Sob a Luz da Lua - Ernesto e Ema
1 Uma conversa
Ernesto chegou do bar tarde aquela noite e pela primeira vez não teve o ímpeto de logo subir para o seu quarto. Seus pensamentos estavam acelerados e a lua estava linda. Sentou-se num dos degraus da escada do cortiço, a boina brincando nas mãos. Suspirou. Viajando em pensamentos. Não tinha arrependimentos, não. Nenhum. De nenhuma forma. Era um homem feliz. Mas, não era um homem egoísta. E esse 'não-egoísmo' vez ou outra o fazia divagar. Perdeu-se na linha torpe de seus pensamentos.
A noite estava muito silenciosa, mas tal era sua concentração que ele não ouviu o ranger de uma porta ser aberta, nem os passos leves descer as escadas. Onde estava com a cabeça que não sentiu alguém sentar-se um degrau a cima do que ele estava? Um vento perpassou frio por ele e trouxe aquele cheiro doce tão familiar que sempre aquecia seu coração. Mas, ele só se deu conta que realmente não estava sozinho quando sentiu a mão pequena tocar seu ombro.
O pequeno susto, o alívio e em seguida uma plena satisfação, tudo num segundo. Ah, os sentimentos...
— Está tarde. — disse, ainda sem se virar. — Achei que já estivesse dormindo!
A sentiu sorrir. Esperou que ela dissesse algo, mas nada veio. Então virou-se. E...
Meu Deus! Pensou. Não cansava de admira-lá. Como era linda! Aqueles delicados cachos delineando seu rosto alvo, as bochechas coradas — agora mais corada que o normal -, os lábios dela era sua perdição, tão doce quanto seu cheiro, e os olhos que sempre tinham um brilho especial.
— O que? — perguntou a ela, sorrindo com a visão onde percebeu que ela lutava com as palavras.
—E-eu... — ela tentou, a voz baixa. — Não consigo. — ela corou ainda mais, um sorriso um tanto travesso querendo escapar de seus lábios, enquanto ela tentava prendê-lo quase desesperadamente.
— Não consegue o que?
— Dormir... Deitar. — corrigiu-se, como para se abrandar seu encabulamento. Entregou-se por fim e sorriu. — Sem que esteja ao meu lado.
Ele alçou uma de suas sobrancelhas, meio surpreso, meio debochado.
— Ora pois não se envaideça! — ela atalhou, ainda sorrindo. — É apenas uma questão de costume.
Ele sorriu.
— Costume?! — duvidou.
— Sim, costume! — respondeu altiva. — Como o senhor pode ver meu marido, nos acostumamos com tudo nessa vida!
— Hmhum... Admita que senta falta da minha presença!
Ela revirou os olhos.
— Porque eu admito — continuou ele. — Sinto falta da sua e do seu cheiro, o dia todo.
Ela sorriu, como que ao mesmo tempo vencedora e derrotada. Desceu até ele, que a abrigou em seu peito, passando o braço pelos seus ombros, inconsciente que a protegia do frio.
— Por que não subiu logo então? E ficou aqui sozinho divagando sobre qualquer coisa? — perguntou.
Ele não respondeu.
— Como sabia que eu havia chegado?
Ela não respondeu.
Então ele a olhou. As bochechas dela voltara a corar.
— Estava me vigiando? — perguntou ele, sorrindo novamente.
Ema não queria dizer-lhe que todas as noites, perto da hora de sempre, de um em um minuto ia checar a porta para ver se o via surgir pela entrada do cortiço, ou pelo menos, subir as escadas. Ele o fazia sempre tão impetuoso que Ema envaidecia-se querendo muito acreditar que a pressa dele devia-se a ela.
— Estava preocupada! — atalhou. — Demorou mais que o normal hoje!
— Sim, um velho italiano ficou de prosa até mais tarde. — explicou ele. — Tive que leva-lo aos tropeços até o hotel onde estava hospedado.
— Você é muito gentil, senhor Ernesto Pricelli... — disse ela, lhe acarinhando a mandíbula.
— Foi o que velho disse! — envaideceu-se.
— Porém por que lhe serviu tanta bebida então?
Ele estreitou os olhos.
— Ora baronesinha... Quanto mais ele se embriagava, mas nós lucrávamos!
Ela estreitou os olhos também, e afastou-se de seu peito.
— Retiro o que disse! — lhe deu um tapa no ombro. — O senhor é um aproveitador!
Ele sorriu.
— Olha quem fala!
— Eu?! — alarmou-se dramaticamente.
— Sim! Aproveitou-se de mim, baronesinha! Assaltou-me o peito, levou-me o coração!
Ela estagnou o olhando, a respiração suspensa, os olhos instantaneamente enchendo-se d'água.
— O senhor é realmente um tratante! — disse com a voz embargada de emoção.
Ele sorriu novamente. Era assim sua vida, especialmente os momentos ao lado dela. Sorrisos. Sorrisos sinceros.
— Por que meu amor? Estou apenas sendo sincero!
Ela bateu em seu ombro novamente e o beijou. Matando a saudade que sentira. Ema conseguia controlá-la nas exatas quinze horas que passava longe dele. Se o tempo ultrapassasse tal período, a ânsia já lhe saia do controle. Beijá-lo ainda era viciante. E agora que podia fazê-lo livremente estava mal acostumada. Certa vez divagando sobre isso pensou que enjoaria. Pois as vezes se enjoa de uma fruta doce e suculenta, passamos um período sem querer sequer vê-la, para depois volta a ter apetite e desejo por ela. Estava enganada. Ernesto podia ser doce e suculento, mas não enjoara dele, e o tinha sem reservas há pouco mais de um ano. Acreditava que não enjoaria nunca. Porque por mais incrível que pudesse parecer, cada momento com ele era único e cada beijo, principalmente em ocasiões como aquelas, era como se fosse o primeiro. Um gosto já conhecido, claro, mas era como se não sentira a muito tempo, sempre era saudoso, por isso novo e cheio de emoção.
Quando soltaram-se, ela voltou a aconchegar-se ao seu peito.
— Não me disse porque não subiu de pronto. — insistiu ela. Pensando que talvez a saudade dele não era tanto quanto a dela.
O ouviu suspirar.
— Se eu lhe perguntar uma coisa, promete que me responderá com sinceridade? — perguntou a ela enquanto acarinhava o topo de sua cabeça.
— Claro!
Sinceridade era, felizmente, uma parte alta no relacionamento dos dois.
— Você é feliz, Ema?
Ela estranhou. A intensidade da voz na pronuncia de seu nome a alertou.
— O que? — levantou a cabeça para olhá-lo.
— Você é feliz? Aqui? Comigo?
Ela novamente afastou-se dele, para vê-lo melhor. Olhar diretamente em seus olhos, que por causa da noite estavam negros, a luz da lua refletindo neles os tornavam brilhantes, como o mar a noite, tempestuoso.
— É claro! — tentou colocar em sua voz, toda a sinceridade da resposta.
— Tem certeza?
Parece que falhou em lhe passar convicção.
— O que há, Ernesto? — perguntou já preocupada.
— Não é sempre, admito, mas as vezes me pego pensando se realmente você fez a escolha certa!
— Não fale isso, nem por brincadeira! — disse séria, o coração já ameaçando doer. — O que está querendo dizer? Se arrepende?
— Não. Nunca. Não é isso! Eu só... Tenho medo! — ele suspirou. — Eu tenho tudo que sempre quis, Ema. Não vou dizer que não é árduo a jornada de trabalho, mas gosto disso. Tenho a liberdade que sempre quis. Conheço e sei que conhecerei o mundo ainda mais com o passar dos anos. E acima de qualquer coisa tenho você, o que me foi mais difícil de conseguir, no entanto aqui está. Então, eu tenho tudo que sempre quis. Mas, às vezes me pergunto: e você? Sinto que se afastou tanto de sua ideia de vida! Para mim, é muito mais saudável sua realidade agora do que a ideia que você tinha quando a conheci, mas... e para você? Como você se sente em relação a sua realidade? É com isso que me preocupo!
Ema achou a preocupação dele linda e genuína. Dada as circunstâncias e ao que ele conhecia dela. Baixou os olhos e segurou-lhe as mãos.
— Não vou negar que tudo é realmente muito diferente do que eu... sonhava, na época em que nos conhecemos. — ela o olhou, encontrando os olhos dele apreensivo. — Mas, a realidade às vezes é contrastante com os sonhos. E às vezes ela nos força a sonhar diferente. Foi o que aconteceu. Quando a realidade me atingiu, eu tive que mudar de sonhos. Mas, entenda bem, eu mudei de sonhos, não significa que eu deixei de sonhar. — ela passou a explica-se, ante o olhar curioso dele. — De início eram sonhos intrusos, sonhos que vinham e eu odiava tê-los. Porque como você disse, afastava-se muito da minha ideia de vida, ou dos meus antigos sonhos. Mas eram recorrente, e eu sempre era tão feliz neles, acho que por isso eu odiava tanto. Não era aceitável para meu orgulho aquele tipo de sonho. Com o tempo deixou de ser sonho, e assim como os antigos eram, estes passaram a ser necessidades. — Ela suspirou. — Lembra-se do seu desejo de casamento a Camilo e Jane?
Ele sorriu com a lembrança.
— Sim!
— Torpe! — ela xingou sorrindo, balançando a cabeça negativamente. — Ali meus sonhos começaram a ter uma nova cara, um novo padrão. Eu odiava aquilo! — ela bufou . — Você alguma vez na sua vida chegou a me imaginar cuidando de porcos e galinhas? — ele tentou segurar a risada. — Pois acredite é uma visão horrenda, dantesca, realmente apavorador! — ele gargalhou, ainda mais por causa do olhar dela que parecia apavorado e perdido na imagem que ela descrevia.
— Se me permite dizer, também tive que ajustar meus sonhos em relação aos porcos e as galinhas. — disse ele ainda sorrindo. — Seria tão injusto com os pobrezinhos. — ele lhe deu outro tapa no braço e ele tornou a sorrir, ela tentando segurar-se para não acompanhá-lo. — Estou brincando! — disse ele, por fim recuperando-se. — Eu jamais faria isso com você.
Ela enfim sorriu.
— Mas, a casinha, o quintal, as crianças... — ela continuou e suspirou. — Eram... — ela fechou os olhos como se resistindo a admitir. — São... recorrentes.
O coração de Ernesto pulou ao mesmo tempo que aquecia-se. Ela abriu os olhos e viu os dele brilharam, e aquele lindo brilho lhe incentivou a quebra-lhe o resto de seu orgulho e continuar:
— Eu mudei tanto, Ernesto! Nem consigo imaginar o quanto, mas... Meu Deus! — ela parecia se dar conta. — Eu gosto! Essa vida, tão diferente da que eu sempre imaginei desde criança, eu me sinto bem nela. E sinceramente... não sou como Elisabeta, que se alegra porque pode trabalhar e se sustentar, não. Não é por isso. É porque tenho você! Claro que sou muito feliz nas aulas de piano, é o que gosto de fazer, me divirto enquanto ganho meu próprio dinheiro e isso é incrível, mas... sinto que se todas as noites não visse você retornar para casa, não sentisse você me abraçar e dizer que ama... sinto, que eu não seria feliz. Sinto que para mim seria um martírio, e que provavelmente eu já teria voltado para o Vale, que teria me casado com algum "grã-fino" e que eu estaria completamente infeliz agora, divagando sobre meus sonhos, sabendo que nunca poderia alcançá-los. Então sim, carcamano bronco, eu sou muito feliz. Aqui. Com você.
Ele a olhava encantado, e num ímpeto a beijou. De repente a pegou nos braços se pondo de pé!
— Sou o homem mais feliz do mundo, baronesinha! — ele gritou, subindo as escadas.
— Ernesto!! Estão todos dormindo!! — ralhou, embora sorrisse, agarrada ao pescoço dele. Ernesto a rodava e fazia passos de dança enquanto os encaminhavam para o quarto, que agora dividiam.
Ele os largou na cama, lhe acariciando o rosto.
— Que tal começarmos a providenciar as crianças?!
Ela sorriu alto.
— Ora... Pensei que pudesse mostrar-lhe primeiro o novo vestido que comprei! — provocou.
Ele parou de supetão, apoiando-se nos braços o corpo suspenso em cima do dela. Ela prendeu os lábios um no outro em expectativa.
— O que?! — perguntou a ele fingindo inocência, quando não veio mais nenhuma reação. — Mudei meus sonhos, mas continuo a mesma! — sorriu.
— Ba-ro-ne-si-nha! — foi o que disse antes de tornar a beijá-la!
E aquela noite amaram-se como todas as outras. Um amor forte e genuíno, sem pudor ou barreiras. Amaram-se, porque amavam-se. As diferenças só era um afrodisíaco para aquele amor, era a pitada a mais de paixão que os tornavam tão saborosa mistura. Muito teriam que ceder ou reorganizar, mas eles sabiam que sempre o fariam, para se encaixarem, fariam qualquer coisa.
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