Sentia fome, sede e o calor só aumentava. Meio-dia, pensou. Ou 3 da tarde. Perguntava-se quanto tempo aguentaria sem comer nem beber água. Lucas saberia dizer, com certeza. Sentia falta de Lucas. Arrependia-se de ter deixado a fogueira na noite anterior. Sentia-se seguro ao lado dele, como se sua sabedoria sobre animais venenosos e insetos pudesse afastá-los e mantê-los longe. Ali, sentado ao lado de Lucas, iluminados apenas pela chama crepitante da fogueira, tinha certeza que nenhuma cobra agarraria seu pé.
Olhou pra cima, tentando ver a posição do Sol. Mas só podia ver as copas das árvores, com suas folhas verdes brilhando com a luz do sol que pairava em algum lugar ali em cima. Por favor, que me encontrem antes de anoitecer. Que me encontrem. Naquele momento, um pânico que jamais sentira até então subiu em suas entranhas. Eu não deveria ter saído do lugar. Eu não deveria ter andado horas e horas. Quilômetros? Estavam numa floresta enorme, no meio do nada, sem sinal de celular, sem internet e sem GPS. E ele só havia dificultado sua busca. Puta merda, pensou. Pensou se deveria ficar ali mesmo onde estava, esperando alguém achá-lo ou se já era tarde demais, quando viu um movimento atrás de umas samambaias (era a única planta que sabia dizer o nome). Era algum bicho grande, movia várias plantas enquanto andava. O que poderia ser? Pensou. Uma onça? Tinha onças ali? Começou a andar com cuidado, tentando não fazer barulho, procurando alguma árvore que conseguisse subir. Mas as árvores eram muito altas, com galhos que ele não alcançava. Troncos tão largos que seria necessário umas 10 pessoas de mãos dadas e com os braços abertos para envolvê-los. Começou a correr, foda-se, que essa onça filha de uma puta me mate. Correu com os braços na frente do corpo – Lucas havia lhe ensinado a fazer isso quando andasse em uma floresta densa, para tirar teias de aranha que pendiam entre as árvores (melhor na sua mão que na sua cara), desviando de árvores e de grandes arbustos que impediam a passagem. Chegou então em uma grande árvore de onde pendiam cipós e plantas de um dos seus galhos até o chão (ou a planta ia do chão até o galho?), fazendo uma espécie de abrigo e esconderijo. Silvério se escondeu ali embaixo, ignorando todas as possibilidades de insetos que poderiam estar se escondendo também, até se certificar de que a onça havia ido embora.

Então ali, cansado, com fome e com sede, se escondendo de uma onça que podia ou não existir, temendo aranhas e serpentes rastejantes, agachado na base de uma árvore e coberto por trepadeiras (trepadeira, exatamente como seu melhor amigo costumava lhe apelidar), Silvério refletiu sobre sua vida, sobre suas más escolhas e decisões que o levaram até ali, aparentemente o fim de sua vida.

Havia conhecido Lucas há três anos, num café, após terem trocado algumas mensagens por um aplicativo de celular destinado a encontros casuais. Silvério não era de tomar café, muito menos conversar, e aquela era a primeira vez que ele marcava um encontro que não fosse em um motel. Por que não? Pensou. Chegou atrasado, como sempre, e Lucas já estava lá sentado em uma mesa num canto, com sua pose de intelectual, lendo alguma coisa no celular enquanto tomava um café – ele já havia feito o pedido, que ousadia. Aquele era o tipo de garoto preferido de Silvério. Cara de nerd, inocente e tímido, mas que certamente era um puto na cama. Tinha certeza que não demoraria a seduzí-lo e levá-lo para o motel (ou para o carro). Mas claro que ele estava errado. E Lucas tinha uma incrível capacidade de mostrar que ele estava sempre errado. Lucas não se deixou seduzir facilmente e, quando menos esperava, Silvério estava apaixonado, uma coisa que nunca achou que fosse possível acontecer. "A nossa trepadeira se apaixonou!", gritaram seus amigos quando souberam do ocorrido. Meses depois, os dois estavam namorando. Um ano depois, Silvério estava traindo Lucas.