Sob as Árvores
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Acordou com a nuca queimando. Havia amanhecido, e, sem as sombras das árvores para protegê-lo, era queimado pelo sol. Sua cabeça doía, seus pés doíam, suas costas doíam. Seus braços haviam sido tão atacados por mosquitos que uma crosta vermelha havia se formado. Algumas picadas sangravam. Seus lábios estavam secos e rachados. Uma sombra pairou em cima de sua cabeça e ele olhou para cima. Um grande pássaro negro voava em círculos, até que pousou na árvore solitária que havia sido Lucas na noite anterior. Era um urubu. Observava-o, salivando, esperando sua morte.
Atrás do urubu, entre duas árvores e escondidos por grandes folhas, Silvério pôde ver dois olhos observando-o, na altura de uma pessoa. Recebeu uma descarga de adrenalina e se levantou num salto. Era uma pessoa, tinha certeza. Não estava alucinando, podia ver claramente que era uma pessoa. Ei! – gritou. Instantanemente, os olhos sumiram, e as folhas ao redor se agitaram. A pessoa estava fugindo. Volte aqui, me ajude!
Silvério juntou o resto de forças que tinha e desatou a correr. Saiu da clareira em direção à floresta, onde tinha visto os olhos. Tropeçou diversas vezes, cortando as mãos e rasgando as calças. Mas podia ver um vulto correndo à sua frente. Volte aqui! Estou perdido! Galhos baixos e finos cortavam seu rosto, que sangrava e ardia. Sua orelha ficou presa em uma espécie de planta repleta de espinhos. Mas ele não se importava, queria se salvar, queria ser encontrado. Queria Lucas de volta. Puxou a cabeça, presa à planta com seus espinhos encravados em sua orelha, que rasgou. Enquanto corria, pôs a mão na orelha estraçalhada pelos espinhos, que sangrava profusamente, tentando em vão estancar o sangue. Corria, corria e corria, até quase não ter mais forças nas pernas. Sua orelha continuava a sangrar e havia estatelado o joelho em uma pedra, numa de suas quedas. Agora corria mancando, uma mão na orelha e outra no joelho (como numa música de Axé), e o vulto, em sua forma humana, agora estava parado logo ali na frente, esperando por ele. "Venha até aqui", quase pôde escutar. E foi, foi até ele. Como um morto segue a luz que lhe chama. Agora o caminho era livre, como uma trilha. Não havia mais plantas por todo o lado, bloqueando o caminho, havia um pequeno corredor com apenas folhas no chão.
Não tirava o vulto de vista, com medo que sumisse, e dessa forma não olhava onde pisava, então acabou pisando num monte de folhas acumuladas artificialmente, seu pé afundando e caindo num buraco de cerca de um metro e meio de profundidade. Caiu de costas, olhando para o céu. Tinha torcido o tornozelo e quebrado um pulso na queda, mas não sentia a dor. A única dor que sentia era em seu estômago, como se algo tivesse explodido lá dentro. Pôs a mão na barriga e sentiu algo duro e comprido saindo de lá, um Alien. Olhou aterrorizado para a estaca de madeira ensanguentada que perfurara seu corpo. Tinha cerca de 5 centímetros de diâmetro e a ponta extremamente afiada, perfeitamente talhada. Estava vermelha, tingida de seu sangue, e partia de seu umbigo. Deixou a mão que segurava a estaca cair em cima de sua perna. Foi quando sentiu uma pequena protuberância em seu bolso. Enfiou a mão lá dentro e retirou o cigarro amassado e úmido que havia colocado ali naquela noite – há quanto tempo havia sido aquilo? Estava morrendo, mas ao menos haviam lhe concedido um último cigarro. Colocou o cigarro torto na boca, sentindo seu gosto acre e prazeroso nos lábios. Pôs a mão no bolso para pegar o isqueiro, mas lembrou que o havia perdido. Então chorou, chorou em desespero, deixando o cigarro cair em sua poça de sangue. Seus soluços eram tão intensos que faziam seu corpo balançar, a estaca mexendo em suas entranhas, rasgando sua carne.
Escutou passos se aproximarem lentamente. Era a onça? Sombras então apareceram na margem do buraco onde ele agonizava. Agora, quando soluçava, saíam bolhas de sangue de sua boca. Eram pessoas, podia ver, tinham formas humanas. Estavam contra a luz e ele não conseguia enxergá-las. Mas uma das sombras deu um passo a frente, e, com sua vista acostumando-se à iluminação, pôde distinguí-la.
Era Lucas. Não podia acreditar. Lucas estava ali. Chegara bem a tempo, para salvá-lo. Estava salvo! Mas Lucas não se movia, permanecia ali, parado, observando-o. Havia alguma coisa estranha em seu rosto, mas não sabia o que era. Tentou falar alguma coisa. Eu me perdi, por favor, ajude-me. Perdoa-me. Mas não podia falar, estava engasgado em sangue e saliva. Então percebeu o que havia estranho no rosto de Lucas. Era o buraco em sua boca, onde lhe havia arrancado o dente com um murro. Estava ali, diante de seus olhos, o espaço preto e vazio. A boca dele estava aberta, de surpresa. Não, não era surpresa, era algo mais. Ele estava chorando. Sim, estava chorando por ele, estava morrendo e Lucas chorava sua morte. Não, não era isso. Ele não estava chorando.
Estava sorrindo.
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