Sob a Luz do Sol

8 Esperança Esgotada


Alicia andou sozinha até a Casa 7. A casa não era nem muito grande nem muito espaçosa. Era como um chalezinho alemão. Todas as paredes externas haviam sido pintadas por alunos, e haviam os mais variados desenhos. Iam de listras simples a grafites elaborados, tornando a casa um tanto quanto chamativa. A casa tinha um jardim bem cuidado, mas natural. Nada exuberante como as orquídeas de São Paulo. Ela respirou fundo e bateu na porta.

Um homem abriu. Ele era alto, de pele muito branca e barba ruiva, usava óculos de armação redonda e uma blusa verde de botões, e era bem bonito.

–Oi! Em que posso ajudar? – ele disse gentilmente.

–É... Meu nome é Alicia. É... Eu sou de São Paulo e... – ela disse timidamente.

–Ah! É você! Ontem a Dora me falou que você viria. Meu nome é Guilherme, mas todo mundo só me chama de Guito. Eu sou o professor, muito prazer em te conhecer, Aline.

–Alicia. –ela disse e ele riu e concordou- Obrigada.

–Disponha, A-li-cia. – ele se virou para dentro da casa – Galera, essa aqui é a Alicia, ela vai entrar na nossa turma hoje.

Naomi e Davi se levantaram do enorme banco de alvenaria em que estavam sentados e começaram a gritar por ela. Ela entrou na escola e se surpreendeu com a decoração. Havia uma mesa de madeira enorme que ia de uma ponta a outra da sala, e na parede do fundo havia um quadro de giz simples. Na quina da casa havia uma cozinha conjugada muito parecida com a da casa de Dora, mas maior.

–Bom dia gente! – Alicia disse sentando-se ao lado dos amigos.

–Bom dia, como foi a noite? – Naomi perguntou.

–Foi ótima. Oi, eu sou a Alicia, tudo bem? – ela se apresentou para o menino do seu lado, que ela descobriu se chamar Rudá, e que lhe puxou para um abraço apertado. Os outros alunos também vieram se apresentar para ela.

O professor chamou atenção da turma, de cerca de 20 pessoas, na ponta da mesa.

–Acredito que todos já devem ter se apresentado para a nossa colega nova, Alicia. Alicia, eu vou te falar um pouco sobre como funcionamos. Nas escolas em São Paulo, e isso serve de curiosidade para os alunos daqui, todos são obrigados a estudar todas as matérias, coisas que muitas vezes eles não têm interesse e não vão usar pra nada na vida. Essa turma aqui é chamada de Casa 7, e equivale ao sétimo e ao oitavo ano. A Casa 7 funciona como uma eterna feira de profissões, porque a partir da Casa 8, estuda-se apenas coisas relacionadas a sua futura profissão. E nas Casas anteriores, aprendem-se noções básicas de tudo quanto é coisa, mais ou menos como em São Paulo mesmo. Mas aqui, todos os dias nós temos uma missão, e vocês saem pela comunidade para resolver essa missão com os trabalhadores. Na hora do almoço nós voltamos, almoçamos e resolvemos e discutimos nossas descobertas.

Alicia não entendeu exatamente o que ele quis dizer com missões, mas parecia legal.

Davi

Dadas as explicações sobre a escola, Guito escreveu a missão do dia no quadro.

“Descobrir o que faz o líder de reciclagem nos seguintes aspectos:

Grupo 1: tarefas do dia – a – dia.

Grupo 2: vantagens e desvantagens do cargo.

Grupo 3: função para o funcionamento de Luz do Sol.

Grupo 4: entrevistar os encarregados”

–Vamos lá pessoal, eu quero três grupos de seis pessoas e um grupo de cinco. E a gente já tinha decidido semana passada, os líderes dos grupos, que escolhem os grupos, serão a Lígia, o Gael, o Rudá e a Nara. A Lígia fica com o grupo 1, o Gael com o grupo 2, e assim por diante. – Guito disse no meio da confusão que se instalava na sala para a divisão dos grupos.

Cada líder escolheu seu grupo, sendo que Davi, Alicia e Naomi foram escolhidos por Rudá. No grupo, além dos quatro, havia também uma garota ruiva com várias trancinhas chamada Tulipa, e um garoto alto chamado Heitor.

Todos os grupos deixaram a sala ao mesmo tempo. Naomi pulou em sua bicicleta e disparou à frente do grupo. Alicia e Davi ficaram por último, pedalando calmamente.

–Zona de Reciclagem fica em qual bloco mesmo? C? – Alicia perguntou.

–É. É o bloco oposto ao que estamos, a gente tem que passar pela praça e contornar.

Agora o dia estava mais claro, e Alicia observava as diferentes decorações externas das casas escolares. As que mais lhe chamaram atenção, além da Casa 7, foram a 5, que tinha uma enorme árvore no jardim, com várias crianças empoleiradas, e a Casa 2, que tinha uma horta vertical nos muros da casa.

–Quando eu estava na Casa 5, eu esborrachei no chão tentando subir na figueira, daí botaram essa escadinha aí, pra evitar novos acidentes. – Davi falou, puxando assunto.

–Figueira é a árvore gigantesca?

–Essa mesmo. Meu pai também tem cicatriz de queda dessa árvore.

–Seu pai nasceu aqui em Luz do Sol mesmo? – Alicia perguntou.

–Nasceu, meus avós foram das primeiras famílias a morar aqui. Mas a minha mãe chegou aqui com a Clara, mãe da Naomi, há uns quase 20 anos.

–Aqui parece um lugar muito bom para viver. Uma bolha no tempo, sabe?

–Eu gostaria de conhecer o mundo lá fora. Sabe... Sei lá. Aqui é meio parado, e eu sinto como se eu vivesse numa bolha mesmo, sem conhecer o mundo de verdade.

–Essa é parte boa! – Alicia exclamou, com uma certa raiva no tom de voz.

–Mas não sei... Gostaria de conhecer, pelo menos.

–Não, você não gostaria. Não tem nada que eu goste menos do que viver lá. E você não sabe o que está falando. E você não faz a menor ideia de como está o mundo lá fora. – Ela disse firme, e saiu pedalando na frente.

Ele pedalou mais forte e alcançou-a.

–Olha, desculpa. Eu não sabia que isso ia te ofender. Eu não sei como as coisas funcionam. É só uma curiosidade. Eu gostaria de saber, mas não sei, desculpa!

–Tá, desculpa também. Você não fez por mal. – Alicia freou a bicicleta.

–Ué, parou por quê? – ele freou a bicicleta mais a frente e olhou para trás, vendo Alicia sentada na calçada.

–Você não disse que queria saber? Senta aí! – e apontou para a calçada ao seu lado.

E então ela contou sobre como em São Paulo capital viviam cerca de 4,5 milhões de pessoas, muito menos do que havia a 70, 80 anos atrás, na época que começou o êxodo. Como lá havia pessoas que viviam em condições excepcionais, que comiam banquetes em todas as refeições, e moravam em casarões do tamanho de quarteirões. Também havia pessoas que morriam famintas nas calçadas das ruas. Contou como a cidade ostentava um índice de 27,6 suicídios a cada 100.000 pessoas, um dos 15 mais altos do planeta. Como as chuvas caiam por dois ou três dias no ano, com sorte.

Contou que os governantes tomavam banhos com água, mas apenas eles, e que a minúscula parcela rica em dinheiro da população tomava banhos a seco três vezes por semana, e que a maioria das pessoas se higienizava com lenços artificialmente umedecidos. Contou sobre as punições violentas que qualquer tipo de criminoso recebia, que iam de chicotadas durante um dia inteiro até uma morte extremamente lenta e dolorosa, que ela preferiu não entrar em detalhes. Os dois permaneceram em silêncio por alguns momentos, refletindo sobre tudo aquilo.

–Mas eu acho que a gente deveria encontrar o pessoal na Zona de Reciclagem agora, né? – Alicia disse, levantando-se e montando na bicicleta.

Davi se levantou também, e subitamente puxou o corpo de Alicia junto ao seu, como para pedir desculpas por ter tocado no assunto. Ela não era tão ridícula afinal. Ela conhecia uma realidade horrível. Ela tinha uma esperança esgotada, e ele, de certa forma, também conhecia a sensação de perder a fé no mundo. E embora ele não soubesse disso, no momento daquele abraço, ambos pensavam nos segredos e mistérios que o universo guardava. Por que tudo era daquele jeito? Qual era a razão de viver, de existir, de se desgastar e sofrer tanto e no fim, morrer, simplesmente? Mas então seus corpos se encaixaram em um abraço longo e inexplicável. Ela deitou a cabeça nos ombros dele, e o sol saiu de trás das nuvens.