So Much Wine
2 O Quarto de Nancy
Max sentia as pernas doloridas pelo esforço e o corpo trêmulo pelo choro, mas, ainda assim, fez um esforço para se arrastar até onde Lucas estava. Lutando contra a própria respiração após ter o torço completamente desfigurado pelas unhas assustadoras de um demogorgon, ele tinha as mãos e o estômago manchados de sangue e a olhava como se fosse culpada, embora ela tivesse conseguido afugentar a criatura ao jogar o maçarico dos Sinclair e óleo de cozinha em sua direção.
O garoto respirava com dificuldade e Max o chamou, se jogando ao seu lado para apoiá-lo. Não podia fazer mais do que isso e Lucas se contorcia em seu colo em razão da dor, puxando seu braço e também sua blusa como que para conseguir algum apoio, tornando a cena mais caótica em razão do sangue.
De repente, as feições dele se contorceram e a voz que a chamava não era mais de Lucas. Aterrorizada, Max olhou para baixo e quem a olhava, agora, era Henry Creel, os olhos profundos e frios perfurando os seus de forma assustadora o suficiente para fazê-la gritar e soltar o corpo, que deveria ser de Lucas.
Em tese, sabia que era uma apenas uma alucinação, mas não conseguia se impedir de se arrastar desajeitadamente pelo chão da cozinha dos Sinclair, vendo como ele se levantava lentamente e avançava em sua direção, a chamando — não com a boca, pois seus lábios estavam apertados em uma linha reta, mas em sua mente.
De repente, ele chegou perto demais a ponto de Max conseguir sentir sua presença física, mas sua mente conseguiu se concentrar na música baixinha de Natal que tocava em algum lugar ao fundo de toda aquela bagunça. Sua favorita para aquela época do ano, ela sabia disso.
Então, covardemente, fechou os olhos e se encolheu contra a parede, levantando as mãos aos ouvidos, como que para bloqueá-lo e se concentrar na música e, quando piscou, já não estava mais na casa dos Sinclair com um Lucas ferido em seu colo — o quarto de Nancy a rodeava de forma pacífica, com suas cores femininas, decoração delicada e iluminação indireta.
Max respirou fundo aliviada, se sentando com dificuldade e deixando os ombros caírem de maneira cansada enquanto sentia uma leve dor de cabeça invadir a parte frontal de sua cabeça. Estava cansada dos sonhos, era como se eles a esgotassem fisicamente, além de toda a a pressão pela tortura física e aparente conexão com Vecna, e, naquele dia, ainda tinha todo o vinho, que havia tomado com Steve, além do sabor da boca dele na sua, que não havia conseguido tirar da cabeça desde que se deitara.
Estava temporariamente ocupando um colchão no chão do quarto de Nancy e não poderia estar mais confortável. Era um ambiente de garotas, finalmente, e conseguia bloquear todo o caos ao redor, pois Nancy estava sempre ocupada com o jornal e não ficava muito em casa, apesar de ser muito acolhedora.
De qualquer forma, estar ali não havia feito com que os pesadelos cessassem e, na verdade, sentia que estavam piores desde que a fenda se abriu sob Hawkins, como que causando uma espécie de ponte entre o mundo real e o mundo invertido.
Levou os dedos aos olhos doloridos e alcançou um copo d’água na mesinha de cabeceira de Nancy, notando que a garota havia saído às escondidas com Jonathan, mais uma vez. Ainda que o Sr. Wheeler soubesse sobre o namoro — e, agora, casamento — não era como se aceitasse que eles ficassem sozinhos por tempo demais em um ambiente fechado e, por isso, eles viviam saindo enquanto todos estavam dormindo.
Seus pesadelos não se resolveriam na madrugada do dia de Natal, por isso, apagou o abajur e se cobriu até a cabeça, se sentindo trêmula e anormalmente resfriada, esperando que os efeitos sempre perturbadores dos pesadelos passasse logo, pois acordava mais e mais cansada a cada dia.
Contudo, ouviu uma discreta batida na janela de vidro que, num primeiro momento, ignorou pensando se tratar do vento lá fora, afinal, estava no segundo andar. Porém, quando o ruído continuou de forma insistente, Max tirou a cabeça do cobertor e olhou para a janela, irritada, apenas para se sentar imediatamente ao notar de quem se tratava, jogando os cobertores para o lado.
— Steve?! — Ela sussurrou, se colocando de pé e indo até a janela para destrancar, notando o olhar meio culpado ao tentar sorrir para ela. — O que está pensando? Está nevando, você vai escorregar do telhado! Está maluco?!
Disse tudo rapidamente, sem sequer dar espaço para que ele se explicasse, embora parecesse estar morrendo de frio. Já era madrugada, todos haviam dormido e a própria vizinhança estava silenciosa.
— Eu sei, me desculpe. — Ele gesticulou para se afastar da janela e, com calma, passou as pernas para o lado de dentro do quarto antes de passar o corpo, como quem já havia feito isso.
— Como conseguiu subir aqui?! — Max olhou pela janela, notando os espaços em que ele havia se apoiado para chegar até o segundo andar, tanto na estrutura de alvenaria da própria casa quanto depois, no telhado do primeiro andar.
— Eu… Tenho alguma experiência neste ramo.
Fechou a janela do quarto, bloqueando o clima frio do lado de fora, e se voltou a Steve, simplesmente parado no meio do quarto de Nancy, dando de ombros e sorrindo de maneira suspeita. Só então Max se lembrou… Ele já havia sido namorado de Nancy, certamente havia feito aquele tipo de invasão incontáveis vezes.
— Nancy pode aparecer! — Foi até a porta, trancado de forma discreta, que não pudesse chamar a atenção dos quartos vizinhos. — O que está fazendo aqui? É… Três da manhã!
— Eu duvido, vi quando Jonathan e ela se esgueiraram pelos fundos e foram para a van. Eles não vão aparecer até amanhã de manhã, acredite. — Ele desdenhou com um aceno de mão, típico, e Max cruzou os braços, levantando uma sobrancelha, quando não o viu continuar, embora parecesse resoluto enquanto a encarava procurando palavras. — Eu… Não consegui dormir.
Ela o encarou por um instante, notando sem precisar de muito esforço que aquela não era toda a verdade, então se sentou na cama de Nancy com um suspiro em um convite silencioso para que ele fizesse o mesmo.
— Bem-vindo ao time.
Disse sem ânimo, levando as mãos aos olhos. Desde que havia saído do hospital, não conseguia dormir direito por conta dos pesadelos e isso a estava deixando exausta. Não queria recorrer a remédios e até suspeitava que não fossem fazer efeito, porque era mais como uma espécie de tortura e estresse pós-traumático do que um problema neurológico comum.
— Na verdade, eu não cheguei a tentar. — Steve declarou após um breve silêncio, levando os dedos ansiosos ao cabelo, evitando olhá-la. — Quando estacionei na garagem de casa, percebi que eu… Realmente, estou sozinho. E… Eu não quero ficar sozinho no Natal. Você estava certa.
— Acho que esse sentimento, essa solidão… — Max pensou, tentando tornar as palavras mais delicadas, por isso, alcançou a mão dele, apertando com cuidado. — É bastante comum nessa época do ano, Steve. Você não é o único e… No fim das contas, você tem todos nós, não só o Dustin. Acho que… É isso o que queria deixar claro mais cedo.
Ele concordou brevemente, ainda mantendo os olhos baixos, em suas mãos juntas.
— Obrigado, Max.
— Ei… — Ele a encarou, ainda com seriedade. — A este ponto, na verdade é quase impossível que se livre da gente. Sério. Todos te amam, Steve.
Ele forçou um sorriso e rodeou seus ombros, a puxando para um meio abraço. Max apenas se deixou levar pelo conforto e o perfume dele, suspeitando que tivesse a abraçado para disfarçar os olhos lacrimejantes.
Havia passado por muitos Natais assombrada por aquele sentimento de que estava sozinha, de que todos pareciam ter um lar de verdade com pessoas que se importavam realmente. Não tinha a ver com a decoração chique ou a comida típica da época, sempre teve a convicção de que eram as pessoas que tornavam a data o que ela era e, apesar de sua mãe, nunca pode desfrutar disso até aquele ano.
Então, por mais que estivessem vivendo uma exceção na casa dos Wheeler, por não terem onde ficar, aquele soava como um Natal de verdade para Max, embora entendesse a crise de Steve, desencadeada pelo noivado de Nancy e Jonathan e pela constante ausência dos pais.
— Então… — Se afastou para encará-lo. — Odeio ter que dizer isso, mas… Não pode ficar aqui, Nancy pode voltar a qualquer momento.
E, além de estar ali quando não deveria, Steve era ex-namorado dela, completou mentalmente.
— Sim, você está certa, sinto muito por… Você sabe. — O garoto se levantou e foi até a janela, quando se virou novamente, indecisão e uma quase timidez em suas feições harmoniosas, o que era novo para alguém como ele. — Na verdade, eu estava pensando, se você…
— O quê? — Perguntou baixo, mais ansiosa do que gostaria de transparecer, quando Steve se interrompeu e a olhou, sem jeito.
— Er… Eu estava pensando, se você gostaria de passar a manhã de Natal comigo. — Max abriu a boca para responder, um pouco confusa, porque os Wheeler se perguntariam porque ela não estava em casa logo de manhã, porém, Steve foi mais rápido, se atropelando nas palavras. — Bem, não vamos dormir juntos… Quer dizer, eu não estou pedindo para que durma comigo… É que, é que tem um lugar e…
— Ai meu Deus, Steve, pare de falar. — Tanto ela quanto Steve ficavam mais constrangidos a cada vez que ele abria a boca, então ela respirou fundo e se levantou, cruzando os braços desconfiada ao encará-lo. — Que lugar é esse?
Ele a fitou com um pouco mais de confiança.
— É um mirante fora da cidade, onde é possível ver o dia amanhecendo e… A boa notícia é que a vista fica do lado contrário ao portal para o Mundo Invertido, então… — Ele deu de ombros. — Podemos esquecer de tudo isso por um tempo.
Max não admitiria para ninguém, mas sob o olhar persuasivo de Steve, iluminado somente pelo abajur amarelado do quarto de Nancy, se sentiu estremecer por dentro de uma forma que jamais havia sentido. Porém, somente suspirou e deixou os ombros caírem dramaticamente.
— Tudo bem, eu vou. — O observou sorrir, realmente feliz e muito distante da ansiedade que o definia quando chegara ali, há alguns minutos, ou de quando estavam no carro antes da meia-noite. — Mas precisamos de alguma comida.
Ela jogou o cobertor e o travesseiro nos braços dele e procurou o par de tênis, já que estava muito frio do lado de fora, aproveitando que já usava um conjunto largo de moletom grosso.
— Podemos passar na minha casa…
Max se levantou, jogando para trás os cabelos armados para tirá-los do rosto e alcançando o walkie-talkie, já que não saía sem o aparelho ou Kate Bush, caso precisasse.
— Tenho quase certeza de que na sua casa não tem nenhuma comida natalina… — Ela sorriu conspiratória. — Espere aqui.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, com seu olhar tipicamente confuso, Max abriu a porta do quarto com cuidado e se esgueirou pelo corredor do segundo andar, descendo a escada pé ante pé, iluminada somente pela iluminação da rua e das decorações natalinas dentro da casa dos Wheeler, em direção a cozinha, onde enfiou em uma sacola alguns biscoitos de gengibre, frutas, um par de cinnamon rolls melados e o resto do eggnog, que a Sra. Wheeler havia feito para a ceia anterior. Estava frio, mas serviria, pois estava uma delícia.
Voltou ao quarto e entregou tudo a Steve, que desceu pelo mesmo local que subiu com a sacola e seu cobertor, a instruindo a fazer o mesmo. Max se sentiu estremecer com a brisa gelada pela tempestade de neve, que havia tomado Hawkins em meio a noite de Natal, mas apertou os dentes e se segurou na estrutura da casa para descer com mais cuidado pelo medo de escorregar, quase se xingando mentalmente por estar se colocando naquela situação.
Então, sentiu as mãos dele se firmarem em suas pernas, na altura das coxas, e olhou para baixo, constatando que estava muito tensa, pois, a verdade é que, realmente, não queria passar mais tempo no hospital como passou após ter seus membros quebrados da forma violenta que foram por Vecna.
— Ei… — Ela olhou para baixo, apertando os lábios. — Eu te ajudo.
— Tem certeza? — Ofegou, no que Steve a encarou ironicamente, levantando uma sobrancelha. — Ok, ok…
Respirou fundo, se preparando mentalmente para se soltar, pois seus dedos já doíam por conta da estrutura gelada da casa e, lentamente, foi se deixando soltar enquanto Steve a segurava até que ele conseguisse pegá-la de vez pela cintura e firmar seus pés no jardim suspenso e cheio de neve dos Wheeler.
Foi só então que o olhou, sob a decoração natalina da casa, percebendo que a encarava tão distraidamente que pigarreou para disfarçar e olhou ao redor, alcançando o cobertor para colocar ao redor dos ombros dela.
— Tudo bem?
Meneou a cabeça confirmando e escondendo um sorriso pelo jeito tipicamente ansioso de Steve, que pegou sua mão e a ajudou a descer do jardim, silenciosamente, antes de irem para o carro, seus passos deixando um rastro bastante criminoso na neve, que logo seria apagado pela neve.
— Podemos ouvir algo que não seja natalino? — Ele perguntou ao sentar no banco do motorista e fechar a porta do carro.
— Sim! — Concordou se esticando para abrir o porta-luvas, onde já sabia que estavam guardadas as fitas. — O que tem aqui?
— Você não vai acreditar… Murray conseguiu essa jóia. — Ele alcançou uma das fitas e mostrou a ela. — Bon Jovi, Slippery When Wet, é cheio de sucessos, você vai amar.
Olhou para ele de forma suspeita e pegou a fita, colocando no aparelho do carro, que ainda cheirava ao vinho-tinto derramado de antes, deixando a música se instalar no pequeno espaço enquanto se ajeitava no banco do passageiro e Steve dava partida, saindo da rua dos Wheeler sem pressa, pois a manhã de Natal ainda demoraria algumas horas.
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