Notas iniciais
–Você disse que estaria sempre aqui. Mesmo que fosse para nos perturbar ou dar lições de moral. — Ela deixou um sorriso pequeno crescer em seu rosto, sendo ofuscado pelas lágrimas que lavavam a poeira de seu rosto, em trilhas sinuosas. — Mas você quebrou sua promessa.
Permitiu que seu corpo pendesse, batendo com os joelhos da terra fofa. Por mais que quisesse desabar, destruir-se em sua tristeza, manteve-se firme. Não quebraria, não ali, não agora quando, mais do que tudo, os outros ainda precisavam de si. De alguém para guiá-los nesta confusão.
Desceu o olhar até o chão abaixo de si, no caminho notando o quão sujas e ensanguentadas estavam suas roupas, armadura, cabelos e, principalmente, suas mãos. Ela própria havia cavado aquela cova, ela própria fora a responsável pelo enterro dele. Ninguém mais teria este direito. Esfregou as mãos no tecido exposto de sua roupa, notando que mesmo que a terra saísse de seus dedos, o sangue misturava-se à ela. Era um misto, por um lado uma terra escura, cavucada, responsável por abrigar o corpo daqueles que pereceram ali, por outro, seu sangue pisado, misturado ao novo, que lhe escorria da ponta dos dedos em carne viva e sem unhas, entrando pelas proteções de metal em seus antebraços. Vestiu suas manoplas, sentindo o aço arder sua carne, querendo esconder o machucado evidente. Ninguém mais precisava ver sua fraqueza.
O vento então soprou, acariciando seu rosto e embaraçando seus cabelos sujos e soltos. Ele parecia condoer-se com sua situação, por mais que se mantivesse ausente o suficiente para que fosse apenas um toque de conforto, não um apoio para sua mente e corpo desgastados.
–Você não tinha esse direito. Você deveria honrar sua palavra de cavaleiro. — Ela ainda murmurou, acariciando a terra fofa como se fosse seu rosto, no entanto, preferia resguardar-se da visão final de seu cadáver incompleto, sujo pelo sangue e destruído pela batalha. Preferia manter a imagem de uma época melhor, de uma situação melhor. Preferia lembrar-se do sorriso de canto e olhos brilhantes. A garota terminou de se abaixar sobre a cova coberta de terra, apoiando sua testa em suas mãos doídas — talvez a única coisa que ainda a acorrentava à realidade fosse sua dor — e fazendo uma breve oração à Ernasis.
Era verdade o que falavam, afinal: As pessoas, quando morrem, parecem santas de alguma maneira, de sua própria maneira. Porque se esquece todas as situações ruins que a envolveram. Mas ela acreditava que ele era diferente: Ele era perfeito porque era humano. Porque tinha defeitos. Porque só conseguia fazer as coisas erradas e que, mesmo assim, era o exemplo, o herói, para muitos ali.
Até mesmo para ela, secretamente.
Ergueu-se por fim, botando-se de pé sobre as pernas bambas, e caminhou até a arma despojada, logo depois voltando até a cova e a depositando como fosse uma lápide para àquele que agora residia ali. Era tão irônico imaginar que justo ele iria muito antes de tantos ali. Justo ele que se vangloriava de sua imortalidade. A Highlander reluziu breve sobre o raiar da aurora, mesma luz que fez os cabelos vermelhos reluzirem ainda mais carmesins, como uma labareda indomável.
–Como líder da Grand Chase, Ercnard Sieghart, farei com que seu nome seja para sempre lembrado na história, porque há mais de um jeito de ser imortalizado e, tenho certeza, esse seria seu pedido final em vida. — Murmurou em uma voz baixa, porém firme como só ela conseguia. — Como sua companheira de batalha e parente... — Ela tomou fôlego, os olhos vermelhos fixos na espada altiva. — Eu não te dei a permissão de partir. Nem o direito de nos deixar. Você sabe que eu não tenho mais ninguém... Que você era a última coisa que eu poderia verdadeiramente chamar de família, sangue do meu sangue. Como você pode? Como o grande guerreiro perdeu para um guri daqueles? — Ela descontava seu olhar triste, por outro lado raivoso, sobre a arma, pois sabia que ela era tão parte dele quanto o corpo que estava para apodrecer sob seus pés.
Deu um passo para trás então, afastando-se do lugar de eterno descanso do, então dito, imortal, limpando as lágrimas com a mão coberta pela manopla e fungando, e enquanto se afastava, com a aurora raiando a sua frente e o resto daqueles que foram um dia sua enorme equipe — agora desfalcada — a seguindo, mesmo que doloridos, desacreditados, derrotados e erguendo-se de uma maneira automática, pois acima de tudo juraram fidelidade à líder e à dimensão que visavam proteger, Elesis fez um último juramento ao horizonte: Ela destruiria aquele responsável pela morte de seu time. Pela morte de Sieghart, principalmente. E assim deixou para trás as covas, a espada altiva e a conversa não terminada.
Não era direito de ninguém destruir o sonho de uma pessoa, quem dirá de várias... Não era justo destruírem o último herói que existia, deixando aquele fardo para si. Ela não queria ser imortal. Não queria ser imortalizada pela história ou por um Deus. Mas faria tudo isso se fosse preciso para ter todos aqueles que partiram de volta.
Veigas. Esse foi o nome que lhe surgiu na mente, claro sobre os pensamentos melancólicos ou a sensação de destruição completa. Acima do juramento para o horizonte, seu futuro, ou mesmo a promessa de manter o mundo seguro, ela colocou o peso sobre si mesma. — Eu juro por minha existência, Elesis Sieghart, que vou destruir até a última molécula em seu corpo. — A voz saiu em um sussurro, que, rapidamente, foi levado pelo vento.
E ela estufou o peito, notando que teria que ser forte por ela e por todos os outros, e os guiou para mais uma etapa de suas vidas, mais um oferecer completo de seus seres. A batalha estava perdida, mas eles ganhariam a guerra.
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