So Long Daddy!

1 Capítulo Único


“Das cinzas para as cinzas!”

O círculo perfeito. Chamem-lhe Karma. Chamem-lhe justiça divina. Chamem-lhe ajuste de contas. Chamem-lhe o que quiserem, mas não podem negar que certas pessoas merecem morrer!

Todos os seres humanos têm direito à vida? Hipocrisias baratas! Um assassino em série merece viver? Um pedófilo? Um violador?

Então porque mereceria este traste viver? Não é diferente de qualquer outro lixo.

Um magnata morre tão facilmente como qualquer outra pessoa. Basta um tiro entre os olhos para o pôr a dormir.

Amanhã de manhã entrarão neste mesmo escritório. Encontrá-lo-ão como nunca o viram em vida. Com um olhar de pânico estampado no rosto. Não consigo deixar de sorrir cada vez que cruzo o meu olhar com o dele. O brilho já deixou os seus olhos.

Mas estou a perder-me em pensamentos. Perco-me na minha fascinação pela morte.

Talvez a Rachel chore, afinal ela é a actriz da família, a estrela. Por favor, não pensem que isto é um caso de inveja. Não o é.

Antes o fosse.

“Sangue é pago com sangue.”

Nesse caso vim buscar o que me pertence. Ah! Mais uma vez um círculo perfeito. Deus não existe. A justiça é feita pelos mortais. Quem quer saber de um deus? Suponho que ninguém, ou o ser humano não seria como é. Mas mais uma vez perco-me em pontos irrelevantes, inconclusivos.

“Falhada! Incompetente! Idiota!”

Mas fui a única capaz de te matar, quando tantos outros “mais competentes” falharam.

Solto uma gargalhada.

Não resisto em sussurrar ao seu ouvido:

Sabes papá, ninguém irá ao teu funeral. A tua grande aposta estará a cuidar da sua carreira, ouvi dizer que foi contratada para uma grande produção. Soube-o por revistas, claro. E a mamã? Essa tu sabes, trataste dela pessoalmente. Não precisavas, ela não fazia ideia dos teus negócios. Se é que matar pessoas é considerado negócio. Se o é ou não, sinceramente não sei, mas fica-nos no sangue. – Solto uma gargalhada, se estiver alguém no corredor ouviu-me de certeza. – Vamos pergunta! Pergunta papá! “E onde estarás tu? Minha querida filha ilegítima, que me prova o seu valor ao fazer-me morrer!” Ah papá! Eu estarei num cruzeiro no mediterrâneo. Com a fortuna que te roubarei, que por tua vez roubaste à minha querida mamã, forçando-me assim a viver num orfanato nojento.

A minha voz elevou-se durante o discurso, só me apercebo quando o silêncio me perfura os ouvidos. A mansão dorme. Respiro fundo e acabo por desfalecer na cadeira defronte para o cadáver. Canto uma música, baixinho, qualquer coisa de rock clássico que tinha ouvido no rádio do carro.

Rodopio a cadeira de cabedal enquanto olho para o tecto.

Uau! Parece de um artista do renascimento, pode-se comparar à Capela Sistina do Miguel Ângelo. No meu quarto tenho vista para uma infiltração do andar de cima.

Filho da puta! Vives às minhas custas, caso contrário ainda serias um traficantezinho de merda para gangsters em New Jersey! Podias dizer adeus a Saint Tropez!

Mas isso agora não faz mal! Agora tenho o que é meu. E tu... tens um buraco no meio da testa.

E tens animais empalhados no escritório. Gostos sádicos para pessoas sádicas... Combinam com o dono. Engraçado, todos têm os olhos abertos, tal como tu.

Mais uma vez solto uma gargalhada.

És o meu animal empalhado!

Levanto-me da cadeira e abro o cofre. Fica por detrás de um quadro, não um quadro qualquer, mas um Caravaggio original.

Afinal temos dois gostos em comum: o sangue e o Renascimento.

De onde escrevo os meus pensamentos?

Já o tinha dito! Do meu cruzeiro no mediterrâneo. O funeral deve estar a ser neste preciso momento.

Por favor não me dêem os pêsames. Nunca estive tão feliz!

Acabei de fazer dezoito anos, tenho uma fortuna de milhões, uma vodka com laranja na mão e o rapaz mais giro do barco não pára de olhar para mim!

“So long daddy!”

Notas finais
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