"So you can make another claim"*
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Alexandria.
Ainda era difícil acreditar estavam em um lugar parecido com civilização. Casas intactas e limpas, camas de verdade… Era incrível. Obviamente, como nem tudo sempre é flores, a exigência para entregarem as armas foi um ponto de tensão. Foi garantido que eles poderiam utilizá-las, mas apenas quando estivessem vigiando ou em missão. Separar Daryl de sua besta foi o mais difícil. Conseguiram com a promessa de que somente ele, ninguém mais, a tocaria. Foi quando puderam levar todas elas para o armazém que a comunidade havia destinado como depósito.
Depois de tudo o que passaram na estrada, parecia um sonho surreal estarem ali. Toda a decepção ao chegarem à casa dos tios de Noah e encontrarem uma horda de zumbis… O susto que passaram ao encontrar Maggie quase morta sob aquela árvore… Estar ali, em Alexandria parecia uma recompensa depois de tantas provações.
Apesar da desconfiança clara que seu grupo demonstrou, foram bem recebidos na comunidade. Duas casas vizinhas foram oferecidas. Numa delas, ficaram Glenn, Maggie, Abraham, Rosita, Tara, Eugene e o Padre Gabriel. Na outra, Rick, Carl, Judith, Tyreese, Sasha, Michone,Noah, Daryl e ela mesma.
Foi preciso apenas uma troca de olhares e Carol entendeu que Daryl só ficaria confortável se dividisse quarto com ela. Não seria a primeira vez. Andavam dividindo muita coisa ultimamente, menos conversas.
Ela sabia que ele ainda não estava bem, embora estivesse se esforçando para parecer. Durante toda a apresentação do lugar feita pelo tal Douglas — um homem de meia idade, aparentemente recém-viúvo, que parecia o líder daquela comunidade — manteve-se com o olhar semi-cerrado. Ela conhecia aquele olhar. Ele não havia gostado do homem.
O quarto que Rick sugeriu que ficassem tinha duas camas de solteiro. A pintura nas paredes e alguns itens de decoração sugeriam que havia pertencido a dois rapazes. Havia ainda um quarto onde havia uma cama e outra fora improvisada, onde ficaram Rick, Carl e Judith; Noah e Tyreese preferiram dois colchões na biblioteca da casa (apesar de haver um porão, por medida de segurança, preferiram ficar no nível do solo e não sob ele). Sasha e Michone, apesar da recusa inicial, ficaram com o quarto principal.
A primeira noite foi como um sonho. Havia comida que Douglas havia providenciado… e banho… roupas limpas… Carol saboreou aquele momento sem pressa, esfregando o sabonete com perfume de flores em seu corpo sujo… Estava terminando de vestir a blusa quando Daryl entrou no quarto.
– Desculpe…
– Tudo bem. — sorriu para ele e abriu os braços — Banho! Roupas limpas… E inteiras! Trouxe um par para você…
– Eu gosto das minhas roupas…
– O lixo gosta das suas roupas! — caminhou até ele — Vem, me dá seu colete e o resto pode jogar fora. — ele abriu muito os olhos e ela sorriu mais ainda — Não aqui. Tem um saco de lixo no banheiro… Ainda é cedo para você ficar nu na minha frente… Talvez mais tarde
E piscou para ele, que desviou o olhar e ficou vermelho.
– Pare com isso.
Ela ignorou a falta de jeito dele.
– Você deveria fazer a barba.
– Por que?
– Não sei… Seria legal ver seu rosto novamente… Aliás, você também deveria me deixar cortar o seu cabelo.
– Não. Por que isso? — ele perguntou escandalizado.
– Pelo amor de Deus! Também seria interessante conseguir ver seus olhos… Você tá parecendo um lhasa apso antes da tosa!
– Um o quê?
– É uma raça de cachorro… Uma raça de pedigree.
– Eu tô mais para vira-lata.
– Um filhote de vira-lata com lhasa apso.
Ele sorriu pelo nariz. Um dos (ainda mais) raros sorrisos que ele se permitia nos últimos dias.
– Ok. Eu deixo você aparar, não muito, os cabelos. Mas a barba fica.
Ela suspirou.
– Combinado.
Após o banho, ela já o esperava com a tesoura na mão. Ele sentou em uma cadeira e ela começou o trabalho.
– Você tá cheirando tão bem… — Ele disse depois de muito tempo em silêncio.
– Obrigada, senhor! Você também está! — ela respondeu finalizando o corte — Agora vamos comer alguma coisa.
– Eu não estou com fome…
Então ela ficou séria. Não havia mais motivo para dramas, nem para ser conivente com a autopiedade dele.
– Eu não estou pedindo ou dando um conselho. Eu estou dizendo que você precisa e vai comer ok?
Ele cerrou os olhos e a fitou, chateado.
– Não adianta olhar pra mim assim, eu não tenho medo de você. Agora vai, enquanto eu arrumo aqui.
Ele desceu. Ela suspirou. Poderia até ser que estivessem relativamente seguros ali, mas algumas batalhas (principalmente as internas) ainda não haviam sido vencidas. Ela bem sabia disso… Apesar das aparências, ainda havia uma guerra dentro de si.
***
Carol apoiou-se na borda da torre e respirou profundamente o ar molhado que pairava. Iria chover. Na verdade, pelo que estava percebendo iria cair um pé d’água. Era seu segundo dia na torre do sino, Rick havia lhe alertado que, diante da possibilidade de chuva, não parecia tão necessáiro estar de vigia, mas ela mesma quis.
Levantou-se cedo, deixando um Daryl adormecido para trás. Ele havia feito vigia durante a madrugada e estava praticamente jogado sobre a cama, nem parecia o eterno vigilante habituado a estar a postos em todos os momentos. A ilusão da segurança, penetrando facilmente em seus ossos.
Parecia que todos estavam se sentindo assim. Como se esquecidos dos perigos da estrada. E isso preocupou Rick. Principalmente após o acidente com a equipe de construção, quando Abraham teve de arriscar a vida para salvar uma moça de uma horda, enquanto estavam aumentando os muros do lugar.
Diante de todas as atividades possíveis naquela comunidade, Carol estava se sentindo sub-utilizada. Obviamente, não dissera a ninguém até então. Foi-se sugerido que continuasse ensinando às crianças, já que parecia ter um jeito especial com elas (como sempre tivera), mas recusou de forma tão firme que chamou a atenção do tal Douglas. Naquele dia ele quis conversar e aceitou que o fato de ela ter perdido uma filha fora trauma suficiente. Então ele pediu para que ela ficasse mais perto, pois admirava sua força. Durante um tempo passou a ajudar no posto médico improvisado. Ainda assim não era o suficiente, precisava de algo mais. E Douglas percebeu, e mais uma vez lhe chamou para conversar… E as conversas se tornaram um hábito.
A verdade é que estava se sentindo solitária. Havia Daryl todas as noites, mas não havia muita conversa. Ele, obviamente lhe falava sobre as vigias e sobre as duas corridas que havia feito em busca de suprimentos, mas era diferente. As conversas estavam diferentes. Ele ainda estava aparentemente melancólico, ela não entendia o porquê, mas respeitava o espaço dele. Já tinha falado demais, pelo menos ele estava reagindo de alguma forma. E quanto a ela… Após jogar as informações sobre Lizzie e Micah, alguma coisa havia mudado dentro de si. Talvez estivesse achando que ele a condenava… Embora ele não tivesse dito mais nada. Não sabia ao certo. Não sabia se queria descobrir.
Outro fator óbvio, era a antipatia de Daryl com Douglas. Seu olhar estava sempre cerrado ao encará-lo. Apesar do conforto físico, a grande questão, é que todos estavam desconfiados. Não se sentiam plenamente à vontade com aquelas pessoas. Obviamente, depois das experiências com Woodbury, o Santuário e o Grady Memorial, sempre estariam de orelha em pé. Mas ao que tudo parecia, eles eram realmente bem-vindos. E… Bem, Carol não era burra. Também tinha plena certeza de que Douglas estava investindo nela. Sorrisos demais, toques demais, palavras doces demais… Charme demais. Confessava que estava gostando de toda essa atenção. Não sabia que sentia falta de alguém flertando com ela já que estava tão acostumada de ser uma via de mão única, quando brincava com Daryl.
Havia tanta tensão dentro de si, que foi com grande alívio que ouviu a sugestão de Rick de colocar alguém na torre do sino, um pouco à frente dos portões de Alexandria, para vigiar. Imediatamente se candidatou. Rick ponderou. Havia se tornado uma excelente atiradora… pensava na frente, conseguia elaborar planos de ataque e de defesa. Pequena, ágil, de esquiva fácil diante de alguma necessidade. Douglas sorriu, parabenizou-a pela coragem e definiu a ideia como excelente.
– É uma ideia estúpida. — a voz de Daryl foi ouvida, após toda a reunião em silêncio.
– O quê!? — Carol virou-se para ele devagar.
– É perigoso. É loucura.
– Eu quero fazer isso!
– É perigoso.
– Eu não me importo. Posso me cuidar sozinha.
– Daryl… — Rick falou pausadamente — Ela tem razão. Talvez não seja uma ideia ruim. Sabe, é mais um ponto de vigia…
– Eu posso ficar lá — ele rebateu.
– Nós precisamos de você para outras atividades — Douglas falou com calma, mas firme.
– Yeah. Atividades que me deixem longe… — ele rosnou.
Carol deu um passo até ele, antes que ele continuasse.
– Eu vou fazer isso.
– Rick! — Daryl fez um último apelo.
– Está tudo bem Daryl…
Ele lhe lançou um olhar sujo, daqueles que ainda faziam Carol tremer por dentro, e saiu. Naquela noite, não jantaram juntos. Já estava dormindo quando ele chegou e, no dia seguinte, já havia saído quando ela foi até o depósito buscar armas e munição.
No primeiro dia, ficara observando o terreno ao redor de Alexandria. Rick tinha ido com ela. Conversaram sobre a importância de conhecerem os arredores e ela entendeu a estratégia dele. Rick ainda falou sobre a atitude de Daryl, tinha compreendendido e pediu que ela também entendesse. Ele falou sobre a importância de Carol para Daryl, sobre o medo que ele tinha de perder mais pessoas queridas. Tudo isso ela sabia, mas naquele momento havia muita mágoa para que ela pudesse aceitar.
Ao fim do dia, Douglas lhe chamara para pedir um relatório verbal da situação. Serviu chá e lhe chamou para jantar. Ela estava com tanta forme, que aceitou. Ao chegar em casa, Daryl estava deitado no sofá, Judith em seus braços, uma cena que lhe tocou, mas apenas subiu, trocou de roupa, e quando Sasha lhe chamou para jantar, respondeu, de cima das escadas, que já o tinha feito, com Douglas.
Por tudo isso, precisava respirar. Estava inquieta, milhares de pensamentos em sua cabeça e mágoa em seu coração. Queria atirar… Queria enfiar sua faca em alguns crânios apodrecidos… Queria…
Foi quando ouviu passos subindo e imediatamente apontou o rifle em direção às escadas. A primeira coisa que viu foi o olhar azul de Daryl que saiu da escuridão com as mãos para cima. Um pacote pendurado em seu dedo polegar.
– O que você tá fazendo aqui?
– Vim trazer seu almoço.
– Obrigada.
– Também vim conhecer seu novo local de trabalho.
– Ironia não combina com você.
– Eu não tô sendo irônico.
– Obrigada. Pode voltar, agora.
– Eu não concordo em te deixar aqui sozinha.
– Eu não me importo com o que você pensa. Eu não preciso de proteção… Não preciso mais!
Ele deu dois passos para sair, mas retornou, com o indicador levantado.
– Se você quer me deixar longe, é só dizer logo!
– Como é?
Então ele se virou e foi para as escadas. Ela foi até ele e o puxou pela manga.
– Daryl, olha pra mim, eu tô falando com você!
– Não, você tá brigando comigo… e eu não vou ficar aqui brigando com você.
– Eu não quero brigar, eu só quero que você pare...Você não pode simplesmente tomar decisões por mim!
– Eu tô só olhando por você!
– Não preciso mais de ninguém me protegendo… Meu Deus! Eu não vou morar aqui… Todas as noites eu vou estar no mesmo quarto que você!
– Pro inferno que não precisa! — ele respirou fundo — Já que você não me quer aqui, eu até pediria ao Douglas que viesse, mas ele não parece ter bolas suficientes para se arriscar fora dos portões!
– Espera… O que o Douglas tem a ver com isso?
– É que eu vejo ele tão preocupado em te alimentar, querer saber de tudo, mas não demora um segundo a deixar você se arriscar… Sabe, eu acho que é isso o que ele quer, que você passe todas as noites lá… De conversinha com ele até o dia em que você vai apenas ficar a noite toda…
– Espera… Eu não entendi…
Daryl deu dois passos para perto dela e rosnou. Baixo… Sibilado.
– Eu não sou burro… Eu não sou cego… Aquele cara só quer foder você!
Um cubo de gelo imaginário escorregou para o estômago dela, embora não soubesse o motivo. Ficou um tempo em silêncio. Quis rir. Quis bater nele… Mas quando as palavras vieram, foram calmas e inesperadas.
– E? — ele fez uma expressão confusa, ela continuou — E se eu quiser? E se eu quiser ser fodida por ele?
Ele recuou rápido, pisscou muitas vezes. Mais alguns segundos de silêncio até finalmente ele falou:
– Você perdeu o juízo? — ela calou, então um brilho de entendimento cruzou seu olhar — Você gosta dele? Tá apaixonada por ele?
Ele ficou boquiaberta diante da pergunta. Não que a resposta pudesse ser verdadeira, mas pensar que Daryl pensava isso, a deixou atordoada.
– Isso não é sobre amor… Não existem muito espaço para amor nesse mundo… Não para pessoas como eu… Isso é sobre querer algo mais do que passar o tempo todo lutando para ficar vivo...
– Não… Eu não entendo você!
– Isso é sobre ser humano… Ter necessidades maiores… É sobre viver e não apenas sobreviver! Eu não quero ser um walker consciente, vagando por esse mundo destruído Daryl!
Então você quer isso mesmo?
Ela olhou para os lados por um momento… Não tinha essa resposta muito definida.
– Eu não sei!
– Eu odeio quando você diz isso!
Eles ficaram mais alguns momentos em silêncio. Carol se perguntando como tinham chegado a esse assunto, até que a voz de Daryl a tirou de seus devaneios:
– Eu posso fazer isso.
Ela ficou um tempo sem entender… Até que o entendimento caiu sobre si como a chuva que já caía lá fora.
– Não. Você não pode.
Ele deu mais alguns passos e segurou sua cintura.
– Posso. Eu sou um homem… Você… Você gosta de homens… Eu gosto de mulheres…
Ela se afastou dois passos e deu com as costas na parede.
– Pare com isso.
– Você acabou de dizer…
– Isso. Eu disse. Eu escolho.
Ele a abraçou, encostou a cabeça em seu ombro e ela pensou que tudo ia ficar bem, até que ele começou a beijar seu pescoço e tentar puxar seus lábios para si. Carol se esquivou… E aquilo doeu de uma forma estranha.
– Você me perguntou uma vez! — Sua expressão era ofendida.
Carol segurou uma lágrima e sorriu.
– É… E você perdeu sua chance.
Quando ele se afastou, havia uma nuvem negra em seu olhar.
– Você me prometeu que não ia me deixar.
E foi embora.
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