E aos poucos, a luz voltava aos olhos daquela família. João ia todos os dias à fisioterapia, e sempre que possível Renata acompanhava o irmão mais velho. Depois de alguns dias, a própria fisioterapeuta recomendou que a pequena acompanhasse as sessões, já que João parecia ter um ânimo a mais quando ela estava presente.

Sua recuperação ainda demoraria à terminar, infelizmente. Apesar de a costela e o braço já terem cicatrizado quase totalmente, os ligamentos de seu joelho haviam sido bem danificados e a demora em começar a fisioterapia havia atrofiado os músculos. Provavelmente ficaria mais dois ou três meses na cadeira de rodas até recuperar o movimento e a mobilidade.

Karina e Pedro esperaram duas semanas para voltarem de vez para seu apartamento. Queriam ter certeza que João estava o mais reerguido possível antes de voltarem para casa e começar a seguir com sua própria vida. Sentiam falta de dormir juntos, fazer as refeições a dois e... Outras coisas mais.

Bianca continuava vivendo na casa do pai, sendo cuidada e vigiada pela madrasta. Sua saúde estava bem melhor, e os exames periódicos mostravam que o bebê se desenvolvia bem e com saúde. Logo ela poderia voltar para sua própria casa e tentar reassumir o controle de sua vida.

E logo, um mês havia se passado. Era uma manhã fresca de fim de março, um prenuncio da chegada do outono em breve. João brincava com Renata à mesa do café, roubando pedaços do cereal dela e fazendo a “mini-esquentadinha” se irritar. Gael ria da interação dos dois, enquanto Bianca se ocupava em terminar todo o vasto cardápio que tinha que consumir.

“João, eu não vou ter como te levar na fisioterapia hoje. Ligaram da escola da Renata, eu esqueci totalmente da reunião de pais ontem, preciso ir lá hoje.” Dandara apareceu na mesa do café com o celular em mãos. “Gael?”

“Hoje meu dia está bem tumultuado, amor. Podemos ver com a Karina ou o Pedro.”

“Eu tenho a ultra hoje. Se quiserem, ele pode ir comigo. Depois eu espero ele sair.” Propôs Bianca, mexendo seu café.

“Se não for atrapalhar.” O rapaz deu de ombros, um tanto acanhado.

“Então está decidido.” Gael decretou, sorrindo.

No hospital, mais tarde, Bianca ajudou João à chegar ao andar da fisioterapia. Levou-o até a sala em que a médica o esperava, parando na porta.

“Eu estou no segundo andar, qualquer coisa. Mas meu exame está marcada para daqui a 15 minutos, devo sair antes de você terminar. Caso eu não esteja aqui, pede para a enfermeira te levar até lá, está bem?”

“Claro... Não quero te atrapalhar.”

“Relaxa, João.” Ela riu, saindo pelo corredor e suspirando. “Minhas costas já estão começando a doer.”

Sentou nas cadeiras do corredor e começou a mexer no celular, lendo alguns blogs de grávida. A chegada do 4º mês havia despertado um certo desespero nela, com a ideia de que já estava a meio caminho de ter o filho nos braços e ainda não tinha aprontado tudo o que precisava.

A lista de coisas à comprar era imensa, as adaptações que eram necessárias no apartamento idem. Não havia entrado lá muitas vezes desde à morte do marido, mas não poderia mais se esconder na casa do pai e da madrasta. Teria que tomar as rédeas de sua vida e superar tudo o que havia passado; se não por si mesma, pelo filho que dependeria dela.

“Bianca?” Ouviu a voz de João e o viu vindo em uma cadeira de rodas, empurrado por uma enfermeira. “Vamos?”

“Vamos aonde, João? Minha consulta ainda não aconteceu.” Ela encarou o relógio e viu que mais de 40 minutos haviam se passado. “Caramba, está bastante atrasada.”

“Desculpe, querida, tivemos uma paciente de emergência. Mas logo você será chamada.” A enfermeira de plantão avisou, sorrindo bondosamente. “Pode deixar ele aí, Evelyn... Depois eu ajudo a levá-lo para dentro da sala.”

“Oh, mas eu não vou entrar com ela.”

“Você não é o marido?” A mulher parecia sem graça.

“Ele é meu meio irmão. Viemos para compromissos distintos, mas o meu atrasou, por isso ele já está aqui.” Bianca explicou depressa, ela e João parecendo desconfortáveis. “Mas pode deixar ele aqui, Evelyn, depois eu o levo até o carro. Obrigada.”

“Obrigado, Evelyn. Até amanhã.” O rapaz se despediu, sacando o celular. “Bom, estarei jogando, caso precise de mim.”

“Até parece aquele nerd que eu conheci.” Ela riu baixinho, fazendo-o revirar os olhos. “Relaxa, é legal... Ver que ainda há um pouco de nossos antigos eu viva.”

“Você acha que mudou tanto assim?” Ele perguntou curioso, abaixando o celular. Era a primeira vez em meses (para não dizer anos) que tinham uma conversa sem alfinetadas ou ressentimento envolvido.

“Qual é... E você acha que não?” Ela riu mais alto agora. “Você era um nerd introvertido, focado unicamente nos jogos e que tinha como única relação humana o Pedro e sua mãe. Agora você está para se tornar um diretor da Rede Globo, tem vários amigos e...”

“E perdi a garota mais incrível que já conheci.” Ele suspirou pesadamente, encarando o colo. “Eu trocava todos os meus novos amigos e essa dita ‘fama’ pela Vicky.”

“Você sabe que eu te entendo, melhor do que qualquer um.” Ela acariciou a barriga com lágrimas nos olhos, suspirando. Ficaram em silêncio por um tempo, até que ela disse, hesitante. “Você entra comigo?”

“Oi?”

“É, na sala de ultrassonografia. Eu sempre me sinto sozinha ali dentro, e hoje é um dia importante: eu vou descobrir o sexo. Ter alguém junto de mim seria reconfortante.” Ela explicou, novamente sem graça. “E acho que, como eu disse, nós somos as únicas pessoas que entendemos o que o outro está sentindo ou passando. Meu bebê é minha esperança, o que está me mantendo de pé... Talvez ele possa ajudar um pouco o tio dele.”

“Isso seria ótimo.” Ele agradeceu sinceramente, um sorriso discreto no rosto. “Você pode até segurar a minha mão, se quiser.”

“Que gentil da sua parte.” Os dois riram juntos. “Acho que o médico vai me chamar.”

“Então vamos lá... Vamos ver se vem outro grilinho por aí, ou se dessa vez vai ser do meu time.”

“Que maldade com a Renata.” Bianca empurrou a cadeira dele aos risos, enquanto eram observados pela enfermeira de antes, que sorria discretamente.

“Bianca. Perdão pela demora, tivemos um caso de emergência.” Explicou o médico, cumprimentando a paciente. “E esse é...?”

“João Spinelli, meu meio irmão.” A grávida apresentou o nerd. “Ele veio me acompanhar hoje.”

“Sempre bom termos uma companhia em momentos assim. Se me permite a indiscrição, o aconteceu com você, rapaz?”

“Acidente de carro. Um bem sério, como pode ver.” Ele não conseguiu evitar a ironia, apesar do olhar mortal de Bianca. “Bom, onde eu fico?”

“Pode ficar ao lado da maca, se quiser.” O médico ajudou o rapaz a sair da cadeira de rodas e ocupar o assento indicado. “Bianca, já conhece o procedimento.”

Ela foi até um biombo e ficou ali por alguns minutos. Quando voltou, usava um avental que segurava fechado e estava descalça. Ocupou a maca, sorrindo envergonhada para João. Ele desviou os olhos enquanto o médico cobria as pernas da grávida e só voltou a olhar quando ela abriu o avental e revelou a barriga.

“Caraca... Não sabia que estava tão grande.” Ele comentou, assombrado.

“Acho que você é a primeira pessoa, além da sua mãe, que vê ela. Nem meu pai e a Karina viram minha barriga ainda.” Confidenciou.

“E por quê? A maioria das grávidas já está postando fotos da barriga à essa altura.” Comentou o médico, despejando o gel. Ele a encarou penalizado. “Você considerou o que conversamos sobre o psicólogo?”

“Eu não estou com vergonha da minha gravidez.”

“Mas está se sentindo culpada por querer desfrutar dela sem o seu marido. Você acha que, caso se entregue a alegria da expectativa pela chegada do bebê, vai estar desrespeitando o luto pela morte do pai dele. Mas não é, Bianca, você não pode empacar sua vida porque o Duca não está mais aqui.” O médico lhe repreendia com a voz gentil, mas firme. Os olhos da atriz se encheram de lágrimas, assim como os de João. Ele segurou a mão dela com carinho, num gesto de apoio. Aquele era mais um dos momentos que apenas os dois conseguiam entender.

“Eu vou começar a andar com a minha vida, eu prometo.” Ela sussurrou, secando os olhos com a mão livre.

“Eu sei que sim, querida. Você é uma mulher forte, vai conseguir.” O homem mais velho sorriu para ela, pegando o aparelho. “Pronta para descobrirmos o que está a caminho?”

Ele começou o exame como de costume, mas é claro que tudo era surpresa para João. O rapaz ficava maravilhado com tudo que via, tudo o que o médico fazia. Achou incrível ouvir o coração batendo, tão alto que era impossível crer que estava dentro de uma barriga. Quando o médico começou a mostrar cada parte do pequeno corpo, então, ele se sentiu quando ligou um videogame pela primeira vez.

“E ora, ora... O que temos aqui?” O médico sorriu travesso.

“Diz que é moleque, doutor... Tem muita menina nessa família, mais uma eu não aguento.” Bianca ria da animação do rapaz, quase levantando da cadeira.

“Parece que seu sobrinho ouviu suas preces, João. É um garotão.” O homem demarcou o que seria o ‘aparelho’ da criança, e os olhos de Bianca se encheram d’água novamente.

“É menino?”

“Pode felicitar o mestre Gael, um pequeno lutador para ele.” O médico havia feito o parto de Renata e conhecia toda a família.

“Isso.” João ergueu as mãos em punho, comemorando. “Chega de tanto cor de rosa e filmes de princesa.”

“Pelo visto ele será um tio bem presente.”

“Estou começando a desconfiar disso também.” Riu Bianca.

Quando os dois saíram da sala, algum tempo depois, o médico os seguiu e parou ao lado do balcão da enfermeira, vendo-os desaparecer pelo corredor aos risos.

“Vou ser indiscreta...”

“Pode ser, Maria.”

“Se eles não fossem meio irmãos, eu diria que aí tem coisa.”

“Eles são irmãos pelo casamento dos pais.” O médico sorriu, vendo a enfermeira alargar o sorriso. “Se conheceram já maiores de idade praticamente.”

“Eles estavam tão apagadinhos quando chegaram aqui; agora parece que estão felizes.”

“Eu vi uma luz se acender nos olhos deles lá dentro, Maria... Essa criança está vindo para salvar os dois do buraco em que eles estão. Eu fiquei sabendo do acidente do rapaz, perdeu a noiva lá na Inglaterra. E a Bianca perdeu o Duca antes de descobrir que estava grávida.” A mulher ouvia tudo com muita atenção. “Eles precisam um do outro, só não perceberam isso ainda. Esse rapazinho que está vindo aí vai mostrar isso para eles.”

Notas finais
Sem tempo para notas, apresento a monografia hoje. Me desejem sorte, porque se eu passar quer dizer que me formo e volto a ter tempo para escrever AHHAAHAHAHAH See you soon, peanuts Espero que gostem desse momento amor