Sob a Luz do Sol

6 O mundo pareceu completo.


Alicia

–Eu realmente não sei se eu posso contar porque ninguém fala muito disso por aqui... – Ela fez uma pausa quando o casal que estava na clareira passou por elas de mãos dadas, em direção a estrada, e acenou com a cabeça, sem sorrir. – Tá, ok, vamos lá. Vou começar do início.

–Eba! Conta logo, conta logo Naomi! – Alicia falava animadamente como se fosse uma criança ávida por uma história antes de dormir.

–Como eu te disse, a minha mãe e a mãe do Davi são muito amigas. A Glória, mãe dele, lembra? – Alicia assentiu – Elas chegaram aqui em Luz do Sol há uns 20 anos, juntas. Não demorou muito pra elas conhecerem os caras que hoje são os maridos. O pai do Davi chama Oceano, e o meu cê já conhece né, Jonas. A Glória e o Oceano se casaram um ano antes da minha mãe com o meu pai, mas elas engravidaram juntas, três anos depois de chegar aqui.

–Que bonitinho!

–Tá, fica quieta e deixa eu terminar. Daí elas engravidaram juntas e nasceu a Diana, minha irmã, e a Hera, irmã do Davi, com algumas semanas de diferença. Dois anos depois eu e o Davi nascemos, em dupla de novo. E quando a gente era criança, a gente vinha muito aqui, na lagoa. Nós quatro brincávamos juntos o tempo todo, mas rolava briguinha sempre, coisa de criança. Normal, nada demais. – Naomi pausou para beber um gole de água.

–É, toda criança tem essas coisas mesmo. – Alicia assentiu com a cabeça.

–Mas aí, um dia a Hera e o Davi brigaram um pouco mais sério por alguma coisa, quando ela tinha onze anos, e a gente tinha nove. E ela veio durante a noite, com umas amigas, a Dia inclusive, pra dançar e nadar um pouco. Naquela noite ela morreu. – Naomi observou o entusiasmo desaparecer da expressão de Alicia – Afogada, foi uma morte horrível. E ela morreu brigada com o Davi, que tinha nove anos. Ele veio atrás dela pra pedir desculpas, e ele achou o corpo antes das meninas. Ele ficou em choque por um tempo, demorou anos pra ele voltar aqui, e aí a gente construiu o santuário dela, que ele visita quase todo dia.

–Meu Deus! Eu nunca ia imaginar isso. Tipo, nunca! – Alicia falava agitada e secando os olhos.

–Meu pai me explicou uma vez que lá fora vocês enterram as pessoas em um lugar só, né?

–A maioria sim, no cemitério. Tem diminuído, mas a maioria ainda é enterrada.

–Aqui não tem isso. Todo mundo que morre tem um santuário. Só que ninguém nunca tinha morrido que nem ela aqui, então foi especialmente chocante. Todo mundo morre de velhice ou de doença. Foi a tragédia.

–E aquele casal lá em cima? Tinha alguma coisa a ver?

–Então, muita gente presta homenagens para ela até hoje. Ela era muito querida, e era a menina mais linda que eu já vi. O cabelo dela tinha os mesmos cachos que o do Davi, e a pele era um pouco mais escura. Mas os olhos eram verdes iguais os da Glória. Mas voltando a pergunta, aqueles dois são o Murilo e o Bruno, padrinhos dela. Ela foi a porta-alianças no casamento deles. Eles eram os melhores amigos do Oceano, pai do Davi. E depois do que aconteceu, eles nunca mais conversaram.

–Uou. Será que eu posso ir lá? – Alicia perguntou encabulada.

–Acho que pode.

Ela pegou a garrafa de suco, colocou alguns ramos dentro e começou a subir a trilha.

O primeiro vislumbre da clareira deixou Alicia pasma. O lugar era maravilhoso. Heras haviam crescido por todas as rochas, e flores roxas decoravam todos os cantos. Muitos tocos de velas jaziam pelo chão, e num pequeno altar próximo à rocha, havia uma foto de Hera. Ainda mais bela do que Naomi havia descrito. E muitos vasos, mudas e ramos de flores com cartões e cartas. Algumas envelhecidas pelos anos, outras visivelmente recentes. Uma lápide de pedra sabão dizia apenas:

“Sua graça e pureza pra sempre nos encantarão. Saudades suas sempre permanecerão.

Glória, Oceano e Davi.”

Davi estava sentado no altar, segurando uma foto da família antiga. O pôr do sol refletia no seu rosto e as memórias passavam como um filme em sua cabeça. Quando Alicia sentou-se ao seu lado, e colocou a garrafa de suco com as flores no altar, o mundo subitamente pareceu completo.