Sob as Asas
9 Capítulo 8 - Sua Majestade Cornelius
Notas iniciais
Ensinei a ela como se vestir, o que ela achou um tanto difícil e desnecessário. Odiou ter de usar um espartilho. Depois eu falei um pouco sobre a etiqueta do lugar. Postura ela tinha, pois era dançarina e, além disso, o espartilho servia exatamente para isso. Eu contei a ela também sobre o rei e como ele era. Ela não pareceu gostar dele como pessoa, mas também, quem gostaria? Rahmiel pareceu absorver tudo com facilidade.
Depois de ela ter colocado um vestido, sozinha, se sentou na poltrona que tinha ali, bufando.
– Como consegue fazer isto todos os dias? – ela me perguntou.
– Costume e sempre tenho ajuda das empregadas.
– Hum. Posso-lhe perguntar uma coisa?
– Claro – respondi.
– Em todo esse tempo em que esteve com o seu marido, vocês tiveram... Como eu digo... União carnal, certo?
– Certo.
– Mesmo assim, não o amava? – ela insistiu.
– Não, Rahmiel, eu nunca o amei. Eu só fiz minha obrigação como esposa. Você, como anjo, deve saber muito bem como as coisas funcionam aqui.
– Eu sei, mas cada vez que vejo a maneira como o Zophiel a olha, isso cada vez faz menos sentido.
– Não importa se faz sentido ou não. Aqui casamento é um negócio. E a união carnal, como você diz, é parte disso. Não posso dizer que não sentia desejo por ele, mas não passou disso.
– Desejo... – ela falou a palavra como se quisesse conhecer a sensação, mas ao mesmo tempo a desprezasse.
Não pude evitar de sorrir.
– Não é algo para que despreze tanto. Não é a pior coisa do mundo.
– É uma sensação que leva ao pecado.
– Bom... Vai ser bem difícil viver nesse mundo sem cometer nenhum.
– Mas o pecado original não é coisa pequena, pode...
– Tirar suas chances de voltar ao céu – completei.
– Sim. Como sabe?
– Zophiel me disse que não poderia voltar por isso.
– Ah! Sim... Mas eu ainda não me decidi se quero voltar ou não.
– Você tem tempo. Depois de ver como esse mundo é realmente, você se decidi.
– Acho que tem razão.
– Acho que chega por hoje, amanhã tiro as dúvidas que pode ter. Pode dormir aqui mesmo.
Ela sorriu e concordou. Eu saí do quarto e encostei a porta. Assim que me virei para o corredor, vi Zophiel encostado à porta de um quarto. Ele estava sem camisa e descalço, não tinha a bengala ou a cartola. Tinha a cabeça baixa como se olhasse para o chão, mas levantou os olhos assim que me ouviu. Os cabelos loiros eram uma desordem, o que o deixava ainda mais lindo. Eu parei e entreabri a boca. Então Zophiel levantou a cabeça e me olhou com uma sobrancelha erguida. Como se eu despertasse, continuei em direção a ele. Assim que cheguei a ele espalmei minhas mãos em seu abdômen. Ficamos frente a frente. Eu nunca tinha ficado assim com ele. Percebi que ele devia ser quase vinte centímetros maior que eu. Ele levou a mão à minha nuca e se abaixou para me beijar. Com isso, ele começou a andar para dentro do quarto, eu fui levada por ele. Quando ele fechou a porta eu o abracei pela cintura o fazendo ficar mais perto de mim. Sua língua brincava com a minha. Ele levou a mão às costas do meu vestido e o abriu com um puxão, arrebentando os botões. Depois desamarrou o cordão do espartilho e o abriu com uma rapidez impressionante. Assim que ele me livrou de toda parte de cima do meu vestido, percebeu que esse vestido que eu usava, em particular, era feito para ser tirado por cima. Então ele pegou as duas partes do vestido e puxou, ouvi barulho de pano rasgando e o vestido passou pelo meu quadril e caiu no chão. Logo em seguida ele me levou em direção a cama.
Só fui realmente reparar no quarto quando acordei pela manhã. O sol estava apontando no horizonte e Zophiel dormia. Ao meu lado direito tinha um guarda-roupas lindamente entalhado, mais à frente tinha uma mesa com três cadeiras, e entre a mesa e o guarda-roupa tinha uma poltrona onde estavam a cartola e a bengala dele. Do meu lado direito tinha um espaço cercado, que devia abrigar a banheira, e mais à frente uma penteadeira, que parecia não ser usada há anos.
Eu me levantei e fui vestir meu vestido, foi quando o peguei que vi que ele não tinha a mínima condição de ser vestido. Revirei os olhos. Olhei Zophiel, que dormia na cama. Joguei o vestido no chão e pulei em cima dele.
– Ai! – ele exclamou enquanto me olhava assustado. – O que estás a fazer?
– Trate de se levantar e me arrumar um vestido. Você deixou o meu em condições deploráveis – falei séria.
Mas ele riu, uma gargalhada gostosa. Então ele me abraçou e se virou para que eu ficasse em baixo dele, nos fazendo ficar enrolados no cobertor, mas mesmo assim não nos cobria direito. Ouvi um barulho conhecido, mas não dei importância.
– Ontem não pareceste importar-te – ele comentou.
Eu corei, nem sei bem por quê. Ele voltou a rir.
– Mas hoje me importo – retruquei desviando o olhar do dele.
Ele usou a mão para me fazer olhar para ele. Eu o encarrei, ele estava sério.
– Não quero que vás embora.
Senti um frio na barriga com o que ele disse. Abracei pelo pescoço e o beijei. Zophiel deslizou a mão por minha cintura e dali foi descendo para minha coxa. Ele mordeu meu lábio me fazendo suspirar... Mas foi nesse instante que ouvi uma exclamação baixa perto da porta. Zophiel e eu olhamos rápido. Rahmiel estava ali, meio agachada com as mãos cobrindo todo rosto.
– Rahmiel? – Zophiel exclamou. – Por que entraste aqui, assim, de fininho?
– Eu... Eu... Não tive... Não... Tive... Intenção – ela gaguejou mais do que falou.
– Bate antes de entrares – Zophiel disse.
Ele não foi duro com ela, mas mesmo assim ela começou a chorar.
– Desculpa!
Ela se virou e saiu correndo.
Zophiel se deixou cair ao meu lado e levou a mão à testa.
– Que sandice foi esta agora?
– Espera que eu saiba?
– Não, minha querida. Estava só a pensar alto. Vou ver como ela está e trago-te um vestido.
Eu só assenti. Ele se levantou, vestiu uma calça e foi atrás da irmã.
Eu fiquei ali fitando o teto. Como isto era estranho, tudo tinha mudado tão de repente. Eu estava tão feliz, mas ao mesmo tempo receosa. Eu torcia para que nada de mal nos acontecesse.
Depois de algum tempo, não sei bem quanto, ele voltou com o vestido. Ele mesmo me ajudou a vestir. Depois disso descemos para o café.
Rahmiel já parecia ter esquecido de tudo e conversava animadamente com Edkiel, que me olhou com olhos muito mais simpáticos do que antes, com direito a um pequeno sorriso. Fiquei feliz com isso. Ao terminarmos Edkiel me levou em casa.
Assim que entrei pela porta me deparei com Bethan sentada em um dos sofás dali. Eu me assustei, mas tentei não demonstrar.
– Morgan? Onde você estava?
Ela me olhava desconfiada.
– Eu te disse que ela tinha saído cedo, Bethan. Ela só foi dar uma volta, ela faz muito isso – Leon falou.
Eu não conseguia acreditar que ele estava me acobertando, mesmo que a imagem dele estivesse em risco, eu tinha passado a noite com meu amante, e ele me acobertando?
– Eu estava andando pela cidade, Bethan. Alias, Leon, encontrei Marshall, ele e a irmã.
Assim que toquei no nome de Zophiel vi o olhar dele ficar duro, mas ao falar da irmã a curiosidade o tomou, como imaginei que aconteceria.
– Irmã?
– Sim, veio da França, uma mulher espetacularmente bonita. Pelo que vi não são simples irmãos. São gêmeos.
– Não sabia que Marshall tinha parentes.
– Nem eu, mas parece que sim.
– E como ela se chama? – Bethan quis saber.
– Samantha Marshall.
– Olha, tá aí uma informação interessante. Ele não tem irmãos, não? – Bethan falou.
Eu tive que rir.
– Não que eu sabia, Bethan.
Ela riu comigo.
Depois disso a conversa ficou mais amistosa e ficamos ali por um bom tempo.
Quando a noite caiu, eu recebi outra visita. Lauren dessa vez.
– Boa noite, mulher anjo – ela me chamou.
Eu estava na sacada da casa. Ri do que ela disse.
– Boa noite, Lauren.
– Sabe que se estou aqui tenho noticias.
– Sim, o que tem a dizer?
– O animal apareceu por lá ontem à noite pela primeira vez. Com isso ainda deve ter uns seis dias antes que ele resolva atacar.
– Entendo. Obrigada por isso. Me avise sobre qualquer movimento diferente que ele faça.
– Deixe comigo. Agora vou indo. Até mais.
– Até mais.
Ela sumiu na escuridão. Eu fiquei ali olhando as estrelas.
Os dias passaram arrastados e ali estávamos nós no dia da festa de apresentação de Rahmiel. Eu queria saber como ela estava, mas só saberia quando chegasse lá.
Depois de algum tempo de viagem chegamos. O lugar já tinha bastante gente. Entramos pela porta e, onde antes ficava a aconchegante sala de estar de Zophiel, estava um belo salão de festas, lindo, muito bem decorado. Eu entrei e logo vi um monte de pessoas que eu conhecia. Incluindo minhas duas irmãs, com seus maridos, e o rei e a rainha. Terminamos de entrar e logo Megan e Bethan estavam ali me rodeando.
– Você já sabia que Marshall tinha uma irmã? – Megan me perguntou.
– Sim, desde a manhã que ela chegou. Eu os encontrei em Londres – menti.
– Hum. Ela é bonita?
– É irmã gêmea dele... Tire as suas conclusões.
Ela nada disse, só ficou pensativa.
Quando o salão já estava extremamente cheio, Zophiel e Rahmiel apareceram no alto da escada, deixando todos de boca aberta ali em baixo. Rahmiel estava deslumbrante e sobre Zophiel eu nem precisava comentar. Assim que as apresentações acabaram, Rahmiel veio correndo para o meu lado.
– Sinto-me muito deslocada aqui – Rahmiel comentou.
– Deslocada?
Megan estava ali perto e ficou por entender.
– A Srta. Marshall vivia em um convento antes de vir para cá. Não está acostumada a festas.
– Ah! Entendo. Não se preocupe, com o tempo se acostuma – Megan falou.
– Samantha, essas são minhas irmãs. Megan e Bethan.
– Ah! Muito prazer, sou Samantha Marshall.
Rahmiel fez uma pequena reverência, e foi imitada por minhas irmãs. Então vi Leon passando ali por perto e o chamei. Ele veio sorridente.
– Samantha? – ela me olhou. – Esse é o meu marido, Leon Shaw.
Rahmiel o olhou e paralisou com a boca entreaberta como se nunca tivesse visto nada igual.
– Essa é Samantha Marshall – apresentei a Leon.
Leon a cumprimentou, mas a olhava de cenho franzido sem entender o porque daquele olhar estranho que ela lhe lançava.
Depois de um tempo de um silencio incomodo, Zophiel apareceu ali, do nada. Fazendo minhas irmãs arfarem. Ele deu um sorriso de lado para mim, que eu retribui. Então ele cumprimentou a todos.
– Olá, donzelas.
Eu nada disse e minhas irmãs resmungaram coisas sem sentido, ele não pareceu reparar. Então ele se virou para mim.
– Importa-se se eu roubar o seu marido? – ele perguntou.
Rahmiel olhava para nós três sem entender que tipo de relacionamento acontecia ali, o mesmo das minhas irmãs, mas elas olhava Zophiel com mais frequência.
– Claro que não – respondi.
– Obrigado. Shaw, o rei está nos chamando.
Leon logo atravessou nosso grupo e seguiu Zophiel em direção ao lugar onde estava ao rei.
– Deus, tão lindo. Como pode um ser humano ser tão lindo? – Megan comentou.
Eu a olhei intrigada, ela não era de falar essas coisas.
– Megan? – Bethan se surpreendeu.
– Eu disse isso alto, não foi?
Quando ela perguntou isso nos começamos a rir.
– Mas o meu irmão é lindo mesmo... Depois de tanto tempo longe tinha-me esquecido de quão lindo ele pode ser. Uma pena um homem destes estar apaixonado, não é?
Eu a olhei de olhos semicerrados. Minhas irmãs de boca aberta.
– Está dizendo que ele vai se casar de novo? – Megan quis saber.
– Não... Estou dizendo que ele está apaixonado. Casamento e amor não andam sempre juntos.
– Descobriu isso num convento? – Bethan perguntou.
Ela riu.
– Talvez. No convento vê-se muita coisa que não se vê daqui.
Depois de algum tempo conversando ali, de repente as pessoas começaram a dar passagem para alguém. Foi quando me vi diante do rei. Era um homem alto, porem gordo. Tinha um potencial imenso para ser um belo homem, mas desperdiçava isso por sua comodidade. Era de uma cor bonita e olhos verdes. Tinha certa majestade. Seu nome era Cornélius Mitchell. Ele me estendeu a mão e eu sabia exatamente o que ele queria. Que eu dançasse com ele. Respirei fundo, coloquei um sorriso falso no rosto e peguei a mão dele. Eu não podia me recusar a dançar com o rei. Ainda mais em frente a tanta gente.
Ele me puxou em direção ao salão e começamos a dançar. Quando ele colocou a mão na minha cintura eu senti repulsa. A maioria dos homens ao dançar apenas relavam a mão a nossa cintura com delicadeza, ele não, ele praticamente me apertava. Era como se estivesse tirando proveito da situação. As pessoas se afastaram e nos deixaram sozinhos ali. Eu fiz questão de olha-lo nos olhos com superioridade, a qual eu só fingia ter, pois não tinha realmente. Ele dançava bem para um gordo. Mas eu rezava para acabar logo. Quando a musica mudou eu percebi que ele não tinha intensão de parar, mas depois de alguns segundos ele parou abruptamente. Ao olharmos para o lado nos deparamos com Zophiel. Ele tinha a cartola numa mão e bengala em outra e nos olhava com um sorriso.
– Quer ficar com a menina só para si? Não seja egoísta – Zophiel falou.
O rei sorriu para Zophiel, como se ele fosse um irmão.
– Me desculpe, não percebi que a música mudou – o rei comentou.
Mentiroso, pensei. Zophiel o olhou como se não acreditasse em uma palavra. O rei sorriu ainda mais.
– Ok. Não serei egoísta, é toda sua.
Você não sabe o quando, pensei comigo. Logo ri do meu próprio sarcasmo. Como eu era idiota. O rei seguiu em direção a onde estava a rainha. Zophiel ficou de frente para mim, recolocou a cartola, pegou minha mão e colocou a outra mão na minha cintura. A música agora era um pouco mais agitada. As pessoas ameaçaram voltar a dançar, mas quando começamos a dançar todos pararam nos olhando. Zophiel praticamente flutuava pelo salão, assim como naquela vez, e me levava com ele. Era muito raro se dançar sozinho. Eram sempre danças conjuntas a menos que o rei solicitasse uma dança sozinho. Mas essa minha com Zophiel era uma verdadeira raridade. Depois de a música acabar ele segurou firme minha mão e me levou em direção onde Leon estava.
Chegou até ele e fez uma reverência.
– Desculpe, ter tomado assim a sua mulher – ele se aproximou mais de Leon. – Mas se eu não o tivesse feito, o rei não a largaria nunca – ele terminou num cochicho.
Leon só acenou com a cabeça e eu fui para o lado dele. Zophiel atravessou o salão e sumiu. Rahmiel o seguiu na mesma hora.
– Você está bem? – Leon me perguntou.
– Não muito. Ficarei muito melhor depois que formos embora. Não quero que exista a mínima chance de que aquela coisa encoste sua mão nojenta em mim de novo.
– Está falando de quem?
– Do rei, de quem mais?
– E o Marshall? – ele quis saber.
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