Sob a Luz do Sol

4 Um abraço e uma risada no fundo


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– Oi, tudo bem? – Alicia cumprimentou Naomi, que estava observando uns quadros na parede.

– Achei que você nunca ia chegar! – ela disse rindo – Tudo ótimo. Vamos sair? Ali na esquina tem um ponto de bicicleta, e a gente pode pegar uma lá pra você. E até lá você vai na garupa, ok?

Alicia concordou. Elas andaram até a esquina e pegaram uma bicicleta no estande.

– Mas então, senhora mistério, onde a gente tá indo? – Alicia perguntou

– Primeiro a gente vai passar no Davi, meu amigo, que mora no Bloco 4. Depois a gente vai passar no centro pra gente pegar uns lanches, e depois a gente segue pela 2ª. O resto é surpresa.

Alicia não se animou muito, porque sabia que o Bloco A era a Zona Escolar/ Hospitalar. Não parecia muito divertido.

–Tá, e quem é esse Davi?

–Ah, tá. O Davi é um amigo meu, primo torto, sabe? A mãe dele é melhor amiga da minha mãe. As nossas gravidezes foram planejadas, e eu sou duas semanas mais velha que ele.

– Que legal. Quase irmãos então, né?

–Aham. O meu aniversário foi a uns dias atrás, e na quarta é aniversário dele. E você, tem irmãos? – Naomi disse, quase caindo da bicicleta.

– Não, irmãos não. Tenho um primo que é quase irmão, vale? Sei lá, minha mãe não é muito fã de crianças. E lá fora é cada vez mais incomum os casais terem mais de um filho. A média de cada mulher é 0,77 filhos. São muitos impostos.

– Uau. Para ali na frente. A casa dele é a verde.

Então Naomi fez novamente as mesmas coisas que fez na casa de Dora: bateu palmas e gritou o nome da dona de casa, Glória. Uma mulher loira, com vários dreads presos para trás, de olhos claros e um vestido verde abriu a porta.

– Nai, que bom te ver! – A mulher exclamou, abraçando Naomi. – Tudo na paz, querida?

– Tudo na paz, tia.

– Oh, e você é a... Filha do repórter, né? – ela abriu seus braços gordinhos em volta da menina – Seu nome é... Ai, nossa, eu sou péssima com nomes.

– Alicia, prazer em conhecê-la – Ela se apresentou.

–Alicia, é, é isso mesmo. Olha, meu nome é Glória, e sempre que você precisar, eu moro aqui, pode sempre me procurar, ok?

–Muito obrigada – Alicia agradeceu tímida.

–Tia, o Davi tá aí? Eu falei com ele na praça, e a gente vai levar a Alicia pra dar uma volta. – Naomi perguntou sentando-se na mureta do jardim.

–Ah, ele estava lendo um livro ali no quintal de trás. Vou ali chamar ele, vocês querem entrar? Tomar um suco, comer alguma coisinha?

–A gente vai passar no centro e arrumar umas coisinhas de comer. Mas obrigada mesmo assim, tia Glória.

Glória entrou em casa pra chamar Davi, e as duas meninas ficaram sentadas na mureta, encarando e analisando a casa da família. As paredes eram pintadas num verde militar, e tinha janelas enormes abertas para frente, e plantinhas floridas em jardineiras anexadas á janela. A casa era de apenas um andar, e bem simples e pequena.

Sem muito alarde, Davi saiu de casa. Naomi correu para abraça-lo. Cumprimentaram-se com muito afeto, num abraço que durou uns seis ou sete segundos, então Davi começou a fazer cócegas nas costas de Naomi, que riu histericamente no chão. Alicia pensou que eles pareciam bons amigos, sem nenhum constrangimento ou algo assim.

Para sua surpresa, Davi se virou e deu o mesmo abraço nela. O tempo parou por um milésimo de segundo, e apenas a risada de Naomi e o abraço existiram. A energia do abraço fez eriçar todos os pelos do corpo de Alicia. Ele tinha cheiro de brisa na grama, o mesmo cheiro que ela sentira anos atrás numa viagem para um parque no sul da Europa.

–Meu nome é Davi. Muito prazer.

–Alicia. – ela parecia embriagada pelo abraço.

–Mas e aí, Nai? – ele disse se virando pra Naomi, que tentava retomar a respiração – a gente vai levar ela pra aquele lugar que eu sugeri mesmo?

–2A né? – Naomi perguntou montando na bicicleta.

–2A. – ele confirmou

–O que tem na 2A? – Alicia perguntou confusa. Mas eles já tinham começado a pedalar.

Davi

Alicia rapidamente ultrapassou-os.

– Em São Paulo, os carros foram proibidos, só pode pra transporte funerário. Então a gente só pode andar de bicicleta ou transporte público. Daí que eu virei essa mestra das bikes. – ela se explicou.

Eles pedalaram juntos até a praça principal, onde encostaram suas bicicletas no meio fio, e se sentaram. Naomi pediu que Davi e Alicia sentassem enquanto ela buscava uns lanches.

Davi e Alicia ficaram sentados no meio fio, apenas observando as poucas pessoas que passavam por ali. Depois de alguns minutos, Alicia puxou papo:

– Aqui muita gente tem dreadlock né?

–Tem mesmo. É meio que uma das únicas opções. Tranças, dread, corte, e muito de vez enquanto pintura.

– Em São Paulo o que não falta é invenção de cabelo. Alisamento, enrolamento, descoloração, coloração, corte maluco, maluquice pra fazer crescer de novo... O meu mesmo tá alisado, porque de verdade ele é muito volumoso e dá muito trabalho. Mas a cor é essa, loiro natural mesmo.

Davi disfarçou um olhar de julgamento e pensou no próprio cabelo, e como seria alisado. Ele tinha cachos castanhos, finos e abertos que caiam por suas orelhas como os cachinhos de um bebê. De fato, seu cabelo não mudara nada desde seu nascimento, só fora cortado algumas vezes. Se fosse alisado, talvez chegasse aos seus ombros largos. Ele piscou pra afastar o pensamento e assistiu Naomi se aproximando com uma cestinha com uma garrafa de suco de uva, algumas amoras e uma broa de fubá embrulhada em folha de bananeira.

Davi seguiu pela estrada, acompanhado das meninas. Ele reparava nos velhos novos detalhes daquele caminho. O modo como o vento batia nas flores, as sombras baixas das casas e as janelas coloridas das escolas. Tudo como sempre foi. Tudo diferente.