Sob a Máfia
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Jack, como gostaria de ser chamado era semelhante a Jasper. Mesmo percebendo toda a tensão entre Edward e eu, ele não comentou a respeito. Depois que chegamos ao porão, ele seguiu para uma das mesas ajeitando as bolas sobre a mesma, eu sabia que Edward ia aparecer e acabar com tudo em pouco tempo, então ia me culpar de alguma forma ou me chantagear. Era essa parte que eu odiava nele.
–Está com medo? -Levantou o olhar. Me afastei da parede me aproximando da mesa.
–De que?
–Disso tudo, de estar aqui, das coisas lá fora.
Falar sobre o mundo lá fora não me assustava muito. Eu não estava mais pensando em mim, estava pensando nas pessoas que deixei.
–No começo, para uma segunda vez tudo o que você pensa é na sua família. Não necessariamente em você.
Uma ruga se formou em sua testa.
–Comparando agora, eu estou no céu.
–Ele foi ruim com você?
–No começo, eu estava ferrando com a vida dele e Edward é isso. Ele não ia passar a mão na minha cabeça, então você deve saber o que acontece quando uma pessoa é presa pelo inimigo.
–Você se apaixonou pelo cara que te torturou? –Me encarou.
Senti uma pressão em meu estômago, eu não gostava de lembrar desse Edward.
–Pois é. A vida tem dessas coisas.
–Entendo. -Suspirou.
–Podemos não falar de Edward? –Pedi.
–Sim, mas posso fazer uma última pergunta?
Assenti.
–O que vai fazer se sair bem dessa?
–Eu não sei. Ir embora para bem longe talvez, parar na estrada e pedir carona para primeira pessoa que passar. -Sorri.
–Meu carro tem vaga.
–Isso é ótimo.
–Estou falando sério.
Eu sabia. Passamos um longo tempo jogando, bebendo e fumando. Jacob brincou quando ouvimos barulhos de tiro na sala ao lado, os meninos estavam se divertindo. Eu estava me divertindo.
–Quanto tempo pretende ficar?
–Alguns dias, Edward precisa me dar o que fazer.
E pelo que podia ver, Edward não demoraria a lhe dar algo. Jack venceu, eu gostei dele por ele não me deixar ganhar. Passamos mais meia hora conversando e rindo, ele era engraçado, não parecia viver sob pressão, era como se não houvesse a nuvem negra rondando sua cabeça.
Estavam todos na sala quando voltamos ao primeiro andar, Edward não estava, mas Jasper me lançou um olhar estranho, pela primeira vez era aquele olhar como se eu tivesse feito algo de errado o que eu não me lembrava de ter feito. Me sentei a seu lado quando Jack e eu nos separamos, ele estava agora se juntando a mesa de pôquer.
–O que foi? -Perguntei.
–Nada.
–Tem certeza?
Assentiu.
–Não seja um idiota como ele, por favor. -Comentei encarando o chão.
–Não estou sendo.
Fiz menção de me levantar, mas Jasper me puxou de volta para o seu lado passando o braço por meu ombro.
–Ele só está com ciúmes.
–Ele me vê como propriedade.
–Não. É só complicado, Bella. Você não sabe o quanto é.
O encarei.
–Talvez um pouco.
–Certo. Ele me ignorou por um dia e hoje ele resolve que é o momento de termos uma conversa só porque seu amigo está aqui.
–E você fez amizade rápido.
–Cansei de encarar as paredes. Jack é legal. -Sorri.
–Bella, Bella. Você não sabe o quanto tive que aguentar meu irmão hoje.
–Sinto muito. Cada um carrega a cruz que pode suportar.
Jasper sorriu.
–Você tem razão.
–Vou pegar alguma coisa para beber, quer?
–Não, estou bem.
Me soltei de seus braços e segui para cozinha, Edward estava seguindo para a porta que dava para garagem com uma cerveja em mão e as chaves do carro balançando umas nas outras. Ele parou assim que me viu entrar, seus olhos estavam fundos de novo e por longos segundos ele apenas me encarava até minhas pernas ganharem vidas e eu ir em direção ao meu destino, a geladeira.
–Você vai dirigir bêbado? -Perguntei depois me virar e vê-lo ainda ali.
–Você se importa? –Resmungou.
Me apoiei na mesa.
–Pode causar um acidente.
Bufou.
–Iria para o modo mais fácil. -Resmungou. -A morte.
–Você não quer morrer. -Falei.
–Quem quer, Isabella? Sacrifícios são sempre bem vistos.
–Você vai se sacrificar?
Edward fez um bico de desdém soltando o ar preso. Talvez. Bem altruísta isso.
–Vai valer a pena? –Perguntei.
Senti meu coração sendo esmagado.
–Cada segundo. -Me encarou.
Pensei em chamar Jasper, Felix ou qualquer um para ter uma conversa com ele, mas até eu chegar na sala ele já teria deixado a garagem. Seus olhos pareciam pesados, ele apagaria com muita facilidade.
–Aonde vai?
Edward me olhava desconfiado.
–Por quer saber?
–Curiosidade. Vai me dizer?
Negou.
–Por que não? –Insisti.
–Porque você não se importa droga! Por que não vai ficar com os outros e me deixa em paz?
–Se você quisesse ter saído, teria feito quando entrei.
–A cozinha é minha.
Eu quase ri com isso.
–Eu sei.
–Então pronto. Me deixe aqui sozinho.
–Você não ia sair?
–Eu vou. -Me encarou. -Mas isso não é da sua conta.
Respirei fundo.
–Pode ser da minha conta se você me levar.
Havia um brilho em seus olhos.
–Não posso, você pode fugir de novo.
–Eu não vou.
–Promete?
Assenti.
Edward estava agindo como uma criança que pede para a mãe esperar na saída da escola. Ele estava meio fora de orbita a maior parte do tempo. Me afastei da mesa e segui para a porta onde ele estava, tirei gentilmente a cerveja de sua mão e empurrei a porta para sairmos. Edward me encarava como se eu fosse fazer algo imprudente a qualquer momento, mas tudo o que eu queria fazer era manter seus miolos intactos dentro de um carro.
O farol da caminhonete acendeu e seguimos para ele, Edward abriu a porta para mim e senti o seu perfume em todos os lugares quase me deixando tonta. Então deu a volta e se arrastou para o banco do motorista.
–Se quiser, eu posso dirigir.
–Não. -Foi breve.
A porta da garagem se abriu e saímos, apenas árvores por todos os lados me levando a acreditar que estávamos no meio do nada. Edward encarava a sua frente, seguia em linha reta até a primeira curva, estávamos em uma estrada velha e apesar de escuro eu podia ver o trilho do trem ao lado, algum lugar desativado.
Liguei o som, mas ele o desligou ainda sem me encarar.
Fechei os olhos e deixei o som dos grilos encher o espaço vazio, estava quase pegando no sono quando paramos. Quando abri os olhos Edward estava me encarando e escondeu o sorriso.
–Onde estamos? –Perguntei.
–Não sei.
–Não sabe?
Negou pegando a cerveja em minha mão, minhas coxas estavam queimadas pelo gelo do tempo que pressionei as garrafas nela. Edward afagou por alguns segundos então voltou a sua posição.
–Vem sempre aqui?
–Só quando preciso me controlar. –Murmurou.
–E você precisa se controlar hoje?
–Sim. Na verdade, todos os dias.
Suspirei encarando a nossa frente assim como ele. Sua respiração ficou pesada por um segundo e o encarei, seus olhos estavam brilhando.
–Edward? – Ele não me encarou, segurei seu rosto o fazendo me encarar. –Está chorando?
–Não. -Deu de ombros.
Droga!
–Fala comigo.
–Para que? Você ainda me acha um idiota, você não se importa comigo Bella, você não vê a droga do sacrifício que eu faço por você. E mesmo assim, pode ser em vão.
–Você não me mostrou isso no começo.
–Eu estava com raiva de você. Eu ainda estou com muita raiva de você. -Falou entre dentes. -Porque eu queria ser o suficiente para você e eu não sou. Porque eu te machuquei e sei que você não vai esquecer, por Deus, Bella, eu pensei que você tinha morrido. E só de pensar isso ainda me sufoca.
–Eu não morri. -Uma lágrima caiu molhando meu dedo.
–Por que é tão rude comigo? Por que não olha nos meus olhos e falemos a verdade um ao outro?
–Por que você faz essas coisas comigo? Por que nos machucamos? Por que somos tão errados um para o outro? Eu me pergunto isso o tempo todo. E três anos me fizeram mudar, Edward. Me fizeram abrir mão de muita coisa que não me fazia bem.
–Por que eu tinha que me apaixonar por você? -Sussurrou. -Eu tinha planos, e agora não tenho nenhum. Eu só faço coisas erradas, eu não queria nada disso, só uma vida normal, mas isso é tudo o que me apresentaram. Talvez você me amasse se eu tivesse uma vida normal... talvez eu não teria nunca tê-la deixado sair da minha vida. Hoje não seriamos como dois estranhos apontando armas um para o outro. –Me encarou. –Pois é como estamos, Bella. Mesmo assim, eu vou mantê-la comigo porque eu sei que estará segura.
–Eu te amo, e você sabe disso. -Eu queria chorar. -Mas olhe para nós dois, Edward. Desde o começo, o que nós já fizemos, eu não sei quem é o homem por quem me apaixonei, mas ele parece saber tudo sobre mim. Apenas olhe para nós dois.
Edward se afastou me dando as costas. Me afundei no banco e deixei o tempo passar, era melhor. Ele não confiava em mim, e eu tinha medo de confiar nele. Era justo.
******
Entramos na garagem era quase sete da manhã, fui a primeira a deixar o carro, Edward se arrastou atrás de mim e ignorou os olhares na cozinha seguindo em direção a sala. O deixei ir na frente, então eu fui atrás subindo de dois em dois os degraus, nenhum dos dois pregaram os olhos a noite toda então eu apenas me deixei afundar no colchão, cansada mentalmente. Queria sair e dizer a ele que eu o queria do jeito que as coisas estavam, mas eu poderia me arrepender depois. Tínhamos barreiras no caminho, historias e talvez segredos mal resolvidos.
Eu só precisava ouvi-lo, ao mesmo tempo eu o odiava de tal maneira que não conseguia explicar a mim mesma o motivo. Eram quase três da tarde quando acordei, Jasper estava entrando no quarto, ele forçou um sorriso o que me pegou de surpresa.
–O que foi? -Me sentei na cama ajeitando o cabelo.
–Reunião.
Senti meu corpo estalar até o último dedinho do pé e desci da cama.
–Algum problema?
–Carta de alforria.
–Como?
Jasper deixou a porta aberta.
–Você vai saber. – Seguiu na frente.
Felix estava sério, em pé ao lado da porta. Peter, Emmett e mais uns quatro rapazes estavam espalhados pela sala. Edward estava sentando em sua cadeira batendo uma caneta na ponta da mesa e se endireitou quando Jasper e eu entramos na sala.
–Edward. -Felix chamou, mas ele mantinha os olhos na mesa por alguns segundos antes de levantar o olhar completamente.
Cruzei os braços e esperei que alguém dissesse algo.
–Então? -Perguntei.
–Estamos tentando entrar em contato com Aro. –Falou.
O encarei.
–Por quê?
–Você vai voltar para casa, sobre proteção da polícia.
–Como?
Jasper se afastou de mim.
–Vocês vão me mandar de volta para casa? Vai fazer essa merda de novo, Edward? -Gritei.
–Sim, eu vou.
–Isso é algum tipo de plano? Eu vou ter que investigá-los? –Eu queria apenas ouvir um sim.
–Não. Você vai voltar para casa e muito provavelmente eles vão te tirar do país.
–Que merda é essa? –Me afastei.
–Sua liberdade. Sem fugas dessa vez, apenas de volta a seu lar.
Sua voz era cortante e sem emoção. Avancei para sua mesa o socando com todas as minhas forças e vi Emmett me afastar.
–Eu odeio você, Edward. Você é um maldito miserável. –Edward lambeu o canto dos lábios sujo de sangue e me encarou.
–Suas coisas ficarão prontas em breve. Jack irá seguir Peter e Emmett, só estamos esperando um contato de sucesso o que ocorrerá ainda hoje.
–Eu vou acabar com você.
–Você já acabou.
Eu queria colocar para fora aquela sensação de esmagamento. Doía só de pensar que eu não o veria de novo, como três anos atrás. Como três sufocantes anos atrás quando eu pensei que morreria. Ele está fazendo de novo, e para uma segunda vez isso estava doendo duas vezes mais. Porque eu vivi uma droga de ilusão de conseguir dar um jeito nisso no fim.
–É isso a sua diversão? Me tirar da minha vida e depois me jogar de volta a ela? Quebrada?
–Não.
Tentei me soltar, mas Emmett era forte demais para mim.
–Me solte! -Mandei.
–Desculpe, Bella.
–Apenas me solte. -Mandei.
–Ou você para, ou as coisas não vão ficar legais. -Edward me encarou.
Gargalhei.
–O que você vai fazer? O que ainda falta fazer porque você já me machucou física e psicologicamente, seu maldito idiota.
–Você queria sua liberdade, e está tendo.
–O que você tem nessa droga de cabeça, Edward? Você é louco?
–Bella... -Jasper se aproximou.
–Sai de perto de mim, você também Jasper. Seu maldito traidor.
–Estamos tentando fazer as coisas direito para você, para o seu bem.
–Para o meu bem? Minha cabeça está a prêmio. Todos vocês sabem disso, mas eu não sou mais a idiota que seu adorável irmão e chefe teve há três anos. Ele está desistindo agora.
–Cala a boca, Bella.
–Por que não tenta? -O encarei. -Não eram vocês que não confiavam na polícia? Agora vão me jogar a eles. Qual é seus idiotas, eu odeio vocês. Eu odeio você, Edward, é por isso que não demos certo. Na verdade, nunca tentamos porque o que temos é doença, não é amor ou nenhuma dessas porcarias de sentimentos. Eu vejo isso agora, sua mulher é Rose, vocês são tão perfeitos um para o outro, não somos e nunca fomos nada. Depois que eu estiver lá fora as coisas mudam. -Senti a bile em minha garganta. Meus olhos estavam ardendo. – Eu ia tentar...
–Então eu não estou tão errado assim. Saiam! -Edward mandou e Emmett foi o último a deixar a sala dando liberdade aos meus braços.
Toda a vontade de confrontá-lo foi esmagada pelo meu choro alto. Meu corpo tremia a cada fio de pensamento era sufocante. Você não vai vê-lo, ele pertence a ela, ele irá protegê-la, voltamos à estaca zero. Polícia, repórteres, televisão, internet. Acabou a vida mais uma vez, e tudo por culpa dele. De novo. Senti seus braços me envolverem, e me debati para que me soltasse, isso tornava as coisas apenas um pouco pior.
–Shhh. -Sussurrou contra minha orelha. -Por Deus, Bella pare! Essa porcaria está sendo difícil para mim, mas eu não quero....
–Me matar?! Não toque em mim! -Me contorci até perder. -Você... você... -As palavras não saiam.
Isso dói!
–Eu não quero fazer isso, mas eu preciso.
–Eu não quero mais ouvir a sua voz.
–Você está mentindo, nós mentimos o tempo todo. -Seus braços eram como uma jaula.
Eu deixei o grito escapar, alto até minha garganta arranhar.
–Eu odeio você, eu odeio você, eu te odeio. –Gritei. –Eu vou acabar com você. –Eu sabia que isso tudo era fruto da minha frustração. Mas eu precisava me aliviar de alguma maneira.
–Eu mereço.
–Sim, você merece... –Murmurei. -Você está fazendo de novo... Eu sabia que você ia fazer de novo.
–Isso está doendo em mim também, mas eu prefiro mantê-la segura a ser egoísta e tentar mantê-la aqui. Eu quase a perdi, eu não vou fazer isso de novo. Eu não vou deixar isso terminar da pior maneira... porque eu já sei como vai terminar. –Grunhiu. Era como se ele soubesse coisas que eu sabia.
Mas eu não sabia de nada, absolutamente nada.
–Eu sei me defender. -Cravei as unhas em sua cintura. -Eu falei que posso me defender.
Seus lábios pressionaram meu pescoço.
–Eu prefiro perdê-la para sempre a te afundar nisso. Essa vida não é para você.
O soquei nas costas.
–Você não sabe!
–Eu sei droga! -Segurou meu rosto. -Eu já estive aqui antes e sei como termina. Eu não vou fazer isso com você, eu não me importo o quanto me odeia. Você vai embora porque eu não a quero aqui. Eu não quero vê-la fazer isso, eles... eu não quero.
–Por que a Rose pode ficar?!-Meu grito saiu estrangulado. Agora eu parecia uma criança, no ápice do desespero. Porque as coisas lá fora me assustavam.
–Porque ela só tem a mim.
Sufoquei.
–Eu preciso cuidar dela.
–Você... -O empurrei.
Eu não tenho mais nada, porque eu não posso ter mais nada. Outro grito escapou e minhas pernas cederam, eu gostava do chão agora.
–Bella...
–Cala a boca. -Murmurei. -Apenas me deixe em paz. –Minha cabeça estava um passo de explodir.
Meia hora havia se passado, estávamos em silencio desde então quando a porta se abriu novamente. Edward se levantou em um pulo e Felix nos encarava.
–Edward, é melhor você vir aqui. Temos um problema, dos grandes.
Edward me encarou, como se estivesse entre a cruz e a espada, um grito soou e seguimos nosso olhar para a porta. Rose me encarava, pela primeira vez era diferente, era cumplicidade. Mas eu estava absorvendo o que via, depois tentaria entendê-la.
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