Snowy Days
3 Pedaços de pano
Notas iniciais
P.O.V. – Nico
Certo, aquele dia já estava sendo ruim o suficiente. De manhã tinham me barrado por ter chegado atrasado, e tive que esperar até o fim do primeiro período para poder assistir às aulas. E além de tudo, eu odiava terça-feira mais do que tudo, mais até do que segunda. As minhas matérias do dia eram matemática, inglês e geografia, e todos meus colegas eram uns idiotas, sem exceção; as meninas ficavam falando sobre maquiagem e reclamando sobre o quanto que o professor era chato, e os garotos ficavam falando sobre quem eles tinham dado uns pegas no fim de semana. Não bastava o fato de eu ter que aguentar toda a ladainha da minha madrasta lá em casa, eu precisava estar cercado por esses retardados aqui também.
E durante os intervalos entre um período e outro, fiquei sozinho como sempre, mas eu realmente não me importava mais com isso. Estava ocupado demais observando a vista.
E com vista, eu quero dizer o cara mais lindo que eu já tinha visto na minha vida estava a alguns metros de distância de mim, conversando com uma menina que tinha seu cabelo loiro preso em um rabo de cavalo baixo, provavelmente uma amiga. Ele tinha cabelos pretos levemente bagunçados e uns olhos verdes que faziam com que eu derretesse por dentro. É, eu meio que tenho uma paixonite inexplicável pelo caixa da cafeteria que eu vi ontem.
Eu nunca tinha sentido alguma coisa desse tipo por outra pessoa, muito menos um homem. Sério, de tantas garotas disponíveis por aí, justamente aquele cara foi chamar a minha atenção? Porra, eu tinha certeza absoluta de que ele era hétero, era só olhar para a cara dele que qualquer um iria pensar o mesmo. Ficar observando-o desse jeito só faria com que eu me sentisse pior ainda.
Balancei a cabeça rapidamente na tentativa de afastar aqueles pensamentos. Eu nem sabia o nome do cara! E além disso, ele provavelmente nem sabia da minha existência. Como que eu queria não ter descoberto que ele também estudava aqui, sério. Se eu não tivesse, provavelmente esqueceria o seu rosto perfeito e... Deu, chega. Isso é errado. Ter uma queda por uma pessoa que nem conhecia era errado, principalmente se essa pessoa em questão for do mesmo sexo que você.
Resumindo, fiquei observando aquele rapaz durante todos os intervalos, sempre com uma distância segura entre nós. Eu queria parar, mas era meio que automático. Ninguém falava comigo e eu não falava com ninguém, então geralmente o tédio fazia com que eu ficasse observando o de olhos verdes de longe. Era um ciclo vicioso.
Certo, chega de falar do que aconteceu durante o período de aulas. O que importa é o que veio depois.
Eu tinha ido aos fundos da escola para pegar algumas coisas que a minha meia-irmã disse que precisava para a sua apresentação do Show de Talentos da escola. Não me lembro direito sobre o que era (provavelmente algo relacionado com mágica), mas ela falou que precisava de uns pedaços de pano que guardavam lá na sala do zelador. Presumi que ela tinha pedido isso para mim porque não tinha tempo já que tinha ido passear com o namorado, uma vez que não era sempre que ele estava na cidade e Hazel queria aproveitar o máximo de tempo que pudesse com ele. Apesar de não gostar muito do fato da minha irmã mais nova namorar, nunca tive problemas com Frank. Ele podia parecer um brutamonte de longe, mas seu coração derretia quando estava perto da minha mana, e dava para ver isso em seus olhos. Além disso, ele sempre perdia para mim no videogame.
E então eu fui procurar os malditos panos, passando de caixa em caixa na busca destes, sem sucesso. Eu jurava que os pedaços de tecido estavam brincando comigo, só podia. Eu já tinha procurado em absolutamente todas as...
Nesse momento, eu senti alguma coisa quente encostando na minha mão.
Não dava para aquilo ser verdade. Daqui a pouco eu acordaria na minha cama com sérios problemas para parar de sorrir. Eu tinha certeza disso. Não tinha como o cara que eu estava observando apesar de não saber seu nome estar segurando a minha mão. Parecia impossível, mas foi justamente isso que aconteceu.
Eu gelei por um momento, mas logo depois senti meu rosto queimar fortemente, e tive que torcer para que ele ignorasse. Eu estava tão distraído pensando em como reagir direito que acabei deixando a mão dele ficar ali sem sequer perceber.
Só fui notar isso quando ele se afastou, então fiz de tudo para fazer com que eu parecesse mais surpreso do que envergonhado. Falei alguma bobagem, e logo depois consegui o nome dele. Percy. Legal, pelo menos agora eu sabia quem era o cara que fez com que eu questionasse a minha própria sexualidade, e isso fazia com que eu me sentisse um pouco mais confiante. Gostar de um estranho era uma coisa, mas gostar de alguém que você conhecia era outra completamente diferente. As minhas chances de conseguir alguma coisa já não eram tão remotas assim. Agora ele sabia da minha existência.
As coisas seguiram bem até que ele mencionou aquilo. Oitava série. O último ano do ensino fundamental, e também o último que a sua irmã mais velha havia cursado antes de ir dessa para a melhor. Eu odiava ter que admitir, mas esse ainda era um assunto delicado para mim, e eu ainda não tinha superado isso por completo.
Eu devia ter uns dez ou onze anos, e ela uns treze. Nós estávamos no carro com nosso pai e mãe, eu brincando com as minhas cartinhas retardadas e minha mana, observando a vista da janela com um sorriso no rosto. Houve um acidente. Bianca e Maria não conseguiram resistir, e as memórias nebulosas que eu tinha desta noite me atormentavam até hoje.
Dei uma desculpa qualquer e saí dali, esquecendo completamente dos pedaços de pano que eu precisava pegar na sala. Fui correndo até metade do caminho de casa, ignorando os flocos de neve molhados que insistiam em cair sobre o meu rosto.
— Daí eu acho o cara, mas eu saio correndo logo depois. Eu sou um idiota mesmo. — Resmunguei, chutando algumas pedras que estavam no meu caminho. Eu tive a minha chance, e desperdicei-a completamente. Que merda. Espero que pelo menos ele ainda esteja trabalhando no mesmo lugar.
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