Snowy Days
10 Imprevisto
Notas iniciais
P.O.V. – Nico
Depois de eu dizer aquilo, foquei-me nos olhos verdes de Percy e pela primeira vez, não me repreendi por estar observando-o daquela forma. A distância entre nós era consideravelmente pequena, meus lábios ainda formigavam levemente devido ao beijo de antes, e eu sentia um calor imenso no peito. A queda que eu tinha por ele não parecia tão estranha agora, por algum motivo. Certo que eu realmente não esperava que ele fosse aparecer do nada na minha janela pedindo para entrar, mas do mesmo jeito... Eu estava feliz. Depois de ter perdido quase toda a minha família, de ser um excluído na escola, de nunca ter recebido carinho do meu pai, e de me isolar tanto, finalmente encontrei o que eu tanto procurava: Alguém para alegrar os meus dias cinza. E esse alguém era o dono dos olhos verdes que eu observava naquele momento, e que estava deitado na mesma cama que e― Espera, ele estava... Senti meu rosto queimar apenas com o pensamento. Será que aquele não era mais um daqueles meus sonhos idiotas? Se fosse, era um extremamente realista.
Nós ficamos daquele jeito por um tempo considerável, um observando o outro e dando alguns risos baixos de vez em quando, mas nenhum de nós se atreveu a falar alguma coisa. Eu não sabia se Percy retribuía os meus sentimentos desde que nós nos conhecemos ou se foi o beijo que eu tinha roubado dele que fizera com que seus pensamentos mudassem, mas no momento isso não importava muito. Eu gostava de ficar junto a ele por um momento, esquecendo-me dos problemas e de tudo mais.
― Então... ― Começou, quebrando o silêncio. ― O que nós somos agora?
― Como assim? ― Franzi as sobrancelhas.
― Você sabe. Você é meu ficante, namorado ou o quê? Porque acho que já deixamos de ser só amigos. ― Ele soltou um riso relaxado. Como que ele fazia para ficar tão tranquilo em uma situação dessas?
Eu mordi o lábio inferior e abaixei o olhar inconscientemente, provavelmente para tentar disfarçar o meu rosto vermelho. Senti minhas mãos tremerem um pouco, e agarrei o cobertor que estava embaixo de nós na tentativa de fazer com que elas parassem. Aquilo era um pedido de namoro? Assim, do nada? Nunca imaginei que nós chegaríamos a esse ponto. Na verdade, eu nunca achei que chegaria a ponto algum com Percy, e que essa seria só uma paixão platônica que seria esquecida depois de um tempo.
Eu só esperava que não fosse estragar tudo agora.
― E-eu acho que... ― Gaguejei tentando formar uma resposta, mas o som de uma porta se fechando com força me interrompeu. Gelei no mesmo instante. ― Meu pai! ― Exclamei, e já me levantei da cama. Puxei o pulso do maior entre nós, indicando para que ele fizesse o mesmo. ― Percy, você tem que sair daqui, rápido. Eu não sei como que ele reagiria se soubesse que sou... Que eu estou com um cara no meu quarto. A menos que você saiba fingir que é só um amigo meu e esteja disposto a encarar meu pai, acho melhor dar o fora. E rápido.
[...]
Eu tirei todos os meus jogos de dentro da gaveta, espalhando-os pelo chão, e liguei a TV às pressas. Rapidamente peguei o controle da televisão, apertei alguns botões, e arrumei as coisas para nós jogarmos videogame, ou pelo menos fingir que estávamos jogando. Como Percy não queria ir embora de jeito nenhum porque ele preferia mil vezes ficar perto de mim do que ficar no tédio lá na casa dele (eu me lembro de ter corado quando ele disse isso), e eu também não tinha nada planejado, não tínhamos nada a perder. Talvez eu preferisse ficar aos beijos com ele do que jogar, mas agora que meu pai estava em casa esse se tornara um pedido impossível. Tínhamos que fingir que éramos amigos normais e hétero que nunca pensaram durante toda suas vidas em beijar alguém do mesmo sexo, e que aquela era um “noite do videogame” normal.
― Qual jogo você prefere? ― Perguntei pra ele enquanto me sentava no chão, cruzando as pernas feito um índio e pegando alguns CDs para observar a capa da embalagem destes. ― Eu não tenho muitos jogos multiplayer, mas se você quiser a gente pode revezar em um singleplayer mesmo.
― Um multiplayer parece ser mais legal. ― Percy pegou um jogo que tinha um carro na capa, e mostrou pra mim. ― Esse aqui dá para dois?
Eu estava prestes a respondê-lo, mas fui interrompido pelo o barulho da minha porta se abrindo, e do meu pai entrando no meu quarto. Ele me observou com certa confusão no olhar, e fez um sinal com a cabeça para que eu fizesse as apresentações.
― Nico?
― Ah, sim. ― Cutuquei o ombro de Percy, e foi só agora que ele percebeu quem estava na porta. Pude ver seus lábios contorcendo-se em um sorriso amigável, e até mesmo eu fiquei convencido. ― Pai, esse é o Percy, um amigo meu. A gente foi no cinema com umas amigas dele e resolvemos vir pra cá jogar um pouco.
― Eu moro no andar de baixo. ― Ele acrescentou, e soltou um riso nasal. ― Espero que não se importe, Senhor Di Angelo.
Meu pai sorriu, talvez feliz por eu ter finalmente feito uma amizade, e por ter sido justamente com um cara tão educado. A barba rala em seu rosto e a expressão geralmente severa que este tinha normalmente intimidava as pessoas, mas ele era alguém legal quando não estava irritado com tudo e todos. Ou pelo menos quando não estava sozinho comigo.
― Pode me chamar de Adam. ― Ele disse, e depois fechou a porta de novo. Eu e Percy nos entreolhamos.
― Adam... di Angelo? Não combina muito. ― Ele pensou alto, franzindo as sobrancelhas.
― Di Angelo era o sobrenome da minha mãe. Meu pai mudou de sobrenome depois que eles se casaram. ― Respondi, dando de ombros e pegando o CD que ele estava segurando antes da mão dele. Abri a caixinha e coloquei o disco dentro do console.
― Era?
― Ela morreu quando eu era mais novo, no mesmo acidente que matou a minha irmã. Mas eu não me lembro direito dela. ― Deixei um suspiro passar pelos meus lábios. ― Eu já superei isso, mas vamos mudar de assunto e ir jogar de uma vez?
Percy não soube como reagir, totalmente mudo. Ele apenas comprimiu os lábios e assentiu, como se pedisse desculpas por ter tocado naquele assunto. Eu descansei a minha mão sobre a dele, e aproximei-me o suficiente para encostar meus lábios sobre a bochecha dele. Depois, fui até o seu ouvido e sussurrei:
― Não se preocupe, tá bom?
Ele fraquejou por um instante, mas acabou sorrindo. Pelo jeito, eu estava fazendo certo.
― Tá bom. ― Ele sussurrou de volta, e roubou os meus lábios para si por um segundo que pareceu durar uma eternidade. Eu fechei os olhos durante esse tempo, e desejei que não tivéssemos mais que fingir ser algo que nós não somos. Queria sair por aí para anunciar que estava junto a Percy Jackson. Queria sair de mãos dadas com ele por aí, sem me preocupar com o que pensariam de nós, mas eu não podia, justamente por causa do medo de não ser aceito que me corroia por dentro.
E eu também queria ter percebido os olhos negros e cercados por algumas rugas que nos observavam pela fresta da porta do meu quarto, e que se encheram de raiva logo depois.
Eu queria que meu pai não fosse homofóbico.
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