Sob a Superfície
1 Sob a Superfície (capítulo único)
Escorpião voltou o rosto ligeiramente para o lado de forma a fitar o rapaz que o acompanhava, uma sensação engraçada no estômago.
Na verdade, não era como se fosse uma sensação nova ou desconhecida. Tinha plena ciência do efeito que Peixes sempre provocava em si. Era uma espécie de encanto manso que contrastava com a intensidade de suas emoções habituais, como o canto suave de uma sereia que atrai incautos para o fim.
Fim…
Não conseguia pensar em finais com ele ali, deitado a seu lado enquanto encaravam o infinito que se descortinava acima deles, o céu noturno tão coalhado de estrelas que parecia tentar compensar através delas a ausência de luar em noite de Lua nova. Entretanto, havia uma melancolia nos olhos azul-mar que nem o sorriso doce do pisciano era capaz de disfarçar.
— Hum… preciso pensar no que vou pedir às estrelas cadentes quando aparecerem. Pena que ainda não conseguimos ver nenhuma… — A voz de Peixes parecia calculadamente suave, como se o menor estivesse tentando ao máximo manter a conversa em um campo seguro.
— Normal… — O escorpiano, ciente da manobra, preferiu embarcar… por enquanto — Ainda não é o pico da chuva de meteoros e, mesmo no pico, dá pra ver alguns por hora, só. O jeito é ter paciência e sorte…
— Hum… — Um ou dois minutos de silêncio — Eu trouxe chocolate quente e café…
— Valeu…
Por mais alguns minutos os dois permaneceram em um silêncio quebrado vez ou outra apenas pelo abrir e fechar de garrafas térmicas e pelo suave assoprar em suas respectivas bebidas — Escorpião e seu café forte, sem açúcar, como o pisciano sabia que ele preferia; e Peixes com seu chocolate quente suave aromatizado com um toque de baunilha.
Peixes parecia absorto demais em seu chocolate para alguém geralmente com a cabeça nas nuvens. Escorpião permitiu que um ligeiro sorriso, amargo por si só e não pelo café, tingisse seus lábios.
— Eu não julgo você.
Peixes pestanejou algumas vezes como se despertasse de um devaneio muito profundo e precisasse se localizar em meio à realidade que o abraçava impiedosa. Relanceou em direção a Escorpião, o olhar assustado, antes de baixar novamente a cabeça, encolhendo-se.
— Não… não sei o que quer dizer.
— Você sabe. Você se lembra.
Peixes mordeu o lábio, uma emoção indefinível tomando suas feições. Medo, vergonha, frustração…? Eram expressões que se mesclavam de forma confusa e não pareciam se encaixar tão bem àquele rosto normalmente doce e alegre.
— Não sei se vai querer continuar sendo meu amigo depois de ver… de ouvir… — Ah, aquela voz de “fim” na voz do menor trazia uma certa resignação… pelo que o escorpiano, podia perceber, ele não se sentia mais digno de sua proximidade.
Escorpião suspirou e tornou a se deitar no gramado, fitando o céu estrelado.
— Na verdade, eu não fiquei surpreso.
Sentiu o olhar de Peixes sobre si, mas se conteve e permaneceu olhando as estrelas.
— Não estou brincando ou posando de sabe-tudo — Prosseguiu o escorpiano — É parte da água. É parte da minha natureza, da nossa natureza. Você nunca seria uma poça rasa, Peixes.
— … Devo assumir que você me considerava raso? — O murmúrio de alguém que parecia querer se sentir ofendido, sem sucesso.
— Você deve assumir que eu sempre soube que você não era — Corrigiu o maior.
Ouviu um ligeiro farfalhar da grama, indicando que Peixes havia se aproximado um pouco mais e se deitado também.
— Eu devia saber que você não ia ter medo do outro…
— Na verdade, quem mais tem medo dele é você mesmo — Retorquiu Escorpião — E não deveria. Talvez as coisas fossem mais fáceis se você simplesmente admitisse que esse “outro” é apenas uma parte de você mesmo.
— Um cara que sai assediando e falando absurdos? — A voz de Peixes tremia ligeiramente, não muito habituada a manifestar indignação — Eu não sou assim!
— Prefiro dizer que é um cara que não consegue ainda lidar com os desejos naturais que tem e por isso acaba se descontrolando quando a porta se abre um pouquinho. Mas, uma vez que aceite a natureza intensa que tenta esconder, isso deve se acalmar.
— Eu não sou como você! — Escorpião percebeu a nota ácida inédita na voz do pisciano e seu sorriso aumentou um pouco mais; não era o tom de alguém com raiva, mas sim de alguém que tinha medo de se ofuscar com a luz depois de passar muito tempo no escuro.
— Somos água. Água é sentimento. Eu me pegava pensando, às vezes, em como podíamos ser do mesmo elemento se somos tão diferentes entre nós. Com o tempo, penso ter encontrado algumas respostas. Bem, talvez eu esteja querendo enxergar coisa demais no que simplesmente é, mas já me conformo com a minha própria natureza.
“Veja, Câncer para mim é um rio. Faz sentido quando penso nele. Ele é nosso cardinal, não é? O rio nutre a terra e não é tão pacífico quanto aparenta… ele tem suas corredeiras e quedas d’água, e é útil.”
— É uma comparação curiosa.
— Uhum. Bom, às vezes eu penso nele como um manguezal também. Ou talvez eu esteja pensando nos caranguejos. Enfim. E quando paro pra pensar em mim… — Escorpião morde ligeiramente o lábio — Eu sou um poço.
— Isso me soa muito injusto!
— Uma lagoa no pântano, então? — Uma risadinha sarcástica do escorpiano — Sou água fixa, água parada. Lodosa, escura. Olhe de fora para dentro de mim e não enxergará nada, mergulhe em mim e irá sufocar. Essa é a minha natureza.
— Uma lagoa no pântano também tem vida… — Murmurou o pisciano.
— Ah, tem, e muita vida. Mas não é todo mundo que consegue apreciar. Pra isso, você precisa calçar botas e roupas de proteção, não ter nojo e nem medo de afundar na lama. Não é todo mundo que está disposto a esse tipo de esforço, e não acho isso ruim. Que venham apenas os dignos, os corajosos e verdadeiramente interessados no que tenho a oferecer.
— E-eu… er…
Escorpião queria tanto ver a expressão do pisciano! Mas aquela conversa lhe parecia mais importante.
— E você é o mar. Clichê dos clichês, né, já que relacionam Netuno a Peixes. E talvez por isso mesmo eu não me surpreenda com a sua natureza. Você é mais vasto e profundo que qualquer um de nós — Escorpião suspirou — As pessoas olham pra você e enxergam aquelas piscinas esverdeadas que se formam em algumas praias quando as ondas mansas levam a água até lá e elas não conseguem voltar, e as crianças podem brincar tranquilas. Só que… só que isso é só uma parte mínima do que você é.
“Quando você olha de cima pro mar, também vê o azul escuro que marca os lugares mais fundos. E, olhando de fora, não dá pra notar as correntes intensas que passam por baixo da superfície que parece tranquila, mas pode arrastar algum idiota que se aventure na água sem saber. E aquelas ondas mansinhas que lambem o pé da gente às vezes viram tsunamis que varrem tudo o que encontram.”
Peixes pareceu perder o fôlego ao ouvir o devaneio do escorpiano, que não parou por ali:
— E a vida que existe em você? O mar guarda siris, lagostas, algas, corais e peixinhos coloridos… e também baleias, tubarões, focas, pinguins. E, se você consegue mergulhar ainda mais fundo… muito, muito mais fundo que o rio mais fundo ou o poço mais profundo… você encontra criaturas que parecem assustadoras. Criaturas abissais, sabe? Criaturas que ficam escondidas numa escuridão intocável pelo Sol. Mas eu não consigo chamar esses seres de “monstros”. Eles aprenderam a sobreviver sem a luz que vem de fora, nem que fosse criando luz eles mesmos.
Escorpião se virou lentamente na grama para fitá-lo, sério. Peixes trazia os olhos marejados — e era aquela a palavra, água salgada que transbordava das profundezas de sua alma assustada com a própria imensidão… e com o fato de existir, enfim, alguém capaz de lê-la com tal acurácia.
— Eu imagino que seja assustador, mesmo — O olhar âmbar não se desviava de Peixes — Muita gente tem medo da imensidão do mar. No meu caso, eu meio que me fascino. É como se eu encontrasse algo maior em que me perder quando tudo acabar. E o fim já não parece uma coisa tão desagradável quando é com você.
Peixes engoliu em seco.
— E-Escorpião… eu…
— Só quero que seja você, em toda a sua grandeza e profundidade… — Escorpião levou uma mão aos cabelos azul-esverdeados do outro, que estremeceu ao perceber sua intenção — Eu não tenho medo da verdade, Peixes. Nua e crua como seja, é você, e isso é tudo que me basta.
Delicadamente soltou os cabelos do pisciano, observando os orbes azul-piscina ganharem um tom ligeiramente mais âmbar. Não havia percebido com clareza aquela nuance no primeiro encontro entre eles, mas agora conseguia reconhecer vagamente o seu próprio olhar.
Talvez viesse daqueles olhos a sensação de familiaridade que sempre tinha com Peixes, mesmo que tão diferentes aos olhares dos demais.
Sorriu.
— Eu não tenho medo do desejo que você carrega.
— Eu sei — A voz do pisciano, um pouco mais grave e séria, destoava do cinismo habitual daquele “outro” Peixes — Mas ele tem.
— Então você tem — Tornou Escorpião — Mas não precisa. Não quando eu estou aqui, desejando o seu desejo.
Peixes se aproximou um pouco mais e seus olhos relancearam por um momento em direção aos lábios do escorpiano. Tornou a fitá-lo nos olhos como se estranhasse o fato de Escorpião não ter esboçado qualquer tentativa de fuga.
O escorpiano alisou gentilmente o rosto de Peixes com uma mão enquanto a outra afagava as madeixas agora livres do outro. Ainda sorrindo, aproximou-se, fechando enfim a distância entre os outros e tomando os lábios do pisciano em um beijo suave e repleto em suas certezas. Sentiu o corpo do outro enfim relaxar contra o seu e se aprofundou naquela boca, regozijando-se ao ser correspondido com o desejo ardente que trazia a intensidade e a liberdade das ondas que trespassavam um dique enfim rompido.
Acima deles, uma e outra estrela cadente riscavam o céu, mas já não precisavam fazer qualquer pedido a elas.
Notas finais
Grata por lerem,
Lune Kuruta (18/03/2021)
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