Snowy Days
12 Dia Ruim
Notas iniciais
P.O.V. – Percy
Aquele já não estava sendo um bom dia.
De manhã eu talvez um pouco alegrinho demais devido ao que tinha acontecido comigo e Nico, já que absolutamente não consegui fazer nada direito. Não demorou muito tempo até que aquele sorriso idiota saísse do meu rosto quando vi o relógio. Faltavam dez minutos para as nove da manhã, e eu recém estava levantando da cama. Eu tinha certeza absoluta de que chegaria atrasado.
Me levantei o mais rápido possível e fui me vestir, mas foi só aí que eu percebi que estava vestindo as calças enquanto ainda usava a minha bermuda de “Procurando Nemo”. Tive que tirar ela para colocar a calça, e depois peguei a primeira camiseta que eu vi no meu armário, possivelmente a mais amassada. Vesti os tênis sem me preocupar em amarrá-los, e peguei um pão para comer no caminho. Coloquei minha mochila nas minhas costas, e saí correndo pelas escadas. Fiquei nessa velocidade até alcançar o colégio.
Comi o pão do jeito mais desesperado possível, diferente daqueles animes em que as garotinhas saíam com uma fatia de pão torrado correndo por aí. Eu queria voltar à época da quinta serie, onde as coisas eram tão fáceis e faziam praticamente tudo para mim. Agora minha mãe não podia mais aparecer de manhã e fazer minha comida, me acordar, e muito menos escolher minhas roupas. O trabalho dela agora começa uma hora antes das minhas aulas, o que faz com que me ajudar se torne uma tarefa impossível, e que eu precise me virar sozinho. O que é de certa forma me chateou no começo, mas depois acabei me acostumando.
Foi uma questão de tempo até que eu chegasse ao meu destino, conferindo o horário no mesmo momento em que passei pela porta de vidro. Nove e quinze. Eu não estava tão atrasado assim, ainda existia a possibilidade de me deixarem entrar.
Andei pelo corredor vazio, ouvindo os sons que os meus tênis que estavam um tanto molhados devido à neve faziam no chão. Não vi nenhum tipo de supervisor, mas aquele silêncio todo (que era cortado apenas pelos guinchos dos meus calçados) me dizia “Senta essa sua bunda gorda e redonda naquela cadeira aí e espera pela porra do próximo período”, e assim eu fiz. Sentei-me em um banquinho que ficava consideravelmente perto da sala da matéria que eu tinha no segundo período, e fiquei observando os trabalhos da aula de artes de uma turma qualquer. Não tinha nada de interessante neles, mas era melhor do que ficar só encarando a parede.
Eu tinha me perdido em meio às formas deformadas e cheias de glitter, e era como se o mundo ao meu redor não existisse mais. Só percebi que tinha alguém sentado no mesmo banco que eu porque ouvi-o suspirar. Estranhamente, aquilo foi o suficiente para eu sair do meu “transe”.
Virei-me e pude ter a visão de um garoto que encarava exatamente o canto oposto do corredor, notavelmente entediado. Por mais que eu não pudesse ver o rosto dele, não tive dificuldade em reconhecê-lo. Ele era a única pessoa que eu conhecia que tinha aquele corte de cabelo, afinal de contas.
― Ah, oi Nico. ― Eu disse, sorrindo levemente. Era bom ver um amigo em um dia ruim como o que esse já estava sendo. Falar com ele me alegrava, apesar dele não ser a pessoa mais feliz do mundo.
Estranhamente, ele não me respondeu. Será que não tinha me ouvido? Dei um pulinho sobre o banco, aproximando-me mais dele.
― Nico? ― Repeti, sentindo o sorriso em meu rosto desfazer-se aos poucos. ― Aconteceu alguma coisa?
Ele virou ainda mais o rosto, impedindo que eu visse este. Pude vê-lo cruzar os braços e fechar suas mãos em punho, e apenas fiquei mais confuso.
― Não quero falar com você, Percy.
― O quê? ― Fiquei em choque, tentando não demonstrar o quão forte aquelas palavras me atingiram apesar de aquilo estar bem visível em minha voz. ― Cara, olha pra mim. Foi alguma coisa que eu fiz ou que eu disse ontem? Você sabe que eu não quis te magoar, seja o que f-
― Percy. ― Ele se levantou, ainda fazendo questão de não olhar para mim. Ele observou as pinturas cheias de purpurina por alguns instantes, e depois abaixou a cabeça. Observei-o, completamente pasmo, enquanto ele colocava o capuz de seu moletom. Realmente, eu não tinha entendido nada. ― Você sabe que o que nós fazemos é errado. A gente vai ter que se afastar.
― Mas Nico... ― Eu tentava falar alguma coisa, mas as palavras simplesmente não saíam. Depois de menos de 24 horas de relacionamento lá estava eu, levando um fora da única pessoa que eu já tinha sentido algo tão especial assim. Já tive um pequeno caso com a Annabeth quando eu era mais novo, mas nós acabamos decidindo que seria melhor se nós continuássemos só como amigos. Eu temia que se acontecesse uma coisa dessas entre eu e Nico, dificilmente chegaríamos a ser amigos novamente.
Ele começou a se afastar de mim, com as mãos nos bolsos enquanto se direcionava ao corredor que ficava ali perto. Eu engoli o choro que eu sentia vontade de soltar, e simplesmente abaixei o rosto.
― Só não se esqueça que eu te amo. ― Murmurei, sem esperar qualquer resposta da parte dele. Mas eis que fui surpreendido quando ele se virou um pouco, com uma única lágrima escorrendo pelo seu rosto machucado. Seus lábios trêmulos se contorceram em um sorriso forçado, e pude ouvi-lo dizer “Me desculpe” em um tom baixo.
Acho que aquela foi a despedida mais dolorosa da minha vida inteira.
[...]
Depois que a aula já tinha terminado (com Nico me evitando durante todos os intervalos) e o meu turno na cafeteria também, eu finalmente voltei para casa. Fiquei toda a manhã e tarde pensando sobre o que devia ter acontecido com Nico para que ele ficasse daquele jeito, me desligando do mundo ao meu redor com uma facilidade imensa. Alguns professores tiveram que falar meu nome para que eu prestasse atenção na aula, mas depois de alguns minutos eu acabava cansando e voltava a desenhar bonequinhos palito no meu caderno, pensativo. Eu cheguei a criar umas possibilidades meio idiotas na minha cabeça, mas não achei nenhuma que realmente parecia ter acontecido. Nem vou citar elas porque seria uma perda de tempo.
Mas agora lá estava eu sentado em frente ao meu notebook, encarando a pagina inicial do meu Facebook. Eu lia os nomes da lista de bate-papo com certa cautela, pensando no que eu faria agora. Eu pensei em falar com Annabeth já que ela também teve algumas complicações com o fato de ela estar namorando outra garota, mas como ela tinha suspeitado que tinha alguma coisa entre eu e Nico, não queria dar a ela esse gostinho de “Eu já sabia”. E além disso, ela não estava online.
Agora eu estava com três janelas (abas? Eu nunca soube qual é qual), e eu encarava todas elas, indeciso sobre quem eu poderia conversas a respeito disso. Eu estava entre falar com Jason Grace, Rachel E. Dare e Piper McLean.
Cada uma das minhas opções tinha seus prós e seus contras: Por mais que Jason fosse meu “bro”, eu realmente não sei como que ele reagiria se eu dissesse que tinha beijado outro garoto. Ele era um amigo realmente importante para mim, mas a ideia de falar para ele sobre a minha sexualidade não me soava muito bem. Entretanto, tinha Rachel. Ela sempre foi uma pessoa muito fácil de se abrir com, já que ela mesma era um livro aberto. Eu gostava de conversar com ela, mas ao mesmo tempo eu não achava nossa relação íntima o suficiente para eu falar sobre uma coisa dessas. E por último, tinha Piper. Nunca tomei meu tempo para ter uma conversa longa com ela, mas nas poucas vezes em que troquei algumas palavras ela sempre me respondia simpaticamente e às vezes fazia uma piadinha. Eu não sabia se ela realmente era confiável, mas a suposta experiência que ela tinha com desentendimentos amorosos realmente chamava a minha atenção. Era quase como se ela fosse o guru do romance.
Bati os dedos na minha mesa, suspirando. Depois disso, fechei todas as minhas abas de chat e fui procurar meu celular. A única pessoa que eu tinha certeza absoluta de que iria me entender era Annabeth, e por mais que minha teimosia praticamente estivesse gritando para que eu não falasse com ela, aquela era a minha melhor opção. Mas eu sabia que uma chamada telefônica não era uma coisa muito segura.
Fui aos contatos e rapidamente cliquei no número dela. Foi uma questão de segundos até que os bipes que significavam que estava chamando começassem a tocar em meus ouvidos até que ela me atendesse. Eu disse pra ela que estava tendo uns problemas e que precisava que ela viesse até minha casa para que pudéssemos conversar. Ela tentou conseguir algumas informações, mas apesar de eu dizer que preferia falar pessoalmente acabei dizendo que o problema era com uma certa pessoa. Ela me perguntou se era quem ela estava pensando, e soltou um risinho. Eu disse que talvez fosse, e que era pra ela vir logo. Depois disso, desliguei a chamada.
Bufei, e me atirei na cama. Eu apenas queria que ela chegasse logo.
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