Notas iniciais
Reescrevendo pela vigésima vez, mas é porque eu amo essa história!

Maria Eduarda odiava esse nome — afinal compartilhava esse nome com a mãe —, então preferiam que a chamassem de Duda; não que o professor soubesse disso enquanto realizava a chamada. A garota encarava a palma de sua mão constantemente enquanto ouvia uma tediosa aula de matemática; não tinha muitos amigos na escola — nenhum, na verdade —, então não tinha ninguém para conversar e atrapalhar a aula, como outros estavam fazendo. Também não tinha o mínimo interesse na matéria, então decidiu apenas continuar olhando para sua mão. Girando e girando. Se concentrar na sua mão era algo que seu pai havia ensinado a ela em um momento particularmente difícil, onde tudo parecia explodir; então, em memória a ele, começou a levar esse hábito mais à sério.

Duda tinha 13 anos, e sabia bem que não sabia de nada. Não significava, porém, que outros soubessem mais do que ela; especialmente sua mãe. Desde que o pai morreu, viver com sua mãe se tornou uma tarefa ainda mais complicada do que antes. Ela atormentava constantemente a garota, e Duda já estava bem farta disso. Não hoje, no entanto. Hoje, Duda estava radiante. O máximo de radiante que seu rosto inexpressivo conseguia demonstrar.

Hoje era o dia em que a venda dos ingressos para a copa do mundo no Brasil abriria. Muitos poderiam nem considerar isso, mas Duda amava futebol, herdando esse hobby de seu pai. Um sentimento agridoce atravessou a espinha dela, nesse momento. Seu pai havia se esforçado para juntar dinheiro, desde que descobrira que a copa seria no Brasil; infelizmente, meses antes de poder comprar os ingressos, ele faleceu. Desde então, Duda jurou comprar e ir, nem que para isso tivesse que aturar a sua mãe na sua cola, a mandando fazer coisas que ela não gostaria de fazer.

— Maria? — a voz do professor invadiu os ouvidos de Duda, mas ela demorou a perceber que se tratava dela. — Dá pra responder?

— Ah! — a garota saiu do mundo em que estava e olhou para o professor um pouco surpresa.

— Ele quer que você responda ali, o próximo passo da equação — uma colega de classe, da cadeira atrás, explicou em voz baixa.

Duda cerrou os olhos, buscando um pouco de tempo para o que ia fazer. Depois de alguns segundos, suspirou baixinho, jamais iria conseguir responder aquilo; matemática parou de fazer sentido quando a questão deixou de envolver números.

Então, ela apontou a palma da mão direita para frente, disfarçadamente.

— Com certeza é 2, não é?

— Muito bem, certinho. — o professor a olhou com uma expressão orgulhosa e a parabenizou.

De repente um murmuro, e uma cadeira do outro lado da sala se mexeu abruptamente para trás quando um garoto, baixinho e de óculos, se levantou em protesto.

— Professor, acho que a resposta dela está errada... — o menino disse, primeiro com uma voz um pouco mais agressiva, mas, no decorrer da frase, ela foi abaixando pouco a pouco.

Duda o frisou querendo que ele se sentasse, mas não poderia desviar a palma de sua mão ainda. Não ainda.

— Não, não, tá certinho. — o professor garantiu, e o garoto se sentou, sentindo-se extremamente confuso.

Duda sentiu os dedos se mexendo levemente, e decidiu que já era hora de abaixar a mão, arregalando os olhos, pensando em como foi por pouco que conseguiu escapar.

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Na saída voltando para casa, decidiu caminhar um pouco, certa de que os ingressos para um evento tão grande não acabariam de uma hora para outra. A garota amava andar, visitar lugares novos; mesmo que não houvesse mais lugares onde ela não tinha andado, naquela cidade tão pequena do interior de São Paulo. Ela subiu todos os morros, visitou cada parte de cada parque, e tirou belas fotos de cada um desses lugares. Sua mãe odiava andar, mais um ponto em que elas eram totalmente opostas.

Balançou a cabeça, não queria pensar na mãe. Finalmente poderia comprar esses ingressos, e, a partir daí, só esperar até a copa. Ver a seleção jogar, ver todo mundo pintado de verde e amarelo e gritando, e a copa vai ser no Brasil! Tudo que envolvia isso era bom. Duda estava muito animada, mal podia esperar, se perguntava como iria fazer para sobreviver tanto tempo, tentando se distrair o máximo possível para que o tempo pudesse passar rápido até lá.

Ela pensou em andar. Andar a distraía; nas férias escolares, pensou em fugir da mãe e ir andar por aí. Conhecer São Paulo, conhecer outras capitais, visitar pontos turísticos. Fingir, nem que por um tempo, que não tinha que voltar para a vida que tem, para a casa que restou quando o pai morreu.

A barriga dela roncou, já havia passado da hora do almoço há tempos, e o estômago começou a cobrar. Havia uma lanchonete que ela costumava frequentar que ficava a poucas quadras de casa. Comia alguns salgados e passava horas lá sentada, conversando com o velho dono do lugar e mexendo no celular.

— Tem misto quente ainda, Seu Edir? — ela chegou, colocando a mochila encostada num canto embaixo de uma mesa, e se dirigindo diretamente ao balcão.

Seu Edir era um homem de pelo menos uns 80 anos que conhecia Duda desde criança. Era muito amigo do pai dela, então sempre a deixava comer algumas guloseimas lá de vez em quando.

— Claro, Dudinha, guardei pra você. — ele pegou para ela — Como foi a escola?

— Como sempre. Como foi o dia? — ela respondeu com poucas palavras, como sempre. Como sempre, significando que nada havia mudado; era uma forma resumida de dizer que nada estava melhorando.

O velho, no entanto, não se resumiu em poucas palavras. Respondeu a garota contando da vida dos clientes, da família e suas projeções para o futuro. Era um senhor bem alegre, que fazia Duda sorrir às vezes; o que era bom, pois ela nunca precisou forçá-lo a nada.

Depois de um tempo conversando, Duda o perguntou se o computador dele estava funcionando bem.

— Eu posso mexer nele um pouquinho? — ela perguntou. Não quis explicar, mas preferiria comprar esses ingressos longe da mãe, ela poderia atrapalhar, de alguma forma.

— Claro, Dudinha. — ele nem perguntou o porquê.

Ela se dirigiu aos fundos, saindo da área comercial e subindo as escadas para a residência de Seu Edir. O computador do senhor havia sido um presente de sua neta, uma mulher bem sucedida que vivia na capital. A casa tinha um cheiro aconchegante de casa de avós, embora Seu Edir fosse viúvo, ele cuidava muito bem do local.

Duda ligou o computador e acessou seu e-mail, onde as senhas estavam guardadas. Seu pai havia deixado uma conta aberta com o dinheiro necessário para comprar os ingressos até a final da Copa do Brasil, e Duda havia guardado isso pacientemente. Hoje era o dia.

Alguns cliques, entrou no site onde a pré-venda estava aberta. O coração batendo forte, "é hora, pai", sussurrou. Botou as informações necessárias, fez as contas. O que sobrar do dinheiro, ela vai usar para as outras despesas, como viagem, hospedagem e comida e...

Outros cliques, compra negada. Tentou novamente, atualizou a página e repassou calmamente as senhas e os números. Compra negada. Ela colocou a mão na testa, arfando de insatisfação. Estava certa de que o site estava recebendo muitas visitas, já que era o primeiro dia. Decidiu tentar de novo, mesmo resultado.

"Compra negada por valor insuficiente".

Olhou o preço total e viu em suas anotações que aquilo estava longe de passar do orçamento. Cliques, resolveu entrar no site do banco. Pôs suas informações e entrou relativamente rápido, e...

Zero.

— Mas que porra é essa!? — ela exclamou um pouco alto demais.

Atualizou a página: zero. Repetiu até se convencer que algo estava errado no site, mas, depois de incontáveis atualizações, resolveu checar o histórico de transações. As cores e o ambiente aconchegante se tornaram vermelhos e a raiva tomou conta da garota. Duda desceu correndo, ignorando Seu Edir e suas perguntas, pegou sua mochila e correu para casa.

Seus passos estavam firmes e batiam duros no chão, seus olhos lacrimejavam e sua respiração estava pesada, ela apertava forte as alças de sua mochila enquanto corria para casa. Sua mãe estaria lá, ela sempre estava. Duda sabia bem.

— Mãe! — Duda abriu a porta com tanta força que ela bateu no outro lado da parede. Sua mãe estava deitada no sofá vendo uma novela, olhou para a garota com uma expressão tão despreocupada quanto surpresa.

— Que que foi?

— Você gastou o dinheiro da conta do pai, por quê? No quê? Hoje começou a venda dos ingressos, o dinheiro era pra isso, você sabia? — Duda estava parada, se segurando com todas as forças para não xingar.

— Faz tempo que eu gastei isso daí, nem me lembro no que foi. — ela respondeu e voltou a olhar para a televisão.

Duda tirou o sapato e jogou com toda força na televisão, a fazendo tombar para parede atrás, quase caindo.

— Você gastou tudo aquilo no que?! — ela gritou — Era mais de cinco mil reais, mãe!

— Algumas roupas, sei lá — ela respondeu, se levantando do sofá, mas ainda olhando para a televisão. — Quer saber, acho que essa tava ficando velha mesmo, preciso que você arrume outra maior.

Duda não conseguia mais olhar na cara dela. Pegou sua mochila com materiais escolares e a virou na porta da sala, caindo todos os cadernos e livros que tinha. Pegou a mochila, agora vazia, e correu para seu quarto a passos largos. Alguns minutos depois, quando voltou, sua mochila tinha uma garrafa de água, duas camisetas, uma calça legging e duas bermudas. Duda também não estava mais vestida de uniforme escolar, agora trajava uma camisa listrada branca e azul, um cardigã azul e uma saia preta que tinha.

— Onde vai? — a mãe perguntou, Duda não olhou para ela e se dirigiu para a porta, seu olhar continuava fumegante.

— Vou embora.

— Como assim, embora? Tá maluca?

— Eu já deveria ter feito isso há muito tempo, cansei de você me explorando, já chega — sua mãe se pôs entre ela e a porta, o que enfureceu Duda ainda mais.

— Você acha mesmo que seus poderes sozinhos vão te segurar lá fora? Sem mim? — ela colocou a mão no ombro da garota, que se afastou ainda mais.

— Não te interessa. O que te importa, eu poderia morrer lá fora que você só ia ficar chateada que não pode mais conseguir maquiagem de graça ou alguma merda dessas — Duda disse, apontando a palma da mão para ela.

— Menina você sabe que não consegue usar isso em mim, anda, volta pro seu quarto.

Duda pôde ouvir, levemente, os pensamentos da mãe naquele momento; o que era raro. "Que menina insuportável, perdi o clima de assistir televisão agora", a mulher pensou. Duda começou a chorar de raiva. Aquela mulher que nunca a tratou bem, que nunca conversou, nunca foi uma mãe de verdade. Mesmo agora, ela não se importava com nada, nem ninguém. Nem com a filha dela dizendo querer fugir de casa. Na verdade, até a desafiou a isso.

Uma onda de emoções atravessou o corpo de Duda, sentiu seu corpo levitar, mesmo tendo certeza de estar no chão. De repente, pôde sentir tudo. A brisa suave contra cada poro descoberto de seu corpo; suas roupas, cada fio, pôde ouvir cada pequeno assobio de barulho vindo de fora. A televisão, até mesmo a energia correndo pelos fios e tomadas. Duda sentiu seu corpo como nunca antes.

— De joelhos — Duda vociferou, e sua mãe respondeu obediente, mesmo contra sua vontade, seu corpo apenas acatou as ordens de Duda. — Você vai ficar aí, e...

Duda sentiu um calor emanar de suas mãos, algo que nunca havia sentido antes. Isso era mais poderoso do que jamais foi; este dom. Sua mãe, de repente, começou a babar. Seus olhos viraram e ela começou a tremer, de joelhos. Duda ficou quieta, encarando isso por alguns instantes, até que abaixou a mão como um reflexo, assustada.

Quando ela abaixou a mão, sua mãe foi ao chão, convulsionando. As coisas voltaram ao normal, seu corpo estava normal, mas sua mãe... subitamente, ela parou. Fechou os olhos e, como se nada tivesse acontecido, parecia dormir.

— Mãe? — Duda se aproximou, assustada. Mas, quando tudo aquilo parou, a raiva voltou. Aquela ainda era a mulher que acabou com todos os seus planos.

Ela suspirou profundamente, se afastando de sua mãe caída, imóvel no chão. Não teve coragem, nem curiosidade, de checar para ver se sua mãe estava bem. Também, por mais mórbido que isso soe, não se sentiu bem em chamar uma ambulância. Por mais que Duda procurasse no fundo do coração, não havia nada, nenhum traço que redimisse aquela mulher. Pelo menos, não para Duda. Decidiu sair de casa sem olhar para trás, segurando as lágrimas que, por algum motivo, resolveram sair.

Ela não sabia se seus poderes, sua influência, poderiam segurar ela no mundo lá fora, mas ela iria tentar, porque nada mais importava agora.

Ela só queria andar.