Notas iniciais
Oi gente! Fico muito feliz que vocês tenham se interessado pela história, espero que ela possa cumprir (ou ultrapassar) as suas expectativas. Aproveitem a leitura!

A montanha era cruel com aqueles que tentavam atravessá-la. O caminho era estreito e traiçoeiro, mais de uma vez tivemos de descer dos cavalos para ter uma travessia segura. A neve que se acumulava na trilha derretia e deixava o chão escorregadio e cheio de barro. O vento soprava forte e o frio era quase insuportável. A única coisa que deixava a caminhada mais fácil era o sol que brilhava no céu limpo da manhã.

— Em quanto tempo você acha que chegamos a Ebner? — perguntou Arian, meu mestre, olhando descontente para as suas botas sujas de barro em uma de nossas paradas.

— É difícil dizer — disse olhando para o longo caminho que ainda tínhamos que percorrer – As montanhas são imprevisíveis.

Arian suspirou e se deitou sobre a pedra em que estava sentado. Seus longos cabelos brancos se espalharam sobre a superfície cinza e ele fechou os olhos. Ás vezes, quando eu olho para Arian, me pergunto se ele é realmente desse mundo. Arian é a pessoa mais bela que eu já vi na vida. Seu rosto parece ter sido esculpido pelo mais talentoso escultor, seus olhos são do mais puro azul e seus cabelos do mais belo branco, mas a sua beleza não se limita apenas ao exterior. Seu coração e alma tem uma pureza e beleza difícil de encontrar em seres mundanos como os humanos.

Voltei meu olhar para o horizonte. O céu azul se estendia sobre nossas cabeças e ia além de onde a vista alcançava.

Com o canto do olho vi algo que chamou a minha atenção. Levantei-me e usei minha mão para proteger os olhos do sol e então eu vi.

— O que aconteceu? — perguntou Arian notando o meu movimento. Ele havia aberto os olhos e estava novamente sentado sobre a pedra me observando.

— Uma tempestade está vindo — disse apontando para a grande nuvem cinza que se aproximava de onde estávamos — Temos que encontrar abrigo.

— E agora mais essa — disse Arian descontente — Como se as coisas já não estivessem complicadas o suficiente.

Ele se levantou lentamente e foi até o seu cavalo. Arian acariciou ternamente o focinho do animal antes de começar a ajustar a cela. Em pouco tempo estávamos andando de novo. O nosso ritmo era dolorosamente lento, muitas vezes pensei em começar a andar mais rápido, mas era impossível, o caminho era muito perigoso. Não demorou muito para a tempestade nos alcançar.

O que antes era um lindo dia de céu azul rapidamente se transformou em uma forte chuva. Era impossível cavalgar naquelas condições, então, eu e Arian nos vimos obrigados a descer dos cavalos e a seguir a pé.

O frio, o vento e a chuva se juntavam para transformar a nossa simples viagem pelas montanhas em algo quase épico. Não era possível ver nada a frente, tudo estava embaçado e caótico. Em certo momento percebi que o que caia do céu não era mais chuva, mas neve. Seguimos lenta e cuidadosamente pela tempestade, sempre à procura de um abrigo. Abrigo que só encontramos depois de muito tempo.

— Eric! — gritou Arian por entre o caos da tempestade — Acho que tem algo lá!

Arian apontava para uma parte mais elevada do terreno. No começo eu não entendi o que ele estava apontando, mas depois de um tempo consegui ver uma grande sombra sobre as pedras. Não vi o que exatamente havia ali, mas era melhor do que nada.

— Vamos para lá! — Gritei a Arian e ele assentiu com a cabeça para mostrar que havia escutado.

A breve caminhada até o topo da elevação foi árdua. O sentimento que eu tinha era de que a tempestade nos empurrava ainda mais para baixo a cada passo que dávamos. Depois do que pareceram horas conseguimos chegar ao nosso destino.

A grande sombra era de uma pequena cabana de madeira. Parecia ser uma construção antiga, mas a estrutura ainda estava firme. Aquele era um bom lugar para se proteger da tempestade. Bati na pequena porta de madeira com força.

— Olá! — gritei — Tem alguém aí?

Nenhuma resposta. Tentei empurrar a porta, mas ela não cedeu. Olhei para Arian, ele aguardava pacientemente. Nós não podíamos ficar mais tempo desabrigados, a tempestade estava ficando cada vez mais forte e em pouco tempo não conseguiríamos mais andar por ela.

Empurrei a porta com mais força e as dobradiças rangeram quando a porta se abriu bruscamente. Acenei para Arian e ele entrou na pequena cabana. Olhei mais uma vez para a tempestade antes de entrar, parecia que o céu descontava a sua fúria sobre a terra; era uma cena caótica, mas, de certa forma, bela.

Fui engolido pela escuridão assim que cruzei o batente da porta. A cabana era úmida e escura. O ar era pesado e possuía um cheiro estranho e indescritível. Torci o nariz. Definitivamente não era um lugar que eu entraria por livre e espontânea vontade.

Uma luz fraca começou a brilhar, era Arian, ele havia ascendido uma das velas que trazíamos nas nossas malas. Ele colocou a vela no chão e eu pude ver o contorno de seu corpo enquanto ele tirava a pesada capa que usava sobre a roupa.

— É melhor você tirar a sua também — disse enquanto estendia a capa sobre o chão de madeira.

Segui o conselho de Arian e estendi a minha capa ao lado da sua. Nós dois usávamos simples blusas de tecido grosso por de baixo das capas. A montanha era cheia de ladrões e nós não queríamos chamar a atenção de nenhum. Olhei para Arian, mesmo com roupas simples ele ainda carregava um ar de nobreza sobre si.

— Como você está? — perguntei enquanto me sentava encostado na parede da cabana.

— Não muito bem — disse me dando um sorriso fraco — É só que... É tanta coisa junta, eu não sei muito bem como devo me sentir.

Ele se senta ao meu lado e encosta sua cabeça em meu ombro. O corpo dele está tremendo.

— Está tudo bem — digo passando meu braço sobre os seus ombros e o abraçando — Eu estou com você e sempre estarei. Não há o que temer.

— Obrigado por isso — diz e eu sei que ele está sorrindo, mesmo não conseguindo ver o seu rosto — Eu realmente não sei o que eu faria sem você, Eric. Muito obrigado por vir comigo.

— Como eu poderia não vir? — perguntei afagando levemente a lateral de seu corpo – Eu te amo Arian. Eu faria qualquer coisa por você.

Arian solta uma leve risada.

— Você é realmente um homem muito clichê, Eric — diz com carinho. Arian tira a sua cabeça do meu ombro e se inclina suavemente sobre o meu corpo. Mechas de cabelo caem sobre o seu rosto, mas ele não parece se importar com isso. Ele fecha os olhos lentamente e deposita um leve beijo em meus lábios — Mas eu te amo mesmo assim.

Ele se afastou devagar e eu senti o um leve sorriso se formar em meu rosto. A fraca luz da vela me permitia ver apenas o contorno do belo rosto de Arian, mas eu não precisava realmente de luz para vê-lo, eu sabia exatamente qual era a sua expressão. Arian sempre tinha essa expressão quando estávamos sozinhos, ele me olhava com tanto amor que me fazia querer abraçá-lo e nunca deixa-lo ir.

Afastei delicadamente uma mecha de cabelo do rosto de Arian e a coloquei atrás de sua orelha. Ele aproximou o rosto do meu toque e fechou lentamente os olhos. Fiz um leve afago em seu rosto com o polegar. Eu sabia como estava sendo difícil para Arian. Ser forçado a deixar seu reino, sua família e seu lar para ir viver em um lugar totalmente desconhecido. Essa é uma dor que poucos conseguem suportar. Arian havia perdido tudo em apenas um dia e eu sabia que eu o tinha perdido naquele dia também, mesmo que eu ficasse para sempre ao seu lado, Arian nunca mais seria meu.

— Melhor você descansar um pouco — Eu disse passando a mão suavemente pela lateral de seu delicado rosto. Arian parecia muito cansado, ele não estava tendo boas noites de sono recentemente- A viagem vai ser difícil e você deve descansar enquanto pode.

Arian abriu novamente os olhos e fez um biquinho fofo.

— Eu queria um pouco mais de carinho — Reclamou e eu ri de sua atitude infantil.

— Não se preocupe. Vou ficar ao seu lado enquanto dorme — Disse e bati levemente no meu colo — Venha, deite um pouco. Não é um travesseiro confortável, mas acho que é melhor do que deitar no chão.

Arian não parecia muito feliz com a idéia, mas mesmo assim me obedeceu. Ele se deitou sobre o meu colo e eu comecei a acariciar seus cabelos suavemente.

— Eric — Chamou Arian com a voz baixa depois de uma breve pausa.

— Sim.

— Você pode segurar a minha mão? — Perguntou timidamente estendendo uma de suas mãos.

Peguei sua pequena mão com a minha sem nunca deixar de acariciar seus cabelos.

— Pode dormir — Disse dando um beijo em sua testa — Prometo que eu não vou sair daqui até você acordar.

Arian apertou a minha mão, fechou os olhos e rapidamente adormeceu. Em certo momento meus dedos saíram de seus cabelos e começaram a contornar levemente o rosto cansado de Arian. Os últimos dias haviam sido muito desgastantes para ele. Mesmo que ele tentasse esconder seu cansaço e seu medo, ele nunca poderia me enganar. Arian tinha que ser forte na frente de seu povo, mas ele podia ser ele mesmo comigo. Suas fraquezas, seus medos, suas inseguranças. Eu sabia tudo sobre Arian e por isso o amava tanto.

A tempestade continuava forte e eu me perguntava quanto tempo ainda teríamos de ficar naquela cabana. Quando a tempestade passasse, nós teríamos de retomar o nosso caminho para Ebner e eu não queria isso. Eu sabia o que a nossa chegada a Ebner significava. Significava que Arian iria passar a ser propriedade de outro reino e perderia a sua liberdade. Essas palavras nunca foram ditas em voz alta, mas todos sabem que é verdade.

O rei de Ebner ficou fascinado pela beleza de Arian e exigiu que o príncipe fosse entregue a ele como uma forma de pagamento para que Ebner não invadisse Lackome. Arian é muito dedicado a sua família e ao seu povo e não hesitou nem por um segundo em abdicar de sua felicidade para que eles não sofressem. Eu sinceramente não sei se eu amo ou odeio essa parte dele. Arian pensa muito mais nos outros do que em si mesmo, mas ele também merece a felicidade, assim como qualquer outra pessoa.

Arian se mexeu levemente em seu sono e eu pus-me a observá-lo. A luz da vela era fraca e oscilante, mas eu conseguia ver nitidamente o belo rosto adormecido dele, afinal, eu estava acostumado. Eu e Arian sempre nos encontrávamos no escuro. As sombras eram os únicos lugares em que nós podíamos nos amar. Na escuridão nós somos apenas dois seres humanos, nela não precisamos agir da forma que todos esperam, nós podemos ser nós mesmos, sem restrições.

A mão de Arian apertou forte a minha e lágrimas começaram a escorrer sobre o seu rosto. Ele estava tendo um pesadelo. Acariciei seus cabelos suavemente na esperança de que aquele simples gesto levasse embora os sonhos ruins. Não funcionou. Pouco tempo depois Arian estava novamente acordado.

— Eric — chamou ainda meio sonolento.

— Estou aqui — disse baixinho e ele me abraçou.

— Foi horrível, Eric — disse com a voz rouca. Ele apertou ainda mais o seu abraço enquanto lágrimas escorriam pelo o seu rosto. Passei os meus braços em volta de seu pequeno corpo e o pressionei ainda mais contra mim — Eles te tiraram de mim. Te levaram embora, para um lugar distante e inalcançável. Para um lugar onde eu nunca poderia acompanhá-lo.

— Foi só um sonho — disse em seu ouvido, não mais alto do que um sussurro.

— Mas e se não for? — perguntou com a voz entrecortada — E se realmente quiserem tirar tudo de mim? Minha casa. Meu reino. Meu povo. Minha família. Eles já tiraram muita coisa de mim. Não aguentaria se tirassem você também.

Naquele momento tive vontade de fugir. De tirar ele daquela situação e levá-lo para um lugar onde ninguém pudesse encontrá-lo. Mas eu sabia que Arian não ia permitir isso. Ele ama demais a sua família e o seu reino para traí-los dessa forma.

— Foi só um sonho — disse tentando consolá-lo — Ninguém vai me levar para longe de você. Eu juro.

Arian não me respondeu, ele apenas continuou a chorar em meus braços. Tudo que eu queria era que nós continuássemos juntos assim para sempre. Unidos sob a fraca luz de uma vela e em um amor que só duas pessoas profundamente apaixonadas podem compartilhar.

Notas finais
E então, o que acharam? Comentários são muito bem vindos. Obrigada por lerem até aqui!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!