Sob Meu Caminhar
1 Capítulo Único
— Você sabe que precisa ir, né? – Steve me disse enquanto esperávamos as portas do cinema abrirem.
Eu odiava quando meu amigo estava certo.
Depois de tanto tempo, finalmente tive coragem de contar a ele que gostava de Fernando e sua reação não poderia ter me deixado mais bravo. Steve não era um cara muito perceptível ao o que acontecia ao seu redor, mas sobre isso, ele tinha que ter percebido. Apesar de que a culpa não fora dele, mas sim minha por ficar babando por aquele traseiro maravilhoso. Então, deixei a neura para lá depois que Steve me disse sorridente “Eu já sabia”.
— Aaaaaaah – Reclamei – Se eu não precisasse tanto dessa nota eu não faria esse trabalho ridículo.
Steve negou com a cabeça.
Ele era certinho demais, então era raríssimo ele deixar de fazer algum trabalho da escola, mesmo que não precisasse de nota.
— É só você agir normalmente quando estiver perto dele que tudo vai dar certo.
Dei uma fraca batida com a testa no balcão que eu acabara de limpar.
— Falar é fácil... só dele passar do meu lado eu já fico agindo feito um idiota.
Eu odiava o efeito que Fernando tinha sobre mim.
Steve riu.
— Não ria da minha desgraça! Eu estou sofrendo – Me recompus, pois as portas haviam sido abertas — Até porque ele não quer nem me ver pintado de ouro e distribuindo diamantes.
Meu melhor amigo respirou profundamente, mostrando empatia.
— Ele ainda tá bolado com aquele negócio do quase encontro de vocês?
— Eu já lhe disse, Steve. Não foi um encontro. Fernando é hetero.
— Tabom, desculpe.
Nosso assunto morreu assim que o primeiro cliente entrou.
Steve foi para o caixa e eu atendi o casal de senhores fofos.
...
No dia seguinte, assim que tocou o sinal que indicava o horário da saída da escola, me dirigi a sala de informática para fazer aquele trabalho idiota que o professor de matemática queria que entregássemos no dia seguinte.
Assim que entrei, pude ver Fernando sentado com as pernas em cima de sua mesa e mexendo no celular aos risos.
Ele deve estar falando com uma das milhares de suas ficantes – Matutei em minha neurótica mente.
Imediatamente meu coração se murchou.
— É... oi.
Ele me olhou por cima do aparelho em sua mão e ao reparar que era eu quem falava com ele, voltou a prestar atenção no que estava fazendo.
Fernando trabalhava na sala de informática da escola a muito tempo. Ali fora o primeiro lugar que eu o vira.
— Eu preciso utilizar uma máquina para o trabalho do professor Matias – Falei entregando meu RG a ele.
Largou o celular e mexeu em seu teclado.
— Pode usar a quatro.
— Obrigado.
Peguei meu documento e rapidamente me dirigia até o computador.
Depois de meia hora olhando para a tela e para meu caderno, eu estava ficando zureta.
— Mas que merda – Resmunguei batendo a testa na madeira. Esse era um péssimo habito meu que minha mãe já me dissera para parar – Nunca vou conseguir fazer essa merda.
Mordi o lábio de frustração.
— Eu devia ter pedido ao Steve para vir comigo. Ele deve saber essa coisa de gente doida.
— Precisa de ajuda? – Fernando me disse seriamente.
Eu pulei com o susto que ele me era.
Era extremamente comum ele me assustar.
Fica calmo, Jay – Pensei.
— Ah... O professor nos pediu para fazer essas coisas estranhas – Mostrei o trabalho sobre gráficos anotado em meu caderno e dei graças a Deus por minha caligrafia ser bonita – Mas eu não sei como fazer esses gráficos nesse negócio – Apontei para o computador.
Ele se debruçou para poder usar o teclado da máquina e acabei inalando seu perfume.
Calma... calma... calma.
Fichei os olhos e me concentrei eu seu cheiro, ficando bobo.
— Você precisa fazer isso aqui e isso assim.
Ele me mostrou a forma correta de fazer os gráficos me explicando passo por passo.
— Você precisa entregar isso quando? – Perguntou-me olhando fixamente para a tela.
— Amanhã – Falei envergonhado.
— E deixou para fazer isso hoje?
Afirmei.
— Bem responsável você – Comentou me deixando de boca aberta – Você só precisa fazer o mesmo com o resto – E saiu, me deixando afetado com sua crítica.
Depois de me recompor, terminei o trabalho rapidamente.
— Olha só se não é a bixinha do J.C. – Ronald entrou na sala enquanto eu desligava meu acesso ao computador.
Eu deveria ficar intimado com todo o tamanho do goleiro da escola.
Mas não fiquei.
— Se eu fosse você, Fernando, tomava cuidado com essa biba aí. Ela adora dar em cima de homem. Eu mantenho distancia dessa coisa... não quero receber cantada de marica.
— Não se preocupe, Ronald – Falei desligando meu acesso e encarando-o – Eu tenho bom gosto. Jamais daria em cima de babaca broxa como você, mas eu acho que deveria dar em cima da sua namorada, que tenho certeza que mesmo sendo gay, posso satisfaze-la mil vezes melhor que você.
O valentão ficou roxo de ódio e veio para cima de mim, ficando a centímetros de meu rosto.
— Ficou bravo por que, Ronald? – Continuei num tom em que todos que estavam ali pudessem ouvir – Bom. Deve ser porque o que eu disse não passa da verdade. Afinal, só a verdade pode nos atingir não é. Eu não me importo com o que você diz, mas eu sou quase tudo isso sim; sou bixinha e sou biba sim, não tenho vergonha de ser viado, agora você não deve se orgulhar muito de ser um idiota, burro e ainda ruim de cama.
Ele levantou o punho pronto para me acertar.
Eu deveria ter me encolhido e recuado, não é mesmo?
Não comigo.
Eu o encarei de nariz erguido.
— Vamos, você não é machão? Mas saiba que independente do que você fizer a seguir, não vai mudar minha orientação sexual e nem te tornar mais “homem”. Só vai te tornar mais babaca e menos homem do que você é.
Admito que posso ter exagerado, mas eu não me escondia mais e não podia deixar um cara que se acha superior a mim apenas por eu ser diferente sair por cima.
Ronald desceu o punho pronto para me acertar, mas foi impedido.
— Ninguém vai bater em ninguém aqui dentro – Fernando segurou o braço do valentão – Os dois – Falou apontando para nós – Para fora agora. Aqui não é lugar para ficarem se ofendendo.
De cabeça erguida me dirigi até a saída.
— E não é porque não deixei você bater no Jay aqui dentro que você vai fazer isso fora daqui, Ronald – Fernando Finalizou – Entendeu? Se eu ficar sabendo de algo, eu mesmo conto pro diretor – E voltou para seu lugar.
Olhei aquele babaca de canto e segui caminho para minha casa.
Eu só não sabia se ficava feliz pelo cara que eu gosto, ter impedido que alguém me desse uma surra ou se ficava triste por ele ter me chamado de irresponsável e nem ter me olhado depois do ocorrido.
Mas eu sabia que esse tratamento era devido a confusão daquele dia e que eu precisava me desculpar.
No dia seguinte, eu estava disposto a me redimir, então passei todo o período nervoso.
Assim que a última aula acabou, me dirigi até onde sabia que ficava seu armário.
Os nervos à Flor da pele.
O suor escorrendo as costas.
E o medo de que ele jamais me perdoasse.
— Hã... Fernando – Falei abraçando meus livros e olhando para o chão.
Eu não conseguia olha-lo nos olhos.
Minha vergonha era muita.
Ele me encarou e como sempre eu não sabia o que sua expressão queria dizer.
— Eu... eu... – Continuei – Eu preciso pedir desculpas.
Ele olhou para os lados e saiu em direção ao pátio vazio.
Todos já haviam ido embora e eu ficara ali, sozinho e com meu orgulho ferido.
Ele não queria ouvir minhas desculpas
Bom... eu não podia culpa-lo por isso.
Meus olhos ficaram marejados.
— Você não vem? – Fernando me disse, aparecendo do nada e voltando a caminhar até o pátio e eu logo atrás.
A escola não era lá daquelas estruturas de se orgulhar, com exceção do pátio.
Steve fizera um abaixo assinado pelas redondezas que obrigou o diretor a deixar a área mais habitável para os alunos. O que antes era uma área feia, dera lugar a um vasto espaço com grama bem aparada, algumas arvores e bancos de concreto. Era meio semelhando com o pátio da entrada de Hogwarts.
Era evidente que Steve fizera isso de propósito. Ele era maníaco por essas histórias de fantasia.
Fernando se sentou em um dos bancos de concreto, com uma perna em cada lado e a mochila em sua frente.
Me encarou com seus belos olho.
— Olha. Eu sei que foi errado contar ao Steve que iriamos nos encontrar, mesmo você ter me pedido segredo.
Me lembrei de sua expressão de ódio assim que lhe disse que havia falado sobre nosso encontro para Steve.
Os gentis olhos verdes foram tomados pela raiva e seu rosto por uma cor rubra.
Olhei para os livros em meus braços.
— Desculpe – Pedi novamente — Não espero que você me entenda...
— Mas eu quero – Disse me interrompendo.
— O que?
— Eu quero te entender – Cruzou os braços – Eu lhe pedi segredo e mesmo assim você abriu o bico. Quero saber o porquê você fez isso.
O olhei surpreso.
Estava esperando que ele me ofendesse ou algo do tipo. Não que ele quisesse saber o porquê de minha ação.
Meu coração se apertou.
Eu não estava pronto para falar sobre isso.
Dessa vez, eu o encarei.
Abri minha boca, mas a resposta não saiu.
Meus braços ficaram trêmulos.
— Desculpe – Falei me levantando e pronto para correr dali, mas Fernando me segurou pelo braço, fazendo-me deixar meus livros irem ao chão.
Me abaixei para pega-los apressadamente enquanto ele estava parado em minha frente.
Ao me levantar, nossos rostos ficaram próximos.
Dei um passo para trás, pronto para uma nova tentativa de fuga, mas ele me segurara novamente, dessa vez pelo punho esquerdo.
— Jay – A forma como dissera meu nome, quase me fizera desmaiar – Eu quero confiar em você novamente, mas para isso você precisa falar comigo.
Olhei para seus dedos em meu pulso.
Sua pele era mais macia do que eu esperava.
Antes que eu pudesse perceber, uma lagrima escorreu por meu rosto.
Fernando seguiu meu olhar.
— Tem a ver com isso, não é mesmo? – Questionou pressionando a pequena cicatriz rosada.
Incapaz de responder, desviei o olhar.
Eu queria contar, mas isso poderia me levar a mais problemas.
— O que realmente aconteceu naquela noite a dois anos atrás, Jay?
Cai sentado no banco.
O torrencial desespero esvaindo de mim pelo meu patético choro.
— Ei! – Fernando disse segurando meu rosto entre suas mãos – Pode confiar em mim... ninguém vai lhe fazer nada.
Não sabia se deveria contar. Ele poderia correr até Brad e me dedurar, mas eu precisava confiar em mais alguém. Precisava desse vinculo.
Steve era o único que sabia da verdade, pois era o único que realmente compreendia meu medo.
Respirei profundamente.
— Logo após eu me assumir gay, aos quinze anos, algumas pessoas começaram a implicar ainda mais comigo e eu a ficar cada vez mais distante, mas numa certa noite, Brad me mandou uma mensagem me pedindo para nos encontrarmos na entrada do cinema. Ele havia dito que estava confuso com sua sexualidade e que estava em pânico, pois seus pais jamais o aceitariam. Então lembrei de como era ruim passar por esse tipo de coisa sozinho e decidi ajuda-lo.
Fernando me olhava com toda a atenção do mundo.
— Ao chegar lá, encontrei Brad sozinho, que disse que queria dar uma volta e eu idiota, aceitei. No meio do cominho, dois amigos dele nos encontraram, então os três me levaram para um beco e me bateram até eu desmaiar. No dia seguinte, acordei amarrado num porão – Minhas mãos voltaram a tremer, mas Fernando as acolheu entre as suas – Por cinco dias, eles me bateram com vibradores e objetos cilíndricos, sempre dizendo “É disso você gosta, não é bichinha?”, até que o pai de um deles me encontrou e os obrigou a me soltar.
Dessa vez tomei coragem para encara-lo.
— Foi por isso que fiquei cinco dias desaparecido e não porque dei encima de um hetero que me prendeu por raiva. Quem espalhou esse boato foram Brad e seus amigos.
Fernando sustentava meu olhar, esperando minha história chegar ao fim.
— Eles espalharam esse boato antes mesmo de me liberarem. O pai do que me achou disse que se eu contasse a alguém o que tinha acontecido, ele iria provar que eu estava mentindo e que iria destruir a mim e minha família. E eu sei que ele faria, afinal quem acreditaria em um garoto gay de quinze anos com uma mãe que trabalhou a vida toda de faxineira e um pai com Alzheimer?
— Eu acreditaria – Ele me disse.
Bufei.
— Não... não acreditaria – Limpei meu rosto – Foi por isso que contei a Steve que iria encontrar você naquele dia. Eu estava com medo que aquilo fosse acontecer de novo. Minha mãe não aguentaria mais essa vergonha por causa do filho homossexual.
Ele me olhava com o que presumi ser compreensão.
— Você quer que eu faça alguma coisa com eles?
Fiquei surpreso com sua proposta. Não sabia que ele se importava comigo.
Mas não havia nada que alguém pudesse fazer
A família de Brad era a mais influente da cidade. A última pessoa que tentará arranjar encrenca com ele, fora expulsa da escola e da cidade, acusada de vender drogas e se prostituir. Todos sabiam que Miriam não havia feito nada disso, mas o dinheiro era capaz de comprar provas falsas.
Neguei com a cabeça.
— Não quero lhe meter em encrenca.
— Mas alguém tem que fazer alguma coisa. Dessa vez eles passaram dos limites. Eles não podem se safar de mais essa.
— Você acha que eu não quero que eles paguem? Minha mãe e eu mal temos dinheiro para as contas. Não tem como eu conseguir pagar um bom advogado, sem falar em um detetive.
Fernando entrelaçou seus dedos aos meus, se aproximando.
— Eu sinto muito que você tenha passado por isso. Já deve ser difícil ter que enfrentar o preconceito das pessoas todos os dias e ainda ter que olhar para a cara daquele babaca.
Nossos rostos estavam tão perto, que eu podia sentir se hálito quente.
Ele não deveria estar fazendo isso.
Não era certo brincar com os sentimentos de alguém assim.
Eu deveria me afastar, mas meu corpo não queria.
— Eu queria ser corajoso como você, Jay – Sussurrou, fazendo-me arrepiar – Queria ter coragem para fazer uma loucura que desejo a muito tempo.
Olhei seus sedosos lábios e precisei me controlar para não beija-lo.
— De repente, você pode fazer essa loucura num lugar onde ninguém esteja vendo.
Ele olhou para todos os lados, a procura de alguém e isso só aumentou minhas esperanças.
— Acho que você tem razão – Falou, limpando o rastro das lágrimas em meu rosto – Vem – Se levou e começou a sair de pátio e novamente eu o segui.
Eu tinha resolvido as coisas, agora só precisava mantê-las assim e não afasta-lo.
Era praticamente impossível acontecer algo entre nós, mas manter sua amizades já bastaria para um coração triste.
— Eu tenho que pegar umas coisas na sala de informática antes de irmos.
Afirmei.
Assim que passamos pela porta de seu local de trabalho, ele a fechou e foi até um canto onde se encontravam algumas caixas.
— Vou precisar de uma ajudinha aqui.
Fui até ele, sem entender em que eu poderia ajudar, quando ele me surpreendeu me jogando contra a parede, ficando entre a mesma e seu corpo.
— O que...
— Você me disse para fazer minha loucura em um lugar onde ninguém estivesse vendo – Fez uma pausa e olhou meus lábios, que não consegui me aguentar e os mordi, lhe arrancando um som de sua garganta e que me afetou em minhas calças – As câmeras não pegam nessa parte da sala.
— Então acho que estamos seguros.
Bem lentamente, ele se aproximou de meus lábios, tão lento que chegava a ser torturante, até que finalmente me deu meu tão desejado beijo.
O beijo fora quente e acolhedor, da maneira que eu desejei que fosse.
Suas mãos se agarraram aos cabelos de minha nuca, assim que o beijo se intensificou.
Ele fora de calmo para faminto, como se sua vontade fosse tirar o máximo no menor tempo possível.
Depois que nos afastamos, encarei aqueles olhos pelos quais eu era tão apaixonado.
— Desculpe... Eu não deveria ter feito isso – Fernando disse tentando se afastar, mas dessa vez eu o segurei.
— Não! Não vá.
Voltou a me encarar, encabulado.
— O que foi isso? – Perguntei com um enorme sorriso no rosto.
Ele pensou por um momento antes de me responder.
— Você me mostrou um segredo seu e eu lhe mostrei um meu.
Processei a informação por um tempo, até que falei:
— Você é bi?
— Não, eu sou bi... – Parou e percebeu o que eu tinha dito – Espera, você disse que sou bi.
— Bom... Não sou como a maioria que acha que o “B” de “LGBT” é de “brilho” ou “Beyonce”.
Fernando sorriu para mim como uma criança ao receber um presente de aniversário desejado, mas sua animação se esvaiu aos poucos.
— Desculpe... Como eu disse, eu não sou corajoso como você para assumir algo assim.
Entrelacei nossos dedos e fiquei bem próximo de seu rosto.
— Não se preocupe. Eu não conto pra ninguém se você não contar — Deixei-me dar lhe um sorrisinho de canto e uma singela piscada.
— Mas...
— Não se preocupe. Você deve fazer isso quando se sentir seguro.
— Nunca, você quer dizer.
— Eu também pensava assim. De tempo a si
Ele me beijou novamente, fazendo eu me segurar para não agarra-lo ainda mais ali mesmo.
Depois de darmos uma desculpa ao inspetor sobre o porquê ainda estarmos na escola, Fernando e eu caminhos lado a lado na rua no caminha para a casa.
— Não foi fácil tomar essa decisão, começando que eu demorei um pouco para perceber.
— Então você não sentia isso antes de se assumir? – Perguntou-me cheio de interesse.
Eu estava disposto a me abrir com ele. Seria legal mais alguém para conversar além de Steve.
— Na verdade eu sentia, mas sempre ignorei. Eu passei todo o tempo em conflito entre meu cérebro e meu coração.
— Seu cérebro dizia pra você gostar de garotas e seu coração para você gostar de garotos?
— Na verdade foi o contrário. Eu sempre tive atração sexual por garotos, mas jamais me senti romanticamente atraído por alguém do meu sexo que eu e por isso passei um bom tempo acreditando que eu era hétero. Eu achava que o que importava era o que meu coração sentia e não o que meu cérebro desejava possuir.
— Nossa!
— Pois é. Até que entendi que eu tinha o direito da dúvida é só depois de me permitir experimentar que as coisas entraram em consenso. Só depois disso que passei a me sentir sexualmente e romanticamente atraído por homens.
Fernando estava focado em mim, como Steve focava em suas histórias em quadrinhos e isso não é qualquer coisa.
— E o fato de eu ser teimoso atrapalhou um pouco – Continuei – Parte de mim não queria admitir que as pessoas a minha volta estavam certas e eu errado. Sempre houve tanta gente dando palpite em minha orientação sexual, que acabei reprimindo-a para não dar lhes o gostinho de que estavam certos o tempo todo – Fernando me olhou de canto – Idiota... Eu sei.
— E mesmo depois disso as coisas ainda continuaram difíceis, não é?
Afirmei.
— Antigamente as pessoas tinham um preconceito comigo por pura especulação, mas agora as coisas são diferentes e isso mês assusta – Me encolhi só de lembrar da sensação – Todo dia ao sair, eu temo que seja a última vez ou que aquilo aconteça de novo e sei que minha mãe tem o mesmo medo.
“Sabe, Fernando... Eu não te julgo por querer manter algumas coisas só pra você, na verdade eu te entendo perfeitamente. Eu vejo essa disseminação de ódio por coisas tão tolas. Pessoas que deveriam acolher as almas desesperadas acabam as exilando e isso tudo porque as pessoas querem se amar. Vejo alguns LGBTs na linha frente tentando conscientizar e as pessoas acabam fazendo piadas de mal gosto sobre reprodução e esquecem que estamos vivendo uma epidemia de DSTs. Existem coisas tão importantes para serem tratadas como a fome e a miséria e as pessoas se preocupam com quem estamos nos relacionando. É lamentável como a humanidade sempre procura motivos para brigar e se sentirem superiores uns aos outros.
“Vejo pessoas apanhando e morrendo apenas porque estão tentando se encontrar no corpo que lhe agrada ou não e tudo porque algumas pessoas não concordam. Até onde vai essa vontade de resolver as coisas com violência? Quantos mais LGBTs e mulheres vão ter que morrer para as pessoas sacarem que cada um tem o direito de decidir o que fazer com o próprio corpo e de que o corpo de cada um é algo que não diz respeito a ninguém além do dono do próprio corpo?”.
Sem que percebesse, lágrimas escorriam pelos meus olhos.
Isso tudo me parecia tão absurdo que as vezes me fazia demorar horas para conseguir dormir.
— Bom... Eu moro aqui – Falei apontando a casa que meus pais batalharam tanto para conseguir.
E novamente naquele dia, Fernando limpou minhas lágrimas.
— Desculpe – Sussurrei.
— Não precisa se desculpar... Mas eu tenho que admitir que você é muito corajoso. Por mais que você tenha todo esse medo, você ainda enfrenta seus problemas de cabeça erguida e tem orgulho de quem você é. E eu espero de coração um dia ter a sua coragem.
Sorri sem jeito com suas palavras.
Lhe dei um rápido abraço antes que sorrindo, ele se afastasse, me dando uma bela visão de seu magnífico traseiro.
Apesar do pequeno momento de tristeza, eu sorri com toda a situação, afinal... Eu tinha beijado o cara por qual eu era apaixonado e isso já seria o suficiente para eu passar o resto do dia com uma humor maravilhoso.
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