Mais uma tragada no cigarro e tinha fumaça o suficiente para soltar em direção ao céu, perdi as contas de quantas horas ficara ali na sacada vendo a noite passar-se. O cinza estava sendo cortado por rajadas de luz até onde a visão poderia alcançar, o mar acalmara-se durante as primeiras horas do dia e o cheiro salgado vindo de encontro ao meu rosto fez-me cerrar os olhos, seria a última noite de liberdade, longe da escola e de toda a preocupação de quem deveria ser ou para onde iria. Por um momento, ao ficar de pé desejei que o ensino médio fosse eterno como aquela noite de insônia se arrastando e impedindo que o dia anterior tivesse um fim. Apoiei-me na sacada e com uma última visão do mar ao longe, livrei-me da bituca de cigarro e retornei ao quarto. Havia gente largada pelo chão, bêbados, e passando pelo corredor as coisas não melhoravam muito ou descendo a escadas, mas ao mirar Rachel, dançando com um cara a risada fora impossível de ser contida em mim. Acenei para ambos e Rachel obrigou o namorado – da noite – aproximar-se junto, ambos pareciam cansados, principalmente a loira, possuo quase certeza de que o cara aguardara Rach badalar com outros anteriormente.

Tenho como melhor amiga Rachel McAllen, a garota mais festeira de que se tem consciência! Namora com um cara chamado Simon e sai com vários e vários outros por diversão, bebida e principalmente dinheiro, afinal, Rach esconde de todos sua origem pobre ou mesmo as marcas de surras desferidas por Simon. De qualquer forma, todos amam Rachel McAllen e garotos fazem fila somente para ter uma atenção e, claro, pagando mais caro conseguiria mais que fitar seus belos quadris ao som de uma música qualquer com um vai e vem tão erótico quanto a dona.

–Rach, preciso ir. O meu pai me mata se souber que não estou na tia e, bem, você sabe que estou evitando encrenca com ele ou não me presenteará com o carro. E sem vrum vrum seremos duas fracassadas na faculdade, então trate de terminar com o namorado da noite. Estamos por um triz e se não lavar a maquiagem, beber café e disser para a titia que apanhou do namorado até resolver fazer uma sessão de filmes noite à dentro juro que se o velho não me matar antes, eu o farei com você! – Grunhi. Felizmente Rach levou toda a ameaça como brincadeira e começou a rir debochada, fez bico como uma criança mimada e abraçou-me. – Você está muito chapada.

–Eu só bebi dois copinhos, Natt. Só dois! – Ela virou-se para a direção do garoto e depois de um beijo em que eu jurei ter visto as línguas se entrosando chamou-me para ir. Pensei em dizer algo sobre o quanto aquilo foi... uhg! Nojento? Nauseante? Creio não ter palavras para descrever a forma como meu estômago revirou-se e forçou um aparamento na própria Rachel prostrada ao meu lado. – E depois diz que sou a bêbeda? Vi você com o loirinho, se não sair com ele pode deixar que a sua nobre e fiel amiga realizará tal sacrifício.

–Parece até que será uma dificuldade cravar a língua na boca dele. Não que eu esteja reclamando de você e o gostosão ali, porém quando sentir a necessidade de beijar um cara espere até a sua melhor amiga do mundo, Natalie, afastar-se o suficiente para não ser obrigada a presenciar tal amostra de Cinquenta Tons de Cinza. – Ela trocava mais uma centenas de sussurros amorosos com o Christian Grey durante minha fala. Agarrei-lhe pelo braço e saímos juntas, optando por ir a pé agora, seria bom para acabar com o efeito da bebida em Rachel e, para mim, uma dose de ar puro será mais que suficiente.

Caminhando pela rua em frente à praia notamos pessoas correndo pelas areias, coqueiros balançando-se com o vento eufórico e revigorante. Senti-me entrando no meio de uma dança frenética, tal como Rachel fizera durante a noite, a rua seria o meu palco, o vento meu parceiro e todo o mundo estava nos admirando, nos amando, enquanto íamos rodopiando. Éramos adolescentes imprudentes, valsando durante a madrugada em uma noite que nunca terminava e nada mais importava. – Todavia, é impróprio pensar assim, tendo a maturidade batendo a porta, arrancando-me pelo braço de tal loucura. Julguei-me toda a vida uma amante da noite, eterna apaixonada repleta de uma teimosia tremenda de tal forma a desejar enfrentar todo o mundo de cabeça erguida e postura ereta, e infelizmente a noite estava chegando ao seu fim e como uma louca desvairada, atiraram-me à rua com ordens de que deveria crescer, tornar-me alguém.

–Está mal pelo fato das aulas estarem aproximando-se, Natt? Sabe, muitas pessoas terminam o ensino médio sem ter ideia do que quer fazer. Ninguém é perfeito e você pode inscrever-se em um cursinho profissionalizante, trabalhar e refletir consigo mesma qual o desejo do seu coração, amiga. – A mão da loira veio de encontro a meu ombro e todo o meu peito preencheu-se de uma tristeza desconhecida até então, queria voltar lá, implorar à lua por uma eternidade. Meus olhos ficaram marejados de tal forma a precisar que os esfregasse e um suspiro profundo fosse liberado. – Natalie, não precisa fazer nada para agradar as pessoas. Você não é assim e espero que não vá chorar, não agora, não por isso.

–Tem razão, Rach. Não irei chorar por tal indecisão, ainda há um ano esperando por mim e mesmo que abandonada pela coragem, seguirei em frente e durante esse ano enfrentarei o mundo e a Natalie medrosa aos berros e prantos aqui dentro. Esse será meu ano, Rachel. O último de liberdade e também de indecisão. – Suspirei. Era fácil ouvir tudo aquilo de Rachel, estava decidida por faculdade de moda e já me adianto em dizer que ela realmente tem talento para o que almeja. Desenhos incríveis simplesmente brotam de sua mente seja de roupas ou sapatos, e ninguém que conheço poderia montar o visual perfeito como minha amiga, Rachel McAllen. Por outro lado, considero-me uma perdida a qual não identifica-se com um curso sequer da faculdade, e com uma ameaça de fracasso me perseguindo caso arrume problemas na nova escola. – Estou nadando contra corrente, Rachel.

–Exercite seus músculos, sinta a adrenalina e quando seu corpo cansar presentei a si mesma com o descanso, Natt. Boie. – Para muitos as palavras de Rachel não fariam sentido, talvez não fizessem mesmo, mas de qualquer forma tal conforto preencheu meu coração, por enquanto. – Estamos crescendo, Natalie e até o fim desse ano seremos duas adultas muito responsáveis, sensuais e bem sucedidas em nossa escolha pela faculdade. Aliás, eu já mencionei o quanto universitários são lindos? Somente posso imaginar Rach para me animar em um momento como aquele. A depressão sempre ataca-me nos poucos momentos em que reflito sobre as decisões da vida e de imediato minha mente paira e retorna no tempo, um tempo específico, o que mamãe desferiu as seguintes palavras: "Querida, você deve escolher algo. Algumas pessoas nascem somente para serem domésticas, viverem em prol do marido e dos filhos. E, certas pessoas como nós, nascem justamente e somente determinadas ao sucesso. Faça uma faculdade, forme-se e arrume um bom emprego, pois não mereço uma filha menos que médica, engenheira ou advogada". Assim, tornaram-se esses os meus primeiros sonhos de realização profissional, primeiramente cardiologia, engenharia civil, de produção, advocacia, arquitetura e depois de uma lista enorme de possibilidades sobrou-me: Noites mal dormidas, xícaras de café e de sobra um vício por cigarros! Oba! Isso é tão animador...

Vejo ao longe a casa de Rachel, branca com uma porta de madeira e janelas da mesma forma, mas repleta de vidros coloridos. A casa foi herança de seus avós e pelo que se sabe tinha sido construída pelo pioneiro da família no país desde então não sofreu muitas mudanças e com muito pesar os pais de Rach venderam a parte do quintal de forma a quitar as dívidas. Não a descreveria como grande ou pequena, os móveis são velhos o que confere a todo o lugar um encanto vitoriano e ao quarto da loira um estilo hippie com direito a cortina de contas na porta e colcha de elefantes, é onde encontramo-nos agora. Fui a primeira a correr em direção ao banho me livrando de qualquer traço de maquiagem ou cheiro de cigarro – dez minutos de escovação com mais quinze de enxágue se responsabilizaram da segunda parte –, vesti-me com um pijama de Rachel enquanto a garota foi ao banheiro. Escutei-a vomitar bastante, passando a recostar-me na cabeceira de sua cama, o cheiro de tinta quase inexistia depois de três dias. Toda a madeira descascada recentemente tinha sido lixada e pintada com cores vibrantes, assim como os vasinhos da janela e as portas, tudo estava muito aconchegante e pacifico mesmo com Elizabeth vomitando horrores. Senti-me livre, infinita, e pela primeira vez nas últimas duas semanas, sei que nada pode me afetar.