medo em achar que poderia “ser fichado”.

— Foi feito tudo pelo site, o pagamento foi usando um cartão vale-compras de promoção.

— Onde dá pra comprar esses cartões? — Cris questiona tentando qualquer recurso.

— Em qualquer banca de jornal.

— E o texto?

— O bilhete a gente imprime automaticamente, já mandaram até xingamentos e as vezes tem erros de escrita, a gente não confere essas coisas por conta da privacidade também. O site é tudo automático, só atualizamos as flores disponíveis.

— Está bem, só confira seus dados com o Cris e depois está liberado. — Manson olha para Dolores que chega com o celular na mão. — O que foi agora?

A policial entra, exibe ao superior a foto tirada do rosto da vítima, sua boca aberta com um pen drive dentro.

— Ele deve ter mandado algum recado extra. — fala a policial em desilusão.

*********

O sol está fazendo aquela luz avermelhada de entardecer enquanto estou abrindo delicadamente a minha encomenda. O quadro de Antônio, Laura e eu, em tinta óleo em um parque de Andalusia. Antigamente era chamado assim, hoje o vilarejo em que morávamos se chama Álora, na região de Ronda, próxima a Sevilha. O pintor não era um grande artista, mas ainda assim era o rosto de minha filha e de meu marido. Eu era muito feliz nessa época, foram oito anos de paz e felicidade. A campainha toca, abro a porta e Manson entra rapidamente.

— Você vai mesmo pegar esse hábito de invadir a minha casa? — falo para ele com as sobrancelhas arqueadas.

Ele caminha pela sala, vai até a varanda olhando o jardim de trás e fecha as cortinas.

— Você tem câmeras de segurança em sua casa? Algum tipo de vigia?

— Eu deveria?

— Pegue uma muda de roupas, o que for precisar para alguns dias.

— Do que está falando?

— Preciso te levar a algum lugar seguro, posso te colocar na proteção à testemunha, já estão providenciando a papelada, mas acho que é arriscado colocar escutas aqui.

— Você não vai fazer nada enquanto não me dizer o que está acontecendo. — digo enquanto levanto o quadro do chão e o posiciono na parede.

— Eu dei uma entrevista para aquela repórter que estava na festa...

— Eu vi. Foi ideia do FBI, não foi?

— Foi.

— Isso pode ser perigoso, mas pode dar certo...

— Sim, já deu. Mas não da forma que eu esperava, ele fez uma entrega hoje.

— Mais um pacote? Tão rápido?

Ele leva as mãos a cabeça. Termino de ajeitar o quadro na parede e olho para ele, está transtornado.

— Pelas minhas contas, ele já tinha pego essa vítima antes mesmo da entrevista, está se sentindo culpado, é isso?

Ele para de andar em zigue e zague na sala finalmente.

— Ele foi até a delegacia, chegou a subir no nosso telhado, está zombando, pregando peças.

— Que tipo de peças?

Ele pega o celular, aumenta o volume para dar play a um vídeo que está salvo no aparelho.

— Ele mandou um pen drive com um único arquivo, “Sargento_Jones_Manson.avi”. Ao abrir o vídeo vê-se uma mulher, jovem de aparência latina, em um ambiente fechado. Ela fala o texto do papel em suas mãos, enquanto treme muito.

“Este vídeo, é para o Sargento Jones Manson, 31ºPD, SVU, Responsável pela investigação do caso do “Homem do Pacote”, a forma que me chamam. Fiquei muito preocupado com as mentiras que disseram de minha pessoa, quem teve real acesso ao caso sabe que nunca houve abuso sexual, e tampouco a “inabilidade”. Tudo isso, me deixou bastante consternado com tal ousadia. E agora, por conta disso, a vida desta mulher, Rosário D´Ávila (ela chora), será de sua responsabilidade.

Eu ia esperar, vocês sabem que não costumo apressar as coisas. Mas afirmar que sou um religioso fazendo rituais com vísceras é ofensivo. Assim, gostaria de mostrar o que faço com cada parte, afinal, não adiantaria nada, ser um dos maiores seriais da História do EUA e não ser devidamente conhecido como tal, não acham?

Portanto, peço que o Sargento Jones Manson aguarde a minha ligação em seu celular pessoal hoje as 10p.m.. eu irei passar instruções para ele para a sua colaboradora. Não falarei com mais ninguém, apenas com Miryan Winshester e o sargento Manson. Estou curioso para conversar com a consultora do sargento. Não irei ferí-los, mas irei mostrar um pouco de minha técnica, posso até devolver alguns itens faltantes de Rosário D´Ávila.”

O vídeo acaba e eu olho no relógio, são 06:37p.m.

— O que você quer fazer? — questiono.

— Você tem outro lugar para ficar? Uma amiga, um parente? — Ele começa a falar comigo, tratando-me como uma vítima. Odeio isso.

— Que parente? Tá maluco, Manson?

— Ele falou diretamente de você, é uma civil, pode te atacar.

Eu suspiro olhando ao redor da minha sala, pensando.

— Tá, então é melhor eu cobrir meu quadro novo, não quero que ele estrague.

— Você enlouqueceu? Vai atrair um serial killer para sua casa?

— Eu não fiz nada disso, você quem deu a entrevista!

— Ele sabia de você, eu não disse nada... como eu... não posso deixar que você corra risco.

— Eu não vou me esconder, se ele quiser, posso até esperá-lo. Já tive problemas maiores.

— Não, você não... droga, eu não devia ter lhe mostrado o vídeo. Eu devia apenas ter te levado para...

— Me levado? E como você acha que conseguiria me levar para algum lugar? — Ele toca a arma na cintura, eu observo seu movimento.

Ele saca a arma em um movimento rápido, eu seguro sua mão para o alto. O tiro faz poeira cair em nossas cabeças, ele tenta me socar com a outra mão, mas eu a barro em meu antebraço. Dou-lhe uma cabeçada e ele recua, aproveito para o empurrar até a parede, bato sua mão na estante fazendo-o soltar a arma.

— Quer parar de sacar a arma pra mim! Você sabe muito bem que isso não me mataria, idiota!

— Eu sei, mas ganho tempo pra te levar pra outro lugar.

Ele me chuta no abdômen e eu o soco, ele recua, mas retorna e me dá um soco. Em sequência eu lhe dou um gancho mais forte, um filete de sangue de sua boca faz um risco na parede, ele se desequilibra dessa vez, tropeça e cai batendo as costas na parede. Paro ao ver que ele caiu, vejo que foi muito forte. Não posso passar do ponto, olho para o sangue na parede, minhas presas aparecem ainda que sutilmente, ele percebe.

— É assim?

— Assim o que?

— É assim que sua fome aparece, não consegue tirar os olhos... é agora que ataca? Todo aquele papo de banco de sangue, que não morde ninguém...

— Eu não faço isso...

— Não faz? Ou não faz mais?

— Não faço isso mais, a tempo o suficiente, não faria novamente, menos ainda com você.

Ele não gosta muito de minha resposta. Irritado e com a moral um pouco ferida, me interpela.

— Eu só quero que você fique em segurança.

— Eu tenho mais de 500 anos, acho que consigo “cuidar de mim”.

— Não foi tão boa assim com os malucos da escola.

— O que importa? O pior que pode acontecer é ele me matar e eu voltar...

— Não está entendendo. Não me interessa que você pode voltar, seja lá como faz isso, eu não quero que ele possa colocar você em um plástico desses. Se ele sabe, talvez ele saiba como fazer você nem voltar mais, pensou nessa possibilidade?

Eu olho com desdém.

— Falando assim, parece até que você se importa.

— Eu me importo.

Quando estou me virando para ir ao corredor Manson coloca a mão na parede rente ao meu rosto, me impedindo de sair. Ele se apoia no braço e me segura pelo ombro me virando, olha diretamente para mim. Quase fala, mas ele mesmo se impede de falar. Passa sua mão por trás de minha cabeça, entrelaça os dedos em meus cabelos e me beija. O beijo bruto que correspondo vira um abraço, me empurra e passa a segurar meus quadris. Ele não tem medo de mim, pelo contrário, talvez isso seja o combustível, diesel no caso dele. Apesar do hálito de nicotina o beijo sedento é bom, ele sabe disso, eu correspondo, uma mão atrevida desliza para dentro de minha calça. Ele provoca o meu pescoço descendo pelo meu colo, sua barba malfeita arranha a minha pele enquanto minhas mãos descobrem algumas cicatrizes em suas costas.

Sua mão aperta com firmeza meu corpo, eu também aproveito para senti-lo em mais detalhes. Abro sua camisa rapidamente, ele apenas puxa a minha arrancando alguns botões e em seguida e me carrega para bancada. Nem percebo quando minha calça é puxada, me penetra ali mesmo. Em pé, na bancada da cozinha, entre o sabor do sangue de sua boca e cheiro de pólvora.

Algum tempo depois, ele dorme comigo no chão, exausto. Afinal ele se esforçou, nas duas vezes. Eu aproveito, são 09:47p.m., me levanto, pego suas algemas no bolso de sua calça e prendo uma de suas mãos no cano da bancada, pego o seu celular e saio de casa.