Sob as Asas
1 Prólogo
Notas iniciais
Nasci e fui criada na velha Londres. Cidade grande, fria e chuvosa, bonita para quem sabe apreciar. Com seu belo Palácio de Westminster, a noite estava sempre bem iluminada, mesmo que isso fosse algo bem incomum para estes tempos. Sempre que eu passava por ele não perdia a chance de apreciá-lo, sabia que era uma bela obra.
Mas, infelizmente, não foi na melhor época desta cidade. Para falar a verdade, com as informações que tenho, não é uma época boa para parte nenhuma do mundo. Estamos numa época já denominada Era das Trevas ou Idade das Trevas... Tanto faz, qualquer coisa que tenha trevas no nome não me parece nada bom.
Londres é uma cidade bonita em sua parte nobre, com seus belos casarões e seus jardins magníficos, um grande contraste com a parte pobre que transborda miséria e feiura. Em volta da cidade era cheio de fazendas, em sua maioria de pessoas que tinham casas na área nobre de Londres, ou seja, as pessoas de posses, ou ricos se assim preferir.
Eu sou uma mulher de família, pelo menos é isso que a sociedade pensa, e família nobre. Sou casada com Leon Shaw, e conhecida como Sra. Shaw, mesmo tendo apenas dezenove anos. Mas meu nome mesmo é Morgan Alisha Palmers. E o meu casamento é de fachada. Foi arranjado pelos meus pais antes de eles morrerem, e Leon e eu chegamos a um acordo para que nossas vidas parecessem normais.
Tudo isso começou quando nós, eu, os meus pais e as minhas irmãs morávamos na fazenda Liryum, nas redondezas de Londres. Era um lugar pacato, onde, na maior parte do tempo, só havia mulheres e os dois empregados, o mordomo e o cocheiro. Meu pai viajava muito, a negócios.
Quando recebi a noticia do meu casamento arranjado me senti apavorada, cogitei várias vezes fugir de casa; eu não queria ser forçada a viver ao lado de um riquinho mimado e bruto o resto da minha vida. Mas Megan Chelsea Palmers, minha irmã mais velha sempre soube me acalmar, mesmo que eu não fosse muito apegada a ela. Eu ainda fiquei quase um ano sem conhecer meu “noivo” depois que soube disso. No dia em que ele foi até a nossa casa, foi para uma ocasião especial. O casamento de Megan com Kyle Hughes. Com tudo acontecendo e minha família toda voltada para o casamento que acontecia, se esqueceram, totalmente, de me apresentar o meu noivo. Eu não me importava de maneira alguma, nem sabia se queria conhecê-lo.
Assim que o casamento acabou e a festa começou eu fui para a sacada com o meu vestido de festa super apertado e fiquei olhando a paisagem lá fora. Não aguentava mais fingir sorrisos simpáticos. Foi então que um rapaz se postou ao meu lado. Lindos olhos azuis e cabelos castanhos bem escuros, esbelto, um homem muito atraente.
– Uma bela festa – o rapaz comentou com a sua bela voz.
– Realmente – concordei.
– Está mentindo – ele concluiu.
– Não, não estou. É uma bela festa. Só não me cativa.
– E eu posso saber o que cativa a senhorita?
– E por que iria querer?
Ele sorria simpaticamente para mim.
– Acho que um noivo deve saber o que cativa a sua noiva.
Eu o olhei com a boca aberta, o que o fez sorrir ainda mais. Um sorriso muito bonito.
– Você é...
– Leon Shaw, seu noivo arranjado. Muito prazer, Srta. Palmers.
Ele disse me fazendo um reverencia.
– Bom... O prazer é meu.
– Pelo que percebo você não fazia ideia de quem eu era.
– Não mesmo.
– Você é sincera. A maioria não é. Gosto disso.
– Mentir para quê? Você parece ler a mentira.
– Não. Não sou tão bom. Mas não sou pego com facilidade. Para deixar claro, eu também não me sinto confortável com isso. Mas infelizmente dois jovens não podem mudar tradições tão de repente.
Só quando ele falou de tradição é que eu entendi sobre o que ele falava. Desde então percebi que tinha tirado a sorte grande com aquele rapaz, ele era bom. E seria bom para mim, eu senti isso desde aquele primeiro encontro. Eu não imaginava o desfecho de tudo isso.
– Bom. Eu acho que ninguém se sente confortável com isso. Mas parece que se acostumam.
– Tem toda a razão.
Nós passamos quase toda a festa ali naquela sacada conversando. Descobri que meu o noivo era melhor do que imaginei. Eu estava aliviada, pelos menos com a pessoa que ele tinha-me mostrado ser aqui.
Mas depois de alguns meses, já com o meu casamento marcado, e o noivo da minha irmã mais nova, Bethan Molly Palmers, arranjado, uma coisa horrível aconteceu.
Em uma noite de chuva forte e cheia de relâmpagos e trovões, em que Megan havia vindo dormir conosco, pois o marido viajara, alguma coisa invadiu a nossa casa. Digo que era uma coisa, pois aquilo não era humano. Quebrou toda a janela do corredor do segundo andar e entrou molhando todo o caminho que seguiu, mas aquilo que caiu no chão não era só agua. No caminho derrubou algumas velas, que iluminavam fracamente o corredor, fazendo o carpete vinho pegar fogo. Aquela coisa foi abrindo as portas do corredor até chegar ao quarto dos meus pais. E foi ali todo o estrago. Acordei com um grito terrível que meu deu arrepios. Na hora me levantei, vesti meu hobby, peguei o lampião e fui para o corredor, já vendo o fogo por ali, mas não era minha prioridade. Lá encontrei Megan e Bethan assustadas. Só de nos olharmos constatamos que o problema era no quarto mais à frente, dos nossos pais. Eu fui correndo na frente. Elas pareciam receosas. Quando cheguei lá e olhei para dentro vi uma criatura horrenda sobre a cama dos nossos pais. Não sabia nem o que fazer. Minha reação foi jogar o lampião com toda minha força. O objeto bateu nas costas do bicho que pegou fogo de imediato. O liquido escorreu dos pelos do animal e caiu na coberta que estava caída ao chão. A coisa se assustou com o fogo, ou comigo, não sei bem, e começou a ir em direção a uma janela, mas como se me farejasse, ou a minhas irmãs, se virou para mim. Nunca mais vou me esquecer daqueles olhos vermelhos cheios de maldade. Corri e peguei o lampião que estava sobre a mesa perto da porta e joguei em direção ao animal, que sumiu antes mesmo de eu o atingir. O lampião explodiu no chão e as cortinas perto da janela pegaram fogo. Eu corri até à cama, mas a cena que vi me assombrou o resto da vida. Meus pais quase não eram reconhecíveis. Ambos estraçalhados, com sangue escorrendo para todo o lado. Quando Megan e Bethan ameaçaram entrar eu as impedi e as empurrei de volta.
– Não. Melhor que queimem.
Elas até iam protestar, mas minhas expressão as assustou, imagino. Vi que o corredor pegava fogo. Um fogo já bem alimentado e que vinha de pressa. Nós três só tivemos tempo de avisar os empregados e sairmos da casa. Nisso ao olharmos a casa o fogo já se alastrava por toda mansão que se desfazia, junto com meus pais. Fui tomada de um grande ódio, que se misturava ao medo e à dor. Quando o dia chegou ainda estávamos ali, olhando as ruínas do que um dia fora a nossa casa.
Depois disso vendemos a mansão, ou o que restou dela, e fomos para Londres. Moramos inicialmente na casa de Megan e Kyle. Mas logo seria meu casamento.
Quando tudo aconteceu faltavam apenas seis meses para meu casamento que já estava todo marcado. Eu fiquei com Megan e Bethan. Elas sentiram a perda de nossos pais, mas não viram o que eu vi, não sabiam do que eu sabia e eu não as deixaria saber nunca o que realmente houve. Elas pensavam que eles tinham sido mortos por um homem. Apunhalados por um homem, que incendiou o lugar e fugiu. E assim continuariam pensando.
Nossos dias em Londres não eram ruins. Vivíamos em um bairro bom e de paz.
Então uma semana antes do meu casamento, em uma noite tão sombria e assustadora quanto a noite em meus pais morreram, estávamos em casa já bem tarde, tomando um chá, para ir dormir, quando bateram na portar com certa violência. Bethan, que andava assustada desde a morte de nossos pais, pulou de susto e Megan a abraçou a reconfortando. Kyle se levantou e foi atender. Eu fiquei à mesa, onde estava, mas não tirei os olhos da porta.
Kyle abriu a porta e arregalei os olhos assustada ao ver que quem estava ali era Leon, com uma expressão um tanto estranha. Parecia assustado e determinado ao mesmo tempo.
– Shaw? O que faz aqui a essa hora?
Kyke era um homem bom. Nos tratava muito bem, e pelo que via e... Ouvi, fazia muito bem a Megan também e isso me deixava muito feliz. Eu só desejava que Bethan tivesse a mesma sorte.
– Quero falar com a Morgan... Sozinho!
– Está louco, Shaw. Mesmo que o casamento seja em uma semana não pode ficar sozinho com Morgan, ainda. O que vão dizer? – Kyle respondeu.
– Ninguém precisa saber, Hughes. E eu não vou fazer nada, só conversar.
Eu me levantei e segui até eles.
– Então pode falar perto de todos nós...
– Kyle? – eu o chamei.
Ambos me olharam sobressaltados.
– Deixe-o. Quero conversar com ele.
– Mas, Morgan...
– Não vamos demorar.
Eu peguei o pulso de Leon, que estava todo molhando, e o puxei casa adentro. Eu o levei ao escritório de Kyle. Se eu fizesse menção de ir para o lado dos quarto Kyle me matava. Entrei com Leon e tranquei a porta. Nós nos sentamos e ele tirou as luvas negras que cobriam suas mãos.
– O que houve? Parece assustado.
– Eu preciso que me ouça com atenção. E espere que eu termine antes de julgar a minha sanidade.
– O que quer dizer, Leon?
– Olha. Você conhece todas as lendas sobre seres sobrenaturais, certo?
– Sim.
Ele falava muito baixo e eu o imitei.
– E se eu te dissesse que são reais?
Eu fiquei séria na hora. A imagem daquele animal sobre meus pais me veio à mente na hora, eu balancei a cabeça para tirar aquela imagem da minha mente.
– Eu acho que acreditaria – respondi.
– Hoje eu acho que vi um lobisomem. Era uma criatura imensa que andava pela floresta, no caminho da fazenda para cá.
– Qual fazenda?
– Daquele meu amigo, Reece. Estou voltando de lá. Eu sempre achei vários livros no porão lá de casa, que falavam sobre tais criaturas, mas nunca achei que fossem reais. Até hoje. E depois que me contou aquelas estórias sobre seus pais eu não consegui pensar em outra pessoa para contar isso.
– Isso só pode ser real – comentei.
– Eu sei. E sei que tem intenção de ir atrás dessa criatura.
Eu nada disse. Era o que eu planejava.
– Então eu tenho uma proposta para você. Eu tenho que manter minha imagem à frente da sociedade e continuar os negócios do meu pai, que infelizmente só me tem a mim como filho. Então se você se casar comigo, eu juro lhe ajudar com sua busca. Vou levar tudo que encontrei no porão de casa para nossa casa e lá passaremos parte do dia a pesquisar nesses livros. E eu posso te acompanhar quando quiser sair por aí. Tem ensino a arte das espadas e tudo o que precisar... Topa?
– Eu ia me casar de qualquer modo...
– Mas acabaria por sumir ou ter hábitos que comprometeriam ambos.
– Você pode ter razão.
– Então... Concorda?
– Sim... Temos um acordo.
Eu estendi a mão a ele, que a pegou. Era a primeira vez que nos tocávamos, pele com pele. A mão dele era quente e forte. Ele sorria. Soltamos as mãos e ficamos de pé.
Isso fez com que ficássemos muito próximos. Ele se aproximou mais. Leon levou a mão ao meu cabelo e o acariciou levemente. Eu o olhava de olhos arregalados. Ele se aproximou calmamente, e seus lábios tocaram os meus suavemente, selando-os por um breve momento. Então ele me encarou. Eu ainda não acreditava que ele tinha feito aquilo.
– Não sei como agradecer – ele disse.
– Nem precisa. É mutuo.
– Acho melhor eu ir, antes que Hughes derrube essa porta. Te vejo em uma semana.
Esse foi o acordo que fiz com Leon, ele me ajudava com a busca, eu o ajudava com a aparência. Eu tinha sido criada para ser uma dama. Não faria feio com isso. Ele era criado para ser um cavalheiro e um guerreiro, tínhamos o que o outro precisava.
No fim daquela semana foi feito o casamento na fazenda dos pais do Leon. Foi uma cerimônia bonita e bem organizada por Megan e a mãe de Leon. A festa foi bem feita e todo saíram de lá falando bem.
Logo depois que tudo acabou, Leon e eu nos mudamos para nossa casa nova. Eu não queria fazer comparações, mas foi impossível não notar que a minha casa era melhor que a de Megan. A minha tinha até um lindo jardim em volta. Mas o melhor da casa era que ela era na extremidade da cidade, podendo-se sair sem ser notado por ninguém.
Agora já faz quase um ano que estou casada com Leon. E já lemos mais da metade dos livros que ele conseguiu, e procurávamos por mais. Aprendi a me defender de todas as criaturas sobre quais eu li. Eu já havia me encontrado com várias. Com o tempo você conhecia esses seres só de olhar, pelas características. Aqui em Londres era infestado de bruxas, mas as queimadas, na maior parte das vezes, eram inocentes. Vampiros também eram comuns aqui, mas atacavam na parte pobre da cidade, a maioria das vítimas não fazia falta a ninguém. Eu não me incomodava com eles. Eu não tinha nada contra eles, eu queria o monstro que matou meus pais.
Hoje eu estava completando dezenove anos. E logo faria um ano de casada. Eu não tinha filhos, não sabia bem por que, mas estava agradecida por isso. Uma criança só me atrapalharia e ter uma criança para outra pessoa criar eu não teria. Megan estava grávida, faltava pouco tempo para dar à luz. Kyle tinha arrastado a parteira para casa dele e agora ela morava com eles, até que Megan tivesse o filho.
Logicamente hoje teria uma pequena comemoração aqui pelo meu aniversário. Já era a tarde e eu me trocava com a ajuda de uma das empregadas. Ela apertou o espartilho para mim, eu odiava usar, mas era moda e tínhamos de usar. Coloquei o vestido verde bem claro com tronco e sobre a saia marrom e fiz um penteado simples; eu não gostava daquelas coisas espalhafatosas que as mulheres gostavam.
Eu tinha que fazer uma pequena entrada pela escada. E assim fiz. A maioria dos convidados estavam ali. Assim que apareci Leon foi até ao pé da escada me esperar. Assim que cheguei a ele, as pessoas me parabenizaram. Mas, como sempre, logo depois já nem se lembravam de mim. Vi Bethan sentada em um canto, ela parecia nervosa. Fui direto até ela e me sentei ao seu lado.
– Você está bem?
– Mais ou menos.
– E o que está te deixando assim?
– Essa história de casamento.
– Eu sei como é isso. É horrível quando não conhecemos o noivo. Mas Megan e eu demos sorte. Você também terá um ótimo marido.
– Mas eu tenho medo. E se ele não for bom para mim.
– Ele será, ou terá que se ver comigo.
Ela sorriu brevemente, mas logo estava séria de novo.
– E como é... Estar com um homem...
Ela não disse o que queria saber com todas as palavras mas eu entendi qual era o medo dela, eu também temia isso. E depois percebi que não era nenhum bicho de sete cabeças.
– Bethan, se você conhecer esse homem e gostar dele de certo modo, será melhor do que imagina.
Ela me olhou de cenho franzido. Ela havia passado a vida ouvindo que isso era mau e eu vinha dizer o contrário. Eu só a tinha confundido mais. Eu sorri para ela.
– Olha. Não tem que me dar ouvidos. Quando tudo tiver acontecido você terá sua opinião e ela pode sim ser diferente da minha – completei.
– Mas eu ainda tenho medo. Eu nem o conheço.
– Ele virá aqui hoje. Eu o mostro a você.
Eu fiquei ali com ela até que o garoto entrou no salão. Quando eu bati os olhos nele, já não gostei. Ele vinha com o nariz tão empinado que achei que agarraria na porta, que tinha três metros de altura. Respirei fundo.
– Veja, Bethan. É ele, Rhys Wright.
Ela o olhou por um tempo como se o analisasse.
– Ele é bonito.
– Beleza não é tudo.
– Não... Mas Kyle e Leon são bonitos.
Eu sorri do comentário dela.
– Ele pode ser o homem mais lindo do mundo. Se te tratar mal, não vale a pena.
– Eu sei. Eu só não queria que eu fosse a única irmã com um marido feio.
O garoto tinha cabelos extremamente negros como os de Kyle, mas Rhys tinha olhos verdes escuros e Kyle olhos castanhos claros. Assim como Kyle, Rhys era mais magro que Leon, que era mais forte.
– Então já sabe que não será. Seu casamento será em poucas semanas, logo chegará. Não se assuste, tudo vai correr muito bem.
Eu torcia para que esse Rhys não fizesse gracinha com Bethan ou eu daria um jeito nele.
Fale com o autor