Sob as Árvores
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Não sabia há quanto tempo estava escondido da onça, e agora tinha certeza que era imaginária, quando ouviu um barulho nos seus pés. Completamente imóvel, baixou os olhos lentamente, enquanto fazia preces silenciosas para que não fosse uma cobra. Que não seja uma cobra. Que não seja uma cobra. Que não seja uma cobra. Era um rato enorme, nojento, com o nariz pontudo e a cara branca. Teria gritado de horror, mas o alívio era grande demais. Não era uma cobra. Nem ao menos sabia que tinha ratos na floresta. E o rato carregava alguma coisa amarela na boca. Uma fruta. Uma fruta! Instantaneamente sua fome despertou, com um roncado enorme na barriga (se a onça estava ali perto, com certeza agora ela tinha se assustado e fugido com o barulho). Saiu de seu esconderijo e procurou na direção de onde o rato tinha vindo. Olhou o chão ao redor, as árvores, nada. Onde estava aquela maldita árvore com frutas? Mais na frente, perto de uma palmeira gigante de uns 15 metros de altura, 4 ratos se amontoavam num cacho de frutas redondas e amarelas. Silvério pegou um galho comprido de ávore caído ao seu lado e o bateu no chão próximo aos ratos, gritando CHISPA! para enxotá-los. Os pobres coitados olharam para ele assustados, com os olhos arregalados, sem ter ideia de que bicho era aquele que agitava um pedaço de madeira e gritava "chispa", e rapidamente correram mata adentro, desaparecendo atrás de um arbusto, abandonando suas preciosas frutinhas.
Nunca tinha ficado tão feliz em ver uma fruta na sua vida. Já podia sentir o cheiro adocicado daquelas bolinhas amarelas. Não sabia o que era, mas tinha certeza que seria saborosa. E se os ratos estavam comendo, ele também poderia comer, não era venenosa. E, mesmo antes de prová-la, enquanto se curvava para apanhá-las, declarou aquelas frutinhas como sua nova fruta favorita (não que tivesse uma antes). Quando voltasse para casa, ou para o acampamento, quando Lucas o achasse, o perguntaria que fruta era aquela. Tinha certeza que ele saberia. Além de viver comendo todo tipo de frutas, Lucas conhecia aquela região, com sua culinária exótica e frutas esquisitas. Lembrou-se de uma vez que havia brigado com Lucas por conta de um abacaxi.
— Você vai comer feijão com abacaxi ? – Perguntou Silvério. Começava a lhe irritar profundamente alguns hábitos de Lucas. Um deles era enfiar uma fruta em toda refeição.
— Vou. Algum problema? – respondeu, enquanto dava uma garfada que continha um pedacinho de abacaxi, arroz, feijão e um pedaço de carne.
— Não – disse enquanto revirava os olhos. Sabia que Lucas tinha visto, mas decidira ignorar ou fingir que não tinha visto. Isso também era uma coisa que lhe irritava. Por que ele não ficava bravo? Por que ele não gritava? Se fosse o contrário, se Lucas tivesse revirado os olhos pra ele, teria levantado da cadeira num pulo, derrubando-a, batido as duas mãos na mesa, fazendo os pratos saltarem, e gritado POR QUE VOCE REVIROU OS OLHOS PARA MIM, SEU MERDA? Mas, se tivesse feito isso, Lucas provavelmente teria arregalado os olhos brevemente, suspirado, recolhido seu prato e talheres e ido comer calado no quarto. Mais tarde, o veria com os olhos úmidos e avermelhados – tinha chorado – e bateria um terrível peso em sua consciência por ter se exaltado e gritado com aquela criatura tão frágil e doce. Pediria desculpas – por favor, por favor, Lucas, me perdoa – enquanto beija seu pescoço suavemente, e acariciaria seus cabelos macios e brilhosos. Sussuraria em seu ouvido "eu te amo", e Lucas beijaria sua boca, o gosto de abacaxi ainda presente, e Silvério lembraria da porra daquele abacaxi com feijão, e então puxaria os cabelos de Lucas com uma mão, afastando sua boca de seu rosto, enquanto a outra empurraria a cabeça dele para baixo, e ali mesmo, no canto da sala, fariam sexo, ele em pé e Lucas de joelhos.
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